As palavras pedra ou faca ou maçã, palavras concretas, são bem mais fortes, poeticamente, do que tristeza, melancolia ou saudade. Mas é impossível não expressar a subjetividade. Então, a obrigação do poeta é expressar a subjetividade mas não diretamente. Ele não tem que dizer eu estou triste. Ele tem é que encontrar uma imagem que dê idéia de tristeza ou do estado de espírito - seja ele qual for - por meio de palavras concretas e não simplesmente se confessando na base do eu estou triste.
João Cabral de Melo Neto
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Pré-publicaçõesPré-publicações
Literatura num Minuto

Não Fomos Nós Dois

[06-12-2011] |
Ficha técnica: TÍTULO Não fomos nós dois AUTOR Tiago Gonçalves DESIGN E COMPOSIÇÃO GRÁFICA Augusto Silva IMPRESSÃO ACB Print ACABAMENTO Candisacos, V.N. Gaia 2011, edium editores de A.S. Castelo Branco Rua de Santo António do Telheiro, 293 4465-249 S. MAMEDE DE INFESTA Tel: 220 147 087 – 220 962 746 e-mail: geral@ediumeditores.org Dept. Comercial Rua Miguel Bombarda, 456 – 1.º E 4050-378 PORTO Tel: 226 090 262 e-mail: comercial@ediumeditores.org www.ediumeditores.org ISBN: 978-989-701-073-6 DEPÓSITO LEGAL: 336407/11 Novembro, 2011     Pré-publicação:   “Capítulo 1   O vento parece diferente no cimo da ponte. Quanto mais baixo o meu olhar, mais tentador é o rio e o calor do seu abraço. Questiono-me se nele me irei aconchegar ou se per­maneço mais tempo acordado quando apenas o sono me der paz. Questiono-...  Ler Tudo >>

Lado oculto da marciana

[05-12-2011] |
Lado oculto da marciana de Isa Silva (Universus)   Ficha Técnica: Autora: Isa Silva. Título: Lado oculto da marciana. Editora: Universus.   Pré-publicação:   “Não te assustes   Não te assustes se eu me tornar brisa para te acariciar o rosto. Não te assustes se eu me tornar noite para te depositar os beijos prometidos. Não te assustes se eu virar balão para te puxar as vontades. Não te assustes se eu me tornar vinho para sentir os teus lábios. Não te assustes se eu virar lágrima para te limpar as raivas. Não te assustes se eu me tornar terra para receber a tua semente. Não te assustes se eu me tornar tinta para escreveres um poema. Não te assustes se eu virar folha perdida porque navego no teu vento. Não te assustes se eu me tornar no tempo para te decidir o futuro. Não te assustes se eu virar espera porque tens de me conhecer. Não te assustes se eu me tornar pedra para te sentares quando estás sem forças. Não te assustes se eu me tornar fome para que me aliment...  Ler Tudo >>

Raízes do Pecado

[28-11-2011] |
Raízes do Pecado de Maria de Fátima Gouveia   Ficha Técnica:   Título: Raízes do Pecado Autora: Maria de Fátima Gouveia Copyritht © Lua de Marfim – Editora Unip. Lda Capa de Miguel Pais (Lua de Marfim) ISBN: Impressão: Publidisa Depósito Legal: Reservados todos os direitos de acordo com a lei em vigor © Lua de Marfim, Lda. Outubro 2011 Lua de Marfim – Editora Unip. Lda, Escritório: Praça José António Veríssimo, 5 C. Com. 84 - Loja 7 - Quinta da Piedade 2625 - 162 Póvoa de Santa Iria Telefone: 00351 219 594 817 Email: geral@luademarfim.pt luademarfimeditora@gmail.com Site: http://luademarfim.pt/ Blogue: http://luademarfimeditora.blogspot.com/   Pré-Publicação :   Deus fez o ser humano à sua imagem. Criou o homem e a mulher, abençoou-os e disse: «Crescei e multiplicai-vos, enchei a Terra!». E, assim, muitas crianças foram proliferando no mundo como flores em campos de esterco. É comum dizer-se que as crianças são o que há de melhor no mundo. Então, quais as razões que leva...  Ler Tudo >>

Escrevendo no escuro

[07-11-2011] |
Título: Escrevendo no escuro Autor: Patrícia Melo Editora: Rocco ISBN: 978-85-325-2707-3 Código: 9788532527073 Formato: 13x20 cm Páginas: 192 Preço: R$ 27,00 Lançamento: outubro de 2011   Pré-publicação:   “De repente abro os olhos e já estou chorando, sem ao menos saber por quê. É assim que acordo. Sem os remédios, talvez eu me lembrasse dos sonhos. Desde que comecei a tomá-los, não se pode dizer sequer que ocorra uma suspensão da consciência, conforme está escrito nas bulas. É um sono oco, onde não há pesadelos com abismos ou labirintos, nem memória. Nada a ver com dormir ou sonhar. É como se me desligassem por algumas horas, arrancassem os fios que me conectam a este lugar e a esta cidade que odeio. Acordar é horrível. Tem sido mais difícil nos últimos dias, depois que ela decidiu me humilhar, expondo, sem piedade, minha fraqueza e incapacidade absolutas. Antes, ao menos, eu estava sozinha. Agora, sua simples presença traz à tona o meu lado podre. Dou voltas. Grito. Ros...  Ler Tudo >>

Dos Intervalos Das Horas

[17-10-2011] |
Publicação: Edita-Me Editora Título: Dos Intervalos Das Horas Autor: Ruth Ministro Número de páginas: 116 Edição: 2011-07 Tamanho: 140 x 200 mm   1. Ruth, podemos fazer esta entrevista sem "intervalos" ou essa é uma prerrogativa da qual não abdicas? Podemos. Há que aproveitar bem o tempo que temos na vida. "Intervalos", só para escrever.   2. Porquê "Dos Intervalos Das Horas"? Desde há alguns anos que a minha perspectiva do tempo e do fluir da vida mudou. Costumava pensar que tinha absoluto controlo sobre a minha vida, tinha muitas certezas, crenças absolutas, era seguríssima das minhas acções e julgava que eram elas que condicionavam o meu mundo. No entanto, aprendi que não é bem assim. Há muita coisa que não depende de nós, do nosso querer, das nossas acções, das nossas expectativas e certezas. A vida ensina-nos que pouco é aquilo que podemos controlar, a maior parte das vezes, é ela que decide por nós, apenas deixando nas nossas mãos a taref...  Ler Tudo >>

Governo Sombra

[30-09-2011] |
FICHA Autor: Casimiro Teixeira Obra: Governo Sombra Editora: Chiado Editora Colecção: Viagens na Ficção Data de edição: Lisboa, Agosto de 2011 “(...)Alguém parecia estar um passo à sua frente, e Marta já garatujava possíveis hipóteses que lhe servissem de explicação ao estranho mundo que se lhe abrira depois daquele acidente. – Ele não atende o telemóvel, porquê? – Já escrevera umas quantas, quando fez uma pausa, pensou, e voltou a escrever um pouco mais. Tinha essa forma peculiar e organizada de encarar os problemas, quase uma desordem obsessivo-compulsiva. Acumulava pilhas de notas em pequenas folhas de papel, guardanapos, post-it, e tudo o que pudesse agarrar no momento exato da sua compulsão. Em seguida, organizava-os em cima de uma mesa, no chão, tentando completar um puzzle, estudar um mapa que a conduzisse à resposta. – Ninguém atende na casa do meu irmão? – Finalmente, em passos curtos dirigiu-se à sucursal da Hard Abs, onde trabalhava de à sete anos a esta parte...  Ler Tudo >>

Ferdydurke

[22-09-2011] |
Ferdydurke de Witold Gombrowicz (7Nós)   Ficha Técnica: Título Original: Ferdydurke Autor: Witold Gombrowicz Tradução do polaco: Maja Marek e Júlio do Carmo Gomes Capa, design e paginaçăo: Maja Marek Editora: 7Nós Formato: 15,5 x 23,5 ISBN: 978-989-8306-05-0 PVP: 19 euros (IVA incluído) Nº de Páginas:112   Pré-Publicação:   “Como é que é o herói Ferdydurke? Interiormente é apenas fermento, caos, imaturidade. Para se manifestar exteriormente, e sobretudo face aos outros homens, é que ele tem necessidade da forma (…) mas esta forma limita-o, viola-o, deforma-o”. O herói é Jozio, que acaba de fazer trinta anos e é raptado pelo seu ex-professor para voltar ao liceu. Condenado a sentar-se nas carteiras de uma sala de aulas, rodeado de adolescentes e de um mestre antigo-regime, a sanidade do protagonista passa a enfrentar uma permanente ameaça, forçado pelo absurdo das circunstâncias. A sua resposta face ŕs pressőes deformantes da vida quotidiana, atreitas a fabr...  Ler Tudo >>

A minha viagem pela Europa

[20-07-2011] |
Autor: Charles ChaplinTítulo: A minha viagem pela EuropaEdiora: Matéria-Prima EdiçõesPáginas: 252 Formato: 13,5*21 ISBN: 978-989-8461-Preço: €15,00  “Decido fazer gazeta«Regressei a Los Angeles. Estava inquieto. Havia um telegrama a minha espera, de Londres. Chamava a atenção para o facto de o meu filme mais recente, O Garoto de Charlot, ir estrear em Londres e, por ter sido declarado o meu melhor filme, este era o momento de fazer a viagem de regresso a minha terra natal.Uma viagem que vinha prometendo a mim mesmo havia anos. Qual seria o aspecto da Europa depois da guerra?Pensei bastante sobre o assunto. Nunca estivera presente na primeira exibição dos meus filmes. As suas estreias, para mim, haviam sido nas salas de projecção de Los Angeles. Tinha estado a perder algo de vital e de estimulante. Eu tinha sucesso, mas este estava guardado, algures. Nunca abrira o pacote e nunca o saboreara. Acho que queria receber palmadinhas nas costas e apreciaria bastante se as palmadinhas viessem ...  Ler Tudo >>

A Casa das Auroras de Cristina Carvalho

[20-06-2011] |
Pré-publicação: “Parte do capítulo “Silêncios e Fraquezas” do livro “A Casa das Auroras” QUEM É A CÉUTA? A Céuta é a mãe do Raizito. Nunca ninguém soube como é que se escrevia o nome desta mulher por isso também nunca ninguém se importou de o dizer correctamente – se é que há uma forma correcta de o pronunciar. Em minha casa dizia-se Céuta mas sem muita certeza, era conforme a situação. Podia ser Celta, Déuta, Péula. No Natal chamava-se Céu. Apenas. Era mais apropriado. Eu sempre disse Céuta.Sempre ouvi dizer que esta mulher vivia ali ao pé de nós, no cimo das escadinhas que vão dar à igreja, num vão escuro e húmido duma antiga casa de família hoje desabitada, mas também nunca se soube exactamente onde. Havia gente que dizia que ela não era deste mundo dada a sua aparência física e os seus hábitos. Saía muito cedo para o campo e trabalhava de manhã à noite como os homens. Da janela do meu quarto eu via-a saltar os degraus das escadinhas a dois e dois com os pés descalços, enormes, pern...  Ler Tudo >>

O Tempo Que Já Não Viverei

[09-06-2011] |
“1A persiana sempre partida Nasci numa família pobre. Se tivesse de resumir em poucas palavras o que significa para mim ser pobre, diria que é como viver num corpo sem braços diante de uma mesa posta.Não conheço a pobreza que é frequente ver-‑se na televisão, a das pessoas que morrem à fome e não têm nada. Conheço a pobreza de quem possui qualquer coisa, de quem tem para comer e até possui um tecto, um televisor, um carro. A pobreza de quem pode fingir que não é pobre. É uma pobreza cheia de objectos, mas também de prazos-‑limite. Neste tipo de pobreza, a pessoa é feliz e infeliz, ao mesmo tempo: há quem esteja melhor e há quem esteja pior. Mas, não obstante, é vergonha, é culpa, é constante castração. E é também ansiedade, precariedade de tudo: é raiva reprimida, é baixar sempre a cabeça. Não és tão pobre que não tenhas nada para vestir, mas, muitas vezes, as roupas que vestes põem-‑te a nu e revelam o teu segredo. Basta um remendo para dizer quem és. É um pensamento...  Ler Tudo >>

Por Este Mundo acima (romance)

[23-05-2011] |
A obra é lançada hoje, dia 23 de Maio, às 18.30, na Livraria Leya na Barata, Av. Roma, Lisboa.“Depois eu regressava ao trabalho e ela ficava ali na poltrona de couro, a olhar pela janela, vendo a paisagem, os carros, as pessoas a fugir da chuva ocasional, táxis, um cão vadio, uma mãe a passear a criança, o par de namorados de mão dada, o homem do casaco a falar ao telemóvel, o polícia diminuído pela presença das outras forças de autoridade. Sofia via tudo pela janela e já não lhe restava esperança. Passara da meia-idade embora não o confessasse. Ninguém o diria. Tomava conta de si. Fizera pequenos retoques, malabarismos da estética. Todas as semanas espiava-se num espelho de um estúdio de Pilates ao Chiado e, depois, numa máquina, puxava molas e respirava pelas costas, alongando o corpo até a um limite em que a dor era ainda sup...  Ler Tudo >>

O Inverno das Raposas - Outras Crónicas de Londres

[27-04-2011] |
Pré-publicação: “Letters from the Poets Corner — 5Abril de 2010“Nas árvores despontam botões, flores brancas, uma fina penugem verde cobre-lhes os ramos, imperceptível. E gingam, sobre os perfumados botões, abelhas em busca de pólen, na luta sazonal da existência. A Primavera sucedeu a um longo Inverno. Um melro negro de bico amarelo, esvoaçante entre dois galhos favoritos, acostumou-me à sua presença. Esverdeiam os fields, esverdeia a vista da minha janela.Rapidamente, sem que dê por isso, deixarei de poder avistar o parque, terei esta barreira verde entre nós.  Amigos de Portugal visitam-me. Estar em contacto com eles, mesmo pisando outro solo, é estar de novo no meu país. Transportamos o mesmo país, a mesma cultura, diferenças individuais construídas no quadro de uma cultura. Mesmo as mães mais inteligentes que conhe&cc...  Ler Tudo >>

Título: A Cidade de Ulisses

[01-04-2011] |
Ficha Técnica:Título: A Cidade de UlissesAutor: Teolinda GersãoPublicado em Portugal por: Sextante Editora© Teolinda Gersão, 2011// © Porto Editora, 2011Design da capa: Atelier Henrique Cayatte com Susana CruzImagem da capa: © Henrique Cayatte1.a edição: Março de 2011Pré-publicação:“Em Volta de um Convite Foi apenas uma conversa prévia, sobre as linhas gerais, com a pergunta final se eu aceitaria. O convite formal virá depois, no caso de eu aceitar. Mas não assumi nenhum compromisso, fiquei de ponderar o assunto e responder dentro de alguns dias. Estávamos no gabinete do director do Centro de Arte Moderna. A secretária, que há uma semana me telefonara a marcar data e hora, tinha-nos trazido dois cafés numa bandeja, e eu podia ver através da janela os jardins da Gulbenkian. Conheço o meu interlocutor, porque já há al...  Ler Tudo >>

As Pirâmides de Napoleão

[03-03-2011] |
“Foi a sorte ao jogo que causou o problema, e alistar-me naquela invasão louca pareceu-me a única solução. Ganhei um berloque num jogo de cartas e quase perdi a vida, por isso aprendam a lição. Jogar a dinheiro é um vício. Também é sedutor, social e tão natural, diria, como respirar. A ascendência e o nascimento não são também um rolar dos dados, a Fortuna não faz de um bebé filho de camponês e do outro rei? Nos dias negros que se seguiram à Revolução Francesa, a parada era, simplesmente, mais alta: advogados ambiciosos gover­na­vam como ditadores temporários e o pobre do rei Luís fora deca­pitado. Durante o Reinado do Terror, o espectro da guilhotina fazia da simples existência um jogo de azar. Depois, com a morte de Robespierre, veio a loucura do alívio, os casais excitados dançando nos túmulos do Cemitério de S. Sulpice ao som de um passo alemão novo chamado valsa. Agora, quatro anos depois, a nação voltara à guerra, à corrupção e à procura de prazer. A monotonia foi subs­ti­tuída p...  Ler Tudo >>

Bombaim

[22-02-2011] |
“Apesar de ser madrugada, dentro do coração de Bhima estava escuro.Virando-se para o lado esquerdo sobre o fino colchão de algodão estendido no chão, senta-se abruptamente, como todas as manhãs. Ergue a mão ossuda acima da cabeça, boceja e espreguiça-se. Um odor forte a mofo sobe dos sovacos e assalta-lhe as narinas. Por um momento, senta-se, ociosa, na beira do colchão com os pés calejados no chão de terra, os joelhos dobrados, e apoia a cabeça nos braços cruzados. Naquele instante, sente-se quase em paz, o espírito em branco e grato, esvaziado dos problemas que a aguardam nesse dia, e no seguinte e no outro… Para prolongar aquele estado de graça despojada, estende distraidamente o braço para a lata de tabaco de mascar que guarda ao pé da cama. Enfia uma tira na boca, fazendo-a sobressair no rosto esquelético qual bola de críquete.O idílio de Bhima dura pouco. À luz esbatida e delicada do novo dia distingue a silhueta de Maya que se agita no colchão, ao fundo, do lado esquerdo da caba...  Ler Tudo >>

MEIN KAMPF - HISTÓRIA DE UM LIVRO

[15-02-2011] |
«Isto não acaba. Isto nunca acabará.»Günter Grass, A Passo de Caranguejo«Apelido: Hitler. Nome próprio: Adolf. Profissão: escritor.» Esta era a profissão que, nos formulários dos impostos dirigidos à administração fiscal alemã, o secretário-geral do partido nazi declarou exercer, desde 1925, e que a administração teve o cuidado de conservar, para a posteridade. Adolf Hitler, um escritor: uma associação de ideias que aparentemente é incongruente. Secretário-geral de um partido ultranacionalista e racista, defensor da violência e de ataques imprevistos, orador populista, pintor fracassado e sem diplomas, o futuro ditador não tem nada de um homem da Literatura.Mas depois de ter sido condenado por tentativa de golpe de estado em 1923 e depois de ser detido no forte de Landsberg, Hitler aproveitou esses poucos meses de prisão para redigir um texto que foi publicado com o título de Mein Kampf (O Meu Combate). Ao afirmar que era «escritor», Hitler uniu o seu destino à obra que acabara de escr...  Ler Tudo >>

"Os Pretos de Pousaflores" de Aida Gomes (Publicações Dom Quixote)

[09-02-2011] |
“No Heilongo a Ercília não pára de perguntar, alguma vez viste o mar?«É assim, o mar tem telhas de zinco azul transparente e paredes de nuvens. Os peixes têm camisas prateadas e casacos de lapelas douradas. Os lagartos jardineiros alisam a areia para que nas águas dancem flores de sal colorido.»(As histórias que ela me obriga a inventar.)«Viste onde, o mar?»«Vi no rio Sulo, onde é que havia de ser?»Ali o mar é mesmo grande. A água tem sabor a esponja ácida de frutos do mato que crescem nas margens. O corpo afunda-se em verde. Saltam fragrâncias de erva-sabão.A mãe Geraldina dizia que os brancos escrevem nos livros e nós, os de Quelingeli, escrevemos no peito. Deixa ver se me lembro.Faz muito tempo. Era muito cedo. Acerquei-me das margens do rio e afastei as plantas. Fiquei à espera de que os insectos de asas grandes notassem a minha presença.(Dá licença?) A respiração contida. Um suspiro. (Pode entrar.)Saltaram em torvelinho milhares de aranhas brancas num sapateado transparente. Uma n...  Ler Tudo >>

"O Livro que Voa" de Pierre Laury (Editora Educação Nacional)

[12-01-2011] |
Pré-publicação: “Há imensos livros nas bibliotecas, nas livrarias, nas casas e até nos quartos das crianças. Quando os abrimos, é como se abríssemos uma ampla janela. Não uma janela verdadeira, mas uma janela imaginária que nos faz sonhar.Esses livros estão abrigados, bem aconchegados. No entanto, neste livro conta-se a história de um livro azarado, um livrinho que caiu de uma pasta, o livrinho da Mariana. Está um dia de chuva. O vento, travesso, empurra o livrinho que sai da pasta da Mariana, e cai numa poça de água!Na capa está desenhado um sol. Dentro de água, o sol brilha como ouro. Do alto da sua árvore, uma pega avista essa luz dourada. Sabem que as pegas são ladras? Elas gostam de tudo o que brilha... Num súbito bater de asas, a pega mergulha em direção ao livro, agarra-o com o bico e leva-o.Singelas gotas de água caem do livrinho, como se ele chorasse.”Ficha Técnica:Título: O Livro que VoaEditora: Editora Educação NacionalTítulo original: Le Livre qui VoleAutoria: Pierre LauryI...  Ler Tudo >>

"E Depois do Amor" de Ray Kluun (Presença)

[23-12-2010] |
“Aqui são oito da manhã. Ponho-me na fi la de espera. Somos osúltimos a sair do avião. Temos todos os outros passageiros à nossafrente. A Luna ainda está meio a dormir, com a cabeça no meu ombro.Quando a passo cuidadosamente do braço esquerdo para o direito,chega-me ao nariz o cheiro forte a transpiração do meu sovaco.Depois de uma boa meia hora à espera chega a nossa vez.A técnica de interrogatório do funcionário australiano não destoariana Alemanha de há algumas décadas.Passaporte.— Vou ter que te pôr no chão um instante, querida. — Sentoa minha fi lha no carrinho da bagagem, tiro para fora o meu passaportee entrego-o ao funcionário. Ele começa a folheá-lo com umar enfastiado.É óbvio que isto está para durar. Ponho-me à procura de umchupa-chupa para a Luna na minha bagagem de mão.— Estás cansada?Ela diz que sim.— Podes voltar a dormir depois, na autocaravana.O funcionário observa a minha fotografi a, e depois fi ta-me comum olhar carrancudo. Começo de imediato a sentir-me culpado. El...  Ler Tudo >>

"Um refúgio para a vida" de Nicholas Sparks (Presença)

[06-12-2010] |
“Katie ia abrindo caminho por entre as mesas, a sentir a brisa vinda do Atlântico a ondular-lhe o cabelo. Carregada com três pra­tos na mão esquerda e um quarto na direita, usava calças de ganga e uma T-shirt com os seguintes dizeres: «Ivan’s. Só pelo Linguado, o Nosso Peixe Merece Ser Provado.» Colocou os pratos diante de quatro indivíduos vestidos com camisolas pólo; o que estava mais próximo olhou para Katie e sorriu-lhe. Apesar de ele fingir que estava apenas a ser sim­pático, ela pressentiu-lhe o olhar cravado nas suas costas à medida que se afastava. Melody mencionara-lhe que os indivíduos tinham vindo de Wilmington e que andavam à pro­cura de locais de filmagens.Depois de ir buscar o jarro de chá adoçado, tornou a encher-lhes os copos e regressou ao balcão dos empregados de mesa. Varreu a sala com um olhar rápido. Estavam em finais de Abril, a tempe­ratura rondava valores próximos dos ideais e o céu azul estendia-se a per­der de vista. Atrás dela, a Intracoastal estava calma ape...  Ler Tudo >>

"De Uma Só Sorte" de Tiago Gonçalves (Edita-me)

[30-11-2010] |
“Os dois filhos dormiam no mesmo quarto, calmos, fraternos, sossegados, verdadeiros compinchas, partilhavam, suportavam-se. Não tinham inveja, sabiam ter pouco e sabiam não serem capazes de mais. Viviam remediados, tinham o que precisavam, sem nunca pedir, Manuela era prendada e tinha muito brio em todos os seus rebentos. Limpos, arranjados, atinados. Assim o pareciam. O terceiro dormia com os pais, causava insónias ao paterno. Temerário e austero, uma cara de bebé, um rosto de juiz, do outro mundo, dizia o pai, um fascínio, dizia a mãe. Calmo e calado, concentrado e atento. Um enorme adulto, um semi-deus num pequeno petiz, careca, belo, perfeito. Poderoso e firme, sem pestanejo.Um olhar atento sobre o mesmo revelava todo um mundo esquecido e desprezado, apenas por uma idealização de algo que assim não é. Algo em que todos acreditam, que dizem ver sem olhar, algo acima de qualquer comum mortal, transcend...  Ler Tudo >>

"O Deserto de Gelo " de Maite Carranza (Editorial Presença)

[17-11-2010] |
“1 A noite do Imbolc Anaíd dormia descuidadamente, com os braços estendidos e o semblante plácido, sem se importar com a luz que entrava pelas portadas da janela.À sua volta, no quarto de tectos altíssimos e paredes caiadas mil e uma vezes, respirava-se a atmosfera que precede as migrações sazonais. Roupa empilhada, livros espalhados, sapatos em fila, tudo pronto para ser transferido para a enorme mala que, ainda vazia, aguardava a sua vez aos pés da cama.Selene, com o cabelo revolto e uma caneca de café fumegante na mão, entrou furtivamente, seguida de uma figura resguardada nu­ma peliça de lã. Com olhos marotos, inclinou-se sobre Anaíd e soprou-lhe ao de leve no ouvido.—    Bom-dia.Anaíd, a sonhar, deu uma palmada na própria orelha e Selene sorriu. Era o seu jogo de sempre.Tornou a soprar suavemente no lóbulo, o que fez com que a fil...  Ler Tudo >>

"A Queda dos Gigantes" de Ken Follett (Presença)

[18-10-2010] |
“…Uma porta conduzia ao patamar da escada, a outra ao quarto da frente, ao qual só se tinha acesso através deste. Era mais amplo e tinha espaço para duas camas. Era lá que os pais dormiam, e o mesmo se aplicara às irmãs de Billy, anos atrás. A mais velha, Ethel, saíra entre­tanto de casa, e as outras três tinham morrido, uma de sarampo, outra de tosse convulsa e a última de difteria. Houvera ainda um irmão mais velho, que dividira a cama com Billy antes da vinda do avô lá para casa. Wesley de seu nome, morrera no fundo da mina, atropelado por uma vagoneta desembestada que transportava carvão. Billy vestiu a camisa. Era a mesma que levara para a escola na véspera. Hoje era quinta-feira, e ele só mudava de camisa ao domingo. Não obstante, tinha um par de calças a estrear, as suas primeiras calças compridas, feitas com um algodão grosso e impermeável chamado fustão. Constituíam um símbolo da entrada no mundo dos homens, e vestiu-as cheio de orgulho, deliciado com o pesado toque masculino ...  Ler Tudo >>

"Grácia Nasi – a judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino" de Esther Mucznik (Esfera dos Livros)

[06-10-2010] |
Pré-publicação: “Foi na economia que o contributo judaico foi mais importante, graças ao conhecimento da realidade europeia, à rede de contactos familiares e comunitários que os judeus aí detinham e às línguas que dominavam. Eram muito activos no comércio, nomeadamente nos tecidos, onde serviam de intermediários entre os mercadores europeus e orientais, tendo sido igualmente pioneiros na indústria têxtil otomana. O seu poder financeiro permitiu‑lhes a entrada na administração fiscal, nomeadamente alfandegária. Bernard Lewis conta que a presença judaica nas alfândegas era tão importante que os arquivos de Veneza conservam até hoje numerosos documentos escritos em caracteres hebraicos, na sua maioria recibos passados a mercadores venezianos que negociavam com o Levante.Muitos sefarditas ocuparam também as funções de «homens de negócios» de altos funcionários otomanos, gerindo as suas finanças quando aqueles eram nomeados governadores provinciais. Segundo alguns testemunhos, os refu...  Ler Tudo >>

"O Bom Inverno" de João Tordo (Dom Quixote)

[01-10-2010] |
Publicação do capítulo XX: “XX As flores sobre a campa de McGill murcharam ao fim de alguns dias e, na ausência de Susanna, ninguém mais se deu ao trabalho de as mudar. O corpo foi entregue à terra, aos bichos que se ocupavam da podridão do mundo, e rapidamente a existência do inglês pareceu ser esquecida. Havia, por um lado, uma nova esperança entre nós e, por outro, uma sensação de angústia presente em cada silêncio, em cada sopro de vento, em cada agitar das águas plácidas, uma angústia que nascia do indizível: era impossível voltar atrás. Houvesse ou não um assassino entre nós, a possibilidade de redenção ficara afastada a partir do momento em que permitíramos que o corpo de Don Metzger fosse enviado aos céus no balão de Bosco, perdendo-se, se assim os ventos quisessem, nas profundezas do Mediterrâneo – a partir do momento em que, ao nada fazermos, pactuámos com aquele macabro funeral. E, no entanto, havia esperança – a esperança dos desesperados, a esperança sem redenção; a espera...  Ler Tudo >>

"Murmúrios da Morte" de Simon Beckett (Editorial Presença)

[07-09-2010] |
"Pele.O maior órgão humano é também o mais esquecido. Represen­tando um oitavo de toda a massa corporal, num adulto médio cobre uma área de aproximadamente dois metros quadrados. Estruturalmente, a pele é uma obra de arte, um ninho de capilares, glândulas e nervos que regu­­lariza e protege. É a nossa ligação sensorial com o mundo exterior, a barreira na qual a nossa individualidade — o nosso eu — termina.E até na morte se mantém parte dessa individualidade.Quando o corpo morre, as enzimas que a vida controlou investem furio­­samente. Devoram paredes celulares, causando a fuga do con­teúdo líquido. O fluido vem à superfície, acumulando-se sob as camadas dér­micas, e faz com que elas se soltem. Pele e corpo, até agora duas partes inte­­­grantes do todo, começam a separar-se. Formam-se bolhas. Tiras inteiras começam a descair, desprendendo-se do corpo como um casaco inde­sejado num dia de Verão.Mas, mesmo morta e descartada, a pele retém vestígios da sua anterior existência. Ainda p...  Ler Tudo >>

"Forrageiras de Jade" de Kátia Bandeira de Mello-Gerlach ( Projecto Dulcinéia Catadora)

[01-09-2010] |
“Antes que o avião mergulhasse como gaivota faminta sobre a pista de asfalto, fragmentos da cidade se comprimiam na moldura da janela ovalada, de vidro duplo.  O vento azul acariciava a Baía da Guanabara, as embarcações pontilhavam o corpo expansivo d’água.  Um mar de cabeça para baixo, aquele céu, onde resplandeceria o Cruzeiro, derramado sobre os casebres de tijolo, a muralha erguida ao redor da Igreja da Penha.  Alva roupa no varal, a igreja era como flâmula da paz, solta sobre um dos bustos da nossa senhora.  A surdez imediata na cabine inibia os estrondos de granada, as metralhadoras explosivas, os fogos de artifício, o último grito da prece assassinada na escadaria.  O inferno brilhava, os soldados do asfalto festejavam e o panorama se quebrava em pedaços dentro e fora dos barracos.  A guerra, os mandamentos rompidos refletiam nas águas turvas pelo óleo mesclado de sangue escorrendo, para ferver com o calor do verão, com o calor dos corpos, com o calor do fim do mundo.” Ficha Téc...  Ler Tudo >>

" A Casa dos Sete Pecados" de Mari Pau Dominguez (Editorial Presença)

[01-09-2010] |
“A morte, num instante e num lugar qualquer Madrid, Rua das Infantas, número 31, finais de 1882 Diante da morte, a vida assume contornos de estranheza. Mas a morte não tem quaisquer direitos e não tem outro remédio senão suportar o olhar insolente da vida.Ser contemplada. É tudo o que a morte permite, já que não pode ser vivida.E era isso o que faziam, contemplá-la, aqueles que rodeavam a macabra descoberta naquela manhã fria em Madrid, cidade que ainda estava a acabar de acordar de um longo sonho. Ou talvez de um pesadelo. Faltava pouco para o breve descanso do almoço. O grupo cavava a toque de caixa. Os sete operários que o constituíam não dis­punham de tempo suficiente para que fosse possível inaugurar a nova sede do Banco de Castilla no início do ano, mas tinham que fazer o melhor que podiam. Aquelas obras visavam ampliar uma ala da Casa das Sete ...  Ler Tudo >>

"Ex Machina" de Robert Finn (Publicações Europa-América)

[17-08-2010] |
“Na realidade, eu nunca estive na cadeia, por isso isto é apenas uma suposição, mas aposto que uma pessoa, quando sai da prisão, não pensa, Já sei, vou escrever as minhas memórias da prisão enquanto elas ainda estão bem frescas. Eu acho que a primeira coisa que se faz é tentar esquecer tudo (procurar na agenda BEBIDAS, PROSTITUTAS, REMOÇÃO DE TATUAGENS, DISNEYLÂNDIA).Tal como já disse, eu nunca estive na cadeia mas, mesmo assim, estas são as minhas memórias da prisão e, embora seja a última coisa que me apetece fazer, estou a escrevê-las agora, antes que as esqueça.Para o caso de estarem interessados, o que isto me ensinou é que uma pessoa pode realmente mudar, mas sem dúvida que tem que pagar um preço. Começar de novo significa que perdemos o contacto com o quem éramos.Começamos a sentir que as nossas ...  Ler Tudo >>

"Beatriz e Vergílio" de Yann Martel (Presença)

[10-08-2010] |
“Para se manter ocupado, envolveu-se num último projecto, um projecto que preenchia mais horas do seu dia, de uma maneira con­vencionalmente mais séria do que qualquer outro: o seu traba­lho num café. Mais exactamente, numa chocolataria, que foi, aliás, o que começou por lhe chamar a atenção. Também serviam café, de boa qualidade, mas The Chocolate Road era sobretudo uma coope­rativa de produtores de cacau com base no comércio justo, que pro­duzia e vendia chocolate em todas as suas formas, do branco ao negro, passando pelo chocolate de leite, em vários graus de pureza e com um vasto leque de sabores, em tabletes, caixas e pó para chocolate quente, para além de cacau em pó e em lascas para culi­nária. Os seus produtos de marca provinham de cooperativas agrícolas na República Dominicana, no Peru, no Paraguai, na Costa Rica e no Panamá, e...  Ler Tudo >>

"O Coração é um Caçador Solitário" de Carson McCullers (Presença)

[04-08-2010] |
O mês de Agosto não é, naturalmente, um mês vocacionado para lançamentos de novas obras e, portanto, para pré-publicações. Trata-se do mês da grande pausa e do sabor a mar. De qualquer modo, para dar corpo a esta rubrica, seguimos uma das muitas pistas editoriais deste Verão. De entre os vários anúncios que nos chegaram, destaque para a oferta da Presença (“Campanhas Especiais”).  Nesse âmbito, seleccionamos e sugerimos, para esta semana, O Coração é um Caçador Solitário de Carson McCullers. Passamos a publicar a respectiva sinopse:  “No Sul profundo dos Estados Unidos, em plena década da Grande Depressão, num cenário desolado, de pobreza, intolerância e isolamento, John Singer, um mudo, torna-se de súbito confidente de um grupo de personagens desenquadradas da sociedade. Todos procuram à sua maneira preencher o vazio deixado pelos sonhos perdidos - e todos, por algum motivo, acham que Singer os compreende. Mas Singer, impassível na sua mudez, não tenta alcançar nada senão a atenção de...  Ler Tudo >>

"Renascer" de Susan Sontag (Quetzal)

[28-07-2010] |
“19/08/48 O que em tempos pareceu ser um peso esmagador, mudou bruscamente de posição, numa táctica surpreendente, atirada sob os meus pés em fuga, tornando-se uma força de sucção que me arroja e me cansa. Como desejo render-me! Tão fácil seria convencer-me a mim própria da verosimilhança da vida dos meus pais! Se eu apenas os visse a eles e aos seus amigos durante um ano, submetia-me — rendia-me? Será que a minha «inteligência» necessita de rejuvenescimento frequente na fonte do descontentamento dos outros e morre sem ele? Se eu conseguisse cumprir esta promessa! Porque me sinto a deslizar, a hesitar — por vezes, até a aceitar a possibilidade de ficar numa universidade perto de casa. Só consigo pensar na mãe, como ela é bonita, como a pele dela é macia, como ela me ama. Na maneira como ela estremeceu quando chorou na outra noite — não queria que o pai, na sala ao lado, a ouvisse, e o ruído de cada vaga de lágrimas sufocadas era como um enorme soluço — que cobardes são as pessoas que s...  Ler Tudo >>

"Viver o Sonho" de Josephine Cox (Publicações Europa-América)

[07-07-2010] |
“Invadido por um profundo arrependimento, ele encostou-se à parede traseira da casa. A sua figura alta e forte confundia-se com as sombras; tinha o coração apertado, e contemplou a casa com os olhos escuros e pensativos. Era uma casa tão bonita… tão quente e convidativa. Como ela costumava ser.Os seus pensamentos voltaram-se para a mulher que se encontrava lá dentro. Era ainda muito bela e, por vezes, quando estava receosa, colocava a sua mão quente na dele. Porém, isso era tudo. Raramente existia qualquer género de paixão nesse gesto. Raramente um sorriso ou uma expressão acolhedora afloravam ao seu olhar.Ela nem o amava nem o desejava. Não era culpa dela e ele sabia disso. Ainda a amava, mas deixara de a conhecer, pelo menos da maneira como costumava ser.Sentiu remorso intenso, estranho, pois o arrependimento mesclava-se com uma sensação de alívio, como se já não precisasse de provar nada. Não era preciso. Não havia ninguém de quem cuidar.Ele amara aquela casa maravilhosa desde o pri...  Ler Tudo >>

"quantas madrugadas tem a noite" de Ondjaki (Brasil: LEYA)

[30-06-2010] |
Pré-publicação para o Brasil de parte do primeiro capítulo: “Sabes o que é não sentir o coração e sentir o coração, tud’uma batida só, sangue leve no peito e lágrimas limpas a escorrer? Faz conta foste na pesca, rede e tudo, e em vez do peixe grande meteste a rede na água e te veio uma nuvem? Se é impossível? Eu sei lá, avilo, eu sei lá... Desde candengue que ando então a ver as nuvens dançar nas peles do mar, e me pergunto: assim calminho, liso tipo carapinha com desfrise, o mar não tem as nuvens dele também? De onde eu venho é muito longe, por isso, juro mesmo, nasci de novo. Vou te confessar: espanto é só aquilo que ainda nunca tínhamos vivido com a nossa pele!Avilo, desculpa tanta filosofia, o que tenho é sede mesmo. Num tenho dinheiro, num vale a pena te baldar. Mas, epá, vamos só desequilibrar umas birras; sentas aí, nas calmas, eu te pago em estória, isso mesmo, uma pura estória daquelas com peso de antigamente, nada de invencionices de baixa categoria, estorietas, coisas dos ar...  Ler Tudo >>

As Filhas do Assassino de Randy Susan Meyers (Editorial Bizâncio)

[23-06-2010] |
Pré-publicação: “NÃO FIQUEI SURPREENDIDA quando a mamã me pediu para lhe salvar a vida. Desde a minha primeira semana no infantário, tinha percebido que ela não era o género de mãe que usa colares de macarrão. Basicamente, a mamã considerava-me como uma criada prestável em miniatura.Vai buscar-me uma Pepsi, Lulu.Traz-me o leite para os cereais da tua irmã.Vai à loja comprar-me um maço de Winston.Até que um dia subiu a parada:Não deixes o pai entrar em casa.No mês de Julho em que a nossa família se desintegrou, a minha irmã estava a caminho dos 6 anos e eu estava prestes a fazer 10, o que, aos olhos da minha mãe, eram cerca de 50. O papá não ajudava grande coisa, mesmo antes de se ir embora. Tinha os seus problemas. O meu pai queria coisas que não podia ter e, acima de tudo, desejava ardentemente a minha mãe. Talvez o facto de ter crescido à sombra de Coney Island, o mundo de fantasia de Brooklyn, explicasse a fraqueza dele pela fachada pinup da mamã, mas eu nunca compreendi como era po...  Ler Tudo >>

Tanta Gente em Mim de Vítor Serpa (Dom Quixote)

[04-06-2010] |
“A sala é branca, quadrada, sem janelas.Cheira a mofo,diria a minha avó.Uma mesa romba, um retrato, na parede, sem imponência, ligeiramente torto, a pose presidencial,não inspiradorae o suor na testa enrugada do juiz, as togas empoeiradas, o dr. Xavier com olhos de Inês, como se fosse Inês, interrogativa, pálida,– Quando soube, o senhor Pedro Duarte, que o seu pai tinha sido assassinadopelo pai de Madame Constança e Sousa?Era a voz quase feminina do dr. Gustavo Lobo, numa interrogação forçada e sumida. Todos os olhos da sala, incluindo os do homem do retrato na parede, incluindo os do dr. Xavier, ou seja, da Inês, a cercarem-me, não me dando espaço, nem tempo para perceber o que me estava a ser perguntado,ou afirmado?Parecia-me que devia ser eu a falar,falar o quê?Como se responde a uma questão patética, como esta? Como se tomam as rédeas de um pesadelo? como se evita o absurdo?– AbsurdoFoi isso que eu disse. Ou, mais do que isso,– Que absurdo!Achei que era a resposta certa. Menos seri...  Ler Tudo >>

Peregrinação de Enmanuel Jhesus de

[14-05-2010] |
“Matarufa” “Às 9 horas da manhã de sábado, 4 de Setembro de 1999, no Hotel Ma’hkota, em Díli, Ian Martin, chefe da missão internacional, anunciou os resultados da consulta popular em Timor‑Leste: 21,5 por cento tinham votado a favor da autonomia, 78,5 por cento votaram contra. O anúncio foi feito em simultâneo com a sede das Nações Unidas em Nova Iorque. O resultado era inequívoco, pois «a Comissão pôde concluir que a consulta popular foi isenta, do ponto de vista processual e conforme com os Acordos de Nova Iorque, constituindo, consequentemente, um reflexo  exacto da vontade do povo de Timor‑Leste, sem distorções ou constrangimentos de outra ordem.No meio de um regozijo indescritível, reparei num homem que acenava à porta do salão do Ma’hkota. Fazia‑me sinal para ir ter com ele. Cumprimentou‑me com d...  Ler Tudo >>

Os Laços Que nos Unem de Linda Gillard (Europa-América)

[07-05-2010] |
“Capítulo Um Uma mulher sozinha numa sala branca e luminosa. Um forno incandescente, uma gasta mesa de pinho. Não se vêem espelhos, relógios nem fotografias. Uma caixa de costura está aberta no soalho de madeira. Num peitoril, uma natureza-morta: destroços arrastados pela maré, conchas e o crânio de uma ovelha. A mulher — nem velha nem nova — pousa a caneta e mexe-se na cadeira. O rangido da madeira quebra o silêncio. Ela dobra cuidadosamente folhas de papel e as suas mãos ligeiramente trémulas guardam-nas num envelope. GrenitoteNorte de UistIlhas ocidentais 11 de Janeiro de 2000 Minha querida Megan, Os dias são muito curtos e escuros e o vento é quase constante. A minha casa nova (a minha casa de bonecas!) é pequena mas gosto dela assim. (Para começar, há pouco para limpar.) Tenho uma sala de estar e um escritório no rés-...  Ler Tudo >>

O Oito de Katherine Neville (Porto Editora)

[23-04-2010] |
“Nova IorqueDezembro de 1972Eu estava metida em sarilhos, em grandes sarilhos.Tudo começou na véspera de Ano Novo, no último dia de 1972. Tinha um encontro com uma vidente, mas tal como aquele indivíduo do encontro em Samarra, eu tinha tentado escapar ao meu próprio destino, evitando -o. Não queria ninguém a ler-me o futuro nas mãos, já tinha problemas que chegassem no presente. Na véspera de Ano Novo de 1972, a minha vida estava virada do avesso e eu tinha apenas vinte e três anos. Em vez de fugir para Samarra, tinha fugido para o centro de dados, no topo do edifício da Pan Am, no centro de Manhattan. Era bem mais perto que Samarra e, às 22 horas da véspera de Ano Novo, era tão isolado e longínquo como qualquer cume de uma montanha.Senti-me como se estivesse no topo de uma montanha. A neve rodopiava em volta das janelas que davam para Park Avenue, os grandes e grac...  Ler Tudo >>

O ecrã global de Gilles LIPOVETSKY (Edições 70)

[30-03-2010] |
 “Nascido na idade moderna, com uma técnica moderna e uma finalidade moderna (registar o movimento pela imagem e dá -lo a ver a um público), o cinema é uma arte congenitamente moderna.A este respeito, a sua «situação» é excepcional na história das artes. Por um lado, é, com a fotografia, a única arte nova surgida em 25 séculos. Por outro, ao contrário das outras artes, ancoradas desde sempre num passado milenar, o cinema surge de uma invenção técnica sem antecedentes, desenvolvendo -se em poucos anos. Béla Balasz sublinha -o: «O cinema é a única arte de que se conhece o dia do seu nascimento. É um acontecimento único na história das civilizações». Eis, de repente, uma arte moderna, virgem tanto no plano estético como técnico: uma arte cujo nascimento é sui generis, criada absolutamente a partir de quase nada e a uma velocidade fulgurante.É também, como sugeriu Philippe Muray, a única arte que não teve de se emancipar da religião. As artes, todas as artes, tiveram necessidade, ao longo ...  Ler Tudo >>

Toda uma Vida de Henrique Monteiro (Publicações Dom Quixote)

[26-03-2010] |
“Agora perco a vista na linha do horizonte, lá longe, num traço azul carregado, que separa o mar do céu. Olho insistentementepara o Sul, para o oceano, como se de lá viesse algum bem, ou qualquer boa surpresa.Há muito mais de oitenta anos, quando vi o mar pela primeira vez, ele estava a Norte e nestas quase nove décadas de vida serpenteei até me confundir, até ver o mesmo oceano em dois pontos cardiais opostos, perdendo rastos da minha vida aqui e ali, levada por não sei que destino ou fado, nem por que vento ou estrada. Nem sempre me lembro do passado, mas ultimamente ele surge-me dentro da cabeça como se tivesse estado, todos estes anos, emboscado à espera da fragilidade do meu corpo de velha, tentando cobrar lembranças terríveis de tempos tão longínquos para mim quanto próximos na história.Anos a fio, só muito raramente me vinham à cabeça essas recordações e, então, impunha-me um enorme esforço para não chorar de forma convulsiva, mordendo os lábios, as mãos, os braços, os livros qu...  Ler Tudo >>

O Romance Ilegal do Sr. Rodolfo de António Eça de Queiroz (Guerra e Paz)

[16-03-2010] |
“Ora até que enfim – silvou baixinho Damião S. Sampaio, ajeitando melhor os fundilhos à cadeira de trabalho. Tremendo de excitação, e com uma parcela receosa do seu ser tentando disputar em vão as atenções perante toda aquela satisfação já quase instalada, o ainda jovem procurador-adjunto do Ministério Público releu o despacho onde o encarregavam de acompanhar em solo português o processo dum presumível traficante internacional detido recentemente na Portela.Era o seu primeiro grande caso como investigador a soldo do Estado. Metia a Europol, o Eurojust, a Interpol – coisa grande! Tudo indicava ser um trabalho vistoso e, ao que parecia, desprovido de grandes complicações – o que lhe agradava em especial dada a sua inexperiência concreta em grandes enredos.De facto, desde que começara a trabalhar no velho prédio que albergava o Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) da capital, na Avenida Casal Ribeiro, nada de verdadeiramente empolgante lhe tinha passado pelas mãos. Nunca for...  Ler Tudo >>

Intervenção de Robin Cook (Publicações Europa-América)

[05-02-2010] |
“O sono inquieto de Jack Stapleton transformou-se instantaneamente num pleno despertar. Ele estava num carro em fuga e descia uma rua íngreme da cidade, aproximando-se rapidamente de um grupo de miúdos de um infantário que atravessavam a rua aos pares de mãos dadas, alheios à desgraça iminente. Jack pisava a fundo o pedal do travão do veículo mas sem êxito. Na verdade, o carro acelerava. Ele gritou para que as crianças saíssem do caminho mas calou-se quando se apercebeu de que estava a olhar para o tecto salpicado de luz que entrava pela janela do quarto de sua casa em West 106th Street, em Nova Iorque. Não havia um carro, uma descida íngreme nem crianças. Era mais um pesadelo.Sem saber ao certo se gritara ou não, Jack voltou-se para a sua mulher Laurie. À meia-luz da janela sem cortinas, reparou que ela estava ferrada no sono, o que levava a crer que ele reprimira o seu grito de horror. Quando olhou novamente para o tecto, Jack estremeceu ao pensar no seu sonho, um pesadelo recorrente...  Ler Tudo >>

Antes de Ser Feliz de Patrícia Reis (Dom Quixote)

[26-01-2010] |
“Vim aqui para morrer. Cheguei hoje. A Figueira da Foz surgiu -me sem rasto de fim de mar, abismo de antigos pescadores e outras almas de fortuna e fé. É um décor, tinhas dito a rir, um dia num pequeno restaurante, a depenicar peixinhos da horta, os dentes brancos numa aparição quase obscena. Pareceu -me, então. Nada do que aqui se passa é real. A terra que não existe. Os tempos dos espanhóis em férias, os que fugiam da guerra, as famílias importantes, os passeios a Tavarede e todas as outras. Nada disso existe realmente. Percorrer a marginal no deslumbramento marítimo até Buarcos. O que é que tudo isto interessa? E quando é que deixou de interessar? Saberás dizer com exactidão, por seres esse tipo de criatura, a pessoa das datas, aniversários, horas certas para tudo. Timetable. Most important. Sim. Terás razão, o tempo sempre desaf...  Ler Tudo >>

Nocturnos de Tom Waits (Assírio & Alvim)

[30-12-2009] |
 “«Thomas Alan Waits nasceu a 7 de Dezembro de 1949, em Ponoma, pequena cidade na Califórnia do Sul. De ascendência escocesa, irlandesa e norueguesa, os pais, professores, eram admiradores de Gershwin, Cole Porter, Sinatra e Louis Armstrong e fervorosos leitores de boas histórias. Na adolescência ouvia os acordes de Bob Dylan na rádio e aprendeu a tocar piano e guitarra. Waits descobre e aventura-se pelas obras de Jack Kerouac, Gregory Corso, Allen Ginsberg e outros cronistas da Geração Beat, com os quais se identifica muito e que constituíram as suas referências literárias. Através de Herb Cohen entra no mundo da música e edita o seu primeiro álbum, Closing Time (1972), e o segundo, The Heart of Saturday Night, desde logo muito bem recebidos pela crítica, pelos seus originais jogos linguísticos, sons de swing e de jazz. As suas canções ilustram os sonhos...  Ler Tudo >>

Caminhos de Glória de Jeffrey Archer (Europa-América)

[04-12-2009] |
“— Da última vez que fiz escalada em bloco com os meus pitons, caí — disse Conrad.Jochen teve vontade de aplaudir mas sabia que, se reagisse à mensagem em código, poderia alertar um grupo rival que estivesse sintonizado na sua frequência; ou, pior ainda, permitir que um jornalista que estivesse à escuta se apercebesse de que eles tinham encontrado um corpo. Ele deixou o rádio ligado, na esperança de receber uma pista que revelasse qual das duas vítimas tinha sido encontrada pelo grupo de buscas, mas não foi proferida mais nenhuma palavra. Apenas o som da estática confirmava que havia alguém do outro lado, mas que não estava disposto a falar.Jochen seguiu as instruções à letra, e ao fim de sessenta segundos de silêncio, desligou o rádio. Desejou ter sido seleccionado para integrar o grupo de alpinistas que tinha ido à procura dos dois corpos, mas tinham tirado à sorte, e calhara-lhe a ele não ir. Alguém tinha de ficar no campo base para trabalhar com o rádio. Ele olhou para o exterior d...  Ler Tudo >>

Diário de Luto - Roland Barthes (Edições 70)

[27-11-2009] |
Sobre o livro: No dia seguinte ao da morte da sua mãe, a 25 de Outubro de 1977, Roland Barthes começa um «Diário de Luto». Escreve a tinta, e por vezes a lápis, em fichas que ele próprio prepara a partir de folhas de papel A4 cortadas em quatro, e das quais mantém sempre uma reserva em cima da sua mesa de trabalho. Enquanto redige este Diário, Roland Barthes prepara o seu curso para o Collège de France sobre «O Neutro» (Fevereiro-Junho de 1978), escreve o texto da conferência intitulada «Longtemps je me suis couché de bonne heure» (Dezembro de 1978), publica um grande número de artigos em diferentes jornais e revistas, escreve A Câmara Clara entre Abril e Junho de 1979, redige algumas páginas do seu projecto «Vita Nova» durante o Verão de 1979, prepara o seu duplo curso para o Collège de France sobre «La Préparation du roman» (Dezembro de 1978 - Fevereiro de 1980). No princípio de cada uma destas obras maiores, todas elas explicitamente postas sob o signo da morte da mãe, encontram-se ...  Ler Tudo >>

Lenda de Sigurd e Gúdrun - J. R. R. Tolkien (Europa-América)

[13-11-2009] |
“Upphaf(O Início) IDe antanho a eraem que o vazio existia,nem areia ou marnem ondas revoltas;por forjar a Terra,por cobrir o Céu:um abismo aberto,sem folha de relva. 2             Os Grandes Deuses entãoderam início à labuta,o maravilhoso mundomui bem construíram.Vindo do Sul, o Soldos mares saídoreluzia sobre a relvaverdejante nas manhãs. 3             Os seus salões e santosno cimo se erguiamcom coruscantes empenas,colunas douradas,baluartes em rocha talhados,erigidos em esplendor,forja e fortalezade armação imortal. 4Brotou o seu júbiloem muitas cortes,onde os homens engendraramda astúcia das suas mentes:sob colinas de Céubem alto erguidasviviam por entre risoshá muito tempo. 5             Terríveis formas se ergueramde tenebrosas fendassobre montanhas inteirasjunto ao Mar sem Margem,da escuridão amigos,inimigos imortais,antigos, não engendrados,emergidos do vazio ancestral. 6Ao mundo chegou a guerra:as muralhas dos Deusesos gigantes sitiaram;a alegria cessou.Moveram-se as montanhas...  Ler Tudo >>

Jonas, o Copromanta - Patrícia Melo (Campo das Letras )

[10-11-2009] |
“1Aquilo não podia ser real.Fechei o livro com a sensação de que algo sinistro estava acontecendo. Sei que é comum casos da vida imitando a arte e vice-versa, mas não de forma tão escabrosa. EU era o personagem central daquele conto, um eu esquisito, disfarçado, com outro nome, mas ainda assim eu, euzinho da silva, me reconheci com a maior facilidade naquelas páginas, perscrutando diariamente minhas fezes, intrigado com o possível significado das estranhas e múltiplas formas fecais boiando no vaso sanitário. Quem mais no mundo, além de mim, possuía um caderno de excrementos?Reli três vezes o conto para ter certeza de que não estava dando meus próprios voos. Admito que sou um leitor obsessivo e que, com freqüência, reescrevo diletantemente as histórias de meus escritores preferidos. Não que eu seja crítico ou plagiador, ou, pior que tudo isso, fraco de imaginação. Reescrevo-as por uma questão de justiça. Alguns personagens merecem destinos melhores. Raskolnikof, por exemplo, jamais deve...  Ler Tudo >>

Terra Nova - Anthony de Sá (Dom Quixote)

[04-11-2009] |
“Manuel António Rebelo era um produto desta paixão. Crescera entre as histórias do pai, um homem para quem havia duas coisas sagradas na vida: Deus e o bacalhau – e nem sempre por esta ordem. As palavras do pai pintavam quadros vívidos de corajosospescadores de cabelos grisalhos e caçadores de baleias, que deixavam as famílias durante meses a fio para ir pescar nas vastas águas da Terra Nova. Visões de mães amortalhadas em negro, de esposas desorientadas – as grávidas a sentirem-se abandonadas, as outras satisfeitas pela trégua nas gravidezes – revoluteavam-lhe na cabeça. E depois havia ainda as crianças, de ponto em branco, a acenarem nas suas melhores roupas de domingo. Os rapazinhos vestidos em casacos puídos, impecavelmente engomados, e calções vincados. As meninas salpicavam a paisagem como pipocas, envergando os vestidos da comunhão que j&...  Ler Tudo >>

O Exílio dos Anjos - Gilles Legardinier (Edições Europa-América)

[16-09-2009] |
“A noite está um pouco fria. Desde o final da tarde que, como é habitual acontecer nesta estação do ano, a chuva caía, miudinha, constante e densa. Já não era sequer possível ver o lago, que contudo ficava ali bem perto, um pouco mais abaixo. Estávamos no Outono. Imóveis, as árvores encharcadas cintilavam por entre a luminosidade que se escapava das janelas da sala.Dentro de casa, o ambiente era agradável. O casal estava bem aninhado no seu sofá, envolto no meloso calor da chama que balançava na lareira. Cathy deixou escapar um suspiro triste e aconchegou-se ainda mais ao marido. Perdidos nos seus pensamentos, Marc mantinha os olhos presos às chamas. Já estavam assim há umas longas horas, silenciosos, levantando-se só para colocar mais troncos na lareira. Hoje não tinham mais nada para fazer – algo que nunca acontecera.Marc espreguiçava-se paulatinamente; ela olhou para ele. Os seus olhares cruzaram-se. Ele beijou docemente a testa dela, ainda com mais ternura do que era habitual. Beij...  Ler Tudo >>

Uma Noite com o Fogo - António Manuel Venda (Quetzal)

[22-07-2009] |
“Era o fogo. Andava à solta nos montes, embora visto dali, a uns cinquenta quilómetros de distância, parecesse apenas uma lâmpada enorme, de luz avermelhada, para iluminar as terras em redor. Ou um sinal. Talvez pudesse parecer isso também, um sinal para os barcos que andassem do outro lado, perto da costa. Eu imaginava estas coisas para o clarão do fogo, até que fosse um aviso para os aviões que sobrevoassem de noite aqueles montes. Não se desse o caso de irem eles lá bater, no sítio que passava dos novecentos metros, no que por pouco não atingia os oitocentos ou até noutro qualquer com menos ilusões de chegar às nuvens. A minha imaginação com os montes, as nuvens e os aviões, depois dos barcos perto da costa. Eu estava na berma da estrada, fora do carro, no primeiro sítio de onde tinha conseguido avistar o clarão. Era pouco mais de meia-noite...  Ler Tudo >>

Um Dia e Uma Noite e Um Dia - Glen Duncan (Europa-América)

[01-07-2009] |
“O quarto onde ele acorda tem o fedor tenso de uma cabina telefónica, que apesar de tudo evoca anúncios de acompanhantes e uma sensação de perda, não pelo sexo mas pela ternura. A última mulher era uma prostituta morena e jovem em Barcelona a quem ele pagara mais para uma hora pós-coito, o seu nariz na nuca macia dela. Só para ficar aqui deitada? Sim, tudo bem. Ela ficara visivelmente incomodada, como se a afeição fosse uma perversão esquisita, mas o que lhe poderia dizer? Ele próprio estava espantado.Com a boca seca, ele levanta a cabeça do peito e percebe uma sensação áspera no pescoço. Não sabe há quanto tempo está inconsciente. As algemas parecem novinhas em folha, fascinantes em contraste com a sua pele escura. Os homens siques usam aquelas braceletes de aço e até pestanas postiças como as dançarinas e, no entanto, parecem admiravelmente masculinos. Ele não se teria importado de ser um sique. Selina, há anos atrás, tinha afirmado que o turbante possui um profundo fascínio fálico —...  Ler Tudo >>

Barroco Tropical - José Eduardo Agualusa (Dom Quixote)

[26-06-2009] |
“Não chore, Bárbara. Assim choramos as duas. A única verdade da minha vida foi o amor de Bartolomeu. A única verdade é o amor. Nem a verdade é necessária, excepto no amor. Bem sei, parecem versos de uma das minhas canções, e talvez sejam. Tome um lenço, seque as lágrimas. Não lhe posso pedir para ser minha amiga. Seja então minha inimiga, mas não me ignore. Nós, os cantores, os actores, as pessoas ligadas ao negócio do espectáculo, todos nós, os saltimbancos, ganhamos o vício dos palcos. Precisamos das luzes, faz‑nos falta, inclusive, o pequeno pânico. Fazem‑nos falta a ansiedade, o suor frio, a vertigem nos primeiros minutos. Precisamos dos aplausos. Uma droga? Ri‑se? Prefiro vê‑la a rir, mesmo quando troça de mim. Já lhe devem ter dito que fica muito bonita quando ri. Voltando às drogas, são até várias, você sabe, senhora doutora, estou a ensinar o padre‑nosso ao vigário, são um coquetel de drogas, em particular adrenalina e endorfina. A adrenalina acele...  Ler Tudo >>

O Personagem na Obra de José Marmelo e Silva - Arnaldo Saraiva (org.) (Campo das Letras)

[19-06-2009] |
“Nota IntrodutóriaArnaldo Saraiva Sedução, novela ou romance de José Marmelo e Silva que durante décadas foi suposto o seu livro de estreia por muitos que ignoravam o juvenil e logo renegado O Homem que Abjurou a Sociedade (1932), teve em 1937 uma recepção muito favorável, merecendo palavras calorosas de João Gaspar Simões, Adolfo Casais Monteiro e Irene Lisboa, entre outros.No entanto, não se pode dizer que a crítica estaria depois sempre atenta à produção de Marmelo e Silva. Compreende-se: ele não se fixou, nem andou muito por Lisboa, onde aliás erminou a licenciatura iniciada em Coimbra: tropa em Aveiro e a Madeira, percurso de várias escolas do país, fixação definitiva em Espinho (em 1947).O lançamento em 2002 da sua Obra Completa, sob a direcção e Maria de Fátima Marinho, e a constituição de um Centro de studos com o seu nome, já associado à edição de Leituras de José Marmelo e Silva (2006), organizado por Ernesto Rodrigues, ieram dar testemunho da “permanência” de um escritor fal...  Ler Tudo >>

A ministra - Miguel Real (Quidnovi)

[12-06-2009] |
“O telefonema veio alterar radicalmente a minha vida, força-me a expor-me publicamente, acabando com os dias serenos entre as aulas, as leituras e os serões solitários, recebi o telefonema dois dias antes do Natal, numa manhã de compras, uma embalagem de leite magro na mão, uma vaquinha dizia-me adeus de um prado verde cantante, senti-me incomodada, nervosa, depus a embalagem na prateleira, perfilei-me para atender o telefonema, anunciado pela secretária, teria de dar a resposta no final do dia de Natal, amanhã até às 20 horas, a voz do interlocutor foi peremptória, até às 20 horas.A solidão desta noite de Natal sabe-me bem, permite-me reflectir em silêncio, sem a incomodidade das travessas de bacalhau ou o cheiro agoniativo do peru tostado no forno, posso ponderar calmamente as duas alternativas, o sim ou o não, sem a angústia das opiniões alheias, o meu ex-marido a dizer-me uma coisa, os filhos outra, eu a fingir-me dividida, angustiada, sabedora porém da minha decisão, tomada no seg...  Ler Tudo >>

Visita na Prisão ou O Último Sermão de António Vieira - Armando Nascimento Rosa (Assírio & Alvim)

[29-05-2009] |
Visita na Prisão ou O Último sermão de António Vieira foi Menção Honrosa na 2ª edição do Prémio Luso-Brasileiro de Dramaturgia António José da Silva, tendo sido distinguida com o Prémio Albufeira de Literatura 2008 (instituído pelo Município de Albufeira em colaboração com a Associação Portuguesa de Escritores).ou O Último Sermão de AntónioVieira  efabula emteatro as derradeiras horas de vida de António José da Silva; o dramaturgo judeu luso-brasileiro, morto em auto-de-fé a 19 de Outubro de 1739, frente aoTejo.Grande parte da acção da peça decorre numa cela da prisão dos Estaus, ao Rossio, lugar físico onde hoje se ergue oTeatro Nacional D.Maria II. António José recebe no cárcere amais surpreendente das visitas: o fantasma do Padre António Vieira, ...  Ler Tudo >>

O Gato de Uppsala - Cristina Carvalho (Sextante)

[29-05-2009] |
“Agnetta é a única filha de Anders, o merceeiro. É alta, pensa no mar todos os dias, pensa na ventania parda e húmida que barra como manteiga as fragas recheadas de pássaros brancos de enormes asas brancas, de poderosas asas brancas, que arredondam ao voar a curvatura da Terra já de si arredondada. É alta e também branca e loura, tem o cabelo liso que vai descaindo pelos ombros até à sua cintura; na face, ao falar e ao rir, formam-se-lhe dois buraquinhos, um de cada lado, que lhe tornam a expressão muito mais engraçada do que todas as raparigas lá da aldeia, todas juntas. Nem todas podem ser tão graciosas como Agnetta e por isso mesmo casou-se cedo com Elvis, um rapaz vindo duma cidade ainda mais longe e mais fria e mais branca e com mais renas e mais castores e mais lobos e mais bagas roxas e com as luzes do céu mais coloridas nas noites brancas bordadas de estrelas, nessas noites que dão que pensar, nessas noites-dias, nessas noites em que apetece ir até ao lago e verificar mais uma ...  Ler Tudo >>

Os Passos da Cruz - Nuno Júdice (Dom Quixote)

[15-05-2009] |
“Foi numa tarde de Outono que me perdi quando ia a caminho de Coruche, em busca da terra onde vivera Antónia Margarida de Castelo Branco. Em pequenas estradas, no interior do país, basta uma distracção para que se perca o horizonte, e os passos nos levem para onde não se esperava ir. Eu, no entanto, gosto de me perder. É isso que introduz um elemento de dissonância no mundo; e, a partir daí, me leva para descobertas de onde, por fim, acaba sempre por nascer qualquer coisa. Também é verdade que eu não sabia bem o que me obrigava a ir até Coruche, quando apenas procurava descobrir onde ficava a Lamarosa. O que sabia, isso sim, é que numa tarde de Outono, quando o céu se começa a cobrir de cinzento, é agradável entrar no campo, e perceber através das diferenças de cores, e dos contrastes entre a terra que ainda recebe a luz do céu, revelando um brilho que sabemos ir perder-se com o Inverno próximo, e as partes sombrias, em pedaços de floresta, que a vida nasce de confrontos que são sempre...  Ler Tudo >>

Sonhar as Estrelas - Linda Gillard (Publicações Europa-América)

[01-05-2009] |
“Já alguma vez notaram como a linguagem favorece as pessoas que vêem? (Claro que não, porque podem ver). Não tenho apenas um problema de visão, tenho um problema de fala, uma certa dificuldade em encontrar palavras e expressões adequadas à minha experiência. Ora ouçam o que as pessoas dizem: Oh, bem vejo… Olhe lá… Já viu isto? Depende do seu ponto de vista…Estão a ver?Eu, claro, não vejo. As pessoas perguntam-me muitas vezes por que razão vou à ópera se não posso ver os actores a representar, não posso ver o cenário nem o guarda-roupa e não posso ver os efeitos das luzes. Porque não fico em casa e ouço um CD? Não é a mesma coisa? Pergunto-lhes se acham que é a mesma coisa ver uma reprodução de Noite Estrelada de Van Gogh ou o quadro original. (Eu nunca vi o quadro mas ouvi dizer que muitas pessoas que contemplaram esse quadro choraram.) Digo aos cépticos e incrédulos que vou à ópera porque transmite uma visão de um mundo mais ampla aos meus ouvidos do que qualquer outra forma de arte a...  Ler Tudo >>

Ronda Filipina - César Magarreiro (Editorial Teorema)

[24-04-2009] |
“- Esse não inútil, o de vante – criticou mais uma vez, o outro.- Qual? Aquele que está mais folgado? – perguntou o jovem, indicando com a cabeça uma corda que se apresentava mais solta que as outras.- Maldito sejas miserável, mantém-te atento – gritou de novo o velho, tentando disfarçar o afecto que tinha por este seu discípulo.Mamoun largou então o entrançado de fibras que puxava com ambas as mãos e correu para o outro lado do mastro. Aí, agarrou e esticou o outro cabo, enquanto olhava para a coluna de madeira procurando ver nela e na vela já inchada, os efeitos da sua actuação. Da observação e pensamento, o rapaz passara num ápice à acção. Antes de ser interrompido por Fadil, o velho marinheiro, Mamoun observava as ondas que a embarcação ia deixando na calma superfície deste mar interior. Olhav...  Ler Tudo >>

Me enterrem com minha AR-15

[17-04-2009] |
ME ENTERREM COM MINHA AR-15, Marcelo ArielNa revista Babel, Marcelo Ariel abre seu poema Beckett para as crianças explicando o que é poesia:Aqui havia um espaço em branco e uma vontade estranha resolveu.../,,, escrever nele um poema inexplicável chamado tudo...Citação de Décio Pignatari, revista Época, 21 de abril, 2003.  Falar do livro Me enterrem com minha AR-15, edição Dulcinéia Catadora, 2007, obriga-nos a conhecer um pouco da história de Vila Socó, habitat de Marcelo Ariel, autor do livro.A favela de Vila Socó surgiu nos anos sessenta, sobre o oleoduto da Petrobrás, um aglomerado de pescadores afastados das praias e de pessoas vindas de outras regiões do país à procura de uma saída para a pobreza, e que ali fixam residência, sem terem a ideia dos riscos, já que debaixo deles passavam os tubos da Petrobrás, levando &oacut...  Ler Tudo >>

Mulher e Arma Com Guitarra Espanhola - Dennis McShade ( Assírio & Alvim)

[17-04-2009] |
Maynard desfaz mitos com o mesmo escrúpulo com que dispara.MATT WESTEste Matt West nunca existiu. É apenas mais uma das invenções de Dinis Machado para ajudar a vender o cámone, e seu irmão gémeo,Dennis McShade. Contudo, e apesar desta credibilidade acrescida de um suposto crítico estrangeiro, a censura estranhou o assunto e a linguagem deste Mulher e Arma Com Guitarra Espanhola. E foi preciso convencer, com um fabuloso passe de peito, o senhor Major da Censura Prévia que este era o último livro que tinham traduzido de um incomum autor americano de policiais de bolso. Aquele, parecendo levar à letra o culto sistemático do absurdo de que fala Dinis Machado na nota de editor introdutória, acreditou nesta improvisada patranha e o livro lá saiu sem rasuras nem cortes.Passava-se isto em 1968 e Dinis Machado, então director da colecção Rififi, não se coibiu de te...  Ler Tudo >>

O Cântico dos Melros - Augusto Carlos (Nova Vaga)

[10-04-2009] |
“Sem que alguém o conseguisse explicar, a dada altura, apreensivo, o nosso minúsculo mundo, com a sua superfície retalhada em países tal puzzle, fruto da actividade mesquinha do ser humano, apercebia-se de um certo desconforto originado pela «moléstia» matreira que se revelava e evidenciava num estranho comportamento social que proliferava no interior de cada país. Não se limitando, porém, às fronteiras, a «moléstia» ia criando, a cada instante, sofisticadas interdependências com os países vizinhos, como cancro em corpo indefeso; gerando um global e informe território, baptizado com o nome sugestivo de Hibernolândia. No princípio, os mais despertos haviam concordado com este nome, dada a característica principal da «moléstia» que acometia a maioria dos seus habitantes, e que muito semelhava a natureza hibernante dos simpát...  Ler Tudo >>

Luz Indecisa - José Mário Silva (Oceanos)

[03-04-2009] |
*anos 80a minha janela, aos 19 anos                        Para o José Luís PeixotoEu espreitava o limoeiro, a sua copa larga ocupando o quintal que a minhaavó fechava à chave quando saía (por causa das galinhas). Para lá do muro,telhados de zinco, portões ferrugentos,andaimes, traseiras de prédios com roupaestendida, armazéns, carros ao abandonoe gritos à tardinha, de mães em chineloschamando os filhos para jantar. Eu viatudo aquilo – sentado à mesa com umafolha de papel excessivamente branco.Os versos, teimosos, murchavam logo.E eu voltava ao princípio.Outra vez.Na janela, as nuvens perfeitas, o ventoem turbilhão através do quintal e aquelelimoeiro todo iluminado por dentro, osseus frutos acesos na tarde como sóis.literaturaEsperávamos porela na esplanada,sábados à tarde,como quem esperaaquele amigo mais velho,tão ingrato, que um diadeixou de nos falar.*geografia humanafast forwardPor muitoque aceleres– duas vezes,quatro vezes –nunca deixasde ter pressa.bilhete de identidadeObservo a...  Ler Tudo >>

O Legado 731 - Lynn Sholes e Joe Moore ( Europa - América)

[31-03-2009] |
O METROCalderon soube que ia morrer no momento em que enfiou a moeda na ranhura antes de passar, a cambalear, pelo torniquete, e descer as escadas para a plataforma do metro. O barulho do comboio, embora fosse abafado pelo sangue a coagular nos seus ouvidos, arremessou uma lança de dor atroz através do seu cérebro.Calderon segurou a cabeça com as duas mãos até o comboio finalmente parar e as portas se abrirem com um silvo. Ele não tinha a certeza de quanto tempo as suas pernas o sustentariam. A febre de quarenta e um graus parecia estar a derreter‑lhe os ossos, transformando‑os numa mistura semilíquida de tutano derretido. Ele inspirou um pouco de ar, e este uivou através da sua traqueia como o vento numa chaminé.Sobe para o metro. Mexe‑te. Sobe para o metro.Deslocando‑se com esforço, Calderon deixou‑se ser apanhado pelo fluxo de passageiros que ia a entrar no metro, e os corpos d...  Ler Tudo >>

O Segredo de Leonardo Volpi - Fernando Pinto do Amaral (Dom Quixote)

[20-03-2009] |
Na véspera da sua morte, Rita chegara a casa destroçada. Naquele dia tivera a coragem de telefonar a Margarida Volpi, arriscando tudo numa conversa destinada ao abismo, num gesto insensato que ela cometera em nome do amor, mas que lhe deixava agora um irresistível sabor a tragédia. No primeiro sábado de Agosto de 2005, Rita transformara-se numa consequência das suas emoções, tornando-se a heroína de um romance pouco original, vivido por muitas outras antes dela.Nos primeiros tempos nunca fora assim: havia pelo menos a certeza de uma alma que crescia e se alimentava de um fogo irracional, disposta a persistir num erro como se nele visse uma verdade capaz de mudar a ordem natural do mundo. Agora, todavia, já não valia a pena disfarçar, já não lutava contra coisa alguma – só lhe apetecia fugir, fugir de tudo para sempre, mesmo pressentindo que isso talvez lhe fizesse perder a pr&o...  Ler Tudo >>

Lobito - António Mateus (Guerra & Paz)

[20-03-2009] |
Ao fim do primeiro mês de trabalho de Maria Belo naquela casa, o pai começou a ter dificuldade em dormir. A imagem dela acompanhava -o todas as noites. Andava confuso, nervoso, com uma ansiedade que por vezes lhe dificultava a respiração. Se no início pensava nela só durante a noite, depois passou a pensar nela o tempo todo, mesmo quando estava a trabalhar. Um dia, não aguentando mais tanta ansiedade, propôs a Maria Belo que se amigasse com ele. Ela aceitou de bom grado, com um grande sorriso, como se já estivesse à espera daquela proposta. Nessa mesma noite passou a dormir lá em casa.Joaquim Praxedes tomou contacto pela primeira vez com o doce fruto da terra angolana. Conheceu o cheiro da terra, o cheiro do mato, o cheiro da anhara. «Oh misericórdia!», a palanca negra, com um ritmo selvagem, durante toda a noite, não parou de subir montes, atravessar matas, cruzar rios, subir cascatas....  Ler Tudo >>

A Edição de Livros e a Gestão Estratégica - José Afonso Furtado ( Ed. Booktailors)

[18-03-2009] |
6.2. O sistema de criação de valor e a rede de valor no sector da edição de livros: Cinzia Parolini e Paola DubiniÉ neste momento que teremos de voltar a Dubini e de esclarecer a metodologia que seguiremos a partir de agora. Tínhamos detectado algumas dificuldades em analisar a evolução no sector da edição de livros a partir do modelo tradicional da cadeia de valor e o recurso, por parte de Dubini, a ferramentas de outros modelos para tentar abarcar o aparecimento de áreas emergentes e inovadoras. Sintomaticamente, em 1999, Dubini irá publicar, em conjunto com Parolini, um artigo na revista Economia & Management, «Cambia l’Editoria Libraria: Confini e ruoli da ridefinire nella rete del valore» (Dubini e Parolini, 1999). Aí assistimos, de algum modo, à confluência de dois percursos, pois, enquanto Parolini tinha publicado, em 1996, a edição original da sua obra Rete del Valore e Strategie Aziendali, na qual não analisava o caso  da edição de livros, mas onde tinha desenvolvido um rigoro...  Ler Tudo >>

Contos de Desencontros - Mónica Godinho Cunha (Chiado Editora)

[13-03-2009] |
“ (…) Trabalhei muito durante toda a minha vida. Para poder cuidar da minha mulher e dos meus filhos. Cumpri a minha missão. Os meus filhos já construíram as suas próprias famílias. Sou avô de sete netos. Agora apetece-me aproveitar o tempo que me resta a dedicar-me a mim próprio. Sempre desejei viajar. Conhecer o mundo. Fui adiando as viagens por diversos motivos: falta de tempo, falta de dinheiro, filhos pequenos. Enfim, é chegada a hora de partir. Viver a minha vida à minha maneira. Conhecer outras paisagens, outras culturas. Enquanto ainda tenho saúde e força de vontade para correr atrás de um sonho. Sinto que tenho esse direito depois de uma vida dura de trabalho em prol da família. Agora quero virar-me para mim. Hoje enfrentei o espelho da casa de banho e perguntei ao meu reflexo: o que te faz feliz? E ele respondeu-me sem hesitar: apanha o primeiro avião. O destino &eacu...  Ler Tudo >>

Uma Noite com o Fogo - António Manuel Venda (Quetzal)

[13-03-2009] |
Há muito tempo que escrevia este livro. Alguns anos. Mas escrevia-o apenas na minha mente, com o que pensava, com tudo aquilo que ia recordando. Se tivesse conseguido reunir as palavras necessárias para contar a história, se as tivesse encontrado, escolhido, até se tivesse inventado algumas para na volta fazer boa figura, tudo haveria de ser, digamos assim, mais normal. Era uma vez… Eu, de noite, uma noite muito quente, abafada, próximo do que julgava insuportável, uma noite com o fogo. Como se vivesse sempre essa noite. Como se ela tivesse passado a existir de uma forma definitiva. Um filme a voltar inevitavelmente ao princípio. A ideia de haver um tipo de cinema circular, ou aos círculos, marcado por um momento um bocadinho forçado, mas apenas um momento, fugaz, aquele em que de repente se passava do fim para o princípio e tudo voltava a acontecer. Tudo, desde o princípio. Eu ainda em casa, depois de ...  Ler Tudo >>

Proust Era um Neurocientista - Jonah Lehrer (Lua de Papel)

[11-03-2009] |
O bailado começou às oito. Em Paris, o dia tinha sido quente e húmido e a noite mantinha -se desconfortavelmente sufocante. O interior do teatro estava abafadiço. Quando as luzes começaram a diminuir, os espectadores, ligeiramente embriagados pelas bebidas que tinham tomado antes do espectáculo, pousaram os programas e pararam de murmurar. Os homens tiraram os chapéus altos e enxugaram a testa.As senhoras desdobraram as boas. A cortina subiu lentamente. Igor Stravinsky, a transpirar dentro do fraque na quarta fila, estava a ficar nervoso. A sua sinfonia, A Sagração da Primavera, ia ser apresentada pela primeira vez ao público. Stravinsky, um jovem compositor cheio de ambição, estava ansioso por divulgar o seu génio à multidão cosmopolita. Queria que a sua nova obra musical lhe trouxesse fama, que fosse tão chocantemente moderna que não pudesse ser esquecida. Os tempos ...  Ler Tudo >>

O Quarto de Hóspedes - Helen Garner (Oceanos)

[09-03-2009] |
Comecei por dispor a cama do quarto de hóspedes sobre um eixo norte-sul. Assim, a pessoa que nela dormisse ficava em sintonia com o fluxo de energia positiva do planeta, ou lá o que era. Ela havia de achar que sim. Fiz a cama com um lençol acabado de passar, um lençol cor-de-rosa clarinho, porque toda a gente sabia que ela tinha uma especial sensibilidade para as cores, e o cor-de-rosa fica bem a qualquer pele; mesmo que a pessoa esteja a ficar amarelada.Ela preferiria uma almofada rasa ou uma almofada alta? Seria alérgica às penas? Seria contra as almofadas de penas por ser vegetariana? Optei por lhe dar a escolher. Juntei todas as almofadas que tinha em casa, meti-as dentro de fronhas muito bem engomadas, e coloquei-as em fila à cabeceira da cama.Subi a persiana de ripas de madeira e abri a janela. O quarto foi invadido por um ar suave, a cheirar a folhas, embora as folhas não se vissem, a não ser que a pessoa abrisse a j...  Ler Tudo >>

A Rainha de Sabá - Marek Halter (Bizâncio)

[06-03-2009] |
“Era negra, bela, subjugava pelo espírito. Guerreira, impôs a paz, nove séculos antes da nossa era, sobre o fabuloso reino de Sabá, país do ouro e do incenso. Contudo, a sua mais bela batalha foi a do amor e da inteligência. Desafiou o rei Salomão pelo jogo dos enigmas. Vencida, entregou-se a ele durante três noites deslumbrantes. Três noites que o Cântico dos Cânticos inscreveu para a eternidade na memória do Ocidente. A História diz-nos que Makêda, rainha de Sabá, e Salomão, rei de Judá e Israel, tiveram um filho, Mênêlik, o primeiro de uma longa linhagem de reis africanos. Através dos relatos do Alcorão, do Antigo e do Novo Testamento, a rainha de Sabá fez sonhar gerações de pintores, de poetas e de escritores. Agora, apoiando-se nas últimas descobertas arqueológicas, Marek Halter, por seu turno, revela-nos...  Ler Tudo >>

Duas Inglesas em Portugal - Ann Bridge e Susan Lowndes (Quidnovi)

[20-02-2009] |
1.Marcos históricosPara quem viaja pela primeira vez por um país que desconhece, há algumas coisas que são decididamente importantes. Não deve perder nenhuma das paisagens ou belezas únicas: certamente que as pessoas que regressam de Verona sem terem apreciado os frescos de Pisanello, que não podem ser vistos em mais nenhum outro sítio na Terra, serão recebidas com gritos de reprovação dos mais afortunados ou mais conhecedores; e também não podem passar ao lado de coisas que, não sendo únicas, têm, apesar de tudo, uma enorme importância. (É provável que esta situação não aconteça, uma vez que até mesmo os porteiros de hotel conseguem orientar os turistas em Roma para a Igreja de São Pedro ou para o Coliseu.) Contudo, nos dias agitados das viagens modernas (tão distantes das deambulações sem rumo...  Ler Tudo >>

As Crónicas dos Elfos: Lliane - Jean-Louis Fetjaine (Europa-América)

[13-02-2009] |
1. OS COLONOSQuando caiu o crepúsculo, parou finalmente de chover.A pouco e pouco, o rumor das conversas cessou, os olhos ergueram-se instintivamente para o céu e apareceram sorrisos hesitantes nos rostos do grupinho de mulheres e crianças ali amontoadas há dias. Em seguida, todos os olhares se viraram para o Irmão Edern, como se o brusco silêncio, que acabava de suceder à batida incessante da chuva no tecto da cabana, fosse uma espécie de milagre frágil, que só ele pudesse tornar real. O velho monge sorriu, pousou a escudela e, apoiando-se no noviço que o ajudava, levantou-se com um longo suspiro. No instante em que afastou a manta de lã que fazia as vezes de porta àquele refúgio, as nuvens negras que assolavam a terra dissiparam-se, e um raio de claridade veio iluminar a floresta cintilante. Por um vislumbre do céu azul, Edern sentiu o calor do Sol no rosto enrugado, e agradeceu a ...  Ler Tudo >>

Dar Coisas aos Nomes - Manuel Castro Caldas ( Assírio & Alvim)

[06-02-2009] |
«Os textos seleccionados atravessam um período de duas décadas. Possuem dimensões muito diferentes e respondem a estímulos distintos: surgem associados a exposições individuais de artistas consagrados, acompanham primeiras exposições, contextualizam apresentações colectivas no âmbito de uma colecção de arte, decorrem de contextos muito específicos. Apesar dessa heterogeneidade, entendeu-se apresentá-los sem recorrer a divisões temáticas e por ordem cronológica, reforçando a ideia de uma forte unidade que, pensamos, resulta da sua leitura. Esta reside, sobretudo, numa atitude de procura sempre do lado do trabalho sobre o qual se reflecte, perto da génese das obras e das questões particulares e gerais da produção artística.Neste sentido, os textos constituem um esforço de clarificação. C...  Ler Tudo >>

A Festa de Anos - Panos Karnezis ( Bizâncio)

[01-02-2009] |
"À medida que o dia desperta numa pequena ilha no Mediterrâneo, no Verão de 1975, um milionário, Marco Timoleon, acorda para vigiar os últimos preparativos para a festa dos 25 anos da sua filha Sofia. Entre os convidados está o ambicioso biógrafo do velho milionário, a mulher de quem está afastado e o seu médico particular, e velho amigo, preparado para cumprir os seus desejos. Sabendo que a filha está grávida de um namorado que não merece a sua aprovação, tenta persuadi-la, usando a festa, a pôr fim à gravidez. Esta não será para Sofia uma vulgar festa de anos. À medida que o dia se desenrola a determinação de Marco é posta à prova pelos planos da filha, igualmente determinada, que aprendeu com o mestre. A história desenrola-se entre os emocionantes acontecimentos do dia e a evocação da vida do milionário desde a infância na Ásia Menor, passando por lugares tão distintos como Nova Iorque, Londres e Paris."Ficha TécnicaTítulo: A Festa de AnosAutor: Panos KarnezisEditor: Edito...  Ler Tudo >>

A Arte da Alegria - Goliarda Sapienza ( Dom Quixote)

[27-01-2009] |
Aqui estou eu com quatro, cinco anos, num espaço lamacento a arrastar um pedaço de madeira imenso. Não há árvores nem casas à volta, apenas o suor pelo esforço de arrastar este corpo duro e o ardor agudo das palmas das mãos feridas pela madeira. Afundo-me na lama até aos  tornozelos, mas tenho de puxar, não sei porquê, mas tenho de o fazer. Deixemos esta minha primeira lembrança assim como está: não me apetece fazer suposições ou inventar. Quero contar-vos aquilo que se passou sem mudar nada.Ora bem, estava eu a arrastar aquele pedaço de madeira e, depois de o ter escondido ou abandonado, entrei pelo buraco grande da parede, fechado apenas por um véu negro cheio de moscas. Encontro-me agora na escuridão do quarto onde se dormia, se comia pão com azeitonas, pão com cebola. Só se cozinhava ao domingo. A minha mãe, com os olho...  Ler Tudo >>

Corvo - Rui Lage (Quasi Edições)

[16-01-2009] |
Ficha TécnicaTítulo: CorvoAutor: Rui LageEditor: Quasi EdiçõesISBN: 978-989-552-397-9CORVOPoderás ralhar nevermorenos umbrais da poesiacobiçar a capoeiraao galo a cantar pelo menosdesde as cantigas de amigo:de ti os vindouros sem penasfarão arroz de cabidelaou quem sabe torpe gralha,de corvo corruptela.De ruínas farás sempreuma torre habitada,viela, balcão, taberna assombrada,inútil protestode utilíssimo nada.EDGAR POE E TIM BURTON NO PÈRE-LACHAISE(com o fantasma de Soares de Passos ao fundo)                                      para o Alexandre BahiaAranhas descem por finos fios tecidossobre ruínas de jazigosonde brancas lápides rachadastêm verdes heras desenhadasque trepamsaindo por vitrais partidospara telhados onde corvossacodem as asas.Ciprestes de tintas espessase tumultuosas,frescos túmulos com floresencostadas,regatos escavando galeriasno subsolo da noite,de pedra em pedra penitentea música das águas.Em meninos,crescemos por cima de toupeirase peixes de profundidade,fazemos de ...  Ler Tudo >>

O Homem Que Matou Sidónio Pães || História dos Portugueses na Etiópia (1490-1640)

[19-12-2008] |
Devido à natureza época, rareiam motivos para pré-publicar. Deixamos, para suprir essa falta, dois livros de cariz histórico como sugestão de Natal. Uma boa leitura, portanto!Por vezes sabe bem sair das páginas da literatura para a elas voltar com renovado aceno!- Alberto Franco e Paulo Barriga, O Homem Que Matou Sidónio Pães, Guerra e Paz, Lisboa, 2008."LISBOA, 14 DE DEZEMBRO DE 1918: pela primeira vez, o leitor pode viajar no tempo e seguir os últimos passos do Presidente-Rei através do homem que mudou, para sempre, o rumo da história do século XX português: José Júlio da Costa, o homem que matou Sidónio Paes. Escrito numa linguagem simples e acessível, apoiado numa investigação de fundo de Alberto Franco e Paulo Barriga, este é um relato único e inédito, que o fará reviver a empolgante história do assassino do Pre...  Ler Tudo >>

O Condenado - Jeffrey Archer (Publicações Europa-América)

[05-12-2008] |
Ficha Técnica:Título: O CondenadoAutor: Jeffrey ArcherEditor: Publicações Europa-AméricaColecção: Obras de Jeffrey ArcherFormato: 14 cm x 21 cmISBN: 978-972-1-05964-1P.V.P.: 24.90€Data de edição: Dezembro 2008“— Sim — disse Beth.Ela tentou parecer surpreendida, mas não foi muito convincente, pois eles ainda andavam na escola secundária quando ela decidiu que se haveriam de casar um dia. No entanto, ela ficou espantada quando Danny se ajoelhou sobre um joelho no meio do restaurante cheio.– Sim — repetiu Beth, fazendo votos para que ele se pusesse de pé antes que todos os clientes do restaurante parassem de comer e se virassem para olhar para eles. Mas ele não se mexeu. Danny permaneceu ajoelhado sobre um joelho e, como um ilusionista, fez surgir do nada uma caixa pequenina. Depois abriu-a e mostrou uma aliança de ouro lisa, com um único diamante, mu...  Ler Tudo >>

O Fantasma sai de Cena - Philip Roth (Dom Quixote)

[21-11-2008] |
1.O MOMENTO PRESENTEHá onze anos que não ia a Nova Iorque. Exceptuando uma operação em Boston para tirar a próstata cancerosa, nesses onze anos não tinha praticamente saído da minha estrada rural de montanha nos Berkshires e, o que é mais, raramente tinha olhado para um jornal ou ouvido as notícias desde o 11 de Setembro, três anos antes; sem qualquer sensação de perda – apenas, a princípio, uma espécie de secura interior – tinha deixado de habitar não só o grande mundo mas também o momento presente. Há muito que eu tinha matado o impulso de estar nele e fazer parte dele.Mas agora tinha percorrido ao volante os quase duzentos e dez quilómetros para sul até Manhattan para consultar um urologista do Hospital Mount Sinai que se tinha especializado num tratamento destinado a ajudar milhares de homens como eu a quem a cirurgia da próst...  Ler Tudo >>

O Sal da Terra - Miguel Real (Quidnovi)

[14-11-2008] |
“NA NOITE DE 17 PARA 18 DE JUlho de 1697, d. Contumácia Garcia escutara o crocitar de corvos sobre o telhado de trapeira do galpão das traseiras, temos peste ruim, exclamara, d. Patrocínio Barrica estranhara o encardido colorido da lua, circundando uma mancha escura inconstante, central, batera os ossos dos dedos por três vezes nas portadas de sapobema da janela de tabuinhas, queira Deus que me engane, dissera, os olhos mexerosos, a mão na boca, a outra no peito; nessa noite, mãe Sefina, velha de mil anos, por três vezes deitara sangue do nariz, secara-o com um lencinho de fio de sisal, enxergara a fenda da porta, sob o céu de Mata Escura chovia sangue, sangue no céu, sangue no rosto, sangue nas mãos, prenúncio de morte grande, sussurrara, temerosa de que forças invisíveis no ar a ouvissem, preparou a beberagem final, a mortal, morres comigo, Chica, disse a mãe-de-santo Sefina para a m...  Ler Tudo >>

Um Homem Muito Procurado - John Le Carré (Dom Quixote)

[12-11-2008] |
"Um campeão turco de boxe da categoria de pesos pesados a passear calmamente por uma rua de Hamburgo de braço dado com a mãe dificilmente poderá ser censurado por não reparar que está a ser seguido por um rapaz escanzelado de casaco preto. Big Melik, como era conhecido na vizinhança que o admirava, era um tipo gigante, peludo, desengonçado e simpático, com um grande sorriso natural, cabelos pretos presos num rabo-de-cavalo e um andar gingado e descontraído que, mesmo sem a mãe, ocupava metade do passeio. Aos vinte anos, era uma celebridade no seu pequeno mundo, e não apenas pelas proezas no ringue de boxe: eleito representante dos jovens do seu clube desportivo islâmico, segundo classificado por três vezes no Campeonato de Natação do Norte da Alemanha na categoria de cem metros mariposa e, como se tudo isso não bastasse, guarda-redes fabuloso da equipa de futebol de...  Ler Tudo >>

Os Ventos e Outros Contos - Eudora Welty (Antígona)

[07-11-2008] |
“Mrs. Watts e Mrs. Carson encontravam‑se ambas na estação de correios de Victory quando chegou a carta do Instituto Ellisville para os Pobres de Espírito do Mississipi. Aimee Slocum, ainda com as mãos cheias de correspondência, deu uma corrida até à porta, entregou‑a directamente a Mrs. Watts, e leram‑na as três juntas. Mrs. Watts mantinha o papel bem esticado entre as suas mãos cor‑de‑rosa, enquanto Mrs. Carson, ainda de dedal posto, sublinhava lentamente linha a linha. As restantes pessoas ali presentes perguntavam a si mesmas o que se passaria agora.– Qual será a reacção da Lily – disse Mrs. Carson por fim, radiante –, quando lhe dissermos que a vamos mandar para Ellisville?!– Vai morrer de riso – afirmou Mrs. Watts, e acrescentou numa voz gutural, dirigindo‑se a uma senhora surda –, aceitaram a Lily Daw em Ellisville!– Não se atrevam a ir contar à Lily Daw sem mim! – exclamou Aimee Slocum, voltando a entrar, numa corridinha, para arrumar o resto ...  Ler Tudo >>

Sam e o Monstro, Livro II - Thomas Bloor

[31-10-2008] |
“Sam estava sentado na praia. Os seus pés mergulhavam na areia fria. Moscas gordas e cinzentas esvoaçavam em volta dos seus tornozelos. Atrás de si elevava-se um monte de terra solta. A erva seca murmurava e as corolas das grandes margaridas poeirentas acenavam numa monótona aprovação.Um grosso cobertor castanho envolvia os ombros curvados de Sam e uma toalha de banho cor-de-laranja estava enrolada à cintura. A toalha estava presa com um alfinete-de-ama e fazia de saia improvisada. Há seis meses a sua pele era dourada, tinha um belo tom herdado da sua mãe oriental e do seu pai galês. Tal como o dos pais, o seu cabelo era preto e lustroso.Agora era diferente. Embora tivesse ainda uma forma humana, o seu corpo sofrera algumas alterações alarmantes. O seu cabelo era áspero e grosso em madeixas irregulares. A sua pele empolara, pelara e endurecera até estar coberta de nós, calos e protuberâncias escamosas. Os seus maxilares tornaram-se salientes e os seus dentes eram tão aguçados como agul...  Ler Tudo >>

Livros com Ideias Dentro - António Rego Chaves (Campo das Letras)

[24-10-2008] |
AMOS OZO fanatismo terá cura?Numa longa entrevista concedida em 1995 ao jornal Le Monde,o grande romancista israelita Amos Oz, já então há longosanos empenhado no diálogo com os palestinianos, defendia semrodeios a necessidade da existência de dois Estados no territórioocupado pelos seus compatriotas. Referindo-se à barbárie nazi,argumentava: «Deixei de utilizar expressões como Shoah ou Holocausto.Considero que a palavra ‘Shoah’ [em hebraico, ‘catástrofe’]se aplica sobretudo a acontecimentos como o tremor de terra deKobé. O que se perpetrou no continente europeu há cerca de meioséculo não foi de forma alguma uma ‘catástrofe’, mas um crime,um homicídio, e é necessário chamar os assassinos pelo seu nome.Sou contra qualquer tentativa de fazer disso um tema metafísico,como os judeus ortodoxos e, mesmo, como algu...  Ler Tudo >>

Bestas de Lugar Nenhum

[17-10-2008] |
Bestas de Lugar Nenhum é o romance de estreia do escritor de origem nigeriana Uzodinma Iweala e conta a história, na primeira pessoa, de uma das muitas crianças obrigadas a combater em nome de nada, ou de interesses dos governantes, crianças-soldados que são como bestas ferozes à solta nas mãos de caudilhos sanguinários. Com uma linguagem única e arrebatadora, ao mesmo tempo brutal e comovente, o livro tem recebido inúmeros prémios e foi já adaptado ao palco, num espectáculo que passou por Lisboa no âmbito do Alkantara Festival 2008.[Fonte: Antígona]“Com a luz volta o fôlego, entra ar com força no meu peito, eu tusso e enchem olhos com água. À minha frente é mundo inteiro que abre e olho para cima, para o céu cin­zento que vai mexendo assim devagarinho devagarinho no topo das folhas dos irocos todos muito muito altos. E por baixo, mu...  Ler Tudo >>

Ária

[10-10-2008] |
Autor: Nassim Assefi,Título: ÁriaEditora: Saída de EmergênciaTradutor: Susana SerrãoPáginas: 208Tiragem: 2000PVP: 17,75 €Data de Lançamento: 27 de Outubro “4 Tir 1369 25 de Junho de 1990" Yasaman Azizam, “A tua carta é de cortar o coração. O baba já não consegue dormir. Na verdade, eu também não. Anda pela casa de noite como sonâmbulo em busca de qualquer coisa que se perdeu. Digo‑lhe que já és crescida. Tens trinta e cinco anos! Agora tens a tua vida, mas no meu coração isso não muda nada. Digo isto só para ele se sentir melhor. Tu não compreendes que, por mais anos que tenhas ou por mais que tenhas alcançado, ainda és a nossa única filha, a nossa joon bebé. Nada pode mudar isso. És o nosso amor e a nossa vida mesmo que estejamos longe. Não sei se poderás realmente compreender a força do nosso amor, até que um dia, inch’Alá, também tenhas uma filha. O amor entre mãe e filha é inigualável. Nunca se pode amar os pais mais do que eles nos amam a nós.Podes ter nascido na Améric...  Ler Tudo >>

Emendar a morte – Pactos em Literatura

[03-10-2008] |
Ficha Técnica:EMENDAR A MORTE – PACTOS EM LITERATURAAutora: Helena Carvalhão BuescuCapa: Margarida Baldaia© CAMPO DAS LETRAS – Editores, S.A., 2008 “Há uma ideia central que percorre este livro. Ela resulta daquilo em que um projecto de trabalho se pôde ir transformando, a par­tir da noção de pacto. Os usos que reservo para esta palavra são vários, e não apenas envolvendo alguns procedimentos mais espe­cíficos da construção e circulação do literário. Chamemos-lhe, por agora, a convicção de que aquilo que designamos como literatura configura modos de pensar e interpretar as condições humanas, bem como de abrir formas para que a acção dos homens ocorra mais do que apenas enquanto sobrevivência ao que a vida vai de­senrolando. Não que o literário seja nisto único. Mas ele é...  Ler Tudo >>

Férias de Agosto - Cesare Pavese

[26-09-2008] |
“Uma noite de Agosto, daquelas agitadas por um vento tépido e tempestuoso, caminhávamos pelo passeio demoradamente, trocando raras palavras. O vento, que fazia carícias inesperadas, imprimiu-me nas faces e nos lábios uma olorosa vaga e depois continuou o seu rodopio por entre as folhas já secas da avenida. Ora não sei se aquele torpor sabia a mulher ou a folhas de Estio, mas o meu coração precipitou-se inesperadamente, tanto que parei.Clara esperava, semivoltada, que recomeçássemos a caminhar. Quando ao volver investi contra outra rajada, Clara, sem levantar os olhos, parou outra vez à espera. Diante do portão perguntei a mim mesmo se queria acender a luz ou passear ainda. Fiquei um pouco parado no passeio — escutava o cicio de uma folha seca arrastada pelo asfalto — e disse a Clara que subisse, que logo a seguiria.Quando um quarto de hora depois nos reunimos lá em cima sentei-me à janela a fumar, farejando o vento, e Clara perguntou-me, através da porta da sala, se me tinha acalmado. ...  Ler Tudo >>

Eu Fui O Capitão do Exodus

[20-09-2008] |
Pré-Publicação/Sinopse:"Ike Aronowicz tem apenas vinte e três anos quando se torna comandante do Exodus. Sessenta anos depois, conta a longa e dramática travessia do Mediterrâneo, em Julho de 1947, com 4545 judeus a bordo, refugiados dos campos nazis e candidatos à emigração clandestina para a Terra Prometida. A odisseia termina com uma batalha feroz que marca a memória internacional. Alguns meses depois, no dia 29 de Novembro de 1947, a ONU decide a criação do Estado de Israel. O testemunho chave de uma das epopeias mais extarordinárias da história contemporânea".Luís CarmeloFicha Técnica:Ike AronowiczEu Fui O Capitão do ExodusEditora Sextante, Lisboasaída a público: semana 22 a 26/9/08228 páginas e caderno fotográfico...  Ler Tudo >>

A Morte da Utopia e o Regresso das Religiões Apocalípticas

[12-09-2008] |
"Durante a Idade Média, a Europa foi abalada por grandes movimentos inspirados pela crença de que a história ia acabar e nasceria um novo mundo. Esses cristãos medievais acreditavam que só Deus podia conduzir ao novo mundo, mas a fé no Tempo Final não se desvaneceu quando começou o declínio do cristianismo. Pelo contrário, enquanto o cristianismo vacilava, a esperança de um Tempo Final iminente tornou-se mais forte e mais militante. Revolucionários modernos como os jacobinos franceses e os bolcheviques russos detestavam a religião tradicional, mas a sua convicção de que os crimes e as loucuras do passado podiam ser ultrapassados numa transformação omniabrangente da vida humana foi uma reencarnação secular das crenças cristãs primitivas. Esses revolucionários modernos eram expoentes radicais do pensamento iluminista, que visava su...  Ler Tudo >>

A Cabana dos Peixes que Voam

[07-09-2008] |
"O Outono na Aldeia Flor de Ameixoeira é uma estação de suor e riso. Hectares e hectares de campos dourados. Colheitas e debulha. Caules nus e espigas carnudas de arroz. Crianças descalças correm ao ar livre, perseguindo cães que as perseguem. Mães preparam refeições para os pais que trabalham nos campos.Gritos escondem‑se nos arbustos; o seu ruído ecoa no céu. Crisântemos amarelos sorriem. Cobras estão emboscadas nos mangues, esperando pacientemente por rãs e sapos que esperam pacientemente por mosquitos e moscas.À noite, assim que os últimos raios de luz se dissipam, as chaminés deixam de fumegar, as portas são trancadas. Sob os telhados de colmo, crianças contentes vagueiam por países de sonho, com sorrisos nos lábios, saliva nos cantos das bocas. As mães passajam sapatos e camisas para os pais, que gozam a última ...  Ler Tudo >>

Cosmopolitismo

[03-09-2008] |
"Burton é um exemplo de refutação, então, para aqueles que acreditam que o preconceito advém apenas da ignorância, que a intimidade gera amizade. Podemos estar verdadeiramente envolvidos com os costumes de outra sociedade sem aprová-los, quanto mais adoptá-los. E apesar da sua kadisah promover o tipo de espiritualismo que era comum entre as eruditas classes altas da Inglaterra Vitoriana tardia, a sua imagem do espelho estilhaçado – cada estilhaço reflectindo uma parte da verdade complexa pelo seu ângulo particular – parece expressar exactamente a conclusão da longa exposição de Burton às filosofias e costumes de muitos povos e locais: encontrará parcelas da verdade (assim como muitos erros) em todo o lado e toda a verdade em lado nenhum. O erro mais grave, acreditava ele, era pensar que o seu pequeno pedaço de espelho reflectia o todo. Para al&eacut...  Ler Tudo >>

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Editor: António Manuel Pacheco

Tua coxa é lisa


Tua coxa é lisa, o lado de dentro. Você é peixe de uma única escama, liso com ela e sem ela. Meus dentes não te rasgam, escorregam, escoriar tuas pernas é um descuido que me agrada. A mulher raspa tua cabeça, dinâmica debaixo d’água pra te salvar das Iemanjás. Azar dela, eu não preciso de oxigên...  Ler Tudo >>
[04-02-2012]  |  Andréa del Fuego
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Do "Livro das Pequenas Coisas"


5

Só o canto, que nem sei o que seja, me possui. Como se houvesse aqui uma faúlha de eternidade.

Casimiro de Brito
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[03-02-2012]  |  Casimiro de Brito
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Entreacto


Repassada do desejo daqueles risos que se perderam e da lembrança dos encantos que nunca chegaram a acontecer, está a casa, palco deserto, onde outrora fantoches ensaiavam uma monótona coreografia. Aí, já não cabem as aparentes histórias nem o som de vidas a fenecer. Ouve-se, somente, o rangido ...  Ler Tudo >>
[02-02-2012]  |  Julieta Ferreira
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Ohne Wasser


Ninguém sabia por que ela criava amebas ambíguas no aquário.  Não tinha peixes.   Com a sua cara de sardas, frequentava o Café Flor e sorvia Kir Royal em copo de Campari.  Sentia o beijo lambido que o argelino lhe dera na orelha, ainda de manhã.
Ele vestia black-tie.
Ela mal sentia a boca ...  Ler Tudo >>
[01-02-2012]  |  Kátia Bandeira de Mello-Gerlach
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Bomba atómica


A bomba vai explodir. Já está armadilhada. Só falta digitar o código de acesso e premir o botão.
— Vou-te deixar.
D. sufoca no ar que o rareia e leva as mãos ao peito. A dor fragmenta-se em inúmeros pedaços de amor tóxico. D. cai no soalho, fulminado por palavras terroristas, uma bomba at...  Ler Tudo >>
[31-01-2012]  |  Bruno Barão da Cunha
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Anotações


Ver é diferente de dizer o que se vê. Ver apenas, não incomoda o mundo. O homem está no remate da sua vida, mesmo que ignorasse como dedilhar o tempo há um espelho na parede, antes usado sobretudo para o ensaio de esgares mulherengos. Esse artefacto tem-lhe servido para desconvocar o eco da casa...  Ler Tudo >>
[30-01-2012]  |  Gabriela Ludovice
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Tintureiro


O china era mais cuidadoso com o ferro de passar. Seu empregado, ao contrário, usa-o como se fosse um trator. O resultado são as feridas em minhas costas. Às vezes, ele joga água em excesso sobre a roupa, e o contraste com o ferro quente tem-me provocado constipa&cced...  Ler Tudo >>
[29-01-2012]  |  Álvaro Cardoso Gomes
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O adeus


Nos clássicos movimentos de um cumprimento, a mão do doutor Proença desprendeu-se. Acidente: que, no aperto de dona Josefa, não houve ardor.
Ao sentir coisa grudada aos dedos, num gesto de automática defesa a senhora sacudiu. Projectada, a mão do doutor Proença caiu, enérgico desamparo, no em...  Ler Tudo >>
[28-01-2012]  |  Augusto Baptista
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Correspondências

Uma viagem à índia - 13

O tédio e a melancolia contemporâneos juntaram-se nesta viagem à Índia para caminharem em direção à explicação sobre o que é a viagem. A contemporaneidade dá justificação a tudo: ao bom, ao mau, e a esse ponto zero, nulo e justo, o tédio, que consome o homem. As paixões, os homicídios e os senti...  Ler Tudo >>
[05-08-2011]  |  Susana Leite
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Uma viagem à índia - 12

"[...]a verdade é o dinheiro." CantoX, 16   "Ea estranheza é esta: mais contida fica a prostituta à medida que o vinhoavança." CantoX, 22   "Opior sítio para estar vivo é entre aquilo que um dia nos exige e aquilo que oeter...  Ler Tudo >>
[26-07-2011]  |  Susana Leite
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Uma viagem à índia - 11

"Entre  dois cães raivosos em batalha, não há espaço para a pausa."Canto IX, 3 "[...] o melhor lado não é perfeito, porque é lado - e um lado tem sempre o lado oposto."Canto IX, 33 "O inesperado insinua-se no que parece definitivo e ninguém se conhece antes de morrer. Ámen.&...  Ler Tudo >>
[19-07-2011]  |  Susana Leite
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Uma viagem à índia - 10

"O que é o passado? Tempo que cada vez ocupa menos espaço [...] O presente - agora neste momento - ocupa todo o espaço que nos rodeia." Canto VIII, 2 "Núpcias da História com a Imaginação provocaram mais filhos e cópulas divertidas do que núpcias da Verdade com a boa memória[...]; mas...  Ler Tudo >>
[12-07-2011]  |  Susana Leite
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Andrei Rodosski – Entre escombros e flores, não deixar que a chama se extinga

Neste ano, em que se assinalam 95 anos sobre a morte de Mário de Sá-Carneiro (26 de Abril de 1916), foram editados, em São Petersburgo, no volume XXVI da revista literária “Sfinx” (“Esfinge”), 10 poemas do escritor, traduzidos em russo (“Álcool”, “A queda”, “Nossa Senhora de Paris”, “Salomé”, “Certa...  Ler Tudo >>
[10-07-2011]  |  A. L. Simões Gamboa
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Uma viagem à índia - 9

"A idade certa para conquistar o mundo é hoje. O homem levanta as interdições, avança, e quando se prepara para saltar: cai."Canto VII, 2 "Cair como a folha da árvore, tranquila e lenta, e subir como certos animais - a águia ou o avião guerreiro. A mobilidade inspira.[...]Canto VII, 3...  Ler Tudo >>
[05-07-2011]  |  Susana Leite
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Uma viagem à índia - 8

"Viajar não faz bem apenas aos homens, também é bom para os próprios percursos ter homens que os percorram. Um caminho é como uma casa, é preciso abrir a janela de vez em quando para que o ar circule. Precisa de ser arejado o caminho e os homens que o percorrem são os que utam esse ofício. São ...  Ler Tudo >>
[30-06-2011]  |  Susana Leite
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Uma viagem à índia - 7

"[...] quem relembra inventa: tudo começa de novo."Canto III, 5 "A intensidade com que se é esmagado não importa, de facto, o que importa é a intensidade que nos resta depois de sermos esmagados."Canto III, 75 "Se o progresso dependesse dos domingos, ainda andávamos de carro...  Ler Tudo >>
[24-06-2011]  |  Susana Leita
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Balanço Literário da Década

Balanço Literário da Década

Terá início em Setembro no CNC um ciclo que tem por objectivo fazer o balanço literário da última década. Organizado em parceria com a PNETLiteratura – um site que visa aproximar a lusofonia literária, contará com a intervenç&atild...  Ler Tudo >>
[21-09-2010]  |  Editor
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Traduzindo...
Coordenação: Maria do Carmo Figueira

CONCURSO

No site http://disquiet.com/thirteen.html, aparecem links para 16 (dezasseis!) versões diferentes do poema “Autopsicografia” de Fernando Pessoa em inglês. O poema é tão conhecido na língua em que foi escrito que qualquer uma das versões provoca gr...  Ler Tudo >>
[29-10-2010]  |  Maria do Carmo Figueira
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Colaborações Literárias
(reservado o direito de selecção)
                                                       Álamo Oliveira

as amigas de taunton

as minhas amigas de taunton gostam da américa devagar    como se fosse de mim. sabem cantar como ...   Ler Tudo >>
[15-01-2012]  |  Álamo Oliveira
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                                                       Álvaro Gomes

A seta, a montanha, o rio, a treva

Toda minha existência sonhei encontrar um poema que me transmitisse sentimentos autênticos. Em vão...   Ler Tudo >>
[16-01-2012]  |  Álvaro Cardoso Gomes
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                                                   António Ganhão

O Despertar dos Verbos

Título: O Despertar dos Verbos Autor: Mário Domingos Editora: Edium Editores Ano: 2011   O Despertar...   Ler Tudo >>
[30-01-2012]  |  António Ganhão
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                                                        António Lobo

POKER COM POSÊIDON ... PARTE II

  ‘ Tirem os chapéus depressa” disse o saltitao que continuava com os olhos esbugalhados pelo susto,...   Ler Tudo >>
[28-03-2011]  |  António Lobo
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                                      António Manuel Pacheco

Tolstói e o Diabo

Um dos mais inquietantes personagens de Tolstói é um jovem russo de vinte e seis anos que        l...   Ler Tudo >>
[27-01-2012]  |  António Pacheco
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  De Maceió-Alagoas – Brasil              Carlito Lima

ATÉ O DOMINGO AMANHECER

- Doutora, na verdade estou cansada, enjoada de meu marido, casei-me cedo aos 18 anos, hoje com 25 ...   Ler Tudo >>
[02-12-2011]  |  Carlito Lima
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                                                           Daniel de Sá

Em nome de Deus

“Em nome de Deus amém”. Assim começa, como muitos outros, o documento em que a Marquesa de Arronche...   Ler Tudo >>
[06-01-2012]  |  Daniel de Sá
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KARAKARIOKA (V) – Perto dos guarda-sóis

Em estado de alarme, abriu os olhos para o céu. Cegou-se com aquela luz ofuscante que fazia tudo fi...   Ler Tudo >>
[11-08-2011]  |  Editor
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                                     Eduardo Bettencourt Pinto

Domingo

A manhã avança lentamente, cinzenta. As árvores têm um silêncio pesado, inabitável, enquanto o Inve...   Ler Tudo >>
[02-02-2012]  |  Eduardo Bettencourt Pinto
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                                                   Francisco Rogido

Crônicas Implacáveis – Diário de Tuvalu IV - Os Efeitos maléficos de Hollywood

Os Efeitos Maléficos de Hollywood Quando adolescente, eu queria ser um desses jovens fo...   Ler Tudo >>
[03-01-2012]  |  Francisco Rogido
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                                                            Nuno Vieira

João (2ª parte)

Ainda não tinha falado com a mãe sobre a mudança, ia falar, estava nos seus planos falar. Faltava ...   Ler Tudo >>
[26-10-2011]  |  Nuno Vieira
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                                                Urbano Bettencourt

Imagens do Concelho de São Roque do Pico

Não é um livro recente. Mas  o facto de ir numa segunda edição e, mais do que isso, o reconhecimen...   Ler Tudo >>
[02-02-2012]  |  Urbano Bettencourt
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                                                   Vamberto Freitas

Cultura Para Todos Os Gostos, E Para Quem Não Tem

Todos os homens têm o direito de ser estúpidos, mas o camarada MacDonald abusa do privilégio. Leon ...   Ler Tudo >>
[03-02-2012]  |  Editor
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A Senhora da Roda de Prata

Ele observava a Lua, como fizera em quase todas as outras noites anteriores. Cotovelos pousados, n...  Ler tudo >>
[14-12-2011]  |  Paulo Serra
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Poema

quando o sol se abre em nós a tua cara resplandece fulgor de lua prata no olhar mãos de mel que serp...  Ler tudo >>
[14-11-2011]  |  Paulo Serra
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A poesia do cotidiano de Ronaldo Cagiano

I                     O sol nas feridas é um inventário lírico da trajetória de Ronaldo Cagiano (196...  Ler tudo >>
[01-02-2012]  |  Adelto Gonçalves
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Dicke: a reparação de uma injustiça literária

I                     Em algum lugar, este articulista já escreveu – e repete-o agora – que, daqui a...  Ler tudo >>
[02-02-2012]  |  Adelto Gonçalves
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LITERATURA JURÍDICA
Parceria

Espaço-parceria para Literatura Jurídica

Espaço disponível... 
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[11-06-2010]  |  Vítor Coelho da Silva
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Espaço editorial

Espaço reservado a eventual Parceria.... 
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[28-10-2008]  |  Vítor Coelho da Silva
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Literatura Popular
Literatura Infanto Juvenil

O Pé de Cereja e o Encanto do seu pé

Tenho um pé de cereja encantado ao lado do último olhar. Em frente, um botão de púrpura calado. Pela mão esquerda enxergada colho uma letra breve. O dedo indica-me a clave e perguntou-lhe: ­- Sol, ... 
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[31-07-2011]  |  Aval Ariam Sanchéz
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MAQUILLAGE. SAIGON. TAKE 3. 1943.

Há um lábiopintado rouge deolhar                           olhar derouge esguio paraa direita      direita  apara esguio em                                                                   em ceguei... 
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[30-07-2011]  |  Aval Ariam Sanchéz
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Sexto planeta desta sesta (Calão Minderico)

No quadrazal da classe do touquim piámos que as da classe da piação seriem gambiadas nos quintos planetas de cada sesta porque os charales que jordarem as do joão das penhas à Classe do Mestre Migança... 
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[16-11-2010]  |  Editor
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Monte Selvagem já reabriu

Ná página Crianças do Público de hoje, o destaque de Helena Melo vai para Montemor-o-Novo. (Agasalhem as crianças e visitem o Monte Selvagem.) Depois de três meses encerrado para manut... 
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[04-02-2012]  |  Letra Pequena                                                  Ver Mais >>
Vídeo

FLIP 2011 - Mesa 06 - Pontos de fuga - valter hugo mãe

Valter que veio da nossa mãe pátria Portugal - nos emociona com seu texto simples, bem humorado e sincero. É lindo mesmo,ver-nos brasileiros respeitados e reconhecidos por nosso jeito de ser e viver por nosso irmão colonizador.

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