As palavras pedra ou faca ou maçã, palavras concretas, são bem mais fortes, poeticamente, do que tristeza, melancolia ou saudade. Mas é impossível não expressar a subjetividade. Então, a obrigação do poeta é expressar a subjetividade mas não diretamente. Ele não tem que dizer eu estou triste. Ele tem é que encontrar uma imagem que dê idéia de tristeza ou do estado de espírito - seja ele qual for - por meio de palavras concretas e não simplesmente se confessando na base do eu estou triste. João Cabral de Melo Neto
Pode
ser uma generalização perigosa, como são todas, mas arrisco afirmar que o humor
é visto como uma "arte menor" ou se preferirem - porque não é bem a
mesma coisa - uma forma inferior dentro de cada Arte, da 7ª, às artes de palco,
à escrita. Outra generalização perigosa, com risco agravado de preconceituosa é
o dizer que somos, nós portugueses, dados ao preconceito, como de resto estou a
provar ao afirmar isto (ou pelo menos que eu sou, mas para isso estão as
generalizações que nos aliviam consciências). Combinando
estas duas ideias pré-concebidas e sem devido fundamento mas premissas
necessárias à formulação de um pensamento para reflexão conjunta, que é o que
se pretende deste espaço, será pois absurdo aventar a hipótese de que em
Portugal se escreva pouco humor (não confundir com "editar pouco
humor") porque a qualquer escritor que queira ser levado a sério não lhe
passará pela cabeça sentar-se diante do (local e/ou suporte físico ou digital
ond...
Ler Tudo >>
MEU AUTOR DE CABECEIRA: ANTÓNIO LOBO ANTUNES(O texto, de minha autoria, foi publicado na revista SER Médico - 39 de 2007, editada pelo CREMESP, quando o autor circulava apenas em algumas castas de escritores. Entretanto, nos dias que se passam, momento em que a imagem vale mais que a obra e Paraty aproxima autoria-obra do público brasileiro, acho pertinente reproduzi-lo no PNET, acrescentando em visibilidade do belo trabalho do autor entre os leitores brasileiros)Carlos Pessoa RosaCompreender a construção do romance em António Lobo Antunes, prêmio Camões 2007, passa, obrigatoriamente, pela leitura das cartas enviadas à esposa quando serviu na África, como médico, de 1971 a 1973, e publicadas em 2005, com o título “D’este viver aqui neste papel descripto” (Cartas da guerra).Entre confissões de amor (Gosto de ti e sobem-me nas pernas/ Marés que um lo...
Ler Tudo >>
Foi em 1986, com a publicação d’«A Casa do Pó», glosando as andanças de
Frei Pantaleão de Aveiro, que Fernando Campos irrompeu, com laivos de
reconhecimento literário, entre os grandes cultores do romance histórico em
Portugal. Por muitos tido como o luso Eco, que poucos anos antes, no início da
década, dera também a conhecer o aclamado «O Nome da Rosa», a verdade é que,
depois disso, nenhum outro romance seu terá tido o sucesso então alcançado. «A Esmeralda
Perdida», «A Sala das Perguntas», «O Prisioneiro da Torre Velha» ou «O
Cavaleiro da Águia», ainda que nem sempre pelos domínios do histórico puro
(seja lá o que isso for e em que fronteiras se situe), foram outros títulos
editados por um autor que, poderia dizer-se, ficou refém do sucesso em torno
d’«A Casa do Pó». Vá lá saber-se porquê, creio que nenhum dos outros seus
romances mereceu o devido reconhecimento; tal como este «A Rocha Branca», agora
que o leio, cerca de três meses após a sua edição. Ora vejam o que a edi...
Ler Tudo >>
«Os Malaquias», de Andréa del Fuego,
Língua Geral É
a mais recente vencedora (e surpresa) do Prémio Literário José Saramago. Nasceu
em 1975, em São Paulo, Brasil, e é, entre nós, uma ilustre desconhecida. Ou
era; até ser distinguida com o Prémio. O que não deixou ainda foi de estar por
publicar entre nós. Assim, lemos o seu livro premiado, «Os Malaquias», no
«original», leia-se em português do Brasil – não deixa, de resto, e aqui como
aparte, ser curioso verificar como nenhum acordo ortográfico será capaz de
elidir a distância que separa uma e outra língua escritas, o que, vistas as
coisas, só abona em desfavor do malfadado acordo... Adiante, a’«Os Malaquias».
Trata-se de um romance que se lê de uma assentada e que começa por prender o
leitor por via do episódio singular que catapulta o restante enredo e suas
personagens. Ou seja, o facto de um raio, durante uma tempestade, ter
esturricado um casal, na cama do seu quarto, deixando órfãos os seus três
filhos. Não levarão a...
Ler Tudo >>
Valter Hugo Mãe «O
Filho de Mil Homens» Alfaguara Valter
Hugo Mãe está de regresso ao romance, género a que parece agora devotar-se a
cem por cento, ele que começou pela poesia, que debutou na escrita a querer
fazer-se poeta. Pois bem, é o romance que mais reconhecimento lhe tem
granjeado, sobretudo desde a distinção com o Prémio Saramago, sobretudo, diria,
depois de «A Máquina de Fazer Espanhóis». Agora, o livro é outro, «O Filho de
Mil Homens», a temática geral não se afasta muito do que vêm sendo as suas
preocupações enquanto escritor atento ao
mundo à sua volta. Uma vez mais, são as margens da sociedade que lhe interessa
reflectir, as margens e os seus «marginais», leia-se os mais desfavorecidos, os
excluídos, os ostracizados, os desprezados, os esquecidos. As minorias,
tenha-se, tendo em mente que muitas minorias fazem a maioria, como o escritor,
em moldes similares, terá expressado. De
escrita e leitura escorreita, a golfadas de capítulos que quase per si encerra...
Ler Tudo >>
É uma memória indelével. Criança, no banco de trás do carro, em viagem para a Figueira da Foz. Às tantas, horas de viagem volvidas (e revolvidas), surgia, como se do nada, ao fundo de uma estrada recta e estreita a descer a visão monumental do Mosteiro da Batalha. Curiosamente, há bem pouco tempo visão similar testemunhei ao descobrir, nos mesmos termos (embora noutro termo), o abandonado e arruinado mosteiro de Seiça. Pois bem, atrás, à Batalha de novo para chegar ao mais recente romance de David Soares, justamente «Batalha» intitulado. E isso para relembrar ainda a história então ouvida, e a cada passagem ali recalcada, das Capelas Imperfeitas do supracitado mosteiro e da correspondente estória do seu arquitecto que, desejando provar a solidez da sua construção e a exactidão dos seus cálculos, sob os seus tectos ameaçando queda (a olhos ignaros) ali pernoitara algumas noites. É esta história que agora, neste seu livro, de uma forma quase tão desarmante como o Mosteiro da Batalha surg...
Ler Tudo >>
Muitas
manhãs teve o mundo desde que é mundo, mas poucas terá tido como aquela do 11
de Setembro de 2001. O século havia acabado de mudar e com ele a esperança,
sempre adiada, de um planeta melhor, livre de ameaças globais, como a guerra, a
fome, a seca, os confrontos religiosos e político-ideológicos, etc. Porém,
nesse Setembro fatídico do novo século a vir um monstro novo (ou renovado)
mostrava os seus dentes, a sua cabeça, e a sua endémica insânia: o terrorismo made in século XXI irrompia fazendo
colapsar em segundos as célebres Twin Towers nova-iorquinas. A América era
atacada dentro de casa, no coração agora transformado em trevas. Aí, sim, o
mundo verdadeiramente mudava e quem assistia em directo ao terror pelas
televisões arrepiava-se na plena consciência disso mesmo. Uma vez mais, a
realidade parecia troçar da ficção, suplantando-a de longe. Resultado,
um mundo em convulsão, novos confrontos militares de toada vingativa pela
frente, milhares de mortos para contabil...
Ler Tudo >>
O que o Modernismo nos trouxe foi muito. De entre esse muito, conta-se Fernando Pessoa (o Modernismo trouxe Pessoa e Pessoa trouxe o Modernismo) e a sua heteronímia. Aprendemos com ele que podemos ser outros numa arte que, até aí – pelo menos de uma maneira tão declarada – via vedada a ficção do sujeito. Desde o “Sentir, sinta o leitor”, ao “O poeta é um fingidor”, formas de explicar que o sujeito poético pode estar felicíssimo e escrever o poema mais triste do Universo, até a Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e tantos outros que tais, onde quem escreve, além de ver o seu sentimento como pouco importante, é, ele mesmo, alguém que à partida, não sente coisa nenhuma.O que nos trouxe o Pós-Modernismo eu já não sei. Porque ser pós-modernista parece querer dizer muito mais coisas e muito mais confusas coisas do que ser modernista. (Embora fique sempre bem dizer que somos pós-modernos ou pós-modernistas, vá-se lá saber porquê – eu acho que é por causa do “pós”.) Mas sei que a fr...
Ler Tudo >>
Sou um adepto incondicional da parcialidade. Não acredito em análises imparciais de coisa nenhuma. Nem de um livro de poemas nem do último Porto-Benfica. Quem quer ser imparcial acaba sempre por dizer que a culpa foi do Jorge Jesus.Ainda para mais, o facto de agora ser editor dos livros infantis e da não-ficção de referência na Babel, permite-me falar com toda a parcialidade possível de escritores de que sempre gostei e que tive a honra de editar nas Quasi. Se a isto somarmos que o autor em questão é um amigo que muito estimo, sou o Rui Costa a ver o jogo e a dizer que a culpa não foi do Jorge Jesus.Chama-se Vasco Gato e é ainda um rapaz: nasceu em 78, muito depois da minha safra, já envelhecida como a madeira de carvalho, a de 77. Crianças, enfim.O Vasco editou o primeiro livro com a mesma idade do que eu. Claro que, ao contrário de mim que tive o privilégio de criar uma editora para o fazer, lá se teve de contentar com a Assírio & Alvim. O que vale é que depois foi sempre a subir, co...
Ler Tudo >>
Não tenho por costume guardar jornais. O que sai hoje impresso está amanhã a embrulhar peixe. Tenho pena, no entanto, de não ter guardado um jornal. Foi há um ano, talvez. Era o suplemento do Expresso dedicado à divulgação das artes e de nome Actual. O agora Atual teve na altura, nas suas páginas de divulgação literária, uma coincidência – será? – interessante. De um lado, e com uma foto em grande plano, envergando casaco e gravata e pesando quase cem mil exemplares, o novíssimo romance de José Rodrigues dos Santos, se bem me lembro o “Fúria Divina”. Do outro, com um tailleur professoral e título com nome estrangeiro, pesando trezentos exemplares (a que se devem juntar os catorze de depósito legal, os dois que a gráfica guarda e um ou outro que ficou por lá perdido), “A Porta de Duchamp” de Rosa Maria Martelo. Para treinadores, Rogério Casanova e António Guerreiro. O resultado: uma bola preta no lugar de um olho para Rodrigues dos Santos, via Casanova; cinco estrelas do Olimpo para Mar...
Ler Tudo >>
Não fui um dos imediatamente convertidos à poesia de Mário Cesariny. Não sou um dos amantes incondicionais de tudo o que o Surrealismo foi e, de alguma maneira em alguns autores (lembro-me da Adília Lopes e do Daniel Maia-Pinto Rodrigues, que me parecem muito filhos – netos, talvez – dessa escrita dita automática), ainda é. Adília e Daniel – sim. O’Neill – claro. Cesariny – ainda mais. Mas há muitos surrealistas que se perderam nas brumas do tempo e que não fizeram o que fez Mário Cesariny (ou O’Neill, já agora): ultrapassaram-no.Mário Cesariny dizia-se um surrealista e de O’Neill um “surrealista amigo”. Mas ambos são também muito grandes poetas. Os jogos de linguagem mais ou menos inócuos, mais ou menos automáticos, mais ou menos inconsequentes, são isso mesmo: jogos de linguagem. Tiveram o seu tempo, ramificações levadas a extremos necessários no Experimentalismo, mas perdem-se no artifício, dando pouca importância ao conteúdo. (Sim, acho que há pontos de contacto entre o Experimenta...
Ler Tudo >>
Uma das questões que mais se coloca quando se pensa em poesia e música é da diferenciação entre o que é uma letra de canção e um poema. Uma visão simplista diz que aquilo que foi escrito para uso numa melodia já previamente existente é uma letra, aquilo que foi escrito autonomamente e depois musicado é um poema. Esta visão é isso mesmo: simplista. Primeiro argumento contra: e quando se não sabe o que foi feito primeiro, quando são ambas as coisas feitas sem simultâneo? Atira-se a moeda ao ar? (Ver por favor o filme, imperdível “Musica & Lyrics” com Hugh Grant como, digamos, Andrew Ridgeley – não sabe quem é? Exactamente.) Para além de que os exemplos que fazem desta possível regra um disparate são mais do que muitos. Quantos grandes poemas deram grandes letras de canções porque foram fantasticamente musicados? Quantas grandes letras de canções são grandes poemas, com ou sem melodia que as limite mas foram escritas propositadamente para uma música? Quantos poemas pouco brilhantes se tor...
Ler Tudo >>
Há
uma estranha tendência – pelo menos é o que me parece – em torno dos prémios
literários em Portugal. É verdade que somos um país pequeno, mas os prémios
parecem uma pescadinha de rabo na boca. O júri, do qual faz parte Vasco Graça
Moura, atribui o prémio a Luísa Costa Gomes. O júri, do qual faz parte Luísa
Costa Gomes, atribui o prémio a Vasco Graça Moura. Os dois, fazendo parte de um
júri, atribuem o prémio a António Lobo Antunes... que, verdade seja dita, ao
menos nunca faz parte de júri nenhum. Quanto
à tradução, que todos os anos faz chegar às livrarias a esmagadora maioria das
obras, o falido prémio do PEN Clube era entregue – e talvez continue a ser, não
sei – mas o envelope ia vazio, era um prémio só para o currículo, mas não para
a carteira. Claro que, como todos sabem e eu já aqui repeti vezes sem conta, os
tradutores não comem. Em
boa hora, contudo, a Casa da América Latina decidiu premiar a tradução de obras
oriundas da região e, neste caso, com dinheiro den...
Ler Tudo >>
Estou
zangada. Queria ser tradutora literária, adoro o meu trabalho, quando estou a
traduzir passo a habitar num outro universo, o do livro no qual mergulhei, o do
processo mental de construção desse universo na língua do meu país (por mais
que queiram, nunca na vida hei-de escrever espetador em vez de espectador! – Ah! Este parêntesis é mesmo grande: talvez tenha de
deixar de escrever nessa língua, quando o meu país deixar de existir ou deixar
de ter sobreviventes). Mas, como estava a dizer, crio esse universo, um processo
fascinante, umas vezes delicioso, outras doloroso – em suma, traduzo
literalmente (isto aplica-se obviamente à expressão e não à forma como traduzo,
cruzes canhoto!) com o coração nas mãos, na ponta dos dedos, com o coração tão
agarrado ao cérebro, e o cérebro aos dedos, que toda a família se queixa de que
eu mudo de feitio consoante o livro que estou a traduzir. Claro que isto não é
razão para estar zangada. Mas passar dois meses (em teoria, e já explic...
Ler Tudo >>
Volto à crónica sobre o livro de
Patti Smith, Just Kids (Apenas Miúdos, título escolhido pela
Quetzal) e à tendência de aproximação da tradução ao texto original em nome da
valorização do autor, da época ou de qualquer outra coisa que não o leitor. Trata-se efectivamente de uma
tendência. Aquando da apresentação do livro A Ilha de Sukkwan, o
tradutor José Lima defendeu que o tradutor devia usar as ferramentas do autor
e, portanto, se se tratava de esculpir mármore, ele não iria esculpir madeira.
Referiu ainda que, antes de traduzir qualquer livro fazia uma pesquisa na
Internet sobre tudo o que se relacionava com o autor. Estes argumentos serviram
para justificar uma tradução dura, “não adocicada”, que transmitiria ao leitor
a crueza dos ambientes e da acção. Esta decisão não justifica,
contudo, o uso e abuso do gerúndio (em frases como “Roy foi à porta e observou
o pai ali especado a olhar para a chuva e ficando ensopado sem
impermeável nem chapéu.”), de frases “estranhas”...
Ler Tudo >>
Não é uma nova tendência de dar a
todas as crónicas o título de livros. Mas, na sequência da crónica anterior
sobre Just Kids, a saída do livro Sartoris de William Faulkner
torna inevitável que isto aconteça. Por oposição à tradução crua e literal que
tem aparecido ultimamente em muitos livros, a tradução feita por Ana Maria
Chaves é o oposto e é uma homenagem ao intenso labor inerente à tradução de um
clássico. Traduzir parágrafos
“saramaguianos” (peço desculpa pelo neologismo!) e conseguir fazê-lo num
português fluente é algo que só um bom tradutor consegue. Incorporar com toda a
elegância no texto traduzido expressões e pares de palavras consagradas em
Português é algo que só um bom tradutor consegue. Manter um registo lógico para
os diferentes “dialectos” das personagens é algo que só um bom tradutor
consegue. Fazer tudo isto ao longo de trezentas e cinquenta páginas é algo que
só um excelente tradutor consegue. Tenho a certeza de que só um
tradutor consegue imaginar ...
Ler Tudo >>
Just KidsFoi publicado recentemente pela Quetzal o livro Just Kids de Patti Smith, traduzido por Jorge Pereirinha Pires. O título em português é Apenas Miúdos.A escrita factual e despojada de alguns autores americanos está a dar lugar a traduções num português factual e despojado. É uma tendência que, enquanto tradutora, me confunde. A expressão “just kids”, no seu contexto habitual dentro de uma frase, corresponde ao que em português designamos por “uns miúdos”. Tem o mesmo nível de coloquialidade. Podemos dizer “é uma coisa de miúdos” ou explicar um comportamento dizendo “são uns miúdos”. Não dizemos “são apenas miúdos”. No entanto, a escolha de “Apenas Miúdos” como título remete imediatamente para o inglês “Just Kids”, reforçando o facto de se tratar de uma tradução e transportando o leitor para um tempo e um espaço precisos; ou sejam criando nele o estado de espírito certo para o que vai ler.E isto é um facto novo. A tendência ou a regra da tradução é dar a ler uma realidade estran...
Ler Tudo >>
Tua coxa é lisa, o lado de dentro. Você é peixe de uma única escama, liso com ela e sem ela. Meus dentes não te rasgam, escorregam, escoriar tuas pernas é um descuido que me agrada. A mulher raspa tua cabeça, dinâmica debaixo d’água pra te salvar das Iemanjás. Azar dela, eu não preciso de oxigên...
Ler Tudo >>
Repassada do desejo daqueles risos que se perderam e da lembrança dos encantos que nunca chegaram a acontecer, está a casa, palco deserto, onde outrora fantoches ensaiavam uma monótona coreografia. Aí, já não cabem as aparentes histórias nem o som de vidas a fenecer. Ouve-se, somente, o rangido ...
Ler Tudo >>
Ninguém sabia por que ela criava amebas ambíguas no aquário. Não tinha peixes. Com a sua cara de sardas, frequentava o Café Flor e sorvia Kir Royal em copo de Campari. Sentia o beijo lambido que o argelino lhe dera na orelha, ainda de manhã. Ele vestia black-tie. Ela mal sentia a boca ...
Ler Tudo >>
A bomba vai explodir. Já está armadilhada. Só falta digitar o código de acesso e premir o botão. — Vou-te deixar. D. sufoca no ar que o rareia e leva as mãos ao peito. A dor fragmenta-se em inúmeros pedaços de amor tóxico. D. cai no soalho, fulminado por palavras terroristas, uma bomba at...
Ler Tudo >>
Ver é diferente de dizer o que se vê. Ver apenas, não incomoda o mundo. O homem está no remate da sua vida, mesmo que ignorasse como dedilhar o tempo há um espelho na parede, antes usado sobretudo para o ensaio de esgares mulherengos. Esse artefacto tem-lhe servido para desconvocar o eco da casa...
Ler Tudo >>
O china era mais cuidadoso com o ferro de passar. Seu empregado, ao contrário, usa-o como se fosse um trator. O resultado são as feridas em minhas costas. Às vezes, ele joga água em excesso sobre a roupa, e o contraste com o ferro quente tem-me provocado constipa&cced...
Ler Tudo >>
Nos clássicos movimentos de um cumprimento, a mão do doutor Proença desprendeu-se. Acidente: que, no aperto de dona Josefa, não houve ardor. Ao sentir coisa grudada aos dedos, num gesto de automática defesa a senhora sacudiu. Projectada, a mão do doutor Proença caiu, enérgico desamparo, no em...
Ler Tudo >>
O
tédio e a melancolia contemporâneos juntaram-se nesta viagem à Índia para caminharem
em direção à explicação sobre o que é a viagem. A contemporaneidade dá
justificação a tudo: ao bom, ao mau, e a esse ponto zero, nulo e justo, o
tédio, que consome o homem. As paixões, os homicídios e os senti...
Ler Tudo >>
"[...]a verdade é o dinheiro." CantoX, 16 "Ea estranheza é esta: mais contida fica a prostituta à medida que o vinhoavança." CantoX, 22 "Opior sítio para estar vivo é entre aquilo que um dia nos exige e aquilo que oeter...
Ler Tudo >>
"Entre dois cães raivosos em batalha, não há espaço para a pausa."Canto IX, 3 "[...] o melhor lado não é perfeito, porque é lado - e um lado tem sempre o lado oposto."Canto IX, 33 "O inesperado insinua-se no que parece definitivo e ninguém se conhece antes de morrer. Ámen.&...
Ler Tudo >>
"O que é o passado? Tempo que cada vez ocupa menos espaço [...] O presente - agora neste momento - ocupa todo o espaço que nos rodeia." Canto VIII, 2 "Núpcias da História com a Imaginação provocaram mais filhos e cópulas divertidas do que núpcias da Verdade com a boa memória[...]; mas...
Ler Tudo >>
Neste ano, em que se assinalam 95 anos sobre a morte de Mário de Sá-Carneiro (26 de Abril de 1916), foram editados, em São Petersburgo, no volume XXVI da revista literária “Sfinx” (“Esfinge”), 10 poemas do escritor, traduzidos em russo (“Álcool”, “A queda”, “Nossa Senhora de Paris”, “Salomé”, “Certa...
Ler Tudo >>
"A idade certa para conquistar o mundo é hoje. O homem levanta as interdições, avança, e quando se prepara para saltar: cai."Canto VII, 2 "Cair como a folha da árvore, tranquila e lenta, e subir como certos animais - a águia ou o avião guerreiro. A mobilidade inspira.[...]Canto VII, 3...
Ler Tudo >>
"Viajar não faz bem apenas aos homens, também é bom para os próprios percursos ter homens que os percorram. Um caminho é como uma casa, é preciso abrir a janela de vez em quando para que o ar circule. Precisa de ser arejado o caminho e os homens que o percorrem são os que utam esse ofício. São ...
Ler Tudo >>
"[...] quem relembra inventa: tudo começa de novo."Canto III, 5 "A intensidade com que se é esmagado não importa, de facto, o que importa é a intensidade que nos resta depois de sermos esmagados."Canto III, 75 "Se o progresso dependesse dos domingos, ainda andávamos de carro...
Ler Tudo >>
Terá início em Setembro no CNC um ciclo que tem por objectivo fazer o balanço literário da última década. Organizado em parceria com a PNETLiteratura – um site que visa aproximar a lusofonia literária, contará com a intervenç&atild...
Ler Tudo >>
No site http://disquiet.com/thirteen.html, aparecem links para 16 (dezasseis!) versões diferentes do poema “Autopsicografia” de Fernando Pessoa em inglês. O poema é tão conhecido na língua em que foi escrito que qualquer uma das versões provoca gr...
Ler Tudo >>
Tenho um pé de cereja encantado ao lado do último olhar. Em frente,
um botão de púrpura calado. Pela mão esquerda enxergada colho uma letra breve.
O dedo indica-me a clave e perguntou-lhe: - Sol, ... Ler Tudo >>
No quadrazal da classe do touquim piámos que as da classe da piação seriem gambiadas nos quintos planetas de cada sesta porque os charales que jordarem as do joão das penhas à Classe do Mestre Migança... Ler Tudo >>
Ná página Crianças do Público de hoje, o destaque de Helena Melo vai para Montemor-o-Novo. (Agasalhem as crianças e visitem o Monte Selvagem.)
Depois
de três meses encerrado para manut... Ler Tudo >>
Valter que veio da nossa mãe
pátria Portugal - nos emociona com seu texto simples, bem humorado e sincero. É lindo mesmo,ver-nos brasileiros respeitados e reconhecidos por nosso jeito de ser e viver por nosso irmão colonizador.