As palavras pedra ou faca ou maçã, palavras concretas, são bem mais fortes, poeticamente, do que tristeza, melancolia ou saudade. Mas é impossível não expressar a subjetividade. Então, a obrigação do poeta é expressar a subjetividade mas não diretamente. Ele não tem que dizer eu estou triste. Ele tem é que encontrar uma imagem que dê idéia de tristeza ou do estado de espírito - seja ele qual for - por meio de palavras concretas e não simplesmente se confessando na base do eu estou triste. João Cabral de Melo Neto
Faz
este ano 25 anos que a revista Colóquio-Letras publicou o seu número 100. O acontecimento teve lugar no final do ano (o número
é de Novembro-Dezembro de 1987) e contou, no plano do ensaio, com a nata
lusitana e brasileira da produção teórico-literária (Merquior, Aguiar e Silva, Leyla
Perrone-Moisés, António José Saraiva, Carlos Reis, Eduardo Lourenço, Eduardo
Prado Coelho, Fernando Guimarães, etc.). O volume que ainda hoje possuo foi-me
oferecido, curiosamente, pelo Fernando Venâncio, numa visita que me fez,
morando eu em Amesterdão e ele em Nimega (Nijmegen). Uma
passagem por alguns dos textos ensaísticos faz-nos perceber que o espírito do
tempo dialogava, ou com os vários adventos do ‘mundo pós’, ou com um certo
retorno inquieto às raízes. Um movimento reversível que marcava um tempo de
verdadeira viragem: prospectivamente, a abrir-se e a ‘des-referenciar-se’;
retrospectivamente, a problematizar e a tentar reconstruir o sentido das
perspectivas. É interessante veri...
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Durante
a pausa de Natal e ano novo, estava a folhear uma Colóquio Letras (mais concretamente o Nr. 71 de Janeiro de 1983),
quando os olhos me encaminharam para um breve texto que, por sua vez – súbito
alerta de memória! –, me conduziu à estante. E, no fundo dos meus arquivos holandeses,
lá encontrei a revista citada no texto não assinado da Colóquio. Tratava-se – já tinha esquecido o título por completo –
da Nueva Estafeta de Madrid (Nr. 47
de Outubro de 1982) onde se fazia publicar um interessantíssimo texto crítico
da autoria de Cesar António Molina, todo ele dedicado ao Livro do Desassossego do heterónimo Bernardo Soares de Fernando
Pessoa. Como a memória pode ser agitada por um acaso de leitura! O
texto começa por colocar em evidência a inexorável distância entre Portugal e
Espanha, países visceralmente virados de costas um para o outro. A realidade
não mudou assim tanto nestas últimas três décadas, digamos de passagem. Para
tal, Molina citava Buñuel de Mi último
su...
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A criação de personagens corresponde a um percurso (ou a um
destino) singularizante que organiza a seu modo o sentido das narrativas. Os
personagens começaram por incorporar as narrativas transformando-se em heróis
indomáveis e quase divinos. Depois foram descendo à terra, tentando venerar,
interpretar ou imitar os modelos superiores, cujo variado excurso se situava
nas “Escrituras”. Mais tarde, houve tempo para sonhar com uma autonomia errante
cada vez mais aventurosa e desafiante (Voltaire, Mercier, Diderot, Swift,
Verne, etc.). Um dia, bateram-nos à porta os anti-heróis, os espectros e até as
sombras que se tornavam em voz e em percurso próprio. Durante parte do século XX, os filósofos da literatura (deixem-me
caracterizá-los assim) andaram a tentar explicar o que era a “literariedade”
e baptizaram-na como uma espécie de água benta, ou de espírito santo cordato,
que navegaria na pena e no molde ímpar de certas almas. O livro, na sua
dimensão de objecto perenemente sac...
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A pseudonímia tipo Vaticinium ex eventum constituiu uma
prática textual muito antiga que atribuía a textos autores muito anteriores à
sua enunciação, forjando assim a autoria e atribuindo-lhe uma autoridade e uma
legitimação que doutro modo não teriam. Muitos textos proféticos do levante
ibérico do século XVI foram atribuídos a Santo Isidoro de Sevilha (por exemplo
os que constam no Manuscrito 774 da Biblioteca Nacional de Paris), do mesmo
modo que os textos de Isaías correspondem a épocas tão diferentes como 740-700 a.C. ou 537-520 a.C., para já não falar,
entre outras, da conhecida Profecia de Carlos Magno (reutilizada e
forjada durante séculos tal como a Sibila Tiburtina) que data do
século XIV. Este tipo de dissimulação visava uma transferência de valor e
tinha como objectivo específico sedimentar uma vontade e sobretudo consolidar a
autenticidade – e a transcendência – de uma ficção. Ao fim e ao cabo, a pseudonímia
tipo Vaticinium ex eventum reflectia uma realidade ...
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Entre
Outubro de 2010 e Dezembro de 2011, o site PNETliteratura e o Centro Nacional
de Cultura levaram a efeito um balanço literário da primeira década do século. Durante
este ciclo tiveram lugar as seguintes conferências: “A
expressão literária como esteio da lusofonia” por Guilherme de Oliveira
Martins, “O romance português” por Miguel Real, “O romance brasileiro” por
Maria Aparecida Ribeiro, “A poesia do século XXI em Português” por António
Carlos Cortez, “Os desafios da tradução” por Maria do Carmo Figueira, “O
papel da crítica literária” por José Mário Silva, “A
Literatura na África lusófona” por Ana Paula Tavares, “O acordo
ortográfico e a literatura no espaço lusófono” por Vasco Graça Moura, “A ilusão (da) crítica: os estudos literários
africanos e a ordem eurocêntrica” por Inocência Mata e, por fim, “O mundo
editorial na primeira década do século” por Jorge-Reis Sá. Sem cariz
massificado, mas mobilizando públicos significativos e interessados, o balanço
literár...
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J.M.L.
Le Clézio, prémio nobel da literatura há apenas três anos, foi recentemente
convidado pelo Museu do Louvre para vestir a pele de ‘curador’ de uma exposição
denominada “Le Louvre invite J. M. G. Le Clézio – Le
Musée monde”*. A mostra está patente ao público desde o início de Novembro
passado e pode ser visitada até ao próximo dia 6 de Fevereiro. A interessante iniciativa
dá a ver obras antigas e contemporâneas com origens bastantes variadas. Fiel à
ideia de que não existe uma hierarquia rígida no campo da arte, J.M.G. Le
Clézio coloca lado a lado objectos etnográficos e obras do nosso tempo das mais
diversas proveniências. As topografias, as tipologias e as cadeias temporais
são relativadas e sujeitas a uma coexistência bastante eficaz. Numa relação directa com o universo
literário do autor, a exposição privilegia quatro zonas distintas: África,
México, Vanuatu e Haiti. Estas áreas de criatividade são tratadas como zonas de
contacto através de laços transversais va...
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A Gallimard (colecção Pléiade)
está a publicar, em França, as obras completas* de Marguerite Duras. Acabam de
sair recentemente os dois primeiros volumes que dão conta das décadas de
quarenta a sessenta e ainda do início dos anos setenta (1943-1973), estando os
dois restantes volumes agendados para 2014. O novo suporte recoloca a obra de
autora, por si, em cadeia, como se estivesse separada de tudo o que a mitificou.
Esta possibilidade de leitura seca (e ensimesmada) tornará mais claro aquilo
que Gilles Philippe, no prefácio ao Tomo I, caracteriza como o paradoxo maior
da autora: a solidão extrema da condição da sua escrita que, ao fim e ao cabo,
acaba por revelar um tom “eminentemente colectivo”. É este sigilo que persiste
em toda a obra de Duras, segundo o autor, e que permite que a sua literatura
desbrave o horizonte que separa o interior do exterior e “le dans du dehors”. A escrita de Duras é a escrita
da repetição sábia, do transvase quase mudo, ou seja: dos vasos co...
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Roquette-Pinto
(1884-1954) articulou como poucos o ‘fazer literário’ com a investigação
directa do ‘fazer científico’. Em 1916, propôs o termo “Rondônia” para designar
uma área concreta de Mato Grosso, compreendida “entre os rios Juruema e
Madeira, cortada a meio pela estrada Rondon”. Uma verdadeira província
“antropogeográfica” que viria, também, a constituir-se como título da sua obra
científico-literária de referência. A
experiência de Rondônia (1916) iniciou-se
com uma viagem, protagonizada pela Comissão Rondon (dirigida pelo tenente-coronel
Cândido Rondon), que teve lugar há praticamente um século, ou seja, no ano de 1912.
O propósito da expedição, na esteira das prospecções de Varnhagen ou do
iluminista António Rodrigues Ferreira, era quase enciclopedista: um
levantamento que devia aliar o olhar do etnógrafo, do historiador, do geógrafo,
do sociólogo, do naturalista, enfim: um olhar múltiplo a que não faltaria – e é
esse o dado novo de Roquette-Pinto – o cimento d...
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É verdade que, na antiga tragédia, Édipo matou o pai
e casou com a mãe que tinha o promissor nome de Jocasta. O deleite, a presença
e o mistério da primeira das mulheres
alimentaram o destino singular de Édipo e acabariam, séculos mais tarde, por
dar corpo ao mais célebre ditame da psicanálise.
O caso português é em tudo oposto ao que Freud
enalteceu quando interpelou os desvarios do Édipo
Rei de Sófocles, já que, logo no início da saga, D. Afonso Henriques
transformou a possível atracção edipiana em destemida ira. O ‘Complexo Lusitano
de Afonso Henriques’ mais não é do que a conquista de um espaço de eleição a
que os deleites, a presença e os mistérios da mulher são rigorosamente alheios.
Esta postura teve os seus continuadores de
excelência, sobretudo através dos protagonistas dos chamados “mitos
portugueses”. Pedro jamais partilhou à luz do dia a viva plenitude da sua Inês,
a não ser, ressentido e vingado, no lúgubre beija mão de Alcobaça e depois no
variadíssi...
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As conotações são figuras que se alimentam a si próprias. Uma
passagem como – “A cidade é um louva-a-deus: o fio do corpo ascendente e a
cabeça triangular onde se semeia altitude e o olhar adormece diante de tanta
planície” – cria muitas outras passagens que o leitor efabula, conjectura ou
pressupõe sobretudo sob a forma de ‘não dito’. Este tipo de construção
imaginária, que se abre como uma espiral em crescendo, corresponde à natureza
íntima da conotação e é, na literatura, a par da plasticidade da linguagem (e,
no caso do romance, a par de um bom ‘plot’), um dos alicerces fundamentais da
leitura. Este facto óbvio faz pensar acerca do mito dos realismos (sem ter
que enveredar pela obscura ‘querela dos universais’). Dou um exemplo, que
traduzo de um ensaio de Alain de 1934 (Propos
de Littérature, Gonthier, p.126): “Um homem cai de um décimo andar e vem
ter mesmo à minha frente. O que vi eu?”. Enfim, ‘terei visto’ algo de brutal.
Porventura indescritível. Mas não é essa v...
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O último ‘Ponto
de Mira’ relembrou Aluísio Azevedo e fê-lo no quadro de uma análise à
prospecção moderna da realidade que, como se sabe, valorizou, quer a inscrição
de um novo tipo de sujeito criador, quer a objectividade que esse sujeito
acabaria por revelar e descobrir experimentalmente. Os trechos do autor de O Cortiço (1890) foram, na passada
semana, comparados ao emergir do cinematógrafo, tendo a ênfase sido dada
sobretudo ao modo como o mundo urbano, o movimento mais imediato das ruas e o
encadeamento das acções do quotidiano iam surgindo transpostos e representados
(neste caso literariamente). Se recuarmos um
século e aportarmos em Nicolau Tolentino de Almeida (1740 -1811), encontramos
curiosamente alguns sinais de que este tipo de traçado iluminista e moderno
estaria já em curso. Apesar de Pombal, Portugal não deixou de viver de costas
para o grande devir iluminista franco-alemão da segunda metade de setecentos,
embora tal não signifique, de modo algum, que a épo...
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A necessidade de
definir as origens e os fins, facto marcante de todos os relatos ideológicos e
também do discurso que consideramos hoje como segmentadamente religioso, teve
um impacto decisivo na literatura: o seu cariz narrativo. Por outro lado, a
poética, ou seja a múltipla plasticidade a que a linguagem teve culturalmente
que se submeter para poder dizer o indizível, também teve um impacto
relevantíssimo na literatura: a produção específica de poesia. Colocando de
lado estas duas codificações literárias fundamentais, o tempo e a narração, por
um lado, e a poética e a poesia, por outro lado, sobra um terceiro elemento: o
espaço. Com efeito, o
espaço e a descrição não têm uma história tão hipercodificada, decorrendo
sobretudo, ao contrário do tempo e da poética, de uma regra empírica e cumulativa,
ou seja: de uma herança casuística gerada pela própria prática descritiva no
seio da literatura. É evidente que as mais diversas noções de objectividade (e
da colateral inv...
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Numa
conferência proferida a 17 de Janeiro de 2002, há quase dez anos, que viria a
dar origem ao livro Contra o Fanatismo,
o escritor Amos Oz referiu-se à época em que viveu num Kibbutz. O facto de o trabalho de escritor ser por âmbito e
natureza diverso do trabalho agrícola fez com que Amos Oz muitas vezes se
sentisse mal (sobretudo na hora das refeições na cantina). Passado algum tempo,
entendeu na prática que o modo de preencher o tempo de trabalho de um escritor
é incompatível com cronogramas fixos. A comparação com o tempo de espera, que é
amiúde típico dos lojistas (tradicionais), serviu a Amos Oz às mil maravilhas: “Com
o decorrer dos anos” (...) “habituei-me à perspectiva do lojista. O meu
trabalho consiste em ir para ali todas as manhãs, abrir a loja e esperar pelos
clientes sem fazer mais nada. Se tiver clientes, é um dia proveitoso. Caso
contrário, continuo a fazer o meu trabalho apenas sentando-me e esperando, sem
pensar que me limito a esperar. Porque mesmo ...
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Num encontro realizado em 1965, subordinado ao tema “Que
peut la Littérature?”, Jean-Pierre Faye, na sua comunicação, escrevia: “Foi no
fim de um artigo publicado em 1957 que, pela primeira vez, surgiu pela pena de
Maurice Nadeau, a expressão legendária ‘Nouveau Roman’. O autor afirmou nesse
texto que era a partir de um mundo subitamente ‘lisible’ que as tomadas de consciência tinham lugar e que as revoluções
poderiam florescer”*. O tom do encontro era meio épico e carregado de certezas
e ideologemas próprios da época (basta ler o início das comunicações de Sartre,
Semprun ou Ricardou para que a efígie irónica da actualidade possa
desbragadamente sorrir). Ao fim e ao cabo, neste encontro de 1965 debatia-se a
(dir-se-ia necessária) irredutibilidade entre a escala do ‘Nouveau Roman’ e a
chamada literatura ‘comprometida’ (enfim, comprometida com as fantasias de quem
a teorizava com botas de chumbo e tambores exaltados). No entanto, a alegação de Nadeau, citada por Faye, não
...
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Nasceu há 130 anos
no Rio, viveu apenas 40 anos e o seu nome quase sem fim (João do Rio João Paulo Emílio Cristóvão dos
Santos Coelho Barreto) converter-se-ia na simplicidade de João do Rio. Da sua
oficina extrai-se a memória do recorte urbano do início do século passado. Mas
também a fusão de géneros – na ponte entre o devir jornalístico e o literário –
e ainda o modo singular e desinibido com que o autor representou o espírito das
periferias (sobretudo numa época em que a marginalidade, o sexo e a cor eram
edifícios rígidos). A liberdade da escrita de João do Rio evoca uma certa ideia de
passagem ou de descoberta de um meio – a cidade – para o qual o diagnóstico
aventuroso da palavra (e do corpo) encontra um espaço pleno. Uma respiração
ávida à procura de si. A Alma Encantadora
das Ruas (1908) é um exemplo desta entrega. Como refere João do Rio: “Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e
os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações ...
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Como vimos há duas semanas, a – pouco falada – literatura de
Almeida Faria realiza-se na curvatura onde o compasso da viagem iniciática se
encontra com a sua sublimação. A única perenidade que este jogo reconhece
reside essencialmente no papel da arte. Neste último território, tão vaticinado
por Marta e JC na segunda parte da Tetralogia
Lusitana e entrevisto em Vanitas como pura indagação, o sentido reflecte muitas vezes o desinteresse
contemplativo que Kant projectou num primeiro juízo do gosto. Vejam-se as
palavras do novo anfitrião e coleccionador de Vanitas: “De cada vez que comprei uma peça, concedi-lhe e
concedi-me um período de adaptação para perceber se ela e eu nos pertencíamos”. O olhar entre ambas as matérias, a humana e a artística (que
parece ter sacralizado o emergir moderno), é um olhar onde apenas o silêncio se
projecta. Um silêncio de ouro que convoca um desejo ao mesmo tempo furioso e subliminar:
um e outro, em oxímoro emotivo, a contracenarem com a gran...
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Há quatro décadas, o “no sense”, o verbo corrosivo e a carência de
lógica eram recebidos pelo público como algo exaltante (e não como uma
repetição patológica, caso hoje da moda “stand up”). O surrealismo que, na sua
génese grassara pela Europa a partir dos anos vinte, teve fortes repercussões
em Portugal com uma geração de diferença e constituía ainda algo que cativava
profundamente no início dos anos setenta. Quando os Contos do Gin Tónico de Mário-Henrique Leiria surgiram, em 1973
(uma edição inesquecível da Estampa), lembro-me bem do impacto que a obra teve.
O sistema social e político de então ajudou à erupção. E muito. Outras obras da mesma época (de Cardoso Pires ou de Luís Pacheco,
por exemplo) aliaram a necessidade da alegoria satírica e corrosiva à crítica
surrealizante e mordaz. Este recrudescer da abjecção aliado à resistência –
ainda que não linearmente política – fez o seu tempo e nem sempre tem sido
reanalisada de uma forma cuidada. Num olhar retrospectivo...
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Em várias obras de Almeida Faria, casos de Lusitânia, Cavaleiro Andante ou Vanitas, a figura do anfitrião é
recorrente. Em todos estes percursos, alguém sai de casa e parte para algures
(independentemente da finalidade). Chega depois a esquecer-se de si e do seu
destino, como se comesse uma flor de lótus e a reimaginasse. Encontrar-se-á, a
certa altura, com fantasmas. Enfrentará as forças da natureza que ninguém
controla. Confrontar-se-á sempre com o imponderável. Por vezes, ficará
imobilizado face a alguém que seduz e subjuga. Inquirirá o mundo dos mortos, o
além e o futuro. Transgredirá e enfrentará a adversidade e o destino,
desenvolvendo capacidades próprias e explorando reacções desconhecidas. Mas o facto é que será sempre recebido por bons anfitriões, em
ambiente benévolo – momento ómega! –, num lugar singular, metafórico e por
vezes questionador. Contará a vida a si próprio e aos demais. Regressará ao seu
ambiente original (a figura do ‘Nostos’), depois de ter muda...
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Foi
publicado no semanário O Jornal, a 2
de Outubro de 1981, faz agora precisamente trinta anos. O conto era breve e
tinha um título económico: Perplexidade.
A autora, Maria Judite de Carvalho, falava-nos dos “pássaros
de asas cortadas” como metáfora de uma súbita incorporação do mundo. Tratava-se
de um mundo ainda ‘a preto e branco’ mas já permeável ao cunho mediatizado que
ia avançando paulatinamente na época, embora sem ainda amalgamar tudo num mesmo
horizonte quase sem referências. O cruzamento de olhares entre a criança e os
pais de uma família tradicional (dessas pré-soixante-huitard que proliferaram para além da revolução portuguesa) ilustra esse universo muito
acantonado em valores fixos e francamente afastado do hipnotismo massificado ‘pós-pós’. É
particularmente i...
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A
Desilusão de Judas de António Ganhão
(Lua de Marfim) conta a história, aparentemente pouco
portuguesa, de um serial killer que age com motivações tão inesperadas
quanto sigilosas. Como se o acto de matar conjugasse uma certa poética de
redenção com uma “relação esclarecida com o pecado”. A acção tem como pano de
fundo a bonomia da vida familiar e paroquial do Barreiro e o que a gera parece
emergir do nada. De certo modo, o vilão é também o herói, sobretudo porque se
expõe no coração de um relato que dá a ver as corrupções do mundo bancário, o
microcosmos das repartições públicas, a hipocrisia dos mundos fechados e o
quadro realista da nossa justiça e do próprio inquérito policial. O serial killer criado por António Ganhão tem um certo
apego pela dimensão estética (da vida e da morte). Este facto seminal
reflecte-se no acto de matar e no acto de auscultar a transcendência, como se
um e outro fundassem a teologia de uma procura sem resposta. A imagem do “copo
de brandy”...
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O Outono por trás do reposteiro é o
recolhimento que não se desejaria em nome de uma euforia perpétua. Esta ilusão
que convoca o Verão em nome de uma felicidade sem fim e sobretudo do sonho é,
ao fim e ao cabo, um desejo. Um desejo de permanecer para além da morte. O
mesmo se poderia dizer de Gravura, o
pequeno conto que Irene Lisboa escreveu e que, neste primeiro ‘Ponto de Mira’
do nosso Ano 4 (agora que ultrapassámos um milhão de leitores), voltamos – com
toda a justiça – a recordar: “E o sonho com uma
gravura que havia, muito do meu gosto? Sonhei que aquilo tudo era real: vi-a animar-se, mexerem-se as figuras... Nisto abria-se o portão. Por uma alameda
abaixo vinham dois cavaleiros e uma amazona. Ela falava e ria-se e até voltava
a cara para trás. Procurava com os olhos um belo cavaleiro, desirmanado do grupo, que montava um
cavalo bravio. Também havia mais cavaleiros e amazonas, que se não distinguiam
lá muito bem. Mas tudo aquilo era bonito, era elegante. Saíram todo...
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O site PNETliteratura conclui esta semana o seu terceiro ano de vida. Que se ouçam os parabéns (o efeito melódico sobressai muito mais em tempo de crise).O site PNETliteratura pretendeu, desde 2008, atribuir ao espaço da literatura o silêncio que faz parte da sua natureza de ‘arte que fala a sós’ e o tempo que é a sua própria intimidade de reinvenção crítica. Por isso, não estimulámos aqui a voragem das imagens, nem fizemos da informação uma espécie de ‘dever’ estrito, porque a rede pôs a claro, nos últimos anos, que nem toda a comunicação se ‘deve’ cingir ao programa do jornalismo. O que não significa que o nosso site não tenha oferecido, todos os dias, informação particularmente actualizada (as quase mil “Curtas” publicadas até hoje atestam-no) e até algumas p...
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Embora em pleno Verão, o ‘Ponto de Mira’
desta semana virou-se instintivamente para Natal Chinês, um belo conto de Maria Ondina Braga: “A senhora Tung chegava dois dias antes da consoada. Costumava vê-la logo de manhã, com a
irmã jardineira, no pátio maior, a admirar as laranjeiras anãs nos vasos de
loiça. Via-a casualmente a contemplar, embevecida, o presépio do convento.
Encontrava-a por fim à mesa. A senhora Tung viajava todos os anos da
Formosa para Macau, na época do Natal, a fim de festejar o nascimento de Cristo
na companhia da sua primogénita, a irmã Chen-Mou. Nesses dias, com as meninas em férias, o
refeitório do colégio parecia maior e mais desconfortável: só eu e Miss Lu nos
sentávamos à mesa comprida das professoras. Daí a presença da senhora Tung, que
noutra ocasião passaria talvez despercebida (estirada a sala entre pátios de
cimento e plantas verdes), se tornar nessa altura notável. Baixa, seca de carnes, de olhos atenciosos,
pensativos, a senhora Tung so...
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Depois dos longos anos da guerra-fria e dos nineties pós-muro de Berlim, a primeira década do nosso século foi
particularmente permeável a novas formas de guerra. O 11 de Setembro de 2001 e
essa anunciação que deu (de início) pelo nome de “subprime” (2008) foram, até agora,
os sinais mais evidentes de turbulência profunda. Referimo-nos, claro está, a
guerras sem exércitos convencionais e que nos têm surgido aos olhos dotadas de
um renovadíssimo tipo de exposição das feridas, das mortes e das crenças. A um e outro destes rasgões profundos a literatura foi
respondendo. Com o seu próprio tempo e com a sua imaginação quase sempre
mimética e transbordante. Lembro-me do modo como a protagonista de The
Mutants corria entre estilhaços de vidro, sem entender as razões que teriam
levado os céus de Nova Iorque subitamente a escurecer (trata-se da terceira
história de I am no one you Know: Stories da autoria da escritora Joyce Carol Oats – 2004). Mas depois, passámos
imediatamente da...
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A ensaísta Susan Zontag, desaparecida há apenas sete anos, criou
na sua obra um termo interessantíssimo: a “interpretose”. Ao contrário da
interpretação que pressupõe a compreensão do que se passa à nossa volta em
tempo de paz (dir-se-ia em estabilidade), a interpretose implicaria um frente a
frente com o vórtice de factos que é próprio dos tempos de guerra (ou de crise
muito grave). Este último caso acaba por tornar-se num jogo acidentado que
convoca imagens cristalizadas, fetiches e sobretudo preconceitos com que acabamos por traduzir ou representar o outro. A primeira década do século colocou em cena, sobretudo após o 11
de Setembro de 2001, designações que foram claramente envolvidas pela
interpretose: “talibãs”, “hiperterrorismo” ou “al-qaeda” foram – e são – disso
exemplo. Nos últimos três anos, outras rupturas não menos aparatosas levaram a
sociedade a repetir designações também elas envoltas pelo manto pouco diáfano
da interpretose. Deste último caso é exemplo um v...
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A poesia, numa perspectiva logocêntrica e moderna, baseou-se
sempre no mundo do livro e, portanto, em ferramentas que destacaram o papel
essencial da mimese, da analogia e da individualidade. Ao contrário do que
certos radicalismos chegaram a advogar há alguns anos, é hoje claro que o novo
esteio hipertecnológico e interactivo – que já faz mundo há mais de uma década
– não ‘deseja’ colocar em causa o objecto livro. A cultura “pós-pós-pós”
é subsidiária de uma atitude, não de revogação e superação taxativa do
existente, mas antes, na linha das reflexões de Peter Sloterdijk, da passagem
tranquila de um tempo em que a meta era
um “clímax”, um cume, ou um ponto-ómega, para um outro tempo em que a natureza
é só já puro processo e puro percurso aberto a múltiplas vias. Devemos,
pois, projectar para o futuro – o futuro é cada vez mais um ‘hoje preterido’ –,
não um quadro de ingénua substituição do texto poético sob formato de livro
pela fulguração do hipertexto poético (nos...
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Apesar
das banalizações e dessacralizações que vão construindo o nosso mundo, é um
facto que a visão do criador literário como artífice de uma (qualquer)
transcendência terrena ainda vai fazendo o seu caminho. Trata-se de uma visão
social do escritor que persiste residualmente, apesar do descongelamento do
‘mito das oficinas’. Desde
o emergir moderno que a literatura se tentou desdobrar em imagens que fossem
capazes de dar sentido ao que somos e ao que fazemos. Como se o iceberg das
teologias precisasse de uma nova construção imagética que harmonizasse práticas
e ideologemas novos com um determinado horizonte. Para além da tentativa de
superar a crise moderna do sentido, a literatura (a par de outras artes) sempre
procurou dar forma a certos traços de invisibilidade imaginária que se acreditou
poderem fundar a nossa relação com as coisas concretas. Como se fosse possível
desenterrar explicações, rescrever liturgias e reencontrar – no meio do caos –
relações estáveis de ...
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A crise é o termo que designa todo o presente que não se conforma
consigo mesmo. Espécie de olhar ao espelho, cuja imagem não consola e que, para
além disso, pressagia sempre o final de algo estável e possível. Certas formas clássicas de compreender o tempo
inserem-se nesta estratégia de manutenção do fim como algo ao mesmo tempo
afastado e sobretudo pouco ameaçador. Lendo F. Kermode, apercebemo-nos de que a
crise é indubitavelmente uma dessas formas que é “central no nosso empenho em
prol do entendimento do mundo”. As teorias cíclicas das decadências (Spengler,
Lukács, Toynbee, etc.) constituem também formas, porventura mais subliminares,
de doce preservação e de adiamento do fim. Um terceira forma, a “teoria do
complot”, cai na tentação de explicar os factos inexplicáveis ou inesperados através
de esquemas que M.Herzfeld definiu como de “self-fulfilling prophecy”, ou seja,
pretensamente ordenados num cronograma capaz de salvaguardar e protelar o fim
bem para longe da dime...
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Concluo hoje uma série de três editoriais em que tenho estado a dialogar com alguns dados interessantes de que Derrida fez eco na última entrevista que concedeu em vida*. O tema do ‘tempo da edição’ aflora de forma expressiva nesse texto onde, quase já no seu final, o autor afirma: “As pessoas da minha geração, e de gerações anteriores, tinham sido habituadas a um certo ritmo histórico: acreditava-se no facto de tal e tal obra poder, ou não, sobreviver em função das suas qualidades... durante um, dois, ou como Platão, vinte e cinco séculos. Mas hoje a aceleração das modalidades de arquivo e também a usura e a destruição transformaram a estrutura e a própria temporalidade da herança...”. O tema projecta aquele tipo de nostalgia, pouco desconstruccionista, aliás, em que a sobrevivência do...
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Tal como no editorial anterior, continuo esta semana a dialogar com a última entrevista que Derrida deu em vida e que foi publicada, há já quase sete anos, mais precisamente a 19 de Agosto de 2004, no Le Monde. A certa altura, o autor afirma com ironia – “não consigo deixar de sorrir quando leio aqueles que acreditam estar a violar, sem amor, justamente, a ortografia ou a sintaxe ‘clássicas’de uma língua” – Derrida exemplificava com o francês – “...com ares de quem ejacula precocemente, enquanto a língua, mais intocável do que nunca, os olha...” de cima. Este tema surgira já curiosamente num livro do autor, mais concretamente em La Carte postale (1980). A história deste tipo de inscrições literárias, sobretudo nos momentos de fractura tão caros ao século XX, é longa. Ela atravessa a fúria modernista, reata a sua voragem nos surrealismos, é permeável ao romance que emerge ente guerras, reaparece nas vanguardas dos anos cinquenta e ainda nos movimentos poéticos – mais ou menos visuais – ...
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Na última entrevista que Derrida deu em vida (Le Monde, edição de 19 de Agosto de 2004), o autor referiu-se à sobrevivência como um conceito vital da existência (do “Da-sein”). Sob este ponto de vista, o homem seria por natureza um sobrevivente marcado pela “estrutura do traço e do testamento”. O ponto mais interessante da consideração de Derrida situa-se no tempo, ou seja, no facto de a sobrevivência não dever ser encarada como algo que apenas se relacionaria com o passado e com a morte. Ao invés, a sobrevivência também deveria ser encarada como algo que se relaciona avidamente com o futuro. Por trás desta postulação está a noção de “desconstrução” – o reencontro de todos os possíveis que possam/poderiam gerar realidade – que é uma noção sobretudo afirmativa e que pressupõe, portanto, o radicalizar da oposição vida-morte (factor que Derrida considerou, em Parages – Galilée, 1986 –, como “afirmação incondicional da vida”). A literatura é uma representação deste cenário que é, ao fim e ...
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Escrever um romance é descobrir o porto de abrigo de onde podem partir, não apenas navios em chamas, mas também figurações e celebrações latentes, adormecidas ou por enformar. Escrever um romance é descobrir o porto de abrigo de onde partem sobretudo fantasmas (para Isidoro de Sevilha, fantasma era toda a imagem formada a partir de uma imagem desconhecida: “aparências de um corpo libertas da sensação corpórea”). Escrever um romance é delinear a surpresa que se desenhou, há muito, no segredo mais íntimo que cada presente nunca havia dado a conhecer. Escrever um romance é enunciar, por palavras, a sede sem forma que transforma qualquer mundo numa suposição ou numa simples possibilidade. Escrever um romance é contradizer o lugar comum do olhar que objectiva momentaneamente os mundos que nos são dados; ao invés, escrever um romance é augurar os mais ínvios itinerários por onde se terão esfumado os factos que não chegaram, num dado momento, a ser. Escrever um romance é construir realidade: ...
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Surgirá a literatura como pura invenção do século XVIII, como herança da escrita rebaptizada como arte (desde o Iluminismo), ou tão-só como perenidade não categorizável, na sua afirmação única enquanto reflexo da contingência humana? Não haverá uma resposta única para esse leque de postulações. Cada uma terá a sua lógica e o seu programa. De qualquer modo, há factos que se sobrepõem à possível errância. Tudo terá começado pelos irmãos Schlegel (Friedrich e August) por Novalis e por outros nomes que estiveram na génese do romantismo alemão e do chamado círculo de Jena, decisivo para o entendimento que, ainda hoje em dia, temos do que é a literatura. A revista Athenäum que saiu apenas durante dois anos (no final do século, entre 1798 e 1800) foi a porta-voz desta anunciação que, ao fim e ao cabo, substituía os veios pesados da retórica pela estética, ou seja, pela inquirição em torno do belo (realidade que vinha já de Baumgarten – a meados de setecentos – e que ancorara em Kant na Crític...
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Escrever um ensaio é caminhar na tensão entre teorias: entre caminhos já soletrados, entre clareiras ainda por dizer. Escrever um ensaio é reinventar as ordens com que a realidade disputa o que a diz. A lenda designou por ‘Ovo de Colombo’ a disposição – ou a possibilidade – de nomear aquilo que os pontos cardeais do olhar humano, por intuição, já conheceriam. Assim sucedeu com os pintores do paleolítico, quando empurravam a sua frágil tinta por veios aparentemente aleatórios, mas, ao fim e ao cabo, seguindo sempre as falhas, as fendas e as distensões geológicas já inscritas nas rochas das grutas. Pensar é dialogar com os traços que desenham a obscuridade do cenário. Pensar é decantar o que, um dia, coube em palavras como o ‘tempo’, a ‘natureza’ ou na irrealidade que nos terá levado a supor que era possível fixar duradouramente ‘categorias’ e ‘mediações’. Pensar é rasgar um véu onde se deslocam esboços de intenção, estruturas pré-formadas, fracturas e voragens sem definição própria. A ...
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O último romance que chegou até nós do escritor chileno Hernán Rivera Letelier, A Contadora de filmes (Presença) é auspicioso. Trata-se de uma interessante articulação entre um argumento singelo e um leque de ingredientes imaginários que acaba por tornar uma história aparentemente simples num apelo inteligente. A cena a partir de onde tudo irradia é singularíssima: a pequena casa de zinco junto a uma mina, no Chile, onde habita o pai – paraplégico e ex-trabalhador dos fundos da terra – os seus quatro filhos e a filha, a grande protagonista. Para reforçar a crueldade do quadro, a mãe aparece no início como figura ausente (saiu de casa... abandonando filhos e o marido, quando este sofreu o acidente de trabalho que o incapacitou).A filha tem treze anos e acaba por ganhar o grande desafio aos quatro irmãos. Por outras palavras: após vários testes, é ela a escolhida pelo pai para ir ao cinema e, depois, para contar os filmes à plateia familiar que se reúne à noite na divisão do ‘living’ (“....
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No prefácio à segunda edição de Memórias do Cárcere (1862), Camilo tentou ajustar a sua ainda recentíssima obra em dois volumes às expectativas, ditames e juízos do público. Por trás da gestação do livro estava a prisão de mais de um ano (de 1 de Outubro de 1860 a 16 do mesmo mês do ano seguinte) que, como se sabe, resultou de apuros amorosos que eram vistos à época como ilícitos sem qualquer tipo de saída. Nem a visita do rei Pedro V à Relação terá valido a Camilo uma solução mais expedita e razoável. Não deixa de ser curioso reler alguns passos deste singularíssimo texto, até porque, pelo menos desde os anos setenta do século XX, a posição do leitor/receptor passou a ser entendida como factor vital da significação literária. O escritor começa por situar a natureza do enunciado: “As Memórias de Cárcere foram escritas na convalescença duma grande enfermidade moral”. Uma possível erupção fórica parecia querer anunciar-se. Mas não. O primeiro parágrafo encarrega-se, de imediato, de realç...
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‘O actor deixou de conseguir representar’: eis o primeiro dos anátemas. A máxima faz imediatamente lembrar o rosto assustado de Michel Piccoli, o olhar cáustico de John Malkovich e a melancolia prostrada de Catherine Deneuve. E com eles ocorre-nos logo Manoel de Oliveira e o monumental Vou para casa, filme já com uma década (2001). Além do mais, a filmografia de Oliveira é muito literária, porque faz da palavra uma espessura primacial e da dissimulação da imagem o que ela é: uma pura ilusão, um cenário ou uma “quarta parede” (a expressão é de Dário Fo) ambulante e quase alheia ao relâmpago da montagem pós-griffithiano que o realizador de Francisca, convenhamos, nunca levou totalmente a sério. O campo literário da obra de Manoel de Oliveira é substancial, não apenas pelo modo como enuncia a cena, mas sobretudo pelo alicerce que a cria. Em Vou para casa, surge a certa altura um realizador que propõe ao protagonista (Piccoli representando Gilbert Valence) o papel de Ulisses, no que seria ...
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Foi Garcia de Resende quem teve a feliz ideia de reunir, nos princípios do século XVI, num Cancioneiro poético, o que havia sido escrito em obras de vários autores, “passados e presentes”. A ideia antológica dos cancioneiros andava na moda, sobretudo em Espanha. E foi em pleno momento de viagens e império, ou seja, corria o ano de 1516, que o Cancioneiro Geral saiu a público. Para além de compilador desta imensa publicação e de cronista, Garcia de Resende foi secretário particular dos reis do século de ouro, D. João II e D. Manuel I. Um verdadeiro Maquiavel ao serviço do seu príncipe (até mesmo pelas destacadas responsabilidades que assumiu na famosa viagem a Roma de 1514, quando o rei português brindou o papa Leão X com... um elefante). O prefácio ou “prólogo” que Garcia de Resende redigiu para o Cancioneiro Geral fala por si. No final, ao ilustrar as intenções da obra, o autor revela claramente o devir maquiavélico: “E porque, Senhor, as outras coisas sam em si tam grandes que por su...
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No editorial de 4 de Abril passado, focámos a questão da genologia romanesca, ou seja, de tudo aquilo que está experiencialmente na génese do ficcional sem que, naturalmente, se confunda com o biografismo estrito. Vimo-lo a propósito de Sinais de Fogo de Jorge de Sena e de um texto de Maria Alzira Seixo publicado na Colóquio Letras há mais de um quarto de século. A questão evoluiu muito nas últimas décadas e superou, pelo menos pragmaticamente, os preconceitos relativos à imanência textual. Por outras palavras: as próprias indústrias culturais dão hoje grande importância ao património imaterial e é por isso que o público, para além da leitura dos textos em si, se interessa cada vez mais por roteiros de escritores, por acervos vivos de romances emblemáticos e até por lugares e topografias onde poetas tenham convivido com o seu imaginário criador. A genologia diz, pois, respeito aos vestígios e indícios materiais da criação literária. Quem não seguiu já o roteiro pessoano da Baixa de Lis...
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Tenho-me muitas vezes confrontado, em sessões e debates ao longo dos anos, com certas perguntas que geralmente remetem para o sorriso silencioso, para o tabu ou até para o irrespondível. Não, não se trata da clássica “Por que escreve?”; trata-se de uma outra formulação que surge também amiúde: “O que distingue um escritor de um não escritor?” (por outras palavras: o que distingue um romancista de alguém que ‘apenas’ escreve romances?). É óbvio que separar generalidades como ‘arte’ e ‘não arte’ é algo relativamente fácil, pois remete para um domínio histórico. Uma noção como a arte adquiriu o sentido que lhe atribuímos ainda hoje numa determinada altura e o percurso dessa noção é, enquanto generalidade, facilmente localizável. Mas nem sempre é fácil, de facto, enquadrar a questão mais pessoal: “O que faz alguém que escreve não coincidir com alguém que pratica a arte da escrita?”. Há realmente perguntas que se repetem, porque são sintomas de coisas bem mais profundas. Vejamos: a escrita...
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Há muitos modos de esculpir um bom “plot” (ou trama). É quase inevitável que qualquer romance resulte, ao mesmo tempo, de vários labirintos da memória. O próprio acto de narrar acaba por criar naturalmente uma espécie de arco entre um agora que inunda a aparência do imediato e um ‘ter sido’ que deambula em pano de fundo. Seja a narrativa alternada, clássica (perspectiva omnisciente) ou apenas focada na voragem do presente; seja a narrativa gerada em ‘media res’ (no simples curso das coisas), na pluralidade das polifonias ou noutros dispositivos de flutuação discursiva, o certo é que o ‘existir no mundo’ força sempre a confluência entre a dimensão do vivido (irradiando do passado) e a tentação de domar o ‘face a face’ com o mundo e a existência pura e dura (respirando no presente). Ainda que involuntariamente, o leitor procura sempre preencher esse arco que se desenha entre a memória e o presente. Fá-lo como quem repousa ao agarrar-se a uma âncora. Mas fá-lo, paradoxalmente, na perspect...
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O Livro de Eros de Casimiro de Brito está ser publicado no PNETliteratura praticamente desde o seu início. A edição está agora muito perto de atingir os seiscentos aforismos (embora, segundo informações do autor, a obra se cifre já em 2698 fragmentos!). Nem sei, sinceramente, se a designação “aforismo” corresponderá à substância do discurso iluminado que Casimiro de Brito projecta ao mesmo tempo nas estrelas e na terra, colocando de braço dado a contemplação apolínea e a nocturnidade dionisíaca. Há neste vasto e belo texto poético um metatexto sem fim e há neste vasto e intrincado ensaio uma liquidez poética também sem fim. Um corpo que se diz a arder e que merece constantemente ser lido e relido.. O discurso que explode em Livro de Eros não inibe nem esconde um 'eu' e um 'tu' que se disputam e que se alcançam, ainda que a alteridade seja o grande precipício da saga evocada. Trata-se, por outras palavras, de um discurso que vinca e salienta o sexo como aquilo que ele é: uma carne que e...
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A arte como algo que advém do humano e não do divino corresponde a uma ruptura que evolui lentamente da Renascença até ao alvor moderno. O programa romântico a par do conceito kantiano de “génio” delimitam o tempo, a partir do qual a autonomia humana da arte se torna em evidência. Nesta nova moldura, a ideia de poeisis (a linguagem inventando-se a si própria – à imagem da autonomia da ‘techno’ industrial) é crucial no fazer literário. Hans Blumenberg, na sua majestática obra Arbeit am Mythos, propõe três modos fundamentais de interpretação da poiesis ao longo do mundo moderno. Sigo, nesta breve reflexão, a síntese presente num importante ensaio de Maria Teresa Cruz sobre o autor*. Por um lado, a poiesis é entendida como reduplicação total da realidade. Aplicando à literatura: é como se o trabalh...
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O século XX tudo fez para separar o escritor do seu texto. De um modo ou de outro, apesar das atraentes complexidades teóricas, o intuito reiterou-se ao longo de décadas: evitar que o vivido pela pessoa que escreve pudesse ser convocado no texto ficcional por ela produzido. O pretexto, o medíocre autobiografismo que galopara nas primeiras duas décadas do século XX, teve o seu primeiro mentor no formalismo russo. Este primeiro estruturalismo foi pioneiro desta tendência e viu nos functivos de Jakobson a sua primeira chama. Quatro décadas depois, a metafísica da gramática narrativa levaria A. Greimas – e muitos outros modistas da altura – a recusar a via da intencionalidade, dissociando-se de qualquer programa que considerasse em cena o chamado “sujeito psicológico”. A ideia de que somos escritos (e ditos) através da linguagem – dissociada do mecanicismo estrutural &ndash...
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A fusão do ensaio com o romance é – ou poderia ser – o ponto de encontro ideal entre a digressão exploratória de um pensamento e um determinado curso ficcional animado por plot e pelo necessário músculo plástico da linguagem. Porque não há ensaio sem uma certa latitude de pontos de partida a que se vão emprestando conjecturas relacionais e porque não há romance sem trama, sem actantes vincados e sem poética. Ora este ponto de encontro fez moda no século XVIII, quando os autores do alvor moderno e iluminista ainda procuravam um caminho para codificar géneros, criou antes precedentes solares em páginas como as de Montaigne e acabaria – bem mais tarde – por ancorar na volatilidade errante do questionar romântico. Os vínculos ideológicos foram o grande travão a este tipo de interface criativo que foi fecundo em época...
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Assim se Esvai a Vida é o último título de Urbano Tavares Rodrigues saído a público (Dom Quixote) e reúne, curiosamente, três livros: a novela que dá nome à obra, o Cornetim Encarnado – reunião de vários registos (diário, reflexões, poemas, memórias, etc.) – e ainda Os Olhos do Demónio e Outros Contos, um leque de pequenas narrativas. Um prodígio de persistência e de perserverança. E, no entanto, apesar da real projecção da obra literária de Urbano – pondo de lado ideologemas e outras obstinações mais do que legítimas –, não deixa de ser estranho como nunca a vimos devidamente premiada e distinguida. A questão de fundo devia ser simples e traduzir-se-ia por uma pergunta – também ela – elementar: por que razão certos autores são tendencialmente obliterados e outros tendencialmente difundidos? Bem sei que uma pergunta desta natureza, até pelo modo como é enunciada, não deixa de ser bastante ingénua. Era preciso projectar na literatura a visão politiqueira e estrita da “cabala” para que p...
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Numa crónica recentemente publicada aqui no PNETliteratura, Patrícia Melo referiu o livro Vida, o filme de Neal Gabler para assinalar uma caracterização – digamos ontológica – do cinema: “o cinema é a transcendência fácil”. De facto, a proto-história cinematográfica encarna uma reencenação da caverna platónica tornando nela possível a imagem focada, nítida e impressiva. Como se a generosidade dos deuses nos desse, de modo automático e elementar, o fascínio de uma revelação milenarmente anunciada. Esta ilusão só se tornou possível devido à conjugação de vários factores que a precederam, entre eles a própria fotografia, a stroboscopia do princípio de Joseph Plateau (ou a simulação do movimento, de acordo com as leis da persistência retiniana) e, por fim...
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Na conferência que António Carlos Cortez proferiu no Centro Nacional de Cultura, no quadro do balanço literário da primeira década do século, ficaram claramente definidas três grandes tendências que animam a mais recente poesia que se escreve em Portugal. Por um lado, uma reacção ao realismo mecânico e excessivamente denotativo que foi moda nos primeiros anos da década; por outro lado, alguma recuperação da poesia entendida como puro trabalho de oficina ao nível da linguagem; por outro lado ainda a poesia como formato essencialmente rítmico (e com recuperação de alguma tradição lírica). Dir-se-ia estarmos (de novo) virados para uma dominante estésica que reclama – ainda que sem manifestos ou apologias – um reatar da poiesis (a linguagem gerando-se a si própria), uma certa ‘desinstrumentalização’ face ao real e uma atitude de pesquisa em torno da proporção e da cadência. Como se o imediatismo ‘sem derrame’ tivesse ancorado noutras paragens. Como se a ideia de uma janela figurada que di...
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Faz no próximo mês de Abril um ano que uma versão improvisada e actualizada do clássico Romeu e Julieta, de William Shakespeare, está a ser enunciada através do Twitter. O projecto é da Royal Shakespeare Company* e conta com seis actores que dão corpo aos mais diferentes personagens da trama, escrevendo diariamente sobre as suas vidas e os acontecimentos do mundo em tempo real. Um desafio realmente contemporâneo e sobretudo aberto aos olhos de todos. Sem vestes platónicas, nem tempos de pose à Disderi. É um facto que na rede nada culmina e tudo se processa, já que nela não existem pontos nevrálgicos ou zonas de clímax. O que surge, logo se remove e reconverte. A narrativa criada deste modo, por mais grelha ou guião para que remeta, não necessita de uma retórica baseada em analepses e prolepses (flash-backs e antecipações): o que nela conta é o registo que acompanha a mais pura imobilização do instante. O que nela cativa é a duração, a iminência imediata, o 'estar lá'. A propósito do c...
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Há romances que escapam ao plano, à rigidez da geometria, ao programa estriado e definido em mapa. De repente, as personagens como que entram no átrio da cena e fazem-se ver, dão-se a ser com uma liberdade difícil de situar. As situações que se agenciam vão, uma a uma, mergulhando na água que virá a ser a sua. Turbulenta ou plácida. Muitas vezes, nem uma coisa nem outra. Dir-se-ia antes ser uma água aberta a esse limbo por onde ascendem possibilidades e onde, à conjectura, a ficção prefere antecipar cenários que valem por si, que não são de todo instrumentais, isto é: que significam pela extrema singularidade do que propõem. Um romance pressupõe inevitável engenharia, cálculo, premeditação urdida e um trabalho no mínimo árduo com os materiais disponibilizados pela memória e pelas imagens que se vão convocando. Sempre senti, interiorizei e defendi que assim fosse. Mais: sempre reflecti que assim devia ser. Quer antes, quer durante a oscilação de epicentros em que a escrita vai sendo age...
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Faz agora 91 anos, poucos dias após o Natal de 1919, Marcel Duchamp comprou numa farmácia de Le Havre um frasco de vidro. Com a cumplicidade do farmacêutico, desfez-se do líquido que o frasco continha e voltou a fechá-lo hermeticamente. Uma semana mais tarde, já em Nova Iorque, Marcel Duchamp deu a “obra de arte” à família que o alojou e baptizou-a com o singelo nome de “Ar de Paris”. Quando, vinte anos depois, este mesmo frasco – já então parte da Colecção Arensberg – se abriu de modo involuntário, é óbvio que teve que regressar a Le Havre para receber, na mesma farmácia, um novo ar e uma novíssima tampa. Claro que o nome da “obra de arte” se manteve incólume: “Ar de Paris”. Nesta quase ode marítima, à parte as mil considerações sobre o ‘ready-made’, o mais i...
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Há década e meia, o meu amigo Carlos Pinto Coelho convidou-me a ir ao Acontece para fazer uma “proposta”. No então programa do Canal 2 da RTP, a rubrica pretendia dar voz a algo de singular, interessante ou até inadvertido. Várias foram as pessoas que, na altura, aproveitaram os sessenta segundos da rubrica para proporem leituras de Joseph Conrad e Wislawa Szymborska, audições de Lionel Cecil e Leo Slezak ou visitas ao Guggenheim que abrira as suas portas, em Bilbao, em Outubro de 1997. Outros ainda, porventura menos eruditos, terão sugerido viagens a Taiwan ou à indiana Noida.Mas eu aproveitaria a oportunidade para propor aos telespectadores que faltassem ao trabalho durante um dia. Apenas isso: descansar, dar forma à preguiça, ficar em casa, experimentar um banco do jardim, auscultar coretos e vultos, espreitar montras, decotes, olhares, nuvens altas, quiosques ou cafés imobilizados pelo t...
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Editado por Fernanda Irene Fonseca, saiu faz agora três anos, o Diário Inédito de Vergílio Ferreira. Para além de romancista e ensaísta, o autor ficou também conhecido como diarista de fundo, por via sobretudo dos volumes do Conta-Corrente (entre 1980 e 1994). O que não era público até há pouco tempo era a aventura do diário, escrito ao longo dos anos que sucederam o final da Segunda Grande Guerra Mundial, de 1945 a 1949 (apenas com um ligeiro intervalo em 1947). Escrevo este texto no momento em que redescubro o livro na estante e me lembro, quase ao mesmo tempo, de ter ido uma vez à casa de Vergílio Ferreira na Av. dos Estados Unidos da América, em Lisboa, no final dos anos oitenta. Mas o diário segreda-nos de muito mais longe, pois dá conta da chegada de Vergílio Ferreira a Évora onde viveu durante quase década e meia. Os ecos da vida literária e política do país, nesse período conturbado do pós-guerra, também ecoam nas pouco mais de cem páginas do volume editado com a chancela da Be...
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Leio no Digestivo Cultural* um apontamento interessantíssimo que dá conta do dia em que Affonso Romano de Sant´Anna se deslocou ao funeral de Vinicius. O testamento literário é digno de ser relido com vagar: “Cancelo duas entrevistas, com o brasilianista Malcon Silverman e com o poeta cearense Adriano Spínola ― o qual levo ao enterro. Lá encontro Otto, Fernando, Hélio, Autran, Nelson Motta, Jomico Azulay, Jaguar, Sérgio Cabral, Sábato Magaldi, Edla van Steen e dezenas de outros. Drummond lá está com Dolores, ele abatido com a barba por fazer por causa da herpes que pegou há dias.” (…) “O enterro não é triste. Este poeta viveu a sua vida melhor que muita gente. Dizem que Drummond sempre diz que queria ser Vinicius (por causa da desrepressão existencial). Lá estão também Callado, Gullar, Moacyr Felix, Ênio e outros. Olho todos em volta, todos nós ensaiando a própria morte, imaginando seu enterro e as caras dos outros.” Podia ser o início de uma teia ficcional. Callado, o agora recé...
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No início de 2004, por sugestão de um cineasta, transpus o romance O Bolor de Augusto Abelaira em guião para um filme que nunca viria a realizar-se. Adaptação solitária e sem ecrã à imagem da larga maioria dos textos e da larga maioria do vivido. Nem sempre a vida é um texto e nem sempre um texto emerge da nossa própria vida. Parece ser o caso, quando, por mera coincidência dos arquivos do ‘Word’, voltei a ler há dias este texto particular (por mim já sinceramente esquecido). Um texto desta natureza - centena e meia de páginas, imagine-se! -, obliterado da consciência e apeado de qualquer destino, não passa de um texto morto, embora o cadáver seja de teor realmente diferente do cadavre exquis de que os surrealistas se serviram para refinados cocktails. Há neste texto, no entanto, algo de singular: como que se dá a ver como oferenda sacrificial a si próprio, numa espécie de antropofagia em ilha deserta. As frases, nuas por natureza da escrita guionista, atropelam-se como que a tentarem...
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No conto inicial de Resposta a Matilde de Fernando Namora (1977), de seu nome Era um desconhecido, encontrei fortuitamente, há dias, esta interessantíssima passagem: “A literatura tem uma lógica, a vida tem outra./ - Pois experimenta misturá-las. Talvez te dê o mesmo resultado de quando se cruzam as linhas telefônicas e nos pomos a escutar uma conversa alheia, que nos revela insolitamente uma outra gente e um outro mundo. E, no entanto, esse mundo é o nosso, essa gente somos nós.”. A história relatada neste conto é inocente: um casal põe em marcha um plano que leva a mulher, Manuela, a ter encontros amorosos espaçados com Arnaldo, um professor que vive entre cafés e o ócio mais ou menos lúdico de uma vida ainda não ‘ligada à máquina’ (leia-se: à rede e ao digital). A empresa complicar-se-á e, no final, o marido – Daniel – é levado a suicidar-se. O tom moralizante, explorado aparentemente nos antípodas, desagua no enigma, no logro e no ‘pathos’ existencial. A escrita de Namora é clássi...
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Houve um tempo português em que a crónica quis libertar a sina do sinal. Por outras palavras: retirar o telhado pesadão a uma escrita que exagerava em verosimilhança, em cariz almofadado e em pessoana seriedade. Foi nos anos oitenta, vivia eu na Holanda e era assinante do Expresso. Miguel Esteves Cardoso foi o papa angélico da galopante cenografia que acabou por ter imensa influência na geração que se seguiu ao demiúrgico Turn. Década e meia depois, a blogosfera lusitana - hoje já apenas um vestígio do seu fulgor inicial - herdaria parte da emboscada expressiva em muitos dos seus melhores cultores. Este é um campo ainda relativamente virgem, ou seja: por estudar, por auscultar. Por desbravar. Nessa lenta peregrinação literária, que ajudou a desmontar os subtextos binários e a diesel da ideologia (isto é: da escrita baseada na prova, na farpa previsível ou no bate-bate pimba dos receituários), a crónica ganhou novos sabores e saberes. Ao fim e ao cabo, entre a imagem escrita e o que el...
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Foi Ducrot quem escreveu que o fenómeno religioso não se poderia explicar, caso “a própria língua não tornasse possível a fala de alguém ser simplesmente a fala de outrem”. Este ponto de vista simplista, mas interessante, põe em paralelo a voz do profeta que transmitia a voz de “Deus” e o encantamento digital das mil mediações que nos repõem, hoje em dia, o mundo na nossa sala de estar. Há em ambos os casos uma distância entre a voz que se ouve e uma outra voz que se oculta. A literatura – profética ou não – sempre se baseou neste mesmo princípio: da Sibilia Tiburtina (séc. III) ao Muspili (séc. IX) e à Carta de Adso (séc. XII); dos Contos de Canterbury a Petrarca e a Dante, este mesmo sortilégio vagueia na solidão da leitura. Até o próprio Bloom de Uma Viagem à Índia de Gonçalo M. Tavares, cuja demanda tem lugar numa galáxia onde escasseia um sentido último para tudo (um ‘telos’), nos lega este mesmo desdobrar encantatório de vozes. Mas eu não creio, sinceramente, que o fascínio do sa...
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Harold Bloom revelou, há precisamente três anos, no The New York Review of Books*, que tinha decidido “voltar a ler Shakespeare em vez da Bíblia, depois de ter regressado à vida – foram essas as suas palavras – na sequência de alguns dias de internamento. E a conclusão apareceu então como óbvia: “Não há separação entre vida e literatura em Shakespeare”. Este “back to life” não podia ser mais auspicioso e até actual. Se a Bíblia é uma imensa alegoria que desliza entre o exemplo e o vivido, o grande dramaturgo inglês foi sobretudo o organizador genial de mil tradições orais que dominavam o seu tempo. É precisamente a mesma diferença que hoje existe entre os acontecimentos que nos media se reproduzem como cerejas, criando cadeias ficcionais, apaixonadas e delirantes e os acontecimentos que se constituem, no nosso dia a dia, como aparições ou vaivéns de conjuntura. De facto, o público actual procura as grandes metáforas da vida nas narrativas que os media vão desdobrando no quotidiano. E ...
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Existe um mal, nem sempre óbvio, de que padecem muitas e muitas biografias: o não entenderem que as histórias pessoais são as histórias mais importantes do mundo, justamente por nelas se rever o silêncio, o inenarrável, um desmedido caudal de anonimatos, mil acasos imperceptíveis e, por vezes, alguns nichos de loucura. Muitas vezes, as biografias incidem mais nas narrativas previsíveis – e historicamente descodificáveis – do que naquelas em que importaria dar o desejado salto do ‘dito’ para o ‘não dito’. Uma pessoa é um imenso espaço de brancura – por preencher – e não um esquema resolvido por um cheque-mate matreiro. Dir-se-á que o mal de muitas biografias residirá no mito de Andrea Palladio. Por outras palavras: fazer corresponder a um conjunto de formas particularmente simétricas e centradas aquilo que é a lógica instável, errante e imprevista de um organismo vivo. O que resta, quando alguém parte, é uma constelação táctil de memórias. E o bom biógrafo não pode deixar de entender es...
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Hans Castorp, protagonista de Montanha Mágica, decidiu, no último terço da obra de Thomas Mann (1924), comprar um par de esquis e dar a sós os primeiros passos numa das encostas próximas do Berghof. Hans concluiu que “depressa adquire uma prática quem dela necessita profundamente”. E neste caso, convenhamos, a própria prática – de índole desportiva –, não era bem vista ou até desejada em Davos pelos responsáveis do sanatório mais célebre do século XX. Quatro anos após a saída a público do grande romance de Mann, a Revista Bibliográfica, Suplemento do Magazine Bertrand (de Abril de 1932), fazia preceder a lista de livros do mês com um editorial emblemático, cujo título era “Porque se não lê mais em Portugal?”. O artigo – não assinado – falava da vida moderna e dos novos aspectos lúdicos que iam compondo o quotidiano. E antes de concluir acerca do “mal especificamente nosso”, argumentava de modo concludente: “Se as muitas diversões que agitam a vida de hoje furtam o tempo para a leitura,...
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Em meados de Setembro passado, troquei com Ondjaki breves impressões sobre o termo “Lusofonia”. Já se sabe que um termo nunca é apenas um termo. Cada palavra que utilizamos atira-nos forçosamente para dentro de um problema, de uma inquietação, de um oceano à procura do que o faz revolto. De facto, tendo em conta o magma profundo que realmente o move, Ondjaki crê na pouca adequação do termo “Lusofonia” e eu estou liminarmente de acordo. Escrevia Ondjaki num dos seus mails sobre as possíveis alternativas para o uso do termo “Lusofonia”: “Muitas vezes, sobretudo no início, me faziam essa pergunta: então que nome seria? E eu, de facto, até hoje, ainda não tenho um nome. Mas eu não digo “não tenho um nome melhor”, porque esse de facto não me serve. Tem perigos e problemas de conotação que não me agradam, e sobretudo para quem não é português, repito, às vezes o lado fonético incomoda”. Eu creio que não será apenas o lado fonético que incomoda. “Lusofonia” pressupõe um ‘estar em comum’ a pa...
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Organizado pelo British Council, teve lugar em Berlim, entre os dias 11 e 14 deste mês, um seminário literário designado “Our Shared Europe”. O propósito do encontro foi particularmente interessante e visou problematizar e reflectir sobre a relação entre a expressão literária e o vaivém identitário que a Europa hoje em dia respira. Os escritores convidados corresponderam a esta topografia imaginária que pressupõe o convívio entre heranças tão ricas quanto diversas. A começar pela “chair”, a escritora Ahdar Soueif, que partilha a literatura inglesa e egípcia, escrevendo em ambas as línguas - o Inglês e o Árabe - como quem partilha vários oceanos no mesmo mar. O mesmo se passou com os restantes escritores do painel principal. Foi o caso de Robin Yassin-Kassab, meio inglês meio sírio, e de Jamal...
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Imaginemos que a história dos mineiros do Chile – ainda não totalmente apagada pelo relâmpago mediático – teria acontecido há mil ou mesmo há dois mil anos. Não esta história, evidentemente, pelas razões tecnológicas que a possibilitaram, mas uma outra análoga ao nível do impacto que teria tido numa dada comunidade. É óbvio que um acontecimento de efeito extraordinário teria repercussões fortes e vários seriam os relatos orais que o teriam propagado com hipérboles inevitáveis para melhor sublinhar o lado incomum dos factos (lembro-me sempre de uns relatos de batalhas medievais, que estudei há bastantes anos, que davam conta do “sangue que chagava às barrigas dos cavalos”). Este lado incomum dos factos seria ainda sujeito ao filtro tímico (euforia vs. disforia), na medida em que uma matriz inicial do texto daria origem... ou a relatos de enaltecimento (do papel de deuses, certamente) e de sucesso, ou a relatos de catarse (evocando a - real ou imaginada - derrocada e consequente tragédia...
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Quando se fala de mouriscos, fala-se de comunidades islâmicas ibéricas que coabitaram com a maioria cristã, após as conversões obrigatórias de há pouco mais de cinco séculos. Uma das mais representativas dessas comunidades foi a comunidade aragonesa (20% por cento da população da região entre 1525 e 1607, a data da expulsão). O cimento porventura mais coeso desta comunidade específica foi a sua literatura, conhecida como “aljamiado-morisca” e que formalmente se baseou num sincretismo espantoso: o uso do alfabeto árabe em conjunção com uma língua românica (neste caso, transição do aragonês para o castelhano), embora recheada de substantivos e decalques sintácticos de origem árabe. Dos muitos géneros enunciados e praticados por esta literatura clandestina e não-arabófona (muitos dos manuscritos foram sendo descobertos, no século XIX, dentro da parede de edifícios rurais) contam-se as lendas de base eminentemente oral. São sobretudo relatos de natureza ficcional que dão corpo ao imaginár...
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Billy Bud de Herman Melville é uma obra particularmente interessante e bela no modo como explora o topic medieval de certa literatura profética conhecido por exempla. Por um lado, Melville reata uma história disseminada oralmente ao nível da lenda, desde o fim do século dezoito até ao fim do século seguinte. Por outro lado, o autor conduz o relato através de uma cilada que alimentará todo o sentido da trama. O caso a que Melville recorre, em Billy Bud, ocorreu no Verão de 1797, a bordo do navio Indomável que partira de Liverpool para se juntar à esquadra do Mediterrâneo. A descrição inicial do protagonista é importante pelos detalhes que enumera, mas também pelo curioso metatexto inscrito pelo narrador: “Embora nas horas de tormenta e de perigo fosse tudo o que um marinheiro deve ser, quando era submetido a um forte choque emocional a sua voz perdia” a “singular musicalidade, reflexo da sua harmonia interior, e fraquejava, hesitante, transformando-se numa espécie de gaguez ou mesmo pio...
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O romance não se inicia em estado de clímax, como é evidente. Afinal, mais do que permitir ao leitor cair imerso e desamparado no vórtice da cena, Ernesto Sabato limita-se a dar voz ao protagonista para que anuncie o que é decisivo na narrativa: “Bastará dizer que sou Juan Pablo Castel, o pintor que matou Maria Iribarne”. O jogo parece ficar todo à mostra, poderá pensar-se, mas não é isso que realmente acontece. Até porque um clímax coloca em jogo actos, factos e situações, enquanto a tensão criada pela declaração de Castel apenas gera um estado de alerta. Mas um alerta que cativa e que conduzirá o leitor a ter que virar a página. A mestria começa justamente aí. O enredo abre-se depois do mesmo modo que se abre um desdobrável: no dia da inauguração do Salão da Primavera de Buenos Aires de 1946, uma mulher fica muito tempo parada diante de um quadro do próprio Castel. A figuração impunha, em primeiro plano, uma cena onde contracenavam mãe e filho, uma imagem levemente desfocada sobre o ...
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Acontece com Livro o que me acontece com qualquer outro grande livro. Prefiro sempre o que suscita o indizível e o inexplicável ao que se torna apenas confessionalmente dito. Como escrevi noutro texto sobre a mais recente obra de José Luís Peixoto, nada cabe e tudo se extravada em passagens como – “Os anos tinham passado sobre aquele livro. Em tamanho, o livro era uma espécie de morte. A Adelaide aceitou o livro e ajeitou-o na alcofa.” (p.68). Habituei-me a ler José Luís Peixoto, entre o jeito críptico e a circularidade dos modos, como quem se confessa às paredes da sua “vila”: esse microcosmos diluído em silêncio, cal e matéria de feno que vai sempre contracenando e tratando a poética de JLP por tu. A narrativa, para além da história que vai vincando, vive sempre da elementaridade, da economia e da simplicidade que brota da economia de frases como – “Parei o carro, as cigarras” (p.215) ou “cheguei antes da minha mãe, missa demorada” (p. 216). Livro coloca em cena uma época e assinala...
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O reatar da tradição oral na literatura tem uma história que excede a própria história da literatura: eis um paradoxo tão labiríntico quanto verdadeiro. De Homero a Shakespeare, do anonimato oral dos textos proféticos judaicos aos cancioneiros medievais, há, de facto, uma imensa torrente que desaguará, em força, no século XVIII inventor da “poiesis” e da normatividade do que se passou, a partir de então, a significar como sendo a literatura (e a prática literária). Mas muitas foram as obras modernas que não deixaram de trocar a criação estética de um ‘plot’ e da linguagem pela recuperação de uma boa história já antes ‘dita’ e vivida. Dois modos de figurar a realidade: de um lado, ungindo os materiais que se inventam; do outro lado, luzindo materiais pré-existentes. Duas naturezas da mesma realidade: uma mais ensimesmada, a outra mais instrumental: mas ambas nascidas do ‘nada’ da oficina com que o escritor e o mundo medem e exercitam secretas forças. Vem este intróito a propósito de um ...
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Uma alegoria só pode ser uma alegoria se não denunciar os seus propósitos e conseguir desaguar, de um modo tão natural quanto inocente, em várias leituras que se tornem óbvias. Ou seja: ao ler o que estou a ler, estou sempre a ler outra coisa, o que tem sempre o seu quê de risível e paródico, ainda que o alegorizado seja terrível. Thomas Mann, numa incursão literária em Torre di Venere, praia situada nos arredores de Portoclemente (“…um dos mais apreciados locais de veraneio da costa do Mar Tirreno”), levou a cabo, em pleno 1930 – Musolini reinava em Itália e na Alemanha o terror congeminava o seu ascendente – uma alegoria quase perfeita. O texto ficou para a história com o título Mário e Mágico* e tem sido intensamente traduzido e transposto para os palcos. A narrativa inicia-se com a chegada de uma família alemã à praia que, ao fim de pouco tempo, é obrigada a mudar de hotel. O facto apenas serve para criar um ambiente, uma atmosfera, uma simbiose local. Há sempre um olhar exterior q...
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O mar, o mar como matéria, magma expressivo ou pura reinvenção. Nada mais apelativo para o que a literatura sempre perseguiu: reinscrever o que há a dizer (dizível ou indizível) a partir da fragilidade com que a linguagem pode afluir ao mais imprevisto dos universos. O conto A Juventude de Joseph Conrad (1857-1924) – uma breve e até inocente história – condensa estes condimentos aventurosos, não por causa do adorno metafórico ou do enredamento afectado da linguagem, mas pelo simples gozo com que o mar se torna, na novela, em protagonista e em voz infinitamente caprichosa. Um reatar simples da grande referência do mar – Melville –, desnudando a fantasia e adicionando-lhe o que podia designar-se por confessionismo do impoderável. A obra, publicada em 1902, coloca face a face um jovem marinheiro e um velho navio, o Judea, depositado na Bacia de Shadewell “desde o tempo da outra senhora”. A embarcação não passava de um monte de “ferrugem, pó, porcaria e fuligem” nos mastros. Mas a divisa –...
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Este é o último editorial de um verão que, como todos, foi rápido, vertiginoso e sobretudo construtor de nostalgias futuras (geralmente difusas e sem objecto, prontas a conceder à memória um registo de evocação estética). Para que a circunstância seja celebrada com chave de ouro, relembro hoje aqui um livro que tem três décadas certas de vida, intitulado O Verão 80. Trata-se de uma recolha de crónicas de Margerite Duras escritas, no verão de há trinta anos, depois de um convite de Serge July do então fulgurante Libération para que a escritora escrevesse, entre Junho e Setembro, uma série de textos “que não tratassem da actualidade política ou outra, mas de uma espécie de actualidade paralela”, onde se enquadrassem acontecimentos de eleição e não forçosamente ligados à “informação corrente”. Das peripécias do convite – e foram muitas –, Duras acabou por optar por uma longa crónica semanal. Daí que o livro (em Portugal editado pelos Livros do Brasil) publique todas as dez crónicas que ev...
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Lêem-se versos como – “A memória é hoje uma ferida onde lateja a Pedra do homem, hirta como uma sombra num sonho” – e a questão que imediatamente se coloca é esta: que fronteiras traçam estas imagens? Porventura, delimitarão espaços onde se digladia o teor que faz esta escrita ser uma poesia que diz, mas que diz, mostrando, ao mesmo tempo, a carne viva que dita a urgência de ter que dizer. Daí que não haja, muitas vezes, tempo para instalar os andaimes da retórica e a voragem – o ritmo largo – acabe por se sobrepor à lentidão estudada e depurada da sintaxe e das imagens límpidas, noutras atmosferas sempre muito polidas, trabalhadas e determinadas pela pose literária. Al berto está longe dessas oficinas almofadadas onde o arear da poética é um moldar quase solene da prata. Mas isso não significa que o tom filigrânico não ressurja no meio do impetuoso caudal: “tuas mãos de neve”, “luas incendiadas”, “os lábios incendeiam-se com vinho” – ou ainda – “cintilam peixes pelas paredes do quar...
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No dia 8 de Setembro, depois de amanhã, o site PNETliteratura cumpre o seu segundo aniversário. Há um ano, levámos a cabo aquele tipo de festejos que são desejados e merecidos após a excelente maturação de um primeiro ciclo. Neste ano e nos anos a vir, a passagem do tempo exigirá de todos nós – equipa editorial, escritores residentes, colaboradores, administração e correspondentes – a mesma festa (é preciso saber tocar com a mão aberta nas estrelas!), mas sobretudo a certeza de que estamos a testemunhar, no dia a dia, o legado da persistência, a exigência de qualidade e a confirmação de um espaço de referência na literatura que se vai escrevendo em Português por esse mundo fora. Se em 2009 o site PNETliteratura fez do patrocínio de Paraty uma questão particularmente simbólica, este ano estivemos no Correntes d’Escritas da Póvoa do Varzim, entre 24 e 27 de Fevereiro; na Feira do Livro de Leipzig, entre 18 e 21 de Março e ainda no Pen Word Voices Festival of International Literature de N...
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O poeta Al berto foi um poeta singular. Morreu muito cedo, mas mesmo em vida a sua singularidade nunca esteve em causa. Não é muito comum ser-se de um tempo e adoptar o que esse tempo lega, no dia-a-dia, reciclando o que é matéria de código, moda, linhas reconhecíveis ou marcas – como hoje se diz em cada vez mais e imprevistos “mainstreams”. À correcção da época, ou seja, à incorporação destes aspectos que se tornam apelativos pelo espesso denominador comum que suscitam, Al berto preferiu fascinar pela incontenção rítmica do momento, pela captação rude e crua da vaga, pela inscrição – em jeito de levada – dos elementos puros, embora sem queda alguma para encenar o poético, de modo forçado, na arena estética. Releio sete poemas de Mar-de-Leva de Al berto, publicados pela primeira vez, em 1980, em edição de autor. Como que se torna audível na errância a que os poemas convidam – sete que são um único – um rumor de águas que convoca a inquietação dos ventos. Como se desta poesia se visse o...
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O imaginário de Poe está muito ligado à conquista de um espaço interior, psicológico e, portanto, aberto às “perversidades” – como referiu o autor – que são próprias do espírito humano. Mas esta rede de inquietações, tão próprias do rasgar inicial da modernidade, não é apanágio de um culto do intocável. Ao invés, nos textos de Poe, os fantasmas e os monstros, a par dos que à época surgem através da imaterialidade da “photogenie” fotográfica (ou dos espectros dos futuros pioneiros do cinema como Méliès ou a chamada escola de Brighton), tornam-se personagens e imagens de um mesmo jogo. Curiosamente, uma idêntica desocultação atravessa as narrativas dos viajantes e exploradores europeus do limiar de oitocentos[1]. Provavelmente, é esta uma das novidades do gótico específico que é cultivado por Poe: o visível e o invisível passam a andar de mãos dadas e geram, por contraste, uma trama que se desdobra em dramas terríveis, em passagens às vezes hilariantes entre a morte e a vida, entre a res...
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O espaço representado nas ficcionalidades de Poe tem algo do vislumbre da infância fotográfica. Ora leia-se: “A cidade estava em grande parte despovoada e, nos bairros horríveis vizinhos ao Tamisa, no meio de um desses becos negros, estreitos e imundos, onde o demónio da peste tinha fixado a sua residência, passeavam à vontade o espanto, o terror e a superstição…” (RP: 11). A passagem surge como que a revelar um quotidiano sem contexto, imerso em si mesmo e à procura de uma regra que permitisse entender, pelo menos, um horizonte. Por vezes, o detalhe, o microcosmos e o fascínio pelas texturas mais imediatas contracenam com o irremediável: “O ar estava frio e enevoado. As pedras arrancadas da calçada jaziam numa desordem medonha por entre a relva alta e vigorosa…” (RP:12). Mas é a percepção – da fatalidade – que acaba sempre por comandar o relato e emprestar-lhe sentido: “E toda aquela turba ia com uma actividade ruidosa e desordenada cujas discordâncias mortificavam o ouvido e produzi...
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Nas narrativas de Poe, está em curso uma imaginação livre, moderna e poderosa. Há sempre um sujeito muito claro que enuncia o relato e está sempre em cena uma linguagem que aparece como diria Foucault. Esta marca de vincada subjectividade torna-se visível, por exemplo, no conto Silêncio, que dá corpo a um curioso diálogo entre o demónio e o narrador, junto ao túmulo deste último, sob o pano de fundo de uma paisagem que se vai alterando. Metamorfose que por si se explica, como se fosse um acto que não carece de criador ou explicativo: é este mesmo o cerne do emergir literário. O modelo de diálogo onde o demónio intervém surge noutras narrativas como, por exemplo, em O Gato preto. O trânsito entre a vida e a morte torna-se aí realmente chão, directo e sobretudo dissociado da parábola ou do carácter de alegoria ou exempla, o que jamais aconteceria nas literaturas pré-modernas que sempre separaram a esfera do divino e a esfera dos homens. Os personagens de Poe são sempre sujeitos activos q...
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Quando se fala de gótico, está-se a falar de um tipo ficcional obscuro, preso à matriz romântica, impregnado de simulacros medievalistas e mergulhado por uma dominante de mistério e terror. O gótico propõe um locus selvagem e ameaçador – castelos, mosteiros, abadias, passagens subterrâneas, labirintos ermos, edificações recônditas, etc. – que se identifica com a natureza sombria dos seus enredos onde abundam atmosferas tempestuosas, fantasmáticas e mórbidas, que convidam ao ultraje, à superstição, à vingança e, amiúde, ao arrebatamento mais primário. Iniciadas pela pena de Horace Walpole, com Castelo de Otranto (1765), e por Ann Radcliffe, com Os mistérios de Udolpho (1794), o gótico cedo viria a ser depurado do seu excesso de extravagâncias e simplismo, acabando alguma da sua morfologia por ser reatada, amalgamada e modalizada por escritores como Edgar Allan Poe, Nataniel Hawthorne ou ainda como as irmãs Bronte. O dealbar da chamada ficção científica (retenhamos, por exemplo, o caso d...
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Num dos mais recentes editoriais, reflecti sobre a gestão dos “saberes” nos policiais. Foi a propósito do último romance de Patrícia Melo, Ladrão de Cadáveres. A questão é antiga e clássica: o leitor só pode – ou, pelo menos, só deve – saber o que há a saber no final de uma dada narrativa. Mas nem sempre assim foi. Nas narrativas pré-modernas, as ferramentas literárias que todos interiorizámos há muito (complicação, clímax, desenlace, etc.) não passavam de coisas de extra-terrestre. A maior parte das narrativas do mundo antigo e medieval eram crípticas por natureza, ambíguas, construídas de propósito para que algo de insondável se pudesse vir a revelar. Como se um segredo governasse o mundo e fosse missão do homem interpretá-lo. O romance moderno – pós-seculo XVIII – passou a democratizar o segredo: passaram-se a dar ingredientes ao leitor para que, ao longo do enredo, ele pudesse conjecturar e imaginar esse segredo que, no final, e após situações mais ou menos extremadas, lhe era dado...
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A chamada literatura de campus tem, em Inglaterra, expressão, história e tradição. O género como que abriu alas com uma obra de Cuthbert Bede, The Adventures of Mr. Verdant Green (1853-57) e fixou o seu patamar de reconhecimento, no início do século passado, através de escritores como Max Beerbohm ou Compton Mackenzie, autores, respectivamente, de Zuleika Dobson (1911) e Sinister Street (1914). De teor fantástico e com razoável afectação de estilo, estes romances centram-se da descrição de pequenas cidades universitárias tão imobilizadas no tempo quanto geradoras de futura nostalgia. A expansão desta visão bastante fixada e melancólica reapareceria, em 1945, no romance de Evelyn Waugh, Brideshead Revisited (1945), todo ele passado nos anos vinte e muito marcado pela abordagem de Oxford do par Mackenzie – Beerbohm. No início dos anos 80, Margaret Doody reata a temática, no seu romance The Alchemists. Mas seria David Lodge, por cá muito e bem traduzido, quem modalizaria o género, adicio...
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Os policiais são relatos em que a gestão dos saberes é fundamental. É fundamental, no género, separar o que uma personagem sabe daquilo que as outras saberão, separar o que o leitor sabe – ou pode saber – daquilo que os protagonistas sabem, separar ainda o que parece saber-se do que efectivamente está em causa. Por outras palavras: num relato deste tipo, espera-se sempre que apenas o mistério progrida. Até à derradeira página. O resto poderá eclodir como um desmedido fogo de artifício que se devora a si próprio e que outra coisa não faz do que prender o leitor, página a página. Ora o romance de Patrícia Melo, Ladrão de Cadáveres, (Ed. Rocco Lda., 2010) cumpre estas oscilações do género, mas a elas não se limita. Longe disso. O modo como os personagens e os seus núcleos crescem, o modo como as figurações poderosas escavam cada situação como metáforas de um corte e ainda o modo como a linguagem crua e aparentemente chã gera um realismo poético singular… fazem do romance de Patrícia Melo ...
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Todas as abordagens reivindicam para si próprias, como é natural, uma especificidade no tratamento das matérias a analisar. Quando a matéria se chama literatura, a anatomia parece sempre diluir-se, a especificidade parece sempre volúvel, o tratamento parece sempre ser o anunciado ou outro possível por este suscitado. Ou seja: a literatura adia sempre o que propõe, quer quando ela própria é oficina, criação iminente, palavra que excede a letra; quer quando ela é metatexto, teoria ou análise estrita da matéria dita literária. Esse adiamento prende-se com a volatilidade da literatura, embora a volatilidade não signifique dificuldade de reconhecimento. Muito antes pelo contrário A tradição literária – esse vaivém silencioso que agencia escrita e leitura – corresponde a uma verdadeira máquina do tempo que permite exorcizar o curso vital e instável da existência. Desde a épica oral ao folhetim de Gazeta, desde a Sibilia Tiburtina à devoração de Brás Cubas que assim é. Pelo menos, é essa uma ...
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Gertrude Stein terá, um dia, aconselhado Picasso, de modo particularmente directo, a não se envolver no mundo da escrita e a limitar-se, portanto, a pintar. Segundo o testemunho de Herma Briffault, este conselho chegou a ter o cariz de uma insistência. Felizmente, Picasso não levou muito a sério a advertência. Para além de autor de poemas e de epigramas (alguns deles publicados na revista Verve), o autor da Guernica escreveu várias peças de teatro. Colocando de lado Les Quatre Petites Filles e de L'Enterrement du Comte D'Orgaz, a primeira incursão literária e dramatúrgica do pintor foi Le Désir Attrapé Par La Queue, escrita em 1941. Percorri, há dias, esse breve texto a partir de uma tradução em Inglês, publicada na revista New Worl Writing (1952, Nova Iorque). O texto coloca em cena personagens como o Grande Pé, a Cebola, a Tarte, o Silêncio ou As Cortinas. A falha de sentido percorre todo o texto, no seu timbre beckettiano e surrealizante, mas acaba, em última instância, por reflect...
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Saramago iniciou a sua verdadeira carreira de escritor, em 1982, com o romance Memorial do Convento. O que antes havia escrito – sem prejuízo para livros de grande qualidade como Manual de Pintura e Caligrafia (1977) ou Viagem a Portugal (1981) – não se inclui no patamar do que viria a ser o seu programa literário (Levantado do Chão terá indícios dessa futura geometria, mais pela poética do que pela poeira ideológica, aliás datada). A partir de 1982, Saramago transforma os seus livros em alegorias cirurgicamente dirigidas, articuladas com um fôlego narrativo e um recorte operático (com arquitectura íntima à do Padre António Vieira) que, no seu conjunto, se revelam como um verdadeiro programa literário. Não há, por isso mesmo, uma obra que sobressaia, em Saramago, como metáfora de tudo o que nos legou, sendo a assunção entre vários limiares – o histórico-mitológico do Memorial, a radiografia identitária de Ricardo Reis, o repto nacional e europeu de A Jangada… ou a disputa religiosa do ...
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A euforia da comunicação – que conduziu, entre outras coisas, à criação de uma epistemologia e de uma área de estudos autónoma há pouco mais de vinte anos (e onde se integraram as RP, a publicidade, a filosofia comunicacional, o jornalismo e a tecnologia) – reflectiu, desde os anos oitenta do século passado, a ideia de uma espantosa redenção. Repare-se, por exemplo, o que, em 1992, André Breton, escrevia nas conclusões do seu livro, A Utopia da Comunicação: “A única imagem do futuro de que ainda dispomos é justamente a de uma sociedade de comunicação hipertecnológica”. Três anos depois, o aluno e discípulo de McLuhan, Derrick de Kerckhove, escrevia no final de A Pele da Cultura: “Eu sou a Terra a olhar para si própria”. Não admira que, de Itália, há meia dúzia e anos, surgisse pela mão endiabrada de Mario Perniola um livro sintomaticamente intitulado Contra a Comunicação, onde o autor referia: “A comunicação é o oposto do conhecimento. É inimiga das ideias porque lhe interessa dissolve...
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No sétimo dia do ano de 1955 – há pouco mais de 55 anos –, o escritor Ruben A. chegava a Coimbra. O mito sebástico tornou-se então numa espécie de personagem dupla, meio viajante, meio anfitrião. Ora leiam-se as palavras de Páginas V (como as demais que preenchem este ‘Ponto de Mira’*): “O grande Torga está à minha espera na Estação Nova. Parecia o verdadeiro Desejado rompendo uma noite escassa de nevoeiro. Não se via um palmo à frente dos olhos, por um momento senti-me em Londres.” (p.115)Nesse Janeiro de 1955, Rubén A. viria ainda outra vez a Coimbra. O falecimento do poeta Rocha Brito ditou a façanha e os ares londrinos pareciam agora adiados pela própria pequenez da vida mundana: “Deslocado inesperadamente a Coimbra sinto a tragédia da vida nas pequenas cidades. (...) Nas outras cidades não se repara nos transeuntes, são todos os dias caras diferentes. Nos burgos menores a tragédia vive no diário patente a todas as horas e minutos, à mostra acompanhamos a vida dos que vão à nossa f...
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O sorriso enigmático do javali de António Manuel Venda é um livro sobre a intimidade. Escola de pequenos gestos, a narrativa coloca em cena um protagonista fascinante, baptizado por “pequeno Tukie”. É ele o elo fundamental do argumento e também o núcleo aventuroso a partir de onde a narrativa constantemente se reinicia. O que acontece por uma dúzia de vezes, desde o primeiro dos ‘incipits’ que cruza, de modo meteórico, o movimento de duas perdizes, a memória de uma garça, o olhar atento do protagonista e a terra da “Herdade do Convento” que se anuncia como geografia nevrálgica de todo o relato. O pequeno Tukie testemunha, ao longo das doze estações deste ciclo ficcional, um conjunto de factos que resvalam, de modo súbito, de uma esfera normal e verosímil para uma outra, cuja identidade nunca se fecha ou declara. Aliás, é esse estado de metamorfose sempre em suspenso que liga intimamente as doze histórias que compõem O sorriso enigmático do javali. O registo utilizado segue mais o traj...
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A literatura sempre nos brindou com uma espécie de devir: encaminhar o leitor através do incomum, espreitando e auscultando o sentido dos limites, para que o regresso ao comum acabasse por ser uma experiência singular e, de certo modo, refeita, nova e purificada. Reciclar as expectativas do presente, através do convite à mais abismada das “travessias” (como diria Guimarães Rosa) ou à partilha de uma visão desmedida (como diriam os personagens dessas subidas magistrais aos sete céus que a literatura baptizou por Apocalipses). Como se a nossa própria existência se confundisse com a liturgia da repetição e a arte se confundisse com a teologia de um momento único e exemplar. Acresce a este devir que cruza a arte e a literatura modernas (e tudo aquilo que refrescou os caminhos para além do moderno) um outro – e não menos importante – facto. É que o nosso tempo se contenta sobretudo em revisitar o que lhe é próprio. Por outras palavras: adoramos o presente, o que é actual, o que não exija es...
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Em conversa com Carl Friedrich Kielmayer, no ano de 1797, Goethe sublinhou uma ideia aparentemente simples: “A compreensão não pode, como um todo, pressupor aquilo que os sentidos lhe atribuem”. Esta separação quase taxativa conduziria, logo a seguir, a uma conclusão: “Daí que acabemos inevitavelmente por ser atraídos por uma esfera de poesia onde poderemos esperar encontrar alguma satisfação”. A declaração foi feita sete anos depois da publicação de Metamorfose das Plantas (1790) e treze anos antes de História da Teoria da Cores (1810), livros de teor científico, de que Goethe foi autor. Na primeira obra, Goethe (1749–1832) defendeu a existência de uma matriz única (a chamada “Urpflanze”) de onde toda o mundo vegetal – e não só – seria originário. Em carta a Herder, em Maio de 1787, o autor escrevia: “Estou mais perto do que nunca de vir a descobrir o segredo da criação e organização das plantas”. Apesar da origem única – uma espécie de ideia platónica –, toda a natureza viva teria, ...
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Acaba de sair a público o segundo volume do diário de Marcello Duarte Mathias com o título Os Dias e os Anos – Diário 1970-1993 (edição da D. Quixote). Num prólogo breve (“A modos de prefácio”), o autor reflecte em itálico sobre a temporalidade do género, enfatizando um modo de fixação cuidado: “Em depoimentos desta índole, é-se livre de expurgar esta ou aquela passagem, ou eventualmente de a corrigir. Porque corrigir um texto é simplificá-lo sem o empobrecer. Não se pode, contudo – pormenor curioso –, acrescentar seja o que for de substância ao que já está escrito, pela simples razão de que tais intromissões constituem um corpo estranho, soam logo a falso, como se o texto na sua temporalidade, com as características que lhe são próprias, rejeitasse naturalmente o enxerto tardio&...
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Corria o passado dia 20 de Abril, uma segunda-feira excepcionalmente solar, e quis o acaso que, ao revolver uma estante mais alta do meu escritório, acabasse por cair na minha mão direita o pequeno volume da revista New World Writing, publicada em Novembro de 1956 pela New American Library (New York). O número da edição é o 56 e uma marca já antiga fez-me saltar os dedos para a página 86. Comecei a ler o texto e a adrenalina colou-se de imediato ao espaço mágico da retina: o texto era de Gore Vidal e tinha como título…”Notes On Television”. O autor citava Flaubert logo no início, como sintoma de toda a abordagem que se seguiria: “O teatro não é uma arte mas sim um segredo…”. E a natureza desse segredo – escrevia Vidal – é “…elementar: o diálogo não é, de facto, o mesmo que prosa”. O que significa que “um talento para o teatro não implica, de modo nenhum, um talento para o romance”. Contudo, para Gore Vidal, o romance é considerado a “forma de arte mais privada e mais realizadora (sati...
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No momento em que o poema Manucure de Mário de Sá-Carneiro acaba de ser publicado na Rússia, com tradução de Maria Mazniak (e quando se espera pela saída já próxima da Antologia Poética da D. Quixote), fui como que reecaminhado, passe a linguagem ‘techno’, para o livro de contos do autor, Céu em Fogo (1915). Nesta leitura de domingo de uma obra considerada fútil e menor por alguns críticos, recorri à ‘velha’ edição da Ática, sublinhada e vincada aqui e ali, embora um dos contos se mantivesse imaculado, isto é, sem qualquer traço ou comentário. A narrativa tem um título aliciante, convenhamos: O Homem dos sonhos. Há uma temática que cruza todo o relato: o desejo de perfectibilidade. A trama é colocada em cena de um modo simples: um encontro fortuito entre o narrador, que nunca abandona a sua primeira pessoa, e um russo: “… um expírito original e interessantíssimo”. O encontro dá-se em “Paris, num Chartier gorduroso de Boul-Mich” – diz-nos o protagonista – nos seus “tempos de estudante f...
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Faz este ano três décadas que saiu a público um romance com um título singular: Lusitânia de Almeida Faria. O nome tem fortes raízes na literatura portuguesa, desde logo – para não aprofundar a ciclópica travessia do lexema ao longo dos tempos – em Gil Vicente que, no seu Auto da Lusitânia (1532), abordou o dia-a-dia dos judeus de Lisboa e celebrou, já na segunda parte da obra, a origem mitológica de Portugal. Cem anos depois, em 1632, na redacção da terceira e quarta partes da Monarquia Lusitana, Frei António Brandão reatou os vários textos antes produzidos sobre o milagre de Ourique e legitimou como verdadeiro e irrefutável o diálogo entre Jesus Cristo e D. Afonso, na véspera da batalha. Assim se projectaria, pelo menos até ao início do século XIX, a mitificação da origem de Portugal. Lusitânia é, pois, um título carregado. No entanto, quando li o texto de Almeida Faria em 1980, tive a sensação que ainda hoje mantenho: o romance de Almeida Faria foi o primeiro a dar literariamente co...
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Chega-se às últimas páginas de A Rainha no Palácio das Correntes de Ar de Stieg Larsson e sente-se o peso da realidade. Lisbeth já livre, fica a saber, através de uma porta entreaberta, das muitas mortes pressentidas (incluindo a de amigos) e deixa finalmente entrar em casa Mikael que ela conhecia de várias vias, entre elas, claro, a net. A confiança subitamente aumenta e acaba por ceder às sombras que haviam nascido, como Larsson definiu, “no dia em que a própria Lisbeth nascera”. Entendamos por “peso da realidade” este sucessivo aceno dos actos – dos actos mais puros – que a mais não aspiram do que a uma radiografia do vivido e na qual a respiração e o fôlego das expectativas se cruzam com o assentimento e o destino amiúde improvável ou inesperado. No seu recente livro Reality Hunger, David Shields apela à “confissã...
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A escrita terá brotado, um dia, como a água mais pura brota das fontes: como um milagre. É por isso que a memória dos tempos mais antigos, sempre associada aos vultos mitológicos que Vico designou pelas “gentes heróicas” que “não colhiam outros frutos que não os naturais”, está cheia de genealogias que fazem da tradição uma sucessão acautelada de escritas. Um bom incipit sempre viveu desse apetite mineral: garantir ao leitor que havia outro mundo para além da escrita, sempre que a escrita falava diante dos seus olhos (ou tão-só se fazia ouvir oralmente). Esta transcendência generosa dá-nos a perceber mais facilmente, como escreveu A. Manguel, por que é que datam do século IX as primeiras ordenações a requererem “o silêncio dos escribas no scriptorium monástico”*. Até aí...
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No dia em que Maria Helena da Rocha Pereira foi anunciada como a – aliás justíssima – vencedora do Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores, a jurada Teresa Martins Marques enalteceu a carreira da ensaísta, sublinhando a importância e a pertinência do prémio, devido, entre outros factores, ao facto de vivermos “…num tempo em que somos marcados pela literatura light”. O argumento seria secundado, nesse mesmo dia, curiosamente um chuvoso 8 de Março, na rádio, pela voz do próprio presidente da APE, o escritor José Manuel Mendes. Em Julho do ano passado, Pedro Mexia* escreveu uma interessante crónica no Público acerca de um livro de Fátima Lopes e, na circunstância, referiu o grande impacto da literatura light – e das suas derivadas – através de um curioso contraste: “Fátima Lopes, uma apresentadora de televisão, vendeu quase cem mil exemplares; já as obras do mais recente Prémio Camões nem se encontram nas livrarias”. “O mercado editorial é o que é: uma grande bibliote...
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Recebi de Nuno Júdice o seu último livro, Guia de conceitos básicos (D. Quixote, Março, 2010). Li-o, no primeiro domingo solar de Março, como se lê qualquer livro de poemas: percorrendo a paisagem que é sempre feita de nós invisíveis, de labirintos (“falta sempre/ alguma coisa que ficou no princípio”), de epifanias (“E o rosto divino apaga-se contra o vidro/ da memória”), de analogias (“a luz do sol escorrer por entre/ as folhas, como se fosse água”), de estações variadas (“para montar armadilhas aos pássaros”) e sobretudo das manhãs que obrigam à “precisão de traço/ que os dedos inscrevem em cada sílaba”. A leitura desta paisagem acabou por revelar-se chã e cativante: uma linguagem do dia-a-dia que não perde nunca o resplendor do luar. Uma leitura criada pelo ritmo escorreito que procura a sua matéria própria. Uma leitura que se deixa povoar por figuras luminosas: Júpiter, Vénus, várias infantas, Orestes e até o “rosto escondido pela trepadeira/ que (…) ocupa a imaginação”. Uma leitu...
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No seu livro Le livre à venir (1959), Blanchot colocou em cena a morte do último escritor sobre a Terra e perguntou, alarmado: o que resultaria de um tal facto? A resposta, umas linhas à frente, não se fazia esperar: “Apparemment un grand silence”. É uma daquelas frases que sempre me perseguiu. A reflexão de Blanchot seria depois invadida por um tom algo dramático: com a morte do último escritor, apareceria “um novo ruído” e com ele anunciar-se-ia a era da não palavra (“l´ère sans parole”). Este novo ruído ouvir-se-ia para sempre. Mais, ele havia de escapar a todo o tipo de distracção e transformar-se-ia num verdadeiro vazio que fala (“un vide qui parle”): insistente, indiferente, sem segredos, capaz de isolar e separar os homens, capaz de separá-los de si mesmos conduzindo-os a labirintos ínvios e sem fim. Este tremendo "ruído" consistiria – segundo o autor – num novo figurino de palavra, mas uma palavra exilada e bizarra: a sua estranha natureza (“l´etrangeté de cette paro...
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O ambiente estava quente na Póvoa. Um calor de Inverno, temperado pela ameaça iminente de temporal. Já se sabe que existem escritores que se reencontram nesta maresia de afectos há onze anos, outros há menos tempo. Pelos corredores, passos perdidos e salas de luz ténue passeiam-se autores conhecidos, outros a lançar primeira ou segunda obra. Jornalistas, editores, farejadores, olheiros da coisa literária. Diz que disse, ambiente cordial, conhecimentos estimulantes. Um tempo fora do tempo. Bastante público, boas sessões, muitos lançamentos, alardes sigilosos. As mesas herdam o prazer da palavra e a névoa do que se não diz invade outras constelações. Por isso, há sempre muito bar, muita confissão e muita noite. E houve ainda algum tempo para apresentação de novos projectos. Foi neste novo recanto do Corrente d´Escritas a velejar ainda perto da costa que, na última quinta-feira de Fevereiro, o PNETliteratura – embora não seja “propriamente novo”, como escreveram os nossos amigos Blogtail...
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Mesmo em tempos imemoriais, a memória foi sendo assegurada por narrativas estáveis, embora de natureza muito diversa. Os mitos, por exemplo, nunca se confundiram com os chamados textos “sagrados”. Estes últimos não podiam – e não podem – ser alterados e a sua razão de ser poucas vezes deixou de se confundir com um literalismo congénito. Ao invés, os mitos viviam – e vivem – de uma noção elástica de matriz, ou de ponto de partida, de tal forma – como escreveu H. Blumenberg em Trabalho sobre o Mito (1979[1]) – que é na relação entre “tema” e “variações” que o auditório e a emissão acabam por encontrar um sentido (um sentido fluido, mas que permanece como se propagasse uma evidência muito mais importante do que qualquer geometria canonizada pela memória). Os mitos aprenderam há muito a viver num mundo sem escrita que concedia à memória maior flexibilidade e mais margem de manobra, de inventividade e de recriação. A amnésia colectiva nos tempos míticos coincidia com aquele espaço difuso d...
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Foi moda, a meados desta primeira década do século, falar de Sebald. A onda parece agora ter arrefecido. Seria interessante entender por que razão a narrativa e as inquietações específicas de Sebald foram tão bem acolhidas num período claramente pós-09/11. O repto será retomado. Convirá, no entanto, salientar que Austerlitz, Os Emigrantes e sobretudo a História Natural da Destruição1 são obras de W. G. Sebald que nos permitem penetrar nos labirintos de uma amnésia colectiva. Não se trata, naturalmente, da amnésia colectiva que resulta do processamento dos dispositivos globais de carácter hipertecnológico, mas antes de um tabu histórico e, portanto, de uma amnésia forçada. O caso da deliberada omissão histórica do que foi a radical destruição da Alemanha no final da II Grande Guerra Mundial tem sido, nas obras de Sebald, abordada de um modo descomprometido, desideologizado, memorial, frio e literariamente possante. Com efeito, o processo de contínua e implacável razia que conduziu à der...
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A marca na parede é um daqueles contos que parte do nada – realmente, de um verdadeiro nada – para chegar ao universo, ao turbilhão do mundo interior, ao coração do vivido. Apesar de Orlando, de As Vagas e de outros romances, sempre encontrei nas dez páginas deste conto o legado mais autêntico de Virgínia Woolf. Partindo de um olhar acidental para a “pequena mancha redonda, negra contra a parede branca, a cerca de seis ou sete polegadas do rebordo da chaminé”, a autora dá a volta ao mundo, encarando-o como se estivesse também “a olhar para um espelho” onde as imagens da consciência apareceriam como marcas ou reflexos semelhantes aos que explodem na ficção. A certa altura, esta ascese do microreal conduz a escritora a uma proclamação tão fascinante quanto plena de sortilégio: “… os romancistas do futuro darão importância crescente a estes reflexos, porque não há apenas um reflexo, mas um número quase infinito deste género de refracções; aí estão as profundidades que os romancistas do fu...
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Cada década acaba sempre por corresponder a uma escala musical que se esgota, ao insuflar de um balão que depois se esvazia, ou a um soufflé que se expande no forno até abrir brecha. Isso mesmo: uma brecha que não nos chega a preparar, como deve ser, para a década seguinte. O que se passa na escala de uma década passa-se também na escala de um simples ano. Ora, soletremos o número “2010” e perguntemo-nos, depois, se ele não tem o seu quê de corpo estranho? É como se nele revíssemos a casa ainda desconhecida onde iremos habitar durante mais uma (pequena mas significativa) parte da vida. O algarismo “Vinte” ao décimo se antepondo (2010): eis o nome do novo ano em que embarcámos há pouco mais de um mês. Misterioso então, hoje já mais prosaico, elementar, quase habitual. Cada número tem evidentemente o seu nome mais ou menos secreto, mas, quando o número coincide com o ano que respiramos ou prefiguramos, esse nome parece assustar-nos. É por isso que obras literárias como L' An 2040 de Mer...
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À pergunta de Maria Augusta Silva, publicada em entrevista na edição do DN de 6 de Setembro de 2001, – “– Gostaria que Eduardo Prado Coelho ficasse na história?”, o ensaísta, entretanto desaparecido do nosso convívio, respondeu de modo porventura inesperado: “– Não me considero um criador no sentido de querer ficar nesse plano. É-me mais importante ver uma pessoa a quem disse leia este poema, ficar com lágrimas nos olhos ao lê-lo do que eu querer ficar na história”. A iluminação como desígnio. Pranto, emoções e afectos. Três palavras do mesmo caudal – diria Damásio – “sematossensorial”. De facto, jamais a literatura foi ilesa a este portentoso caudal. Não há substantivos e imagens que faltem para designar ou conotar esta tendência do ‘pathos’ a inscrever-se no processo literário: vitalismo, romantismo, lirismo, ou as infindas transpirações do choro camiliano envoltas pelo derrame da carne, como Durrel escreveu num breve texto sobre Lawrence: “O poema é o sonho feito carne, num duplo se...
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Julie Lambert, “a maior actriz inglesa” do pós-guerra, é uma feliz criação de Somerset Maugham que percorre todo o seu romance A Outra Comédia*. O enredo descreve o itinerário de uma diva que, a partir do Teatro Siddons, vai suscitando paixões cruzadas, num relato dominado por uma voz algo ambígua (ao mesmo tempo distante e íntima) que vai sempre, no entanto, dando conta, com frenético realismo, dos acontecimentos e intrigas que atravessam a atmosfera do teatro londrino de meados do século passado. Na saga de múltiplas seduções participam quer o aristocrata Charles Tamerley, dividido entre o desejo mortificado e o mistério, e sobretudo Tom Fennel, o jovem contabilista e arrivista que acaba por dominar o coração de Julie durante quase toda a trama. Não esqueçamos, claro está, no rosário deste vaivém entre ensaios, cena e vida social intensa, o próprio marido de Julie, o empresário e também actor Michael Gosselyn (tão casto quanto gentleman) e, já agora, a inesperada aventura entre Juli...
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Um homem vê uma mulher na igreja. Esse olhar excede a intensidade da neve de Clermont-Ferrand. Passará uma noite em casa dessa mulher, que se chama Maud, e o universo por ambos tacteado bastar-se-á ao peso da palavra. Um corpo chamado palavra. Antes, no mesmo filme, o protagonista – um católico que desafia a matemática e a revelação possível do ateísmo – discute com um marxista num café. Falam de Pascal, de probabilidades, de si próprios: rostos a preto e branco, poses deíficas, brilhos discretos. E fazem-no, com elegância, a bordo de uma imagem que existe, apenas porque o aparecer da palavra a vai gerando. É neste milagre que reside o génio de Rohmer, desaparecido há precisamente uma semana: desfiar o novelo de perguntas em torno da tentação imobilizadora da imagem que não é capaz de parar, apenas porque gira, porque é, ela mesma, uma imagem. No cinema de Rohmer, a literatura aparece quase em estado puro. Como um glaciar sem nome. Se é que isso existe. Aparecerá, de certeza, fora de ...
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por Luís Carmelo Numa carta de Lawrence Durrel a Henry Miller, escrita em Belgrado, no mês de Janeiro de 1950 – faz agora precisamente sessenta anos –, Stendhal surgia como o prenúncio maior de uma desejada depuração narrativa: “Nos últimos dias tenho lido bastante Stendhal, cada vez mais convencido de que nas sua grandes novelas ele lançou os fundamentos lineares da ficção para os cinquenta anos que se lhe seguiram. O poder de criar uma personagem de três dimensões numa única frase e de deixar depois a acção revelar a personagem sem mais intervenções do autor”*. A citação parece ter sido feita de propósito para um curtíssimo conto de Truman Capote que, aliás, dá nome a um conhecido volume de contos – A Árvore da noite. O conto de apenas treze páginas – a edição portuguesa** é, de facto, pitagoricamente metafórica – coloca na carruagem de um comboio (que tinha “assentos de pelúcia encarnada, coçada em parte, e madeiras cor de tinta de iodo”) uma jovem rapariga univesitária que regressa...
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Nunca entendi bem por que razão deu Hemingway o título “O Jardim do Éden” ao romance em que o escritor David Bourne contracena com a sua mulher Catherine e, a partir dos dois últimos terços do livro, com Mirita – a morena baixinha que “tinha o rosto brilhante e com boas cores”. O “Livro Um” de O Jardim do Éden é passado num pequeno hotel de Le Grau du Roi, junto à respiração de Aigues Mortes na Camarga. O episódio que quase serve de ‘incipit’ alegórico à obra coloca em cena o jovem David a pescar um peixe quase maior que ele para gáudio de toda a terra de marinheiros e peixeiras. O “Livro Dois” conduz o aventuroso enredo para o Atlântico húmido de Hendaia e daí para uma breve incursão a Madrid. Todo a restante intriga – e os seus abismos finais – irradiam a partir da casa cor-de-ro...
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Tenho passado os dias a dialogar com o senhor Godard. Não deixa de ser verdade que as História(s) do cinema, editadas em Portugal há precisamente dois anos, são intensas e sobrepõem fragmentos de uma arte maior. Desde que emergiu do pasmo fotográfico até se tornar na reinvenção da mente, invadida por sonhos de carne e por vozes de sombra. Uma fantasmagoria apetecível, de massas. Como Godard afirmou, a certa altura, nada no cinema se funda numa realidade histórica. Tal como o cristianismo, o cinema cria uma narrativa, concede-a ao público e diz: acredita. Crê! E assim que os deuses se colocaram em fuga, entre as proezas variadas de Muybridge, Nietzsche, Freud ou Proust, eis que um novíssimo deus singrou na alma das multidões, das revoluções e sobretudo das solidões. O cinema: uma arte maior – e muito cúmplice da literatura – que terá perdido a inocência por causa de duas guerras brutais. E que, já agora, não sucumbiu diante da roda viva das variedades de estúdio. Uma arte maior e, por...
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A espessura do tempo. Um bloco entre o olhar e tudo aquilo que se imaginou mais alto. Asas de anjos ou a simples noite a avisar que não é ainda tempo de roseiras. E, no entanto, o ar frio a escalar pelas fachadas, a subir pelas varandas vazias, a penetrar nos terraços intensos e brancos. No fundo, é a levezaa a sobrevoar as suas próprias nuvens. Dir-se-á: ‘Ceci n´est pas le temps’. Bom Natal. Lembrava-se de ir de bicicleta à procura de musgo. Olhos presos no horizonte, luvas, colinas e sombras de animais; plátanos aventurosos, ribeiras esguias e ramos despidos ao fim da tarde. Um vulto a atravessar duas a três galáxias para povoar o cheiro da terra. Ainda lá está de corpo inteiro. Nesse deambular. Deslumbrado. Bom Natal. Os campos alagados, o canavial aflito e os sobreiros ao fundo quase já esquecidos da promessa do sol. Há ainda um acorde, coisa breve que segreda a idade dos muros. Chove sem parar, embora o pranto não passe de uma murmúrio de felicidade da terra. Bom Natal. Avistar de...
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A circular no interior das páginas. A desmembrar a liquidez de uma palavra que não chegou a vir ao ser. A esquecer o rumo. A adivinhar o som. A calcorrear o ritmo. Vira mais uma página e o fantasma descobre o movimento, a teia, o tear, a sombra e o limo preso ao andamento que faz da leitura uma translação sem horizonte. Apenas breu e alguns holofotes a definirem o langor com que as nuvens cobrem este silêncio que faz do livro uma verdadeira trégua solar. A circular no interior das páginas. Uma voz que vem de longe. De muito longe. E a ventoinha parada, enquanto não é Verão outra vez. Sorri e volta ao livro. Aos Escritos Íntimos de Baudelaire. Põe-se entretanto o sol. No limiar do horizonte a vista transforma-se em magma aceso. Depois escurece e a noite anuncia-se através da uma nova densidade. No vidro da janela reaparece a humidade, essa linguagem filigrânica que diz o coração da água em silêncio. É nestas alturas que a espera se torna presença. E o que é agora actual passa a ocupar ...
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O rosto da Europa é a figuração feliz de um perfil que representa a imagem da Eurásia a despedir-se do mundo, ou seja: do mar e das lendas que ele prolonga. Este olhar inebriado sobre o grande gravitas é o território preferido pelos maiores poetas portugueses, Camões e Pessoa. Aliás, a expressão "rosto da europa", na língua portuguesa, pertence a este último. Neste meio diagrama meio metáfora, utilizado por Pessoa na Mensagem, a Europa surge como jazendo sobre "os cotovelos", o mais recuado sendo a Itália e o mais avançado a Inglaterra, de onde a mão sustenta o grande rosto (que fita com olhar esfíngico e fatal o oceano, o mundo, o infinito). Para o poeta, "Este rosto que fita é Portugal". É também na Mensagem que Pessoa identifica o mito como esse “nada que é tudo”, com se fosse “o corpo morto de Deus/vivo e desnudo” que “aportou” em Portugal; e conclui, seguidamente: “As Nações todas são mistério/ Cada uma é todo o mundo a sós”. Deste modo, o rosto de ...
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Quando se fala em literatura de língua árabe, não rara é a tendência de se citar ‘Umar al-Khayyâm a propósito dos feitiços do vinho. Trata-se de um autor bastante conhecido, devido ao facto de estar vastamente traduzido no planeta, a partir de uma primeira versão inglesa do século XIX da autoria de Edward Fitzgerald.Mas o vinho, que neste pós-S. Martinho produz ecos milagrosos, também teve entre nós quem o poetasse em língua árabe. Refiro-me, entre outros, a Ibn ‘Abdún de Évora (1050-1135). O poeta nasceu e morreu na urbe que viria a ser a de Giraldo e por aí viveu durante muitos anos, em períodos diversos, tendo a sua vida ficado associada ao Reino Taifa de Badajoz que incluía, no actual território português, parte importante do Alentejo, Ribatejo e Estremadura. As traduções que cito a mero título d...
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No romance contemporâneo, sobretudo após a Primeira Grande Guerra Mundial, as imagens passaram a disputar o cálculo, o plano e a estratégia da enunciação. A pouco e pouco, a tensão expressiva desenhada entre o mundo das imagens e a engenharia do plot (quando o plot assumia relevância) passou a criar novos modos de projectar o sentido e a significação (a efabulação de Gregor Samsa em Kafka, a microscopia de Hans Castorp em Thomas Mann e o duplo Orlando que Virginia Woolf fez caminhar como um cervo são disso exemplo). Na segunda metade do século passado, este modo de afirmação tornou-se tanto mais permeável quanto a desfragmentação do romance, enquanto corpo fixo, substancial e sólido, se foi tornando realidade. No entanto, se as escritas experimentais, sobretudo entre os finais dos anos cinquenta e os anos setenta do século XX, se traduziram em textualidade, paródia, impressionismo fonético e condensação discursiva, a voz do romance acabaria por persistir, para além desse contrapeso ao...
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A imagem medieval vivia em iluminura, vitral, texto ou em pintura, mas, independentemente da eficácia a que se propunha, reproduzia quase sempre uma mesma narrativa e, portanto, subordinava-se inevitavelmente a um alinhamento de raiz conceptual. Não era autónoma, por outras palavras. No mundo moderno, as imagens libertaram-se das armaduras conceptuais que as resguardavam e submetiam e iniciaram uma nova história. Um balanço da utilização de imagens nos últimos três séculos, dentro e fora da literatura, evidenciaria a longa história de uma tensão ao mesmo tempo significativa e expressiva. Os românticos foram os primeiros modernos. Neles encontramos, ao mesmo tempo, a desconfiança face ao progresso técnico e a tentação mais implacável de levar a cabo uma verdadeira revolução expressiva. Este paradoxo fez dos românticos verdadeiros cultores da imagem sensorial. Para além da profundidade e pioneirismo dos romantismos alemão e inglês, outros romantismos – como o português – foram tardios e...
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Há obras não literárias que podem ser determinantes para entender o modo como a literatura se entretece no mais fundo das nossas práticas culturais. O ensaio de António Damásio, O Sentimento de Si (1), cujo original foi publicado há precisamente uma década, é um desses livros. Sobre a obra, escrevi eu próprio um ensaio (Músicas da Consciência (2)), numa perspectiva não literária, até porque as inferências que são suscitadas pela reflexão neurobiológica do autor são abundantes e têm consequências em várias direcções. Passemos, pois, ao caso literário. Para António Damásio, o cérebro é um exemplar contador de histórias. Nas várias antecâmaras em que o vaivém de imagens se organiza (descritas como “proto-si”, “consciência nuclear” e “alargada”), uma imensa teia de relatos coloca a mente no cenário de um ininterrupto intertexto aberto ao permanente prodígio conotativo. É tendo em conta este interface de intrigas e truncagens ficcionais que o autor refere que o acto de “contar histórias pre...
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No dia 21 de Dezembro de 1940, F. Scott Fitzgerald morreu abruptamente de ataque cardíaco em Hollywood e, no dia seguinte, Nathanael West teve o mesmo destino na sequência de um acidente de viação na Ventura Boulevard. Coincidências que unem dois autores que partilharam a mesma geografia do Oeste, anos e anos na aura de estúdios cinematográficos e ainda mais: um e outro, Fitzgerald e West trataram literariamente o tema de Hollywood de modo, ainda hoje, considerado ímpar. Nathanael West tinha acabado de publicar, em 1939 – faz agora mesmo setenta anos –, o romance The Day of the Locust (em Português: O dia dos gafanhotos, Dom Quixote, 1985, trad. de Maria Teresa Alves Lisboa/ Record – trad. B. Pinheiro de Lemos). Para muitos críticos, o livro – adaptado ao cinema por John Schelessinger – é uma das obras que melhor espelha o cenário de Hollywood da época. O romance e...
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Edward J.O'Brien (1890-1941), para além de poeta, foi editor e organizador de variadas antologias de contos (short stories) na segunda década do século passado. Foi ele que disse, já em fim de vida, que a revista Story era a “mais distinta publicação de contos do mundo”. Não sei se se enganou, sinceramente. Mas vejamos: a Story nasceu no início dos anos trinta nos Estados Unidos, atravessou os difíceis forties e, só no final dessa década, devido a inesperada falta de apoios, é que viu, pela primeira vez, a sua meteórica publicação interrompida. Foi por essa altura, mais concretamente, em 1949, na América, e, dez anos depois, em Inglaterra, que os editores da Story, Hallie Burnett e Whit Burnett, organizaram em livro uma antologia de contos – cerca de três dezenas (uma preciosidade) – seleccionados entre as seis centenas editadas na revista ...
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Comprei no início deste ano em Paris dois livros que apenas o Outono português me ajudou, há muito pouco tempo, a devorar. Não foi tarefa difícil, até porque, num e noutro caso, a desgraça negra teve tendência em tornar-se em risível – e podia mesmo ter-se revelado como paródica – não fosse a boa construção formal das escritas e o sol que ainda ponteava em torno (e por dentro) da leitura. A literatura é afinal o que se inventar para a fazer ser, lendo. E rememorando. Acto solitário de que escapam estigmas menores, de que não nos apercebemos amiúde, e de que se conservam traços muito vivos (a maior parte como puro mistério, cuja persistência é, quase por natureza, inexplicável). Passemos a descrever muito sumariamente ambos os livros Dans ma maison sous terre (Le Seuil) de Chloé Delaume coloca em cena a vingança da protagonista contra a avó, pelo facto de esta a ter feito acreditar que o seu pai não era efectivamente o seu pai real. A procura de sentido e de identidade, um tanto mórbida...
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No ano de 1950, Albert Maltz publicou uma breve recolha de ensaios sobre o significado “social” do escritor (The Citizen Writer, International Publishers, New York). O primeiro dos ensaios – que dá título ao livro – tenta situar o que torna o escritor num cidadão diferente de todos os outros. Essa caracterização surge logo no início e enfatiza um privilégio: “O escritor, mesmo o mau escritor ou o corrupto, distingue-se de todo os outros cidadãos devido ao seu privilégio comunicativo”. Esta singularidade comunicacional própria de um mundo em que emissores e receptores se separavam verticalmente (tão longe da actual febre interactiva) proporcionava, segundo Albert Maltz, um facto extraordinário: os valores tidos como semelhantes tornavam-se imediatamente outros se e quando enunciados pela figura do escritor: “O pensamento e os valores morais do escritor podem não diferir dos valores dos demais cidadãos, mas tornam-se instantaneamente diferentes na medida em que ele pode transmitir o seu...
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Uma das características que torna hoje a literatura singularmente apetecível é o facto de o tempo literário não se coadunar com o chamado tempo real. O conceito de tempo real é um exorbitar dessa excelência televisiva dos anos sessenta que se designava por “directo”. Era um milagre ver o Benfica a jogar com o Milan em directo, como ainda é, de algum modo, um fetiche fantasmático – com aura de inexplicável – rever Armstrong a passear na lua. Era isso o directo: uma magia que entornava o tempo numa verdadeira suspensão ficcional. O tempo real pressupõe o fim dessa magia, o que significa o fim do desdobramento entre a consciência do presente e a intensidade do que ia aparecendo – revelando-se – em directo. O tempo real é só já e sempre intensidade, compulsão e estesia: poder estar para além do vivido como se este fosse apenas um mero pretexto ao serviço do aparecer virtual. Respirar sempre o clímax como se a história do dia-a-dia tivesse passado a servir como simples parapeito para estar ...
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A Justine criada por Marquês de Sade, que se dá a conhecer através de Sophie ao longo da sua própria história – não sei se inocentemente (em Sade nada é inocente) –, é uma metáfora preciosa. Tudo o que narra à irmã, a Srª. de Lorsange, e ao Sr. de Corville é da ordem do terrível. No mínimo. Por mais princípios, pudor e cumprimento de preceitos que demonstrasse, tanto maiores eram – e foram – sempre os desastres em que se veria – e se viu – envolvida. O desmedido paradoxo como evidência da mãe natureza. A tese de que a santa Providência pactua com tudo menos com a virtude é levada em Sade até aos limites. Mesmo até ao momento do desenlace em que, passada a quarentena de orgias forçadas, assaltos e raptos, Justine, já aparentemente ilesa e imune à infelicidade, acaba por ser apanhada por um raio. Que a mata, claro está. Maldita trovoada. O que acontece a poucas linhas do fim. O facto conduzirá a irmã a uma súbita conversão e, porventura, à concretização do lema complementar: ‘Tanto sofre...
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Nas leituras de Verão – estação que acaba amanhã –, prefiro sempre redescobrir clássicos. Especifico: adoro ler obras porventura ‘menores’, mas da lavra de autores que abraçaram a literatura como quem fez do mar a sua palavra. E prefiro aqueles autores que viveram num tempo em que a literatura era ainda a casa do mundo, isto é: um dos seus centros, ou mesmo o seu altar mais referencial. Associo neste editorial duas pequenas obras da autoria de dois autores muito diferentes: Henry James, o cosmopolita americano que adoptou a perdição europeia (1843 – 1916) e Miguel de Unamuno, o aventuroso e trágico escritor hispânico (1864 – 1936). A obra deste último, Um homem, foi escrita no ano da morte de James, enquanto a famosa Daisy Miller apareceu a público quando Unamuno tinha apenas catorze anos de idade. O que liga ambas as histórias é simples: duas heroínas e duas mortes como desenlace. Em ambos os casos, existe ainda uma singularidade distintiva: ou a beleza sem par, ou a tentação de quebr...
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No último editorial de Agosto, uma brevíssima alusão a Le Clézio e um conto de D. H. Lawrence constituíram o tónico ideal para uma reflexão sobre a ‘correcção’ vs. ‘incorrecção’ na literatura (e na sua relação com as modas de época). Há cinquenta e dois anos, em 1957, um livro de Cardoso Pires, O Anjo ancorado, discorria no final, muito curiosamente, sobre a mesmíssima ideia de ‘correcção’. E fazia-o de modo quase ensaístico, entre a trama que colocava uma aldeia junto ao mar como leitmotiv de um encontro entre mundos opostos: um homem e uma mulher com dinheiro – e alguma ostentação – e o silêncio miserável de “São Romão” (uma terra ficcional de onde se avistavam as luzes do farol de Peniche). O texto é de uma riqueza literária imensa e, embora entrecortado aqui e ali pela ‘correcção’ ideológica da época, constitui bem mais do que um testemunho temporal. A tese de Cardoso Pires tem uma esquadria histórica bastante funcional. Tudo começa no início do século passado, quando, em caso de “...
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O site PNETliteratura conclui depois de amanhã um ano de vida. A data é tão auspiciosa quanto pitagórica: 09/09/09. Não se trata de muito tempo, mas, por outro lado, nos tempos que correm, pode dizer-se que foi uma animadíssima maratona. Todas as iniciativas que tendem a criar novos horizontes, dentro das práticas e tradições relativamente instituídas, sentem a necessidade apurada de balanço. Pelo nosso lado, foi claro, desde o início, que desejámos conceder ao espaço da literatura o silêncio que faz parte da sua natureza de arte que fala a sós e com um tempo que é o tempo da leitura e da congeminação activa. Por isso, não estimulámos o fluxo de imagens – que hoje constitui a respiração da rede como um fim em si mesmo –, nem fizemos da informação uma espécie de ‘dever’, porque a rede pôs a claro, nos últimos anos, que nem toda a comunicação se ‘deve’ cingir ao redutor programa do jornalismo. O que não significa que o nosso site não tenha tido, todos os dias, informação particularmente ...
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A “correcção” é um termo interessante. É uma daquelas palavras que, a dada altura, foi ‘convocada’ para passar a significar algo de novo (o que os semióticos designam por ratio difficilis). É “correcto” aquilo que se adequa a uma expectativa generalizada, sem criar grandes falhas de expectativa ou estranheza. Na literatura, é muito interessante perceber o modo como certos relatos podem ser (ou tornar-se) “correctos” ou “incorrectos”. Quando as vanguardas comandavam o fôlego das artes e da literatura, a “incorrecção” era uma matriz desejada e esperada. Hoje não é tanto assim. Dou um exemplo que liga, através de detalhes interessantes, um alusão sobre Le Clézio e um livro (uma “short story”) de D. H. Lawrence. Alexandra Lucas Coelho escreveu sobre Le Clézio, o Nobel do ano passado: “Pelo menos desde que foi viver com os índios do Panamá, no começo dos anos 70, vale a pena ler tudo o que escreve Jean-Marie Gustave Le Clézio”. O comentário, publicado na Pública do passado dia 16 de Agosto,...
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O que há de mais desconcertante e edificante na literatura – os pólos esbatem-se – é a capacidade de a palavra tratar por tu a dimensão do minúsculo. Aquele discorrer entre alusões, ilações, memórias e pequenos actos que se sucedem e sobrepõem. Enquanto fechamos e abrimos os olhos. Ou enquanto os dedos se fecham para tocar na ponta do colarinho. O insignificante é uma matéria fugaz, mas é, ao mesmo tempo, a encorpada atmosfera do nosso silêncio e a delonga ininterrupta da nossa vida interior. Dois exemplos: um de David Lodge e outro de Patricia Highsmith. O primeiro coloca em cena um diálogo exíguo que faz da palavra uma silhueta espirituosa; o segundo sugere a ideia de um vaticínio que concede à palavra o valor de tinta impressiva. Discutir a posição do ganso ou do macaco à luz do Kama Sutra é uma coisa. Pode dar para rir ou para chorar. Mas com canecas de cerveja e um hálito levemente amargo pelo meio, os efeitos, a abordagem, os gestos e as poeiras que se intrometem no olhar ganham ...
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É normal encontrar-se, aqui e ali, alguma ansiedade em torno da sobrevivência da poética no tempo da rede, pelo menos no modo como (culturalmente) a entendemos desde finais do século XVIII. O problema voltou a ser aflorado numa das recentes feiras do livro onde estive presente, a de Viana do Castelo. Para expiar angústias, passo a apresentar uma possível e breve cartilha em sete pontos sobre o futuro específico da ciberpoética. E por saber que o “miedo no es sonso”, como escreveu Borges em El Libro de Arena (1975), daqui a cem anos… vamos ver se não acertei em cheio: 1 – A vida da ciberpoética será cada vez baseada no provisório e num verdadeiro vaivém em oposição a uma vasta tradição que sempre encarou a poesia como inscrição definitiva (uma espécie de magistral ‘sinal dos tempos’). O destino da ciberpoética vai, pois, ser o movimento: fluir e navegar através de permanentes subtracções e adições. 2 – A autoria da ciberpoética tenderá cada vez mais a descolar de marcas individuais fixa...
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A época é de livros que se recomendam. Sempre foi assim. Livros que inspirem a alma solar e a ilusão de que uma pessoa descansa, porque se declara a si própria em férias. Digamos que as férias correspondem à época em que o alívio tenta inundar – uma inundação sem riscos – o pasmo da rotina. Mas até esse desejo não passa de um fetiche, ao fim e ao cabo bastante parecido com aquelas simulações que tornam certos policiais verosímeis, previsíveis e malfadados. Seja como for, até pelo nome, a colectânea Férias de Agosto de Pavese recomenda-se (há uma recente edição da Quasi com tradução de Ana Hatherly que sucede a uma outra de 1965 da Arcádia). O ambiente faz lembrar certas histórias de Eric Rohmer, mais na linha, naturalmente, de “Conte d'été” (1996), e menos &n...
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No último dia de Agosto de 2001, Agustina Bessa Luís caracterizava a literatura e a actividade crítica como snobs: “Há no crítico um certo snobismo, conforme à sua educação, mas tal não se pode levar a mal. A literatura é snobismo, porque é uma tentativa de se sobrepor à sua realidade. Não é um retrato da sociedade em que se vive, mas a procura da superação”. As palavras de Agustina, que tinham como referência Eduardo Prado Coelho – visado numa polémica literária que teve lugar no verão de 2001 –, desdobraram-se, depois, a um exemplo no mínimo curioso: “Toda a crítica é snob. Até Jesus Cristo foi snob, quando criticou o seu próprio livro” (…) “Critica-se sempre a nossa própria cultura. O snob quer dizer isso mesmo, sem nobreza, sem autoridade total que ninguém tem”. A ideia de “procura de superação” (como alma identitária da literatura) não é menos desafiante do que a ideia de crítica, entendida por Agustina num prisma de dúvida “snob” que se vai exercendo, de modo ininterrupto, sobre...
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O tempo da banalização é o tempo em que os modelos clássicos perderam as suas fronteiras. Tudo se mistura. Os museus tendem a tornar o mundo inteiro como anfitrião, do mesmo modo que a literatura tende a inscrever, no seu seio, para escândalo de muitos, todo o tipo de registos (incluindo os chamados “subprodutos” – i.e., romances sobretudo provenientes da mediaesfera). Contudo, uma arte dita “pobre” (materiais elementares, fusão com o quotidiano, instalação, inscrição na paisagem, etc.) pode ser uma arte muito implantada na vida do dia-a-dia e, portanto, indispensável, nutritiva e autêntica. Mas tornar-se-á facilmente incompatível com os discursos tradicionais da crítica, com o discurso kantiano sobre o “génio” ou com as posturas que sacralizem a arte, a crítica, os escritores e os artistas em geral. A polémica literária de Agosto e Setembro de 2001 teve como pano de fundo a necessidade de avaliar a força (então emergente) dos subprodutos. Como lembrámos na semana passada, Fernando V...
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Até ao próximo dia 31 de Julho – já falta muito pouco para acabar! –, a Hemeroteca Municipal de Lisboa dedica uma interessantíssima exposição a um leque de revistas portuguesas que herdaram muitos dos atributos da Revista de Portugal que, entre 1889 e 1892, foi dirigida por Eça de Queirós. Como se refere na apresentação da iniciativa, a Revista de Portugal “foi fundadora de um novo tipo de revistas, pelo que acabou por funcionar como modelo para várias publicações periódicas que surgiram ao longo do século XX”. A Revista de Portugal começou a ser publicada no dia 1 de Julho de 1889 e anunciava-se “acima dos partidos, das escolas, dos currículos, de tudo quanto é limitado e transitório”. Uma ambição quase intemporal que fazia da actividade crítica uma certa forma de ‘poiesis’. Perfumes da época. Nos quatro volumes que compõe, a Revista de Portugal constitui um acervo relevante para o conhecimento da época em que foi editada e, naturalmente, também, para a “própria história literária de ...
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A 8 de Dezembro de 2008, o meu habitual editorial, “O papel da empatia na crítica literária”, evocou uma polémica que teve lugar no Verão de 2002. Porém, no Verão imediatamente anterior, algumas declarações de Fernando Venâncio tinham dado origem a outra polémica ainda mais estriada. Terá sido o último ajuste de contas sobre a natureza e a história recente da crítica literária e, também, o último separar de águas quanto às tipologias literárias e seus “subprodutos” que têm cruzado o país neste século. O rastilho da polémica de 2001, que – diga-se como pura coincidência – precedeu o 11 de Setembro (o texto de João Carreira Bom, “A Glória”, fechou o debate no dia 7), teve na sua origem uma resposta de Fernando Venâncio a uma pergunta de Francisco Mangas, em entrevista publicada pelo DN a 28 de Agosto: “A Maria Velho da Costa, o Rui Nunes, a Gabriela Llansol... São promovidos continuamente, cada livro que publicam é uma "obra-prima", e isso tem um efeito perverso, perigoso: des...
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A edição do Verão de 1959 da revista Evergreen (Vol. 3, Número 3) – faz agora mesmo meio século – tinha uma capa oriental (fotografia de Sunil Janah do Templo do Sol de Konarak, na Índia). De facto, a efígie salientava a presença, com bastante destaque (na “Evergreen Galery”), do romancista indiano Mulk Raj Anand, director, à época, da revista “Marg” que se publicava em Bombaim. O seu texto, A Grande Maravilha (The Great Delight - pp. 172-200), parodiava a reacção que os clérigos ocidentais tiveram quando encararam, pela primeira vez, o Templo do Sol de Konarak. O erotismo das figuras modeladas em pedra era – e é – de tal modo óbvio e contagiante que dificilmente podia ter sido enquadrado pelos missionários numa religiosidade que, citando Raj Anand, privilegia “o todo da criação” como “resultado da união de princípios femininos e masculinos”. A metáfora que Raj Anand encontrou, umas linhas depois, para retrospectivar a sua crítica mais geral ao Ocidente (a Índia era independente há mui...
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A literatura procura, muitas vezes, o que as férias procuram: contingência, deambulação e sobretudo um tipo de proporção que não se coaduna com o vivido no dia-a-dia. Não é realmente difícil testar esta estranha coincidência que se baseia na exploração de um tempo que aspira a não ser o tempo comum. Passemos a palavra a Ian McEwan e deixemo-nos ir nesse “desvio para oeste” que é próprio de certa errância estival: “Enquanto ia a atravessar a ponte, recordou-se de novo de como Amesterdão era uma cidade calma e civilizada. Fez um grande desvio para oeste a fim de passar ao longo do Brouwersgracht” (…) “Que lugar tolerante, aberto, adulto: os belos armazéns de tijolo e de madeira trabalhada convertidos em apartamentos de bom gosto, as modestas pontes de Van Gogh, o discreto mobiliário de rua, os holandeses de ar i...
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Tenho escrito com algum empenho sobre o facto de a literatura estar a viver num mundo que deixou de a significar do modo como sempre nos habituámos. A matriz desta compreensão recua, como se sabe, até finais do século XVIII. Como escreveu o saudoso Eduardo Prado Coelho, há quase trinta anos – cito para sintetizar – “A literatura é o produto da idade crítica. A idade crítica é a literatura como auto-crítica e a crítica como literatura”(...)“O romantismo inventa a literatura que está sempre além de qualquer literatura”. Esta invenção da ‘poiesis’, ou seja, da linguagem que inventa a linguagem e que se torna numa escrita (ficcional) autónoma face a todas as ‘Escrituras’, correspondeu a uma revolução que atravessou oitocentos e novecentos. A literatura continua hoje a ser uma oficina única e uma luminosa invenção, mas não ocupa mais – perdoe-se-me a expressão – o ‘altar da alma’ nas nossas sociedades. Os “zappings”, o tempo real, os media, as aragens pixelizadas e as imagens que geram imag...
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Foi publicada no Jornal do Commercio de Lisboa, a 30 de Agosto de 1900, e foi escrita dez dias antes. Trata-se de uma carta emocionada de Ramalho Ortigão que teve como destinatário Eduardo Burnay. No fim da carta, o autor afirma que “as letras são bem pouca coisa na vida”. O tom diz tudo sobre o facto que o texto evoca: a morte de Eça. Mas não só. A carta é particularmente importante, porque dá a conhecer o último itinerário do autor de Os Maias. As últimas paisagens, glosas e comentários. Os últimos horizontes, mas também os últimos cigarros, romances e até proezas gastronómicas. Numa palavra: a última viagem que teve lugar entre o décimo nono e o terceiro último dia da vida de Eça (mais concretamente, entre 28 de Julho e 13 de Agosto de 1900). A palavra a Ramalho Ortigão: “Partimos de Paris no dia 28 de Julho, em lugares contíguos no expresso da noite para Genebra. Ele, muito enfraquecido, é certo, vinha alegre e dormiu bem”. A conversa e o humor não terão cedido ao ambiente. E a pre...
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A sétima pergunta colocada ao senhor Breton, no recente livro quase homónimo* de Gonçalo M. Tavares, fez-me pensar num romance de Roth que li há três anos**. Eis a questão: “A minha questão prende-se com o facto de as tábuas, no geral, se soltarem e desgastarem com muita frequência. E o chão do mundo não é outra coisa, senão isto: um chão que se pode soltar. A violência imprevista que surge dos dias vem, aliás, destas tábuas repentinamente ameaçadoras que fazem um homem cair e uma mulher apaixonar-se”. No final deste perturbador parágrafo, lê-se em jeito de conclusão: “…e o acidente é isto: um movimento geométrico mau”. O romance de Philip Roth, A conspiração contra a América (2004), relata a ficcionada vitória eleitoral do aviador Charles Lindbergh sobre Roosevelt, em...
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Perto do final do romance Na Praia de Chesil, McEwan coloca na boca da mãe (Violet) da protagonista (Florence) uma interpelação a um terceiro personagem (Edward): não seremos (nós) “sempre levados pela história e pelas nossas naturezas dominadas pela culpa, a sonhar com o aniquilamento?”. A questão é premente e terá as suas origens nos textos proféticos mais antigos. Vem isto a propósito de uma leitura recente. Trata-se dum romance caracterizado como "precoce" que foi rescrito pelo seu autor, Truman Capote, durante anos e anos, mas jamais publicado. O texto, iniciado em 1943, foi descoberto (no passeio!) pelo porteiro do prédio de Brooklyn que o escritor viria a abandonar já nos anos sessenta. Travessia de Verão é o nome dessa narrativa póstuma de Capote que a Dom Quixote publicou, em Portugal, na Primavera de 2007 (e que a Objetiva publicou no Brasil). O enredo é simples e cativante e prende-se sobretudo com os impactos do imponderável. Uma menina da alta novaiorquina e um ...
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Continuando a percorrer uma errática rota de quase Verão, decidi hoje harmonizar a poética do lúpulo com a matéria portuária. Dois autores – que dificilmente se teriam entendido, Malcolm Lowry e Vitorino Nemésio – e dois livros que têm em comum a alma do oceano e a cerveja como ritual de passagem. Ou de travessia. O primeiro livro é de Malcolm Lowry e por ele me apaixonei há muitos anos. Reúne duas narrativas e tem um título que se propaga como eco inebriado: Hear Us O Lord From Heaven Thy Dwelling Place & Lunar Caustic. Das 347 páginas da edição que tenho em casa (Penguen Books, 1979), há uma tradução parcial portuguesa – fabulosa – da autoria de Anna Hatherly (pp. 26 a 99 do original) que correspondente ao capítulo Through The Panama (Através do Panamá*), recortado da primeira das narrativas. Trata-se de uma viagem iniciática, alcoólica e absolutamente visionária. A certa altura, já com vinte e três dias de viagem, o “Diderot” – nome do navio que parte de Vancouver no início do enred...
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A Primavera é um rio febril. Alergias e menos inclinação para a leitura são compensadas, nesta altura, com a excelência da nespereira e sobretudo com o fio secreto da cerveja, logo que a noite desce e a enseada das minhas trepadeiras floresce. Um fadário cíclico, desejado e sem juízo que caiba em verso. Mas que se aproxima da felicidade. Deixo duas histórias que rimam sigilosamente com esta aragem do tempo. Estive em Cantuária há dez anos. Na memória, ficou-me a imensa catedral e a espessura da cerveja. Acrescentei a Chaucer o prazer das vistas e as bagas do lúpulo, essas, ficaram cá. Quer dizer, lá. E a verdade é que, ao ler, pela primeira vez, nessa altura, o romance – de nome sintomático – Cakes and Ale or The Skeleton in the Cupboard (1930 – tradução portuguesa: Destino de um homem*) de Somerset Maugham, vi reapareceram diante de mim, como um sortilégio, as paisagens de Kent: as suas sebes, olmos e tabernas:"Quando uma taberna tinha um ar simpático, geralmente propunha que par...
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Sempre me intrigou o exílio de M. Teixeira-Gomes no final da sua vida. Grande escritor, presidente da república por dois breves anos (1923-25) e antes embaixador em Inglaterra durante sete (1911-1918), M. Teixeira-Gomes havia de partir para o Norte de África, em 1925, acabando por morrer em Bougie, na então Argélia francesa, já em 1941. Li muitas explicações, falei com especialistas sobre o tema (lembro-me de conversar com Urbano Tavares Rodrigues mais do que uma vez) e ouvi boatos. Rumores de simples predador. Mas nada melhor me terá explicado o que se passou, para além do circunstancialismo histórico e político da época, do que um brevíssimo filme biográfico – bem mais ficcional do que rigorosamente biográfico – que tive a oportunidade de visionar no Pavilhão da Argélia da Expo-98, em Lisboa. No fundo, este filmezinho dizia pouco. P...
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Folheio na longa tarde – este ano acinzentada – do dia 25 de Abril os velhos “Cadernos de Poesia” da D. Quixote. Na mão tenho a primeira colectânea de poemas (ou, se se preferir, a primeira “selecção da obra lírica”) de David Mourão-Ferreira, Lira de Bolso, saída a público há precisamente quarenta anos (1969). De qualquer modo, refira-se que A Arte de Amar, não tendo sido uma antologia, já tinha reunido, em 1967, os primeiros cinco livros do autor. A colecção da D. Quixote – a par dos congéneres “Cadernos do Cinema” – fez história e, antes desse oitavo volume do então novo conceito de ‘livros de bolso’, já tinha publicado nomes como Carlos de Oliveira (Sobre o Lado Esquerdo e Micropaisagem, segunda e terceira edições, respectivamente), Neruda, O´Neill (a segunda edição de De Ombro da Ombeira), Vinicius, Éluard e ainda Armando Silva Carvalho (com Os Ovos d´Oiro). Preciosidades, claro. O curto prefácio de Lira de Bolso é da autoria do poeta João Rui de Sousa e apenas surge assinado, curi...
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Há duas semanas que estamos a dialogar com o tema da melancolia. Passámos revista a uma tradição que, desde a alta Idade Média, considerava a melancolia como um dom fisiologicamnete localizado. A bílis como anfitriã da melancolia, pois então. Motivo de comentário irónico de Montaigne ainda tão longe, no entanto, do tipo de asserção moderna que, bem mais tarde, aparecerá em Vítor Hugo: le bonheur d´être triste (a felicidade de estar triste). José Ricardo Nunes escreveu, há uns anos, que, nos poetas de hoje, existe “muita melancolia e muito hiper-realismo”, embora os “melhores” sejam aqueles que fogem “um bocado a esses escolhos". É bem possível, embora nem sempre a melancolia atraia os críticos e ensaístas. Talvez um óptimo exemplo dessa “fuga” seja Luís Quinta...
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Li de um só jorro, já lá vão dois anos, o romance Ravel de Jean Echenoz. Nove breves capítulos escritos no osso – enfim, um requintado osso francês – com as viagens, as divagações interiores e a assunção de um destino solitário a flutuarem até ao limiar da tragédia (o final concorda em género e número, dir-se-á, com o Everyman de Roth). Interessante combinação do dado biográfico – de facto, o romance cobre os últimos dez anos da vida do autor de La Valse – com uma arquitectura simples que não deixa habilmente de ceder, aqui e ali, ao efabulátório. Se há livros ‘recentes’ que permanecem e que ainda hoje se ficcionalizam na minha memória, este é um deles. Como um eco que, de forma involuntária, continua a sinalizar o brilho da sua presença. É um au...
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Escreveu Montaigne nos seus fabulosos Ensaios: “Demócrito e Heráclito foram dois filósofos, dos quais o primeiro, por achar vã e ridícula a condição humana, não saía a público senão com um rosto que troçava e ria; Heráclito, tendo piedade e compaixão dessa mesma condição, trazia consigo um rosto permanentemente triste e os olhos carregados de lágrimas (…). Eu prefiro o primeiro humor, não porque seja mais agradável rir do que chorar, mas porque é mais desdenhoso e porque não condena mais do que o outro; parece-me que não podemos nunca ser demasiado desprezados segundo o nosso mérito”. A fonte deste excurso de Montaigne é a famosa Carta de Hipócrates a Damagetus, falsamente atribuída a Hipócrates, claro, e também chamada Carta do Pseudo-Hipócrates. Data da segunda...
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Pego no segundo número da revista Noonday publicado há meio século. Precisamente em 1959. A edição é de Cecil Hemley e Dwight W. Webb (N. Iorque). Não, não, caro leitor, desta vez não irei percorrer as páginas de uma revista como quem atira para a curvatura da esfera celeste uma súmula de versos, ilações, excertos, figuras e outros sopros mais ou menos entusiásticos. Não, nada disso. O que me fez parar neste volume da Noonday foi o início de um ensaio sobre Gide que, aliás, abre o corpo (já um tanto macerado) da publicação. O texto é assinado por Donald Windham e confesso que vale a pena citar (enfim, com inevitáveis cortes pelo meio) o que nele se diz e interroga. Garanto que se trata de um involuntário ponto de partida para um conto, ou para uma deriva ficcional que, no mínimo, seria de grande subtileza e suspense. Mas não levantemos demasiado a fasquia. Leiamos, pois, o texto. Vertê-lo em Português é já interpretá-lo, reinventá-lo, ou seja, por outras palavras: entrar numa das invis...
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Na brevíssima introdução ao seu Journal – edição de 1934 da Grasset – escreveu François Mauriac:“Não se deverá procurar neste título um jogo de palavras. De facto, trata-se de uma recolha de artigos; mas eu concebo o jornalismo como uma espécie de diário meio íntimo; – como uma transposição, para o uso do grande público, das emoções e dos pensamentos quotidianos suscitados em nós pela “actualidade”. Neste plano, uma doença ou até uma simples leitura têm quase tanto valor como uma revolução; é a sua incorporação na nossa vida interior que acaba por definir a importância dos acontecimentos”. Tão longe que estávamos ainda de uma concepção de espaço público mediatizado! Esta doce concepção de M...
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Há dias em que sou dominado por um secreto apelo pitagórico. Nessas alturas, percorro a escada em caracol do tempo para perceber o modo como as datas se tornam em personagens e não apenas em números, registos opacos ou sinais obscuros. E a verdade é que visitei, na passada semana, a revista EverGreen de 1959 e, há duas semanas, as páginas de Março de 1909 do Diário Íntimo de Manuel Laranjeira. No primeiro caso, há cinquenta anos certos, o experimentalismo optimista vigorava em pleno; no segundo caso, há precisamente um século, uma sombria disposição atravessava os relatos. Hoje, com a mesma sina de espeleólogo que procura traços raros mas concordantes, eis que a estante de livros me concedeu a graça do Diário de Julien Green. O ‘dia’ que passo a ler – o 15 de Março de 1939 – reflecte um ar bem mais espesso e grave do qu...
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Adoro folhear, perscrutar e deixar-me cair em tentação ao longo das estantes. Mas dando sempre ao gesto a liberdade de se perder entre livros, revistas, pó, gravuras sem reino e algum manuscrito perdido. Nada melhor do que a errância ou do que o encontro imprevisto no meio de uma multidão desarrumada de livros. No passado fim-de-semana foi assim que um dos exemplares da revista norte-americana Evergreen Review veio ter comigo. Era bem mais espessa do que as outras que a acompanhavam e, acaso dos acasos, este ‘Número 8/Volume 2’ – com uma vaca branca e uma lua amarela na capa – tinha sido editada, imagine-se, na Primavera de 1959. Um número especial, pois então, para celebrar o exacto meio século de distância face a nós. Face ao meu casual gesto. Face a este ‘Ponto de Mira’, o último do Inverno. Um facto destes não se perde. Nem surge, na curvatura do univers...
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Escreveu Unamuno sobre Manuel Laranjeira que é sobretudo no epistolário que se revela “toda a grandeza da sua alma, pois havia que ouvi-lo falar e nas cartas fala”. No entanto, quando este juízo foi enunciado, o diário de Laranjeira ainda não era conhecido. Apenas em 1935 é que Alberto de Serpa informou de viva voz Don Miguel da existência desses escritos. A sua publicação foi então considerada “importantíssima”, mas só em 1957 – catorze anos após a publicação das “Cartas” – é que viria a ser realizada. O curioso é que esta escrita verdadeiramente blogosférica, capaz de fundir o saber clássico com a voz corrente do dia-a-dia, foi fixada pelo seu autor há precisamente um século. Iniciou-se a 1 de Maio de 1908 e prolongou-se até 24 de Março de 1909 (tendo sido interrompida entre...
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Recentemente as edições Seuil deram a conhecer uma nova face de Barthes relacionada com o diário íntimo que escreveu após a morte da mãe, com quem viveu durante seis décadas. Os três Barthes que se conhecem (o ‘mitológico’, o estrutural e o semioclasta) excluem-se de certo modo, mas também se completam. Em todos eles existe um doce furor e um encantado prazer em atravessar o que parece óbvio, sem nunca o explicar completamente. Essa inclinação anatómica foi mais genuína e até inocente em Mythologies (1957), ordenada (ou previsível) na fase estrutural e quase mística (ou iluminada) no final. Mas a relação com as coisas e os seres analisados foi sempre vivida de um mesmo modo: com intimidade. Essa inteligência íntima é um dado que reaparece neste novo Barthes, enquanto ‘menino de sua mãe’. Seja c...
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Saiu em 2002 em Inglaterra, mas foi já em Janeiro deste ano que a tradução de Ana Maria Chaves foi publicada em Portugal (Asa). O livro é de David Lodge e tem como título A Consciência e o romance. Passei um fim-de-semana inteiro a namorar este livro, entre o temor do desperdício e o sol que finalmente havia dado à costa, após as prédicas de chuva e vento que têm feito a nossa vida dos últimos meses. Nem sempre sou grande adepto das ficções de Lodge. O romance biográfico de Autor, Autor, por exemplo, cansou-me por causa da aridez da linguagem e do tom pesaroso 'estilo Família Bellamy'. Mas este ensaio, apesar dos receios (as coisas da academia enfastiam-me cada vez mais…), acabou por consolar. E, de certo modo, vi partir para longe o anátema de interrupção de mais um (desejado) acto de amor. Curiosamente, A Consciência e o romance te...
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Conheci José Rentes de Carvalho durante os anos em que vivi na Holanda. Homem enérgico, dotado de humor cáustico e de uma parábola pouco redonda, fez da 'incorrecção' palavra corrente e obra-prima muito antes de a "correctness" se ter tornado – como hoje acontece – em tema de agenda. Fora e dentro da literatura. É por isso que o veneno agridoce da sua sátira embaraçava – e embaraça – profundamente, sobretudo numa sociedade como a holandesa que, ao mesmo tempo, se vê a si própria como devidamente arrumada, mas também como 'caso limite' de abertura crítica. Lembro-me das famosas entrevistas de Adriaan van Dis – escritor traduzido entre nós pela D. Quixote* – na VPRO (canal da televisão holandesa). Nos anos oitenta, as noites de domingo eram sagradas por causa dessas emissões e sobretudo devido às singulares entrevi...
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Há cerca de uma década, trabalhei com Jose Mohedano(Barcelona) e Teresa Garulo (Madrid) num projecto de tradução dos poetas Ibn Sâra de Santarém (m. 1123) e Ibn ´Abdún de Évora(1050-1135). O projecto acabou por não gerar uma publicação integral destas traduções entre nós. Aproveito o “Ponto de Mira” para divulgar agora algumas destas traduções.É particularmente interessante ler os poetas que habitaram o actual território português antes de Portugal existir, embora esta poesia seja retoricamente bastante codificada e não dê, nesse sentido, grande espaço à descrição local. O que pode ser uma virtude, já agora. Aqui vos deixo, para começar, um poema do escalabitano Ibn Sâra (m. 1123):Tarde no rio Contempla este local, onde estamos !O ar põe a nu a sua face serenaao cair da ta...
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Há dias peguei num gratuito parisiense (que parecia um suplemento enfatuado dos nossos semanários) e dei com uma citação perspicaz: "Uma lista é algo que me parece muito interessante, pois acaba sempre por ser incompleta e não suscita, por si mesma, nenhum tipo de razão". Esta frase de Charles Dantzig - que não apimentei em excesso na tradução - abre a sua 'Encyclopédie capricieuse du tout e du rien', saída a público, em França, há alguns dias, com a chancela da Grasset.Em mais de 800 páginas, Charles Dantzig dá arbitrariamente corpo a uma lista onde tudo parece caber. Desde os caminhos mais emblemáticos do planeta, aos "filhos infelizes", às "raparigas energéticas" e aos chamados "comportamentos cómicos". Tudo colocado ao mesmo nível e tudo de acordo com uma lei que vive bem mais do lazer ...
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No conceito deste nosso PNETliteratura, inserimos, desde o início, uma rubrica de mini-entrevista que se definia – e define – como um breve inquérito assente num guião muito estável. O modelo caracteriza-se por um conjunto de perguntas sucintas, claras e, portanto, adequadas à rede (são cinco, mais exactamente, variando entre a abordagem cirúrgica e a interpelação reflexiva). Muito curiosamente, ao consultar o Magazine Bertrand – de Novembro de 1933 –, dei com uma rubrica análoga, embora ainda mais económica do que a nossa. Bastava-lhe, à época, uma única e delongada pergunta ("Como e quando se sentiu escritor?"), mas, diga-se, de passagem, que o modo cultista e adjectivado das respostas não tem qualquer correspondência com os modos hoje praticados. Vale a pena seguir a finura barroca da escrita da altura e verificar como a "Lit...
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Ao cabo do primeiro quarto da longa viagem que é Montanha Mágica de Mann, mais concretamente na secção "Inquietação Nascente dos dos Avós e Do Passeio de Barca ao Crepúscolo", há um diálogo muito interessante entre o protagonista, Hans Castorp, e Lodovico Settembrini. Settembrini já vivia no sanatório Berghof quando Castorp aí deu entrada. Amante da iniciativa, da razão e da crença na espécie, o interlocutor de Hans Castorp explica, a certa altura, o significado que tem para ele a literatura. As suas palavras, condensadas e algo florais, condensam todo um programa. Começa por referir que nele se combinam as tendências dos seus ascendentes mais próximos – "a tendência combativa do cidadão, que fora seu avô, e a tendência humanística do pai, e que por este facto se tornara um literato, um escrito...
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O último romance de Roth coloca em cena, apesar dos múltiplos labirintos da história, o contraste entre a sequência urbana ininterrupta e a placidez campestre isolada do mundo (no caso, o ambiente rural dos Berkshires). De tal modo o contraste é traçado que o protagonista, reentrado na 'Grande Maçã' em 2004, após dez anos de ausência, fica suspenso de si ao ver que toda a gente anda na rua agarrada ao telemóvel, facto completamente novo na sua ponderação e observação do mundo. E a certa altura, Zuckerman chega mesmo a perguntar onde estaria esta necessidade que conduz ao uso compulsivo do telemóvel, quando o aparelho ainda não existia. Não há resposta, a não ser a da cada vez mais aparente separação entre a omniurbe global e a imaginação quase romântica dos bosques idílicos.Essa imaginação &eacut...
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Fez ontem, dia 4 de Janeiro, três anos que António Gancho morreu. Poeta muito pouco conhecido ou, pelo menos, bem menos conhecido do que Luís Pacheco que faz amanhã, dia 6 de Janeiro, precisamente um ano que também partiu. Interessantes necrologias do início de ano. Mas se Pacheco foi sempre parte da ementa para várias gerações (nem que fosse por via de um detalhe de sobremesa tão lascivo e selvagem quanto iluminado e parodicamente bracarense), já Gancho fez sobretudo do recolhimento e do silêncio atributos que fizeram dele uma espécie de Lonoff do último Roth (ou seja, de O Fantasma sai de cena). Um enigma puro. Um mapa de palavras por reinventar.António Gancho era um óptimo poeta. Vi-o por uma só vez no local onde morou durante quase trinta e nove anos: no Telhal. Nasceu em Évora, como José de Carvalho, Palolo, Bravo ou Lapa. Uma voz lenta, murmurante, ir...
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Fim de ano e nada de balanços. Nada melhor do que pensar um site de literatura em elementar media res. Como uma viagem que se iniciou e que continuará por muito e bom tempo. Um tempo que se deixa cativar pelo leme do instante e pelo prazer. Mas com um ritmo próprio. E com alguma disciplina. Não há céu azul que não ordene o fio do momento: uma ordem que não é dizível ou pronunciável, mas que tem um sabor, um ceptro e um reino. Por isso dita itinerários, guia caminhos e ultima desejos.O PNETliteratura iniciou a sua vida há pouco mais do um trimestre e tem apostado, com a dupla serenidade de Janus, nos observatórios (de poesia, romance e tradução) e nos inéditos literários. Sem esquecer aquilo que é predominante euforia nos outros mares da Terra: a feérica luta pela informação. Mas o nosso mar é mais calmo. Não tão e...
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Era uma casa em que os móveis estavam todos cobertos com panos brancos. Uma montanha de neve sob tectos recortados pela humidade e pela memória muito antiga dos passos ao longe (estrados que rangiam, degraus soltos, o soalho ao vento). Um torrão de açúcar a ocupar a respiração e o respigar com que o coração do menino se agitava. Até o relógio de parede (um papagaio de cobre em forma de tic-tac), a ventoinha presa ao tecto e o bengaleiro de marfim pareciam mumificados. A luz entrava pelo vão da janela por onde ia espreitando a brisa do fim da tarde. E não havia um único volume – sofá, cómoda ou piano – que não tivesse adormecido com alguma moleza sob a brancura dos lençóis. Há tantos anos. O tempo tinha cristalizado como salgema na gruta e apenas parecia dar de si quando a brisa empurrava, aqui e ali, as portadas pesadas das janelas. Um ...
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Em 2009, o romance Aparição de Vergílio Ferreira faz cinquenta anos de vida. Entre a imensa variedade de efemérides que o meio literário adora colher e recolher, esta será – ou poderá vir a ser – particularmente significativa. Os motivos são vários, mas existe um que destacaria nesta antecipação meio sibilina. É que, ao analisar-se a natureza do impacto que Aparição teve em 1959, seremos levados a constatar, de modo claro, como o nosso mundo mudou tão radicalmente em pouco tempo.Para me explicar, nada melhor do que dar a palavra ao autor. Mais concretamente, recorrendo-me ao pósfácio escrito em Outubro de 1967 para a quinta edição de Aparição que viria a sair a público há precisamente quatro décadas, aliás numa lindíssima edição da Editorial Inova ilustrada por Júlio Resende...
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Lido de uma ponta à outra numa única noite, pode dizer-se que se trata de um romance que respira fundo, que levanta voo e que promete estar, quase sempre, para além daquilo que o leitor consegue deter. O tema é fascinante: uma biografia de Almada Negreiros. Claro que o protagonista é profundamente reinventado, facto que conduz ao reverso do género, ou seja, ao campo das biografias inventadas. Coisa muita rara entre nós.Focalizado de modo intimista e um tanto asfixiado na primeira pessoa que se vai rescrevendo em várias frentes, o relato aborda quatro momentos nodais da vida de Almada. Em todos eles, a memória e a prospecção colidem e hão-de levar o leitor, de mão dada e de mansinho, à mais cáustica das surpresas.O primeiro desses quatro momentos remete para o último ano do século XIX (1900), quando o jovem Almada está ainda internado no colégio interno do...
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A primeira polémica deste século entre críticos literários teve lugar no Verão de 2002. Ablogosfera mal existia ainda, facto que hoje deverá ser relevado como importante para entender o que então se passou. De facto, foi nas páginas dos jornais que tudo acabou por revelar-se e eu creio mesmo que deve ter sido a última polémica que não se estendeu à caudalosa, múltipla e rica paisagem da rede. Regressemos à história dessa trica lusitana. O elemento central de discórdia foi a ideia de "empatia". Para uns, a empatia era apresentada como um modo de bloquear o pensamento. Para outros, a empatia era apresentada como uma espécie de mais-valia essencial para percorrer, descobrir e analisar um texto literário. De um lado, os que pressentiam uma cristalina distinção entre a figuração do sujeito, neste caso do sujeito crítico, e...
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Existe um interessante texto de Luc Sante, As Ruínas de Nova Iorque, que descreve uma erupção vulcânica em Upeer New York Bay nos finais do ano de 1985. O leitmotiv ficcional conduz o leitor a uma cena ao jeito do mito de Pompeia: todo o movimento é subitamente suspenso e imobilizado pelos efeitos da lava. A vida no tempo como que perece e a imaginaçao cristalizada, própria do momento congelado, acaba por tomar conta do próprio fio narrativo. Este impacto plástico não é insólito e, ao fim e ao cado, corresponde ao ‘lugar mais comum’ da oficina de qualquer escritor. Ou não é a literatura um corte na 'montagem' do real mais imediato, tendo em vista uma forma de reaparecimento noutra escala e noutro nível de questionamento?A cegueira metaforizada por Saramago, as travessias imaginadas por Malcolm...
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“Por mim, não conheço objecto mais lindo em toda a natureza, mais feiticeiro, mais capaz de arrebatar o espírito e inflamar o coração do que é uma jovem donzela quando a modéstia lhe faz subir o rubor às faces, e o pejo lhe carrega brandamente nas pálpebras... Pouco lume que tenha nos olhos, pouco regular que seja o semblante, menos airosa que seja a figura, parecer-vos-á nesse momento um anjo”. Lê-se esta prosa de Garrett – IV capítulo de Viagens na Minha Terra - e capitulamos. Ainda hoje. Existe uma doce ventania neste prazer da digressão, neste desejo de errar e preencher um espaço que parece sem fim. Nestas alturas, a escrita torna-se no bordado que viu as agulhas passarem pelas nuvens, sempre que o minúsculo ponto de renda era laçado. Esta vontade de nadar com cada um dos braços numa das margens do oceano é um desígnio romântic...
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Se fosse vivo, teria este ano feito sessenta anos. Talvez já tivesse acabado a biografia inventada que tantas vezes referiu, talvez tivesse acabado um livro sobre Portugal (que creio também andava a meio), talvez nos tivesse surpreendido com o mais inesperado dos abismos. Al berto confundia a escrita com a vida e era tão depurado na sua capacidade de tratar o fôlego poético ‘por tu’ que preferia, sinceramente, a construção à correcção permanente. Ao contrário de escritores que transformam a ‘correcção de provas’ numa barragem da própria vida onde tudo se suspende, Al berto escrevia na tona da água e tinha pelo ‘aberto’ em que se revia uma paixão que não parecia caber no corpo. Além disso – e sem querer agora aqui repor a turbulenta cronologia da sua obra –, houve na escrita de Al berto alguma senha p...
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A literatura, tal como a entendemos ainda hoje, é algo recente. Tal como toda a arte, a literatura surgiu, desde finais do século XVIII, como uma espécie de nova divindade à procura da sua, também, nova galáxia.Para Shelley, o poeta participava “do eterno, do infinito e do uno”; não se poderia, pois, pressupor “tempo, lugar e número” que determinassem “as suas concepções”[1].Kerckhove chegou a dizer que “os gregos inventaram o teatro para recuperar a identidade que tinha sido estilhaçada pelo alfabeto”[2]. E, a partir do mais inocente dos Romantismos, poderia, nesta mesma linha de ideias, afirmar-se que os modernos inventaram a arte e a literatura – para além da história e de outras ficções – com o intuito de recuperar a identidade que estava (bruscamente) a ser estilhaçada por causa da morte de um Deus mais an...
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Há cerca de dois anos, escrevi um texto sobre os dez livros que não me teriam “mudado a vida”. Um desafio complicado, já se vê. Comecei por referir que “às vezes, há livros maus que podem mudar a vida. O que nem sempre acontece com um livro (literariamente) bom”. Seguiu-se, depois, o breve inventário baseado na memória de leituras marcantes, sobretudo ao nível da contingência e do momento, mas que acabaram por não afectar o curso posterior das minhas decisões e iniciativas. Por outras palavras: a lista incorporou obras que me prenderam enquanto as li, mas que depois se esfumaram ou diluíram nos enigmas do alheamento e do esquecimento. O que significa que acabaram por não entrar na cristaleira dos cânones individuais (nessa categoria cabem todos os livros que, para o bem ou para o mal, ainda hoje me continuam a bater à porta mundana do ser e do fazer).Nos ...
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A memória é um tema fundamental do princípio da modernidade. Entenda-se: a memória como objecto de domesticação. Urgia então domar o passado através das novas ciências (que colocaram o homem no centro de todas as coisas – história, antropologia, etnografia, sociologia, etc.), através da invenção dos museus e através dessa imensa aventura de ‘reconstituição’ – sobretudo da Idade Média - que foi o Romantismo. A própria ideia de fotografia, enquanto perpetuação do já ido, se insere nesta domesticação do passado. Os géneros literários trabalharam a memória de modos diferenciados. Ora cingindo-a ao laboratório do código – o que aconteceu em todos os realismos –, ora deixando-a diluir-se na teia do discurso como um fio-de-prumo sem fim – o que passou a a...
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Faz parte do homem desdobrar-se em imagens. Desde a Pré-história que assim é. A literatura sempre fez eco de imagens como “Deus”, o “paraíso”, a “salvação” ou os “monstros” que teriam habitado os antípodas distantes do planeta. Estas imagens ficcionalizaram um universo distante do vivido. A distância entre realidade e ficção só se estreitou na modernidade industrial. Nessa época, o homem passou a projectar-se na novíssima mecânica criada e começou a delinear pistas imaginárias que o conduziriam à chamada “ficção científica” (o fabuloso “Metropolis” de Lang ou as interessantes viagens ao centro da terra de Verne integraram essa ficcionalidade ainda projectiva). O que se alterou nas últimas décadas foi o facto de esta fractura entre ficção e real se ter ...
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A apoteose do nosso tempo tem um nome próprio: a imagem. Mas a imagem pela imagem: excesso de terminais e omnipresença generalizada de pixels. A contemporaneidade já quase não permite a verosimilhança tradicional e analógica da imagem. Hoje em dia, fotografar é quase só já suspender o fluxo ininterrupto de imagens que atravessa a globalizada rede das redes. Como se travássemos um rio inteiro com a palma da mão. Milagre digital, afinal. É a partir deste novo universo, desta força motriz pós-eléctrica, desta singularíssima matéria-prima (de teor aparentemente imaterial) que muitos autores da expressão plástica contemporânea trabalham. E fazem-no exorbitando e mimetizando o excesso que nos rodeia, tal como Schlegel, no seu tempo, poetava a partir do excesso da sua matéria-prima preferida – a natureza: “Estamos contentes e gratos...
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A Escritura e a escrita – duas palavras aparentemente vizinhas – sempre viveram em mundos inteiramente diferentes. A primeira herda o sabor de uma fonte espiritual, visionária, quase profética. A segunda herda o sabor de um fontanário mais plebeu, mas que muitas vezes deu a beber água de superior qualidade. Até nos aproximarmos dos nossos dias – convém sintetizar o peso da “História” –, não deixa de ser verdade que houve muitas escritas que se impuseram como se fossem Escrituras e que houve verdadeiras Escrituras que se foram reduzindo a simples escritas. Contudo, independentemente das turbulências das épocas e do afinco das revoluções, é um facto que a separação sempre se soube manter. A própria ideia de “escritor” – a deambular como um génio nas praças e botequins de oitocentos e novecentos – não deixou de herdar o peso destas nascentes mitológicos que surgiam como referências para todo o tipo de urbanização mental e ideológica, tal como nos idos de setenta se dizia. Durante o sécul...
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A Interact - Revista Online de Arte, Cultura e Tecnologia (Interact) não é uma revista de literatura. Trata-se, sim, de uma publicação – apoiada pela FCT – que se situa na transversabilidade da rede: entre disciplinas e disputando os fascinantes limbos do nosso tempo. A literatura ‘terá que se habituar’ às sadias correntes de ar que nos envolvem e, talvez seja por isso mesmo, a nova edição da Interact a aborde de um modo singular. Com efeito, ao lado de textos particularmente estimulantes de Jacinto Godinho (Second Life: mestre de marionetas), Jorge Leandro Rosa (A questão do traço), Bruno Baldaia (Memória, comprometimento, desejo), José Bártolo (Cultura das Redes e Experiência Artística), Rodrigo Silva (O pensamento da deslocalização), Miguel von Haffe Perez (Aqui e Agora), Ivan Franco/ Kathy Hinde (Piano Migration) e Miguel Leal...
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Paul Auster sempre explorou com mestria as semelhanças entre os acontecimentos mais diversos e mais diferenciados entre si. Este ponto de partida, baseado na equivalência do improvável, parece às vezes sobrepor-se a tudo. Veja-se, no romance Música do Acaso, os paralelismos entre as infâncias de Pozzi e de Nashe e entre os destinos de Flower e Willie.Veja-se o paralelismo formal que se desenha entre os desaparecimentos de Sachs e de Dimaggio, em Leviathan, e, por outro lado, o tipo de simulação praticado por Quinn/Auster na Trilogia de Nova Iorque e por Maria/Lilian em Leviathan. Vejam-se ainda as semelhanças que são propostas entre o ponto de partida da própria vida de Nashe (em Música do Acaso) e o que acontece na vida de Walter, no final da segunda parte de Mr Vertigo. Vale a pena seguir as pistas. E pensar.As sucessivas e delirantes similitudes (que atravessam a superfície lisa ou enrugada dos acontecimentos) narradas por Paul Auster não andam muito longe da interpretação que os me...
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Mais do que representar acontecimentos de modo linear, a literatura constitui um canal ideal para os reinventar, metaforizar e sobretudo para os reconduzir ao nível da pulsação da intimidade. A propósito da recente evocação do 11 de Setembro, lembrei-me do romance de José Luís Peixoto, Uma Casa na Escuridão, no fundo um esteio dir-se-ia quase único entre nós desse trabalho de incorporação íntima do que se pode designar como facto trágico global. O romance foi escrito depois da saída a público de Nenhum Olhar (2000) e viria a ser publicado treze meses após o 11 de Setembro de 2001. A figurada cirurgia ao quotidiano, levada a cabo em Uma Casa na Escuridão, acaba por resultar numa expiação espantosa e brutal que envolve personagens fantasmagóricas (que se amputam e que se amam), guerras violentíssimas (por exemplo no capítulo “Invasões”), a proliferação de doenças sem cura (a “peste”) e um determinismo sem retaguarda. Terribilis est locus iste! [1] – é o que se poderia dizer deste lo...
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A literatura não era propriamente uma ‘questão’ para o homem da Idade Média. Bastava-lhe a “Escritura”, isto é, o verbo que o aproximava da salvação. É o homem moderno, depois do fim do século XVIII, que colocou, entre muitas outras, a ‘questão’ da literatura. Por vezes, uma nova religião investida num altar social e estético. Pode dizer-se que o mundo moderno e ocidental foi atravessado por três grandes vagas de escrita literária: a romântica (uma interrogação livre, generalizada e por vezes mística sobre o homem), a realista (uma focagem da vida protagonizada pelo homem à luz das suas novas codificações com destaque para a, às vezes ilusória, noção do "progresso") e a monumental (a reacção em cascata à própria linearidade do...
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Tua coxa é lisa, o lado de dentro. Você é peixe de uma única escama, liso com ela e sem ela. Meus dentes não te rasgam, escorregam, escoriar tuas pernas é um descuido que me agrada. A mulher raspa tua cabeça, dinâmica debaixo d’água pra te salvar das Iemanjás. Azar dela, eu não preciso de oxigên...
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Repassada do desejo daqueles risos que se perderam e da lembrança dos encantos que nunca chegaram a acontecer, está a casa, palco deserto, onde outrora fantoches ensaiavam uma monótona coreografia. Aí, já não cabem as aparentes histórias nem o som de vidas a fenecer. Ouve-se, somente, o rangido ...
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Ninguém sabia por que ela criava amebas ambíguas no aquário. Não tinha peixes. Com a sua cara de sardas, frequentava o Café Flor e sorvia Kir Royal em copo de Campari. Sentia o beijo lambido que o argelino lhe dera na orelha, ainda de manhã. Ele vestia black-tie. Ela mal sentia a boca ...
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A bomba vai explodir. Já está armadilhada. Só falta digitar o código de acesso e premir o botão. — Vou-te deixar. D. sufoca no ar que o rareia e leva as mãos ao peito. A dor fragmenta-se em inúmeros pedaços de amor tóxico. D. cai no soalho, fulminado por palavras terroristas, uma bomba at...
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Ver é diferente de dizer o que se vê. Ver apenas, não incomoda o mundo. O homem está no remate da sua vida, mesmo que ignorasse como dedilhar o tempo há um espelho na parede, antes usado sobretudo para o ensaio de esgares mulherengos. Esse artefacto tem-lhe servido para desconvocar o eco da casa...
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O china era mais cuidadoso com o ferro de passar. Seu empregado, ao contrário, usa-o como se fosse um trator. O resultado são as feridas em minhas costas. Às vezes, ele joga água em excesso sobre a roupa, e o contraste com o ferro quente tem-me provocado constipa&cced...
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Nos clássicos movimentos de um cumprimento, a mão do doutor Proença desprendeu-se. Acidente: que, no aperto de dona Josefa, não houve ardor. Ao sentir coisa grudada aos dedos, num gesto de automática defesa a senhora sacudiu. Projectada, a mão do doutor Proença caiu, enérgico desamparo, no em...
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O
tédio e a melancolia contemporâneos juntaram-se nesta viagem à Índia para caminharem
em direção à explicação sobre o que é a viagem. A contemporaneidade dá
justificação a tudo: ao bom, ao mau, e a esse ponto zero, nulo e justo, o
tédio, que consome o homem. As paixões, os homicídios e os senti...
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"[...]a verdade é o dinheiro." CantoX, 16 "Ea estranheza é esta: mais contida fica a prostituta à medida que o vinhoavança." CantoX, 22 "Opior sítio para estar vivo é entre aquilo que um dia nos exige e aquilo que oeter...
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"Entre dois cães raivosos em batalha, não há espaço para a pausa."Canto IX, 3 "[...] o melhor lado não é perfeito, porque é lado - e um lado tem sempre o lado oposto."Canto IX, 33 "O inesperado insinua-se no que parece definitivo e ninguém se conhece antes de morrer. Ámen.&...
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"O que é o passado? Tempo que cada vez ocupa menos espaço [...] O presente - agora neste momento - ocupa todo o espaço que nos rodeia." Canto VIII, 2 "Núpcias da História com a Imaginação provocaram mais filhos e cópulas divertidas do que núpcias da Verdade com a boa memória[...]; mas...
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Neste ano, em que se assinalam 95 anos sobre a morte de Mário de Sá-Carneiro (26 de Abril de 1916), foram editados, em São Petersburgo, no volume XXVI da revista literária “Sfinx” (“Esfinge”), 10 poemas do escritor, traduzidos em russo (“Álcool”, “A queda”, “Nossa Senhora de Paris”, “Salomé”, “Certa...
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"A idade certa para conquistar o mundo é hoje. O homem levanta as interdições, avança, e quando se prepara para saltar: cai."Canto VII, 2 "Cair como a folha da árvore, tranquila e lenta, e subir como certos animais - a águia ou o avião guerreiro. A mobilidade inspira.[...]Canto VII, 3...
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"Viajar não faz bem apenas aos homens, também é bom para os próprios percursos ter homens que os percorram. Um caminho é como uma casa, é preciso abrir a janela de vez em quando para que o ar circule. Precisa de ser arejado o caminho e os homens que o percorrem são os que utam esse ofício. São ...
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"[...] quem relembra inventa: tudo começa de novo."Canto III, 5 "A intensidade com que se é esmagado não importa, de facto, o que importa é a intensidade que nos resta depois de sermos esmagados."Canto III, 75 "Se o progresso dependesse dos domingos, ainda andávamos de carro...
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Terá início em Setembro no CNC um ciclo que tem por objectivo fazer o balanço literário da última década. Organizado em parceria com a PNETLiteratura – um site que visa aproximar a lusofonia literária, contará com a intervenç&atild...
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No site http://disquiet.com/thirteen.html, aparecem links para 16 (dezasseis!) versões diferentes do poema “Autopsicografia” de Fernando Pessoa em inglês. O poema é tão conhecido na língua em que foi escrito que qualquer uma das versões provoca gr...
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Tenho um pé de cereja encantado ao lado do último olhar. Em frente,
um botão de púrpura calado. Pela mão esquerda enxergada colho uma letra breve.
O dedo indica-me a clave e perguntou-lhe: - Sol, ... Ler Tudo >>
No quadrazal da classe do touquim piámos que as da classe da piação seriem gambiadas nos quintos planetas de cada sesta porque os charales que jordarem as do joão das penhas à Classe do Mestre Migança... Ler Tudo >>
Ná página Crianças do Público de hoje, o destaque de Helena Melo vai para Montemor-o-Novo. (Agasalhem as crianças e visitem o Monte Selvagem.)
Depois
de três meses encerrado para manut... Ler Tudo >>
Valter que veio da nossa mãe
pátria Portugal - nos emociona com seu texto simples, bem humorado e sincero. É lindo mesmo,ver-nos brasileiros respeitados e reconhecidos por nosso jeito de ser e viver por nosso irmão colonizador.