As palavras pedra ou faca ou maçã, palavras concretas, são bem mais fortes, poeticamente, do que tristeza, melancolia ou saudade. Mas é impossível não expressar a subjetividade. Então, a obrigação do poeta é expressar a subjetividade mas não diretamente. Ele não tem que dizer eu estou triste. Ele tem é que encontrar uma imagem que dê idéia de tristeza ou do estado de espírito - seja ele qual for - por meio de palavras concretas e não simplesmente se confessando na base do eu estou triste. João Cabral de Melo Neto
Carlos está zangado comigo. Queria ser um herói numa história com muita acção e sexo. Eu trapaceei-o e pus-lhe uma série de obstáculos. Primeiro coloquei-o entre pontos. Carlos. Mas isso foi uma tarefa fácil. Saltou por cima do ponto do lado direito e entrou na frase seguinte. Carlos correu nestas palavras e quando chegou ao fim delas tinha um travessão. Carlos trepou-o — Carlos. Mas logo outro o trancou — Carlos —. “Que coisa mais idiota, estas as tuas palermices.”, foi o que Carlos pensou de mim. Depois hesitou. Se saltasse por cima do travessão do lado esquerdo corria o risco de se embrulhar nas frases anteriores. Optou, e bem, por saltar por cima do travessão do lado direito. Descansou um pouco. Quando se levantou para começar a andar nesta frase viu que estava preso entre parênteses (Carlos). “DEIXA-ME SER LIVRE!”, berrou-me. Eu fiz-lhe a vontade. Ret...
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Passa duas vezes no corredor do avião. Pequena, essencial, um olhar vago e cansado, cheio de enigmática experiência. Quarenta, cinquenta anos. A sua mão pousa no banco diante do meu. Penso num pássaro que tivesse pousado no ramo de um salgueiro. A sua presença, que lentamente passa, é uma oferenda.
Acenas, me chamas, provocas. Resisto. Alegre, circundas, te vais e regressas, me tocas. Resisto. Dengosa, enleias, ondulas, volteias, me tentas. Resisto. Te enrolas, encostas, me cinges, enredas. Resisto. Em labaredas, enfim teu corpo devagarinho pousa no meu ventre ensandecido. E por instantes me perco no teu jogo, cedo ao teu fogo, Morte.
A mulher que saiu no parque da Gulbenkian apresentava um braço quadriculado - por cima da cicatriz de uma grande queimadura, a pele desenhava pequenos losangos muito regulares. Primeiro pensei que ela se tivesse encostado momentaneamente a algo com aquele padrão, mas depois percebi, ao verificar que as marcas não desapareciam, que o braço da mulher conservava, ad mortem, o desenho geométrico daquilo que a tinha queimado.
«Acabou-se o tempo do emprego para toda a vida. É necessário que cada um se adapte às mudanças de uma sociedade em constante evolução». Avisadas palavras ditas por um homem sensato (alguns diziam-no sábio), com emprego garantido para a vida. Todos o escutaram atentos, no encerramento do colóquio, promovido por uma associação estudantil. Tal visão estratégica – acrescente-se – fora determinante na sua nomeação, havia dois anos, para um importante cargo político.
Há um único cruzamento no deserto. No relógio de Sebastião os ponteiros mostram uma hora vaga. “19h10m? 11h09m? 09h11m?” — Escolhe o teu tempo. É agora! Sebastião sai do carro, o motor em convulsão, envolto numa nuvem branca que se estende rumo ao azul. Tem um cano encostado à cabeça. O estoiro sai. Sebastião é grande e pesado. Tem a barba por fazer e a roupa mergulhada em suor. Cai do seu pedestal. Uma outra nuvem, esta de pó laranja, atormenta-se e rebola em todas as direcções. E o carro suspende a avaria e arranca para o outro lado do cruzamento. — Stop! Visto do céu, Sebastião é apenas um ponto morto.
O taxista está irritado com aquela multidão protestando. Uma baderna infernal na cidade: manifestantes legítimos, maus elementos que se infiltram no movimento para promover o caos, polícia, bombeiros, vitrines quebradas, saques, carros e ônibus incendiados, e ele parado ali, a poucas quadras de casa, mas ainda tem que atravessar a cidade para levar uma doutora no aeroporto. Avista um casal jovem em uma motocicleta tentando achar caminho entre os carros. Lembra que tem que ligar para a sua mãe. Ela fica preocupada, não gosta que ele trabalhe a noite. O fim nunca é o fim, porque a vida sempre segue tecendo!
Leio num livro e depois bebo um vinho e depois acaricio e devoro a minha amante e depois apetece-me mais do livro – a “Apocalipse” de João – e beber mais vinho – passo para Touriga Nacional – e toco no mamilo da minha amada, e mordo, e faço doer um pouco e ela distende-se mas depois envolve-me o pescoço com as pernas e diz que também ela não se cansa de fazer isto e aquilo.
Procuro nas volutas da forma a liberdade da natureza. Encontro as ondas que se esmeram no desenho de si mesmas, na areia ruborizada de prazer. Compreendo que passei a vida a desenhar alguém que nunca serei.
Saiu de casa numa 2ª feira, a mala cheia de roupa, artigos de higiene pessoal e um dossier de trabalho. A alça da pasta com o computador portátil pendurou-se num ombro. Despediu-se da mulher com um beijo e uma promessa. — Volto sábado à noite e não me vou esquecer de te trazer um presente. Chegou a casa mais cedo do que contava, sábado de manhã, o Sol glorioso e quente a dar-lhe as boas-vindas, um embrulho debaixo do braço. A chave rodou na porta e entrou de rompante. Engasgou-se. — Que-querida... — Viva, chegaste mais cedo do que o previsto! O seu melhor amigo estendeu-lhe a mão, sorriso aberto num rosto radioso, num corpo vestido com um dos seus pijamas e calçando as suas pantufas. — Adoro a tua casa, a tua roupa, a tua colecção de DVD’s, o teu whisky... A mulher, em lingerie, aparece no hall de entrada. — Olá, querido. Já tão cedo? — ... e a tua mulher também. — continua o amigo — Ia agora mesmo fazer o pequeno-almoço, és servido? O ...
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Também o olhar. Um olhar a esmo. Às vezes, fixo: de varar distâncias. Mais tarde, as estampas de santos emolduradas, entremeadas de espinhos, dispostas no chão onde havia de pisar. O corpo retesado. E os gritos. Os meus gritos somados ao som da sirene da ambulância cortando a cidade. Foi ontem. Foi ainda hoje. Não houve. Agora quantos anos?
Está a levantar-se um vento... Isto dito, já ela vogava no ar, sem que alguém lhe pudesse valer, algo houvesse para se agarrar. Longe, pensou: Se ao menos o vento amainasse. E logo caiu: sobre a cama, por sorte. O marido, concentrado nas palavras cruzadas, limitou-se a reflectir: Excedeu-se, ao jantar. E, sem pressa, foi fechar a janela.
Já na Alameda, um rapaz de aspecto normal investiga algo debaixo de um carro - está descalço, as meias roçam displicentemente pelas pedras sujas da calçada. Depois regressa para um grupo de jogadores, que está à espera na relva, do outro lado da rua, onde, de facto, muitos correm só com meias - procurava, provavelmente, uma bola perdida.
Com algum horror à simetria, desenhou e construiu, a um tempo criando obra de escultura e de pintura. Com um saber, de matéria feito, sobre espírito, Deus e matéria. E disse: «Era uma vez uma casa que foi a um baile de máscaras.» E pensou: «Inundar, de mar não mas de um sonho de mar, o interior da casa.» E esboçou, talvez, um verso: «Uma casa faz-se por dentro.»
os meus primos faziam muito barulho quando se masturbavam no quarto – o quarto era dos três, nem tinha divisórias, só umas cortinas entre as três camas. e eu dormia na sala em frente ao quarto e conseguia ouvi-los, aos três, às vezes ao mesmo tempo. naquela altura não percebia, pensava que estavam doentes, assustava-me um pouco. quando as pessoas entravam ali naquele espaço faziam caras, esgares, diziam que cheirava mal – a mim diziam que cheirava a pés, a chulé, a baba, a suor, a hálito de quem dorme. mas sabiam, entreolhavam-se e sabiam, aquilo era meita, era a esperma seca e entranhada, que cheirava. ao menos que me tivessem dito. ao menos que nunca me tivessem deixado dormir naquele lugar, com os suspiros e as convulsões e os gemidos dos outros. cinco ou seis minutos depois estavam prontos a dormir, mas eu tinha medo que morressem de uma doença grave.
O shopping está quase fechando. A perua comprou quase seis mil reais em roupas, sapatos e bolsas. O marido, um ser asqueroso, não tira os olhos da vendedora. Deve ter no máximo dezenove aninhos, imagina. A mulher vai até o caixa passar o cartão, e ele fica xavecando a garota com uma conversa estúpida. Ela o escuta por educação. Pensa na comissão. A esposa volta, e pede para passar o cartão dele, porque o dela bloqueou. Não sei o que houve! Diz ela, se fazendo de desentendida. O marido faz uma cara ainda mais feia do que aquela que já tem, mas paga, contrariado. Eles saem e vão até a garagem apanhar o SUV chinês, para irem jantar no restaurante mais badalado da cidade. A loja fecha, a vendedora sai, e na porta do shopping um jovem lindo, de jaqueta de couro e jeans surrado, espera por ela com dois capacetes na mão. Os dois se beijam demorada e apaixonadamente. O rapaz diz que infelizmente não poderão ir comer pizza conforme combinado, porque ele tem que ficar com a mãe que está muito ab...
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Os Abokowo encaram a morte com uma calma excepcional. Acham que a vida só se cumpre com a morte e que esta é como o final de uma história: sem ele, tudo o resto que se passou antes não faz sentido nenhum e não merece ser contado.
Com Hashmukh começou por ser a incerteza da vestimenta, a incomodá-lo a diário. Ora não se convencionava com a cor da pele ou com as feições adquiridas no sono, ora distorcia a competente ossatura e lhe abolia altura ora ainda lhe outorgava ares de pouca comida. Hashmukh sabia que não era aquela farpela a salvar-lhe a vontade, mas outra qualquer também não, coisa vulgar de acontecer a uma pessoa nalgum dia, mas não em todos. Depois, arrastou-se a sessão do não conseguir sair do domicílio, da porta escancarada em observação tarde fora, da escada galgada devagar até meio como se acarreasse onze mundos, da chave apertada na concha da mão até quase sangrá-la, sem por certo alcançar a rua, sem aparecer algures noutro quarteirão, noutra ponta da cidade, nem chegar ao posto de trabalho. Fincando-se nos interiores da casa como se fora dela fosse capitular, despia o casacão doses sem conta, desferrava as botas justas uma e outra vez e sentava-se escorreito no hall de saída, que era o maior espa...
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Não há livros espalhados pela casa. Ou poucos há. Livros que estou a ler ou não arrumei ainda. Todos os livros a ler... a ler neles, aqui ou ali, como se fossem fragmentos de paisagens. Todos arrumados nos seus lugares. Fechados, entreabertos. E todos os dias os desejo abrir, um ou outro, olhá-los como corpos de mulher que passam na rua. Abrir, recomeçar. Todos os dias organizo a antologia do dia: o que quero ler, o que posso ler. Pouco. Intensamente. Encontrado um desses corpos afundo-me um momento numa das suas fontes e depois parto com ela – ou é um calhau? – para o meu passeio. Vagabundagem com frase dentro, florescendo. Um enigma. Um começo de começos. Hoje, pela manhã, elegi uns versos de Li Bai, “As gentes do lugar embebedam o viajante, / jamais ele se sente em terra estranha.” Amanhã não sei. Quando cheguei a casa bebi um vinho como se andasse a viajar por uma terra estranha.
Pegaste na minha mão. Eu não queria. Arrastaste-me até ao quarto. Fui assaltada. Fiquei sem roupa, ainda me debati. Fiquei sem fôlego, fiquei sem mim. Nada sobrou. Rendi-me. Fui presa fácil do teu arrastão.
Procuro nas volutas da forma a fé do passado. Encontro as mãos postas em oração, as palavras murmuradas devagar, para que eu as possa seguir com devoção. Compenetrado, tento imitar a pose e alcançar a santidade, mas o que vou aprendendo é o paganismo que um dia alcançarei.
Quando viveu entre os Abokowo, Afonso Cruz recebeu longas lições de sabedoria. Foi seu mestre o feiticeiro Okabako, que no primeiro dia indagou acerca do que ele queria aprender. “Teoria da Relatividade?”– Perguntou Okabako. “Teoria da Relatividade, não, porque muita gente sabe.” – Respondeu Afonso. “Filosofia?” Afonso disse: “Filosofia, não, porque muita gente pensa que sabe.” Okabako tentou: “Queres conhecer-te a ti mesmo?” E Afonso: “Nem pensar. Prefiro imaginar-me do que saber-me.” Okabako pareceu elucidado. “Queres aprender o que ninguém sabe, não é?” E assim foi. Quando Afonso Cruz deixou os Abokowo, estava preparado para escrever a Enciclopédia da Estória Humana. Com coisas que nem sequer Deus sabia.
11 de Outubro, 8:45 (...) Logo na Duque de Palmela, no pórtico de um prédio, um sem-abrigo mal tratado inspecciona cuidadosamente, como tarefa de fim de dia, dois papéis pequenos que são, sem dúvida, boletins de totoloto usados. Ao lado está um saco cheio deles e o que me parece, durante os escassos segundos que o meu passo permite (a família à espera em casa), é que ele se dedica a procurar nesses restos aquele papel que, inadvertidamente esquecido, possa conter o número certo - periodicamente desiludido, chamado à realidade, vai rasgando um a um os boletins e devolvendo-os, despedaçados, ao sítio de onde vieram. Da série A Ronda
Ninguém ouve ninguém. Da surdês que começa antes da palavra: nada se compenetra em coisa nenhuma. Exemplo próximo é a normal surdês humana: eu hoje falava na UL de caos e canto e o António Ramos Rosa interrompeu-me e começou a falar da paz que há nos seus livros. Depois falei de Novalis e ele respondeu como se eu tivesse falado de Pascal. Eu também: quando me disse que Adorno respondi que Celan. Alusões. Um ping-pong entre os surdos que todos somos. E quem ouvi era coisa o que escutava. Outras veredas para nenhum lugar.
Ele amaldiçoa o mundo porque teve um dia de cão. Em uma festa no apartamento acima do seu, fazem uma barulheira danada. Ele está com uma dor de cabeça horrível, e não tem uma aspirina em casa. Assim não vai dar! Sai da cama, se veste, e vai até uma farmácia na esquina da outra quadra. Nem bem chega a pedir o remédio e dois sujeitos mal-encarados entram e anunciam o assalto. Ele nem pensa em reagir, mas faz um movimento brusco e toma uma coronhada na cabeça. O sangue lhe escorre pelo rosto. O ladrão avisa que se fizer outro movimento levará um tiro. Levam todo o dinheiro do caixa e a carteira dele. Na farmácia mesmo lhe fazem um curativo na cabeça e dão um remédio para a dor. Retornando para casa, passa por um casal de namorados dentro de um carro se beijando apaixonadamente. Quando se deita na cama, ainda consegue ouvir a música no andar de cima, mas a dor de cabeça passou, então pensa que teve sorte. Poderia ter levado um tiro. E a vida segue tecendo!
Os Abokowo penduram-se nas árvores para amadurecer. Sabem que isso acontece aos frutos e que estes ficam doces. Por isso fazem o mesmo, acreditando que, por se portarem como frutos, amadurecem também, tornando-se naturalmente mais doces nos seus relacionamentos. Não é raro ver um Abokowo pendurado numa árvore depois de ter tido uma discussão mais violenta.
De cor o escuro que apadrinha o tecto e quando torço a cara, o resto do quarto e mais para lá ainda o corredor. Chamam-lhe insónia. Na cabeça, brechas. Na estante, coisas para alojar na rua. Arregalam-se-me os olhos, sem que pense melhor. Para que rua? Vão-me despejar da casa. Ficará quanto não posso acarretar nas mãos e com o esforço dos músculos. Deixei de ter salário que assegure o ter sítio onde recostar o corpo sem sobressaltos. Parecia que só acontecia aos outros, e que esses outros são os que têm lábio leporino, que se chamam Michael K e que vivem na África do Sul, ou que esses outros no belo lugar do José são simplesmente os calaceiros, os escusados, os que merecem tornarem-se insectos que se chamam Gregor numa casa kafkiana com venenos próprios. Os livros de literatura e filosofia vão por seus pés acabar numa feira de domingo a cinquenta cêntimos cada, que é o que acontece às coisas repetidas dos mortos. Alguém há-de ler-lhes os sublinhados e talvez escrevinhá-los numa mensage...
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Josefino põe as duas mãos na parede e flecte uma perna. A outra fica esticada. Depois faz força e empurra. O prédio desliza num ângulo de 90 graus. Para Josefino nada é mais fácil do que dobrar esquinas.
A mãe fazia panquecas. As crianças – a filha e os primos – olhavam e esperavam. Ou esperavam enquanto olhavam. Disse ela: “Há pessoas que gostam de panquecas com chocolate…” Respondeu a filhita, três anos ainda incompletos: “Eu sou pessoa.”
Quando acaba o serviço, o motorista de taxi Singh vai à biblioteca ler uma página do dicionário. Palavra por palavra, um entendimento da América. Já era noitinha, Singh estacionou no zênite e deparou-se com uma decisão a tomar: recomeçar pela letra “a” ou experimentar ir do fim ao começo. Retornou à casa para o jantar e chorou no colo da mulher.
Procuro nas volutas da forma o gosto do passado. Encontro
a mão estendida, me oferecendo o bolinho seco, com um leve sabor de
laranja, que me desagrada. Gentil, no entanto, finjo apreciar a oferta, e vou engolindo, com esforço, as lágrimas que um dia hei de chorar. Lúcia BettencourtLer Tudo >>
Manoel foi e continua sendo o grande amor da minha vida. Único, não tive outro. Até recentemente, quando ele disse que precisávamos conversar. Estranhei, ele estava calado, sério, sombrio. Outro homem, de repente. Fomos jantar fora.
Assim que entramos no restaurante, sentamo-nos de frente um para o outro. Havia um branco em seu rosto. Senti a angústia chegando, sei bem como vem, pressão, aperto, quentura, como se fosse uma pata de elefante estacionada no peito. Manoel me olhava com firmeza; essa coisa terna, de uma hora pra outra, sempre me deu medo. Acho que depois de voz baixa e doce, vem a crueldade. Girando o gelo no copo, e me encarando no fundo do olho, Manoel disse: "Quero me separar." Pela primeira vez senti morte instantânea. Me vi despencaando da janela e caindo feito puzzle na calçada. (Quem sabe compondo na eternidade uma paisagem tranquila?).
Quando olhamos para os troncos que bóiam nos rios vemos formas surgirem – quem já navegou num rio da Amazónia reconhece essa experiência: vemos uma pessoa deitada, de braços levantados, a pedir ajuda; vemos flores gigantes com caules de sucuri; vemos botos; vemos jacarés ou homens nus a montar pirarucus; formas que não estão lá. Depois, ao observar melhor, percebemos que é apenas um tronco, apenas madeira retorcida que, em certa perspectiva, se assemelha a outra coisa qualquer. Desvalorizamos a experiência, e tomamo-la como um erro dos sentidos, temperado pela imaginação, mas para os Abokowo, tudo isto é realidade, uma presença tão sólida como uma pedra. São os pensamentos da madeira, são as formas que ela pensa depois de morta: pois mesmo um ramo sem vida consegue expirar os seus últimos pensamentos.
Peter Brooks em Berlim. Ante-estreia de Dias Felizes, de Becket. Já não salta para o palco (os actores ajudam-no a subir) mas sorri à sala cheia, como se tivesse saltado. No intervalo trocamos palavras, Sibila conhece-o, talvez encene uma peça dela. Depois fomos comer espargos e beber, num bar ao lado do teatro, o Renaissance, um Riesling Kabinett Trocken. Eu, Sibila e Giga. Deixámos um lugar para o Peter.
(…) Às vezes vejo a lua. Quando ela se deixa ver, claro! Gosto muito quando é aquela lua fininha e curvada sobre si própria parecendo até com o feitio dos bolos que a minha mãe faz. Geralmente à volta dessa lua, por dentro e à volta existem milhares de pontos brilhantes que a enfeitam e estão tão próximos! Mas quando vem a lua cheia que entra pela minha janela, a transbordar do céu, a alastrar-se por todo o chão do meu quarto, desenhando a luz nas paredes, envolvendo a casa toda como um manto imprevisto, um manto que não se pode apalpar pois não existe, essa luz vai-me acordando e vai-me guiando num passeio leve, leve. Nessas alturas da grande lua, eu afasto o cobertor para o fundo da cama, exponho-me, ofereço todo o meu corpo, deixo-me entontecer, deixo-me apanhar por ela tão grande e tão branca, deixo-a entrar na minha cama agora aberta e deixo-a amar-me docemente. É isto que me acontece quando vem a lua cheia e é por isso que nessas noites brancas eu não durmo. Oiç...
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Nos degraus da igreja, de capuz sobre a cabeça, o cineasta bebe um vinho claro, espraia os olhos pelo arraial. As raparigas passeiam e riem-se. Outros dormem à sombra das árvores. A aldeia é pequena. Vendem-se alhos, pimentos, sorrisos. À beira água, uma donzela penteia-se, os cavalos bebem, um anão chapinha. Cabras, ovelhas, joanas por toda a parte. O cineasta sorri. Por entre as ruínas observa o rosto das donzelas, a postura dos estropiados, as manigâncias dos pedintes, os sorrisos comerciantes.
williamsburg bridge - sim, esses moços estavam noite a noite empurrando a música para mais longe, trabalhando para explodi-la, para levá-la a seu fora, onde ela é então mais música. não apenas pelo prato de comida e pelo pouco dinheiro tocavam muitas vezes em dois lugares distintos, varando a madrugada com seus instrumentos. podemos imaginar o que deve ter sido para billie holiday ser obrigada pela justiça a parar de se apresentar na cidade por causa do uso das drogas ou a monk, proibido de tocar em público por seis anos por não ter deposto contra o amigo bud powell, com quem estava quando este fora flagrado no carro pela polícia. mas não foi a polícia nem a justiça que fez sonny rollins parar de tocar para plateias por um bom tempo: ele simplesmente não estava encontrando o que, em algum lugar distante, ao menos enquanto um vago eco, ouvia, e tocar para os outros perdia então todo o sentido. melhor ir sozinho, como um anônimo acompanhado apenas pelo vento que saía de seu saxofone na c...
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Olhos dançarinos, sorriso contagiante, postura teatral, vontade insaciável de viver e de ser grande. Devora livros, carnes, massas, quitutes, tortas, bolos, sorvetes e docinhos. Cresce intelectual e fisicamente. Cada dia maior, mais sábia, mais atriz. Estuda teatro, faz novelas, conta histórias para crianças e adultos. A cada dia ocupa mais espaço. O peso de alegrias e tristezas, adensa alma e corpo. A balança no banheiro já não é capaz de medir seu peso. Os pensamentos são ágeis e faceiros. O corpo move-se com dificuldade. Interna-se em um hospital. Cortará excessos. Dali só sai para o cortejo de despedida. Com ela leva possibilidades. Deixa saudades. Hoje flutua leve, miúda e conta histórias para seres livres de massa como ela.
O médico veio até ela e falou que a cirurgia havia acabado e que fizeram tudo que foi possível. Disse que o acidente havia sido muito violento, a lesão no cérebro muito grave, e não havia como afirmar, ainda, a extensão das sequelas que poderiam restar. Aconselhou a mãe que fosse para casa descansar e que rezasse. Era só o que poderia ser feito. A pobre mulher, aturdida, pensava porque o acidente não foi com ela, em vez da filha, jovem, que tinha ainda toda a vida pela frente. Caminhou até o final do corredor, onde estavam os elevadores, e tentou mais uma vez, sem sucesso, ligar para o ex-marido. Quando aconteceu o acidente, à tardinha, ela ligou para o trabalho dele e informaram que ele havia saído com uma assistente para uma reunião fora da empresa. Enquanto esperava o elevador, debruçou-se no peitoril da janela e enxergou pessoas animadíssimas, alcoolizadas certamente, que dançavam freneticamente em uma festa na cobertura do prédio ao lado. E a vida segue tecendo!
Esse sentimento vem-me por ver a sua esparsa barba sobre a pele negra, a pedir a ponta dos meus dedos. Procuro-o, para só olhá-lo. Gasto horas nisso. Está mal vestido. Dedico-lhe tardes, meia confundida entre os ramos dos arbustos, a segui-lo nas suas tarefas no quintal. Ele carrega tábuas de um lado para o outro. Decoro-lhe os músculos dos braços a falarem do peso da madeira e o suor devagar nas fontes. Aproximo-me do sítio onde descarrega as tiras compridas e sento-me perto. Ele pergunta se estou boa. Não lhe respondo com palavras porque tenho de fixar a sua voz, como se a fosse desenhar a seguir. Olho-o tanto que fico a pensar se não vai ficar gasto, por minha causa. Não sei como lhe vou dizer, que me leve com ele. À tardinha parte rua fora como uma ave num céu demasiado grande, numa das mãos cansadas um saco de c...
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O comboio apitou e partiu. Ele ficou preso no torniquete. O grande amor da sua vida chorava em 1ª classe. Deu meia volta e foi ter com a mulher do chefe da estação. Tornou-se seu amante para não perder a chegada das composições oriundas do estrangeiro.
— Pouca terra, muita terra, pouca terra, muita terra, pouca terra, muita terra... — bufava ele aos solavancos enquanto saía dos carris com a mulher do chefe da estação.
— Uu-uu, muita, muita terra — respondia ela a todo o vapor.
Sentaram-se as duas senhorinhas, o corpo de uma encostava no vestido de poliéster da outra, sobre o banco em frente à entrada da estação do subterrâneo. No colo, cada qual possuía uma pilha de panfletos impressos Jesus Hoy e sorria aos passantes sem parar. Desde que lhes retribuí o gesto pueril, seguem-me. Avisto-as do canto da janela de casa, donde me fazem refém.
Possível que ainda exista; espectro, enredado em sombras, mimetizado em tons de verde e seca palha. A mata fechada. Custa-me crer que eu tenha sobrevivido pejado de sonhos e os desvarios santos sem medos adjacentes. Os desvãos da memória. É só um descuido e me envolvo em maus presságios.
Todos estão felizes! O velho gorducho está feliz porque teve um jantar maravilhoso e agora está levando aquela Deusa cheia de juventude para o motel. Além de gastar quase trezentos reais em um jantar para dois, ainda deu dez reais para o mendigo na frente do restaurante, tudo para impressionar a subordinada. A garota, por sua vez, está feliz porque com a promoção vai poder colocar o filho em uma boa escola e ainda mandar dinheiro para os pais no interior. Deixou de ir no protesto com seus amigos, no centro da cidade, para sair com o velhote. Vai valer tamanho sacrifício. O mendigo está feliz porque ganhou do pessoal de uma ONG uma marmita cheia de comida de verdade, quentinha ainda. Nem vai precisar gastar os dez reais que ganhou do velho metido à besta. É a primeira vez que faz economia na vida, pensa. E a vida segue tecendo!
Chega lá e senta-se ou apoia-se no balcão. Arruma o corpo por um bocado. Desatende-o. Fica de atalaia aos pensamentos, aos que bradam mais ou aos que se estão a fundear como que a absterem-se da existência. Que parte do corpo desarrumou agora? Intervala esse olhar-se com o apreender o que dizem as vozes no contorno, julgando poder beneficiar de algum solto raciocínio para si, como se lhe fosse administrado em modo surreal. Ri-se disso e encobre o desenho que se estampou na sua boca. Estar só num local é estar desagasalhado de razões, é como não poder rir-se sem que se sugira estranheza. Está-se, no entanto, sempre acompanhado do corpo em todo o lado, até ali nos confins da privacidade, sentado ou sobre o mostrador de bolos que cursa para nenhures. Supondo que um homem também saia da sua casa para arejar-se de si, onde mais pensa um homem?
Na amálgama do mundo não há travões que abrandem a esperança. Os cruzamentos sucedem-se e há um polícia sinaleiro num deles. O homem fardado de azul comanda o fluxo do trânsito. De vez em quando (mas só quando lhe perguntam) dá indicações peculiares. — A rua da felicidade? É a 3ª à esquerda! Não, espere, essa é a rua da concórdia... Já sei! É a 4ª à direita, não tem nada que enganar, mas olhe que não vale apenas ir até lá. Está sempre entupida, seja a que hora for. Está explicada a origem dos engarrafamentos.
O silêncio escorregava como verniz pelas paredes de fórmica. A cabeça se partira ao meio porque ele deixara a porta do armário aberta e ao erguer-se do piso onde limpava um ovo derramado, fragmentara-se, como a gema.
Era um vez um príncipe valente. Vivia num palácio, numa alta montanha. Dali via-se o mundo, o mundo, muito longe. O mundo, visto assim, parecia-lhe bom. Desceu a conquistá-lo, no seu cavalo branco, que era uma cana verde. Mas o mundo riu-se dele, e partiu-lhe o seu cavalo, a sua cana verde que era um cavalo branco. E o cavalo sangrou.
Na escola, foi difícil manter‐me atenta. O dia despontara a cheirar a Primavera. Sabia as estações pelos cheiros e pelas luzes ou trevas que perpassavam nos rostos dos que via, nos lugares por onde passava. Nessa manhã, não consegui decifrar a ausência de claridade nos olhares dos senhores de fatos cinzentos e gravatas de nós apertados com as faces muito bem barbeadas e cheirosas onde faltavam as marcas da juventude e de beijos. Traziam consigo sorrisos sem graça e não era capaz de os adornar com palavras ou ideias, como se lhes faltasse uma história. Olhei a nuca escura de Irménia, sentada à minha frente, o cabelo muito preto, de trancinhas a desfazerem‐se, os ombros encolhidos e os cotovelos pregados à carteira. Houve um instante em que o pescoço dela parecia não suportar a cabeça e metade do rosto lançou‐me um grito estrangulado. Eu não podia fazer nada. Ali não se tratava de a salvar das palavras açoites ou dos gestos desprezo dos outros meninos que queriam ...
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Enquanto lá fora a polícia, atrás dos seus escudos transparentes, usa balas de borracha e bombas de gás lacrimogênio para tentar dispersar a horda de estudantes, desempregados, e manifestantes em geral, descontentes com os rumos da economia, do lado de dentro do sobrado centenário as três vovós fazem tricô na sala. A mais velha está na cadeira de balanço, cochilando com o novelo de lã na mão, alheia a tudo e a todos. Outra, maneja as agulhas com habilidade, enquanto a terceira bebe chá da índia com limão e canela, e pensa no filho, taxista, trabalhando a esta hora. A lareira está apagada porque o clima é ameno. O gato dorme preguiçoso sobre o tapete. O quadro da Santa Ceia está levemente inclinado para a esquerda. E a vida segue tecendo!
Disseram-lhe que se tinha de proteger seriamente, num país assim. O sobretudo espesso, mesmo que áspero a chegar abaixo dos joelhos, se praticável mais próximo dos tornozelos, sem importância se arrastar alguns bagos de areia quando se sentar. Por dentro a fina camisa de mangas estendida até aos pulsos, coberta por outra de idêntico modelo. Em cima dessas, de gola alta um camisolão até aos lábios, a obstruir metade dos dedos das mãos se leva estirados os braços colados ao corpo. Com o consistente físico tapado, o mais possivelmente, se acresceria de vida. Disseram-lhe que se tinha de abrigar deveras, num país assim. No entanto, apesar de todos os conselhos dos mais experientes e por debaixo de toda aquela exterioridade auxiliar, a sua nudez continuava tão à flor da pele, que lhe bastava assistir a um tombar de folha de árvore numa rua qualquer para se pôr a lacrimejar sem sustento, num país assim. Dedicado a Tiken Jah Fakoly
Corto um dedo aos bocados. Pego num saco de plástico e coloco lá dentro pedaços de pouca carne e muito osso. Tiro uma cerveja do frigorífico e ponho o saco no congelador. Vou até à varanda e vejo o sol a erguer-se por detrás de um prédio alto. Ah, como adoro uma mini bem fresquinha! A garrafa enche-me as mãos e alivia-me o incómodo das bolhas. Soluço sempre no primeiro gole mas depois os outros escorregam sem solavancos. Já não me lembro bem do rosto do amigo do meu inimigo. Mas gosto de saber que ele é um puzzle que agora está escondido no local mais frio da minha casa. A mini acabou. Vou ao frigorífico buscar mais uma. Quando abro a porta daquele blindado branco que ocupa um espaço substancial na minha cozinha, tenho de afastar um saco para tirar uma garrafa. Juro que vi um olho a piscar. Arrepio-me dos pés à cabeça. A garrafa está muito gelada.
Sob o fumo azul das respirações, os pratos corriam de boca em boca. O corpo é coisa monstruosa, pele com visco, vísceras das quais a balaboosta fazia cozido na panela de pressão. De arrebentar o ventre nos partos dos filhos que engordara, de enjeitar os corpinhos cartilaginosos num amanhecer, de acordar com as mãos cheias de escamas, penugens e sangue, de torcer o pescoço de frangos lacrimejantes, a velha não sentia nojo de nada, salvo da colônia after-shave do finado incrustrada em cada criatura parida.
Na Maia, em São Miguel, era assim. Por desconhecimento do significado da palavra, chamava-se "natal do porco" à matança do condenado à nascença. Num dos natais do "ti" José Vieira "Cuzão", foi convidado a ir ver o porco um rapaz que, depois de se ter casado, fora viver para outra freguesia. Ir "ver o porco" era um convite que se fazia a dezenas de amigos, que admiravam o bicho, mediam-lhe com os dedos a altura do toucinho, calculavam-lhe o peso em arrobas e quantas canadas de manteiga daria, bebiam uns copitos e petiscavam favas guisadas ou inhame com pimenta. O "Ti Cuzão" perguntou-lhe se ele costumava matar porco. O rapaz era pobre como Deus queria ou permitia, mas mais dado a alegrias que a tristezas. E respondeu de pronto, no modo muito habitual então de o fazer com versos: "Há três anos sou casado, E sempre porco matei. Menos neste e no passado E no ano em que me casei."
Um dia queimei a biblioteca da cidade na minha cabeça, sem piedade por nenhum dos autores e fui-me sentar no chão a comer com as cabras e a olhar o mar, que estava ainda perto dos olhos quando os empurrava para a brisa. Chegaste alto e não me importei que não soubesses quem foi Sartre, nem Napoleão nem Walter Benjamin. Não me afligiu que não soubesses escrever o teu nome sem que te entrasse ar para os pulmões, nem que juntasses a testa húmida à écharpe de seda que te brindei. Da biblioteca, não há nenhuma frase importante que tenha sobrevivido a esse fogo, que me pareceu tardio. Na ponta da minha língua só há restos de erva com areias. A tua mão desocupada toca uma das cabras e ela entoa um cântico. Depois adeja pelos céus espaçosos e ficamos a vê-la. Os teus olhos de carvão quente dentro da minha cabeça.
— És minha, puta... O homem resmunga, os olhos fechados a latejar. Vira-se no colchão, enrola-se na manta, a cabeça a afundar-se na almofada, o ronco a encher o quarto vazio. — És minha... E continua a dormir com a mulher dos seus sonhos.
A cidade umbigo do mundo perdeu as horas. Uma força magnética proveniente de chuviscos de pH altíssimo neutralizou relógios digitais, à pilha ou mecânicos. Os citadinos, surpreendidos e adaptados, projetam-se no asfalto e abrem os braços como ponteiros (o braço direito é anatomicamente mais curto do que o esquerdo). O prefeito, afeito à idéia, ordenou que fosse extinta, de vez, a cronologia e decretou a proibição de todo o tipo de marca-tempo, inclusive o corpo humano. Instalou-se uma lâmpada gigantesca, réplica solar, para abolir a escuridão e desnortear o populaço por completo.
Salteadores de estrada não os houve só na Idade Média ou no caminho entre Jericó e Jerusalém. No século XX em São Miguel também apareciam alguns, que inquietavam carroceiros e outros viandantes. Como aconteceu com um burriqueiro que fora das Furnas a Ponta Delgada vender madeira. Num sítio escuso, surgiram-lhe dois larápios a exigir-lhe a magra bolsa ou a curta vida. O homem pegou nas moedas que o negócio rendera e atirou-as ao chão, dizendo: "Amigos, eu tive de trabalhar muito por isto, mas vocês vão ter de trabalhar também um poucochinho para o juntarem." Mal o dinheiro caíra no caminho e já os dois se baixavam para o recolher. De imediato o burriqueiro pegou no bordão que servia para tanger o burro e para o mais que necessário fosse, e deu sem dó nem piedade nas costas que a avidez lhe oferecera como alvo fácil. E, depois de as moedas tere...
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The world, that understandable and lawful world, was slipping away. William Golding
Ton era obcecado por listas, pelo que escolheu os catálogos de biblioteca, as cronologias, os inventários, as recolhas de recenseamento e os números de telefone como espaço de recreio.
O irmão Josef, menos ambicioso, contentou-se em permanecer na curvatura local do espaço tempo que circunscrevia o sistema solar – opção segura que não chocaria as normas sociais.
Mateus, de sensibilidade mais apurada a questões de equilibrio e beleza, não se sentiu satisfeito enquanto não obteve exclusividade em habitar a primeira derivada da equação de Yang-Mills e ter literalmente o infinito à porta de casa.
Freck escolheu o exibicionismo fácil, mas contudo útil, dos semáforos, das luzes da...
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Num acesso de zelo sanitário, Ernesto Gregório apressou-se a informar quem de direito: «O anticiclone é do contra.» Foi promovido a controlador meteorológico na semana seguinte.
e por falar nele... – da boca de rashid ali, o baterista que tocou com ele nos últimos anos (consegue-se lá explicar o que, nesse caso, isso quer dizer), ouvi que coltrane estava sempre tocando. no camarim, é habitual um músico se aquecer antes de entrar em cena, mas, nessas horas, disse rashid ali, coltrane não se aquecia como um músico: aquecia-se como um boxeador antes de entrar no ringue. ele tocava, e suava, e tocava, e suava, e tocava e, quando entrava com a banda no palco – ou quando entrava nele apenas com rashid ali para os duos improvisados de bateria e sax gritantes –, suava do aquecimento realizado. o que mais impressionava rashid ali era que a intensidade do aquecimento no camarim ou na coxia ou mesmo, como tantas vezes visto, do treino em sua própria casa, em nada se distinguia do que viria no palco. onde quer que estivesse, mesmo no banheiro público de uma rodoviária de interior, coltrane, continuou rashid ali, sempre procurando tirar o máximo da música, a pressionava in...
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Quando jovem eu gostava de ficar triste. Uma vez passei três dias na cama. Mamãe vinha me perguntar o que estava acontecendo. Nada, eu dizia, e virava de lado profundamente contente. Até que tive que levantar e ser feliz. Que trabalheira.
Senta-se à minha frente. É um desconhecido. Ou era. Talvez nunca tenha sido. Agora não posso evitá-lo. A sua presença é real. Já não faz parte da construção do meu pensamento, da ideia que tinha acerca dele. Olho-o e continuo a conjeturar. Escuto as suas palavras, noto as suas expressões, detenho-me nos seus traços e movimentos. Não paro de julgar o que ele é na realidade. Mas que realidade? Aquela que eu percebo na minha inaptidão de conhecer quem quer que seja, ou a realidade que ele me quer mostrar? Mas essa talvez não seja a realidade de que é feito. Quero sair dali e refugiar-me no espaço que me protege de estranhos que me fazem pensar e duvidar daquela que sou ou julgo ser. Aquele espaço familiar, onde eu posso ser quem sou, sem máscaras ou subterfúgios. Onde eu penso conhecer-me sem que outros me digam quem sou. Quero fechar-me nesse casulo que teci à minha volta. Quero repousar e sentir-me segura. Embora saiba que tudo isso não passa de mais uma das ilusões que me acompanh...
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O Pai, antes de morrer (esta madrugada) chamou-me e disse as suas últimas palavras: “Vou para a ceifa e a minha mochila são estas mãos vazias. Tu ficas com duas mulheres, a tua mãe e a tua filha, cuida sempre delas...”
nunca escrevi nada sobre pernas da mulher de um amigo e isso é uma falha tremenda. porque já muitas vezes, em casa de um amigo, lhe olhei as pernas à mulher. e são bonitas, as pernas da mulher do meu amigo, mas o meu amigo está na condição de meu amigo e, por isso, não devo referir-me assim às pernas da sua mulher. porque gosto do meu amigo e, mesmo que esteja sozinho, não devo desejar-lhe a mulher. e a mulher do meu amigo às vezes olha-me e, como estou sozinho e a masturbação prolongada me deprime, julgo que com lascívia e interesse. desconheço se a mulher do meu amigo trai o meu amigo com outros homens, ficaria triste pelo meu amigo, e por isso odeio a mulher do meu amigo, porque, como estou sozinho e quero alguém tenho quase a certeza que ela me olha como quem me quer, como quem me deseja, e se faz isso comigo é possível que vá para cama com outros amigos do meu amigo ou colegas de trabalho, sem o meu amigo saber. em certos dias encontro o meu amigo entristecido e a sentir-se mal e ...
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Experimentemos a rua inclinada da urbe. A vitrina que se sucede à vitrina, em fileira na via que para uns sobe e para outros desce, serve o próprio, não para se imaginar em elaborações a partir de si enquanto vulto, mas para se ver como um outro, irreparavelmente, se insiste em nela se reconhecer. Assim pode que aconteça também aos amores que passam de nada a tudo e de tudo a nada, ao mutuamente se fixarem.
Em qual momento decisivo da vida desenterraria a Elvira cravada no peito e, sôfrego, apelaria para os braços pelancudos da diarista cujas axilas ásperas tinham a superfície espessa e brusca de um homem barbado? Antes da chuveirada noturna, Elvira o revirava como quem sacode o paletó. Ele guardava hábitos de menino, sentava no vaso e projetava as cutículas para longe de si. Não é que Elvira o proibisse de cuspir. Aquelas peles desenhadas ao redor das unhas incomodavam-no mais nos dias de secura leviana, os trópicos perderam a umidade, ele sente carniça nas cartilagens nasais. Elvira apequenava-o porque ele fôra cavalheiro de armadura quebradiça e ela ventilava a amargura por detrás das córneas. A diarista polia o elefante mudo branco reencarnado, um piano de cauda na sala de estar que dava para a Atlântica. Mancava entre os cômodos sem perder o gracejo e ele preferia sorver o óleo de laranja da criada para afrontar Elvira em segredo.
Estava preparado para fazer uma grande mudança na sua vida. Entrou no carro, ligou-o, engrenou a marcha atrás e acelerou. Num instante a viatura precipitou-se no abismo. Promessa cumprida, mudança realizada com sucesso.
Quando o condutor do camião saiu de casa, dirigiu-se para o veículo que conduzia, assobiando uma melodia que lhe estava no ouvido. Entrou no camião, ligou o motor e iniciou a marcha. Tinha andado cerca de cem metros quando se lembrou que a carteira ficara em casa. Como se poderia ter esquecido, se a rotina preenchia aqueles momentos da manhã, imediatamente antes da saída para o trabalho. Parou o camião e correu até casa. Pegou na carteira e saiu. O trabalhador estava pendurado, por uma corda, a mais de cem metros de altura, utando o seu trabalho num edifício bastante alto. Estava muito cansado, pelo facto de não ter dormido, na noite anterior. Com o cansaço, nem reparara que tinha atado a corda de forma errada. Desde que o nó começou a ceder, até que a corda se soltou, não passaram dez segundos. O trabalhador caiu, tendo tempo para pensar que a morte o esperava, no chão. O camião passou por ali, nem antes, nem depois, exactamente no momento em que o trabalhador chegava àquele...
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Foi nas Furnas. A mulher estava sentada num capacho, debulhando feijão seco. Um vizinho, montando um burro, parou para uns momentos de conversa. Para melhor comodidade, passou a perna direita sobre a anca da besta, ficando de frente para a vizinha e para a parte onde o burro acabava. A certa altura, a mulher, tentando juntar mais um pé debulhado ao monte já feito, calculou mal o lançamento, indo a rama bater nas pernas do animal. Subitamente assustado, o burro desandou em inesperada correria, fazendo o dono tombar para a frente, que no caso era para trás. O homem quis agarrar-se a qualquer coisa, mas o que estava mais à mão eram as pontas do capacho. E foi assim que burro, homem e mulher iniciaram uma viagem improvável no sossego da tarde. Ela, mais divertida que assustada, perguntou: "Para onde me levas, José?" E ele respondeu, na maneira mais bruta que há para o dizer, que a devolvia ao seio de sua mãe.
As portas agigantam-se em altura, sem nada apontarem. Contrários à direcção das tábuas de madeira estão sobre elas os ossos das pernas, com a sua parca cheieza demorada em vida. A cobertura de onde pende o fio da lâmpada tem em rigor a mesma extensão de onde está pregado o soalho e as pernas sobre ele, somadas ao corpo só. Dizendo de outro modo, tudo o que está colocado em baixo caberia igualmente na parte de cima, para onde os olhos se erguem. Desde o chão, pode conter-se no olhar a maciez do tecto desnudo de objectos que o adornem na sua brancura, extinta de pés e perigos. A muita quietude num sítio torna-se uma pergunta, faz-nos conjecturar sobre o que é estarmos mais destituídos de agilidades e menos empobrecidos nos olhos. Não é com indiferença que se é vizinho do pó incógnito e de insectos armados com modos ínfimos a tiritarem como nós mas de ocupações, tudo se torna existente para um ser estendido nessa zona, que é a razia de mundo abaixo do nível dos assentos. Mas o que ...
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P. amava duas mulheres. Salomão passou por ele, empunhando uma espada. — Corto-te ao meio? Como não obteve resposta, embainhou a espada e seguiu o seu caminho. P. ficou de corpo inteiro mas, para seu desconsolo, continuou dividido.
Ultimamente, as palavras falham-me e nos meus olhos as imagens acumulam-se
(horas vãos de escada calçadas telefonemas copos gelados os bolsos cheios de pequenos objectos inesperados - um clip papéis com mensagens indecifráveis algum dinheiro um fio negro uma chapa plástica um molho de chaves para várias portas que são várias vidas que somos nós a existirmos mais num sítio e menos noutro mas existindo, ainda assim -, ou ainda lábios madeixas de cabelo malas abertas sem nenhum segredo o rio de relance um jardim de relance um reflexo de relance para assegurarmos que ali se passou uma ferida na mão uma dor devagar num ombro sempre persistindo uma fotografia a ganhar pó com alguém por trás dessa memória e com ela outras coisas amontoadas peças de roupa pelo chão cama cadeira uma tesoura minúscula um pássaro morto paredes semi-desfeitas um punho contra o estuque uma frase a escorrer para o passeio um corpo despido ou um carro de algum modo como um molho de chaves vielas e atalho...
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A rua estava movimentada, naquele dia. Um grupo de historiadores reunia-se para uma visita ao número 5 da Rua da Liberdade. Tudo apontava para que aquela localização tivesse sido a escolhida, por um grupo importante de intelectuais, para mudar a História de um país, cem anos antes. Os jornalistas corriam de um lado para o outro, à procura de quem indicasse novos dados sobre a visita. O líder do grupo de historiadores marcava para o final da tarde uma conferência de imprensa onde tudo seria explicado. Dentro da casa, fotografias eram tiradas, um ou outro documento era levado para a Biblioteca Nacional, para ser estudado. A casa ao lado, o número 4 da Rua da Liberdade, estava completamente abandonada. Apenas os gatos utilizavam o edifício, para se abrigarem do frio. Nunca ninguém viria a saber que ali nascera o líder do histórico grupo de intelectuais. Nunca ninguém viria a saber que aquela era a casa onde tudo acontecera. O número 5 fora, apenas, uma manobra de di...
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Ele usa uns olhos lânguidos, dir-se-ia que em cada um há um animal que se espreguiça com todas as linhas do corpo. É-me usurpada toda a coerência por um momento, ele olha-me de baixo e desde o amendoado dos seus olhos picados de vermelho e eu perdi o cozinhado das palavras, a razão pôs-se como um sol de renda atrás de um muro velho, a impressão que me fez quase correr pelas ruas alivia-se como se tivesse parado o granizo sobre vidros, tem as mãos demoradas sobre as pernas largadas ao chão, estou atada à sua figura, ao seu rosto sublime, quero arredar-me do delírio mas estou suspensa e sem timão, ele continua a olhar-me como se exalasse as próprias estrelas e eu, sem efectivamente olhar em redor, dobro-me e beijo-o.
do gesto contemporâneo do negar e afirmar – ao fim de seu show, após longos aplausos, branford marsalis retorna ao palco. pensando alto, pergunta-se (e, em decorrência, à banda e ao público): – o que iremos tocar? da plateia, alguém sugere em alto e bom som: – giant steps! como quem não tem que provar mais nada a ninguém, branford marsalis, rindo, não titubeia: – giant steps não, eu já me formei na escola há muito tempo. e toca uma música inteiramente desconhecida do público. terminando-a, sem largar seu instrumento, com toda tranquilidade e como se nada antes tivesse acontecido, vira imediatamente para banda e avisa a próxima a ser tocada: – giant steps.
Sonhava escrever com a leveza do voo de um pássaro, assinar ofícios com o fulgor de uma estrela cadente, luz apenas. Naquela tarde, gozo de menino a rabiscar paredes, resolveu adestrar a mão. Ritmos poéticos, a Parker corria leve no papel. Autónoma, precisa. Refulgências de ouro por baixo de "O Administrador-Geral". Ele absorto, perdido, cabeça longe. Fez trezentas assinaturas assim. Trezentos ensaios perfeitos. Trezentos depedimentos de sonho.
In Histórias de Coisa Nenhuma e outras pequenas significâncias
Hoje, sou gauche na vida. Mas poderosa, já fui. Intelectual de vanguarda, admirada e temida pelos gênios da ciência, das artes, literaturas. Ávida pelo saber, dissertava qualquer tema. Entregava-me às letras voraz e ardentemente.
Respeitavam-me, eu sorria.
Os homens, todos os homens, invejavam a minha força e procuravam-me sôfregos na insana necessidade de me ver estonteada, arfante, quase morrendo. Mas, nos últimos momentos, capaz de citar filósofos e gemer em poesias. Não importa em que idioma.
Em cada morte, eu nascia. Mais altiva e exigente. Geração após geração eduquei meus descendentes, ensinando a cada um a arte de amar palavras e de se fartar com elas.
Dissertava qualquer tema. Eu destruía sofismas e arrasava pensadores. Minava ideologias desde as premissas básicas.
Tive um lado savoir vivre. Deleitei-me em estranhos livros, que dissecavam receitas das mais nobres iguarias. Embebedei-me em outros, decantadores de vin...
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Há duas chávenas vazias em cima da mesa. Trazes um bule com água a ferver, que poisas em cima de uma base. Sentas-te. Sem dizeres uma palavra, levantas a mão e dás-me uma bofetada. Fico estancado, de boca aberta, a face a arder. Depois, calmamente, despejas a água nas duas chávenas. Ouço uma delas a estalar. Não consigo desviar o meu olhar de ti. Terá sido a minha?
O médico, o cura e o professor eram as pessoas mais importantes, durante os anos em que cresci e outros que se seguiram, até o 25 de Abril ter chegado àquela aldeia beirense. Levou o seu tempo, mas acabou por chegar. Tudo levava o seu tempo a chegar à aldeia. A bitola para aferir esses homens era o grau da sua vocação. Cuidavam, com zelo, dos corpos, das mentes e dos espíritos, não deixando de largar neles o verme de um disfarçado despotismo. O cura usava o poder nas dobras da batina, engomada a preceito pela Gracinda, moçoila rechonchuda, que comungava todos os domingos. O Padre Dionísio arregaçava a batina de pregas vincadas para sentir as nádegas frescas e macias da filha do Rufino contra a sua barriga flácida. E o Rufino badalava o sino, durante a eucaristia, muito sisudo, na envergadura de sacristão, orgulhoso da sua prendada Gracinda. O professor usava o poder no ponteiro e na régua que deixava descair, quando menos esperávamos, e nos punha as palmas das mãos e ...
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O Pai, antes de morrer (esta madrugada) chamou-me e disse as suas últimas palavras: “Vou para a ceifa e a minha mochila são estas mãos vazias. Tu ficas com duas mulheres, a tua mãe e a tua filha, cuida sempre delas...”
1974: a cidade a ruir e as ruas desertas, o silêncio a acontecer ferozmente, a poeira em todo o lado como um véu. Décadas depois, noutro sítio que poderia ser um sítio qualquer, as pessoas repetindo a mesma frase porque nada mais a dizer, porque muitos os espaços em branco por preencher. As coisas pesadas e lançadas ao ar sem destino aparente (as pessoas sem destino aparente, as pessoas teimosas e lentas). Existem, claro, jornais, televisão e livros a explicarem-nos as mecânicas difíceis do mundo, pessoas em cadeiras com os cotovelos sobre grandes tampos de vidro, as pontas dos dedos alinhadas, a voz igual aos jornais e televisão e livros a explicarem-nos os processos complicados da vida. As pessoas e o mundo na televisão, frases sem destino aparente nos livros e jornais.
Nada existe não interessa nada interessa nada existe.
É só abrir a geladeira, e ele começa a me acariciar. Um dia chegou a apertar meu seio. Afrontada, repeli-o. Em vão: ele continua a brincar comigo, como se nada tivesse acontecido. Quem sabe seja levado a isso por interpretar levianamente meus gestos: desde que ele ocupou a geladeira, para apanhar as frutas, a manteiga, o leite, as conservas, sou forçada a roçar-lhe o peito, as pernas, os braços, o que talvez o excite. Mas a mim, que tenho casa e filhos para cuidar e um marido que atazana por dá cá aquela palha, a brincadeira está custando caro. Às vezes, de noite, sonho a sua mão gelada correndo-me o corpo, na promessa de um prazer que há muito deixei de experimentar.
Ser consciencioso é estranhamente, por vezes, denegrir a parte pela qual a consciência se sente menos atraída. A consciência é apenas o instrumento, que nos permite inclinar a existência mais para um lado do que para o outro, como quando se vai a estatelar o nosso corpo mas ainda há a possibilidade de perceber a aproximação ao futuro da queda e num impulso emocional, ele é por nós orientado para onde há mais pedras ou não, para o receber. A consciência guia-se pelo susto que a assoma, mas parece ser que os seus ponteiros ainda assim se movimentam, como uma cauda de lagartixa abandonada.
O dia, a data, a gata preta: pensou em azar. Pensou no azar de justo naquela sexta-feira treze lhe morrer a gata, a sua velha gata preta. Recusou sepultar a dor no lixo da cidade: numa caixa de cartão embalou o corpo pequenino, amortalhado numa tira de lençol, partiu com o discreto esquife debaixo do braço. Chegado à terra-mãe, horas de viagem, buscou a enxada, gume enferrujado pelo pousio, cavou. Fundo, o mais fundo que alcançou no solo empedernido, cavou. Como quem busca um aconchego, umas mãos abertas, um ninho, um berço essencial para cingir a velha companheira, neste chão indócil de palavras.
Caminho e assobio. No alto de uma árvore um pássaro responde-me. Paro e olho para cima. Não consigo ver o animal. Assobio de novo. Escuto um resfolegar de folhas e vejo o pássaro a voar para longe, levando consigo o seu canto. Ponho as mãos nos bolsos e bato com um pé, impaciente. Pesa-me a espingarda a tiracolo. Pesa-me a bala que não disparei. Só não me pesa a consciência do tiro que ficou por dar.
Tua coxa é lisa, o lado de dentro. Você é peixe de uma única escama, liso com ela e sem ela. Meus dentes não te rasgam, escorregam, escoriar tuas pernas é um descuido que me agrada. A mulher raspa tua cabeça, dinâmica debaixo d’água pra te salvar das Iemanjás. Azar dela, eu não preciso de oxigênio debaixo dessa pressão. Tô te esperando no toalete das arraias, sem minha parte de cima. Sereia feliz, cabeça de peixe, quadril de mulher.
Repassada do desejo daqueles risos que se perderam e da lembrança dos encantos que nunca chegaram a acontecer, está a casa, palco deserto, onde outrora fantoches ensaiavam uma monótona coreografia. Aí, já não cabem as aparentes histórias nem o som de vidas a fenecer. Ouve-se, somente, o rangido das tábuas do soalho sob os passos das turbulentas memórias. Os segredos adormecem nas sombras, que desenham um retábulo de recortes esfumados, na espessura oca dos tectos negros. O tempo ficou retido na fuligem que abraça o passado. Lá fora, as manhãs desafiam a perenidade do momento.
Ninguém sabia por que ela criava amebas ambíguas no aquário. Não tinha peixes. Com a sua cara de sardas, frequentava o Café Flor e sorvia Kir Royal em copo de Campari. Sentia o beijo lambido que o argelino lhe dera na orelha, ainda de manhã. Ele vestia black-tie. Ela mal sentia a boca de tão seca. Quase lhe calhava ferrar os dentes. Na Rua da República, para quem quiser se refrescar, é preciso beber o suor. Natûrlich.
A bomba vai explodir. Já está armadilhada. Só falta digitar o código de acesso e premir o botão. — Vou-te deixar. D. sufoca no ar que o rareia e leva as mãos ao peito. A dor fragmenta-se em inúmeros pedaços de amor tóxico. D. cai no soalho, fulminado por palavras terroristas, uma bomba atómica no seu coração.
Ver é diferente de dizer o que se vê. Ver apenas, não incomoda o mundo. O homem está no remate da sua vida, mesmo que ignorasse como dedilhar o tempo há um espelho na parede, antes usado sobretudo para o ensaio de esgares mulherengos. Esse artefacto tem-lhe servido para desconvocar o eco da casa, ao fragmentar por imagens devido às lombas que entretanto adquiriu, o próprio coração. Ultimamente, havendo partes do seu corpo que aborda como paisagens inóspitas, está definitivamente coberto com um pano grosso. Ver-se faz-lhe adivinhar uma pessoa esquiva. Mas numa dessas tardes meditabundas que confrangem qualquer alma, veio uma mulher e disse-lhe o que viu. Ele tinha a orelha direita muito maior que a outra, como se ambas se tivessem desentendido quanto ao tamanho a conservar ao longo da existência e numa delas havia uma espécie de bolor a sugerir-se num lóbulo, estava esverdeado como os campos após as chuvas. Ela disse-lhe ainda, estás a envelhecer. Ele pensou, estar velho é diferente de ...
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O china era mais cuidadoso com o ferro de passar. Seu empregado, ao contrário, usa-o como se fosse um trator. O resultado são as feridas em minhas costas. Às vezes, ele joga água em excesso sobre a roupa, e o contraste com o ferro quente tem-me provocado constipações. Fossem somente as feridas e as moléstias passageiras até que não seria mau. O pior acontece nas distrações desse empregado: outro dia, ao atender uma freguesa, que lhe é muito cara, esqueceu o ferro ligado em minhas costas, e nem memo o cheiro de carne queimanda o fez deixar o bate-papo com a encantadora criatura.
Nos clássicos movimentos de um cumprimento, a mão do doutor Proença desprendeu-se. Acidente: que, no aperto de dona Josefa, não houve ardor. Ao sentir coisa grudada aos dedos, num gesto de automática defesa a senhora sacudiu. Projectada, a mão do doutor Proença caiu, enérgico desamparo, no empedrado. Ganhando brusca consciência do caso, sem cuidar da mão, dona Josefa desfez-se em desculpas e perdões. Alheio, olhar na ausência, no coto, o doutor Proença aquietou: — Deixe, minha senhora. Que havemos de fazer? É a vida. De repente, desperta pelo magnânimo desprendimento, acirrada pela culpa (que não teve), dona Josefa apressa-se, calçada abaixo. Quando, ofegante, chega à margem, já a mão do doutor Proença, a vogar no rio, é um aceno.
Tenho abandonado teu corpo, é efeito. A causa me escapa, por ela que te escolhi, a causa. Não sabia que escolher fosse fácil, dá-se por razão numérica, fica quem já estava na raiz. Fórmula que se dissolve em água e faz-se a sopa, eu só entro com a colher. Não faço parte da escolha que me favorece. Escolha mesmo só a se tomo aspirina às três ou deixo pra mais tarde.
Na festa ela esperava que alguém a olhasse. Toda a produção, vestido novo, maquiagem caprichada, sandálias altas, tinham um único objetivo: chamar a atenção para sua disponibilidade. Aos poucos o sorriso foi abandonando seus lábios, junto com o vermelho do batom. O vestido foi ficando amassado, as tiras da sandália foram apertando seus pés. Nos olhos, um brilho novo, triste, boiava. Ela disse adeus, mas as pessoas pareciam que não escutavam. Com dignidade, ela caminhou até a varanda, subiu numa cadeira, exigiu atenção: Vocês não reparam em mim! – queixou-se. – Mas vão reparar! E, num salto, capturou os olhares de todos.
O homem viajava de carro, pela cidade, quando passou por um prédio em chamas. Estacionou, na berma, para tentar perceber a dimensão do incêndio. Não havia dúvida: nada resistiria àquele fogo. O homem entrou no carro e fez o seu caminho, tentando esquecer-se da tragédia urbana com que se deparara, alguns minutos antes. Porém, a intensidade daquelas chamas parecia ter reflexo na memória do homem. A única coisa que distraiu o homem daquelas memórias tão intensas foi uma bela mulher, que caminhava na rua. O homem não conseguiu deixar de olhar para a mulher, admirando a sua extraordinária beleza. O que ele não sabia é que, dali a alguns instantes, o telefone da mulher iria tocar: alguém a iria avisar de que a sua casa ardera por completo.
Quando ofereceram flores, a Katia e a Viktoria, Katia segurou-as junto ao peito. Viktoria colocou as suas no piano de Katia e ergueu o violino, como se fosse um ramo de flores.
De setembro, nesta paisagem de mim, ressalte-se, em caixa alta, a crença irrefreável; que é direto na alma a Vossa presença em mim. Eu digo. E me esgueiro tonto.
Aquele corredor era a
pausa, o começo e o fim: lugar de chegadas e partidas, saudações e
admoestações, encontros e desencontros, vidas fugidias ou estagnadas. Por ele, passavam os desejados e indesejados, os amigos e desconhecidos, as empregadas,
as clientes da mãe. Nele ficavam os odores que escorriam pelas paredes e se
infiltravam na alcatifa: o aroma apetente dos cozinhados da minha avó; o
perfume das noites de festa ou das saídas aos domingos; o cheiro pestilento das
noitadas do meu pai; a fragrância cristalina dos dias da limpeza; o agonizante resíduo das encobertas mazelas. Este era um corredor que não só dividia a casa
mas nos dividia, tanto como nos juntava. Ele tinha a sua história, feita de
muitas histórias. No tecto alto e lavrado, na espessura das paredes ornadas com
pinturas baratas, nos rodapés salientes e gastos havia um rio lamacento de
segredos. Era ali que nos cruzávamos amiúde, onde o ruído dos passos, embora
cortado pela macia alcatifa, falava de quem éra...
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No instante em que o punhal me perfura a pele, sinto um certo desconforto. Mas a dor insuportável vem somente quando a lâmina me dilacera as entranhas. Tomado de vertigem, caio no chão e me pergunto se a experiência não foi de todo inútil. Afinal, morrer é algo mais do que incumbir alguém de nos descrever a própria morte.
Era de manhã. O sol, preguiçoso, demorava a aparecer por entre as nuvens. As silhuetas das ilhas, ao longe, se alongavam no mar escuro. Subitamente o vento soprou com força, as nuvens se afastaram. O mundo se coloriu e desabrochou. Seria o sol ou o sorriso que se abriu em seu rosto?
Não era que se dessem mal os da Maia com os de Rabo de Peixe. Mas naquele dia aconteceu. O barco do José Raposo “Ganilha” fora levantar os covos das lagostas. No mesmo sítio estavam pescadores de Rabo de Peixe a recolher os seus também. Ao fim de pouco tempo havia acusações mútuas de roubo de covos. O José Amaral, magro, quase sem carne e só com metade dos olhos, parecia um figurante de um filme de pirataria. O retrato ficou perfeito quando pegou na catana de matar os congros e incitou à abordagem. Ia a discussão cada vez mais azeda quando o mestre de Rabo de Peixe gritou: “Ê sou um home sério, mardite! Tenho cinquenta contos no banco e um reloge de purse!” O José “Ganilha” voltou-lhe as costas, baixou-se, descompôs-se e, exibindo ao outro os seus dotes, proclamou bem alto: “Olha! Olha! E ê tenho um reloge com pandulho e tudo!”
Ele traduz uma palavra com cuidados de mãe, por uma outra que ele sabe, mas não eu. Levaria o resto da vida para perceber onde põe ele as cores numa cidade, se lhe é pedido que a preencha de tons. É por isso que não lhe entendo as palavras, mesmo que já destrocadas cada vez mais em significados mais simples e prefiro pensar, que se em vez da cidade como exercício para eu lhe compreender as palavras originais, esta passasse a ser um corpo de mulher, eu já conseguiria ler-lhe nos lábios o entendimento que tem do mundo, porque então eu seria essa rua grande cheia de ruas, que receberia as cores.
A ciência confirma, trauma e má digestão sensorial são panelas fora da organização doméstica. Aquela ponta de camisola que a gaveta deixou pra fora. Basta que eu, você e tua desgraça nos guardemos, dobrados e envelopados, remetente sul, destinatário norte. Compro o selo, mas que a cola não seque, e me deixe, vez ou outra, revirar eu mesma a cômoda. Pra deitar-me nela, arquivada.
Os poetas e os escritores são como divas em camarins defronte do espelho, comendo bombons, olhando as flores, recusando cartões, vestindo o roupão, tocando o cetim, penteando o cabelo, soltando um suspiro, guinchando ciúmes, insultando os outros, desprezando os outros: porque mais novos, porque brilhantes, porque tão falsos, porque horríveis, porque se recusam – para um chá ou licor –, como se se escondendo um incrível segredo.
Os poetas e os escritores odeiam-se roendo unhas e têm dores de coração, têm trejeitos de mão como os actores num dramalhão clássico, têm longas pestanas para se chorarem melhor defronte ao espelho, tocando a cara, apanhando as rugas, olhando as flores, recolhendo um cartão, sorrindo comovidos, ainda uma estrela, ainda com garra, ainda o orgulho da mãe ou do pai ou doutra pessoa qualquer que, por receio, não se mete em confusões.
Quando cheguei, era a manhã emergindo da madrugada. A casa cheirava a morte. Na sala, os coágulos de sangue sobre o tapete ainda brilhavam sob a luz filtrada pelos vitrais. Um par de castiçais, velas e peças quebradas e flores emurchecidas foram encontradas já no corredor que levava à cozinha onde jazia o corpo. Num desespero controlado, o que se podia contra ele, porque eu sabia o que ele queria de mim.
O pintor trabalhava com grande determinação, para cumprir a promessa que fizera, anos antes, ao seu pai: criar quadros que perdurassem, por muitos anos, na memória colectiva daquele povo. Porém, os anos foram passando, e os quadros não iam além de umas simples e, até, desinteressantes, exposições no centro da vila. O pintor ia desesperando, começando a entender que a falta de talento iria impedi-lo de se tornar um pintor famoso, como sempre sonhara. Um dia, já sem esperança, o pintor desistiu da Arte, passando a trabalhar como pintor de construção. Quando a vila se começou a transformar, lentamente, numa cidade, quando as casas pequenas deram lugar a prédios, o trabalho aumentou de volume. Em alguns locais, os números das portas dos vários prédios foram pintados à mão. Quem deles se encarregou foi o pintor. Cinquenta anos depois, os prédios lá estavam, com os números pintados à mão. Sem querer, o pintor acabou por ter, como pretendia, pinturas suas que resistiram ao temp...
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Recordo o homem que fui sem saber de onde vem a memória, sem reconhecer a sua autenticidade. A ténue possibilidade de ter sido esse homem apresenta-se mais reconfortante do que a realidade de quem sou agora. Digamos que o possível se converte no meu real. O possível é a verdade que desejo aprisionar como minha. Já que nada consigo reter nas mãos que deixaram de acompanhar a linguagem do cérebro. A mente recusa-se a aceitar as manchas e as rugas que traçam um rendilhado insólito na pele ressequida. Os olhos vêem os dedos desenhar movimentos, como se não seguissem a minha vontade. Como se não pertencessem ao resto do corpo. Talvez esse homem tenha existido apenas na minha imaginação. Mesmo no tempo em que eu me conhecia. Mas não me perguntem que tempo foi esse. Decerto muito longínquo, soterrado nos confins do mundo. Lembro-me vagamente que costumava cogitar se o mundo tem um princípio e um fim. A incerteza do fim era o que me mantinha acordado, certas noites. Pensamentos que dei...
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Viktoria Mullova, no Funchal. Ravel, a Sonata para violino e piano em Sol Maior. Com Katia Labèque. Quando desenrola o Perpetuum mobile os seus pés parecem subir pelo corpo, o corpo espigado que prolonga o violino. Por um momento só vejo o seu pé esquerdo, de onde a música parece partir, e elevar-se. Encontro-a no dia seguinte, no Jardim Botânico e digo-lhe o que ela não pode entender: que a música de Ravel nascia do seu pé. Sorriu e também ela partiu.
A minha única reacção (os meus pais ensinavam-me a pensar que é a reacção possível, em certos casos a reacção necessária, até), neste momento, é ficar a ouvir o chuveiro onde ele se lava há mais de meia-hora e olhar para os joelhos encostados, passar a mão esquerda por entre as pernas e roer as unhas da mão direita. Não entendo esta sua obsessão com o banho, sinto-me mal, preferia que fumasse um cigarro, como fazem todos os outros homens, ao menos enquanto fumasse podia-me dar colo e podia abraçá-lo. Foge para o banho, como se o meu corpo estivesse sujo e tivesse doenças, germes, vírus. Limpa-se de mim e assobia a Quinta de Mahler, o quarto movimento, o Adagietto, vezes sem conta (perdi-lhes a conta há demasiado tempo). Roo, pois, as unhas. Quase até ao sabugo, para ver se me sujo, que quando não estou menstruada preciso de roer as unhas, fazer sangue, justificar-lhe, justificar-me (“ah, então foi porque eu tenho sangue cá dentro que foste tomar banho!”) dos duches sempre depois...
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Na beira da praia, todos os olhos acompanhavam o relógio digital, marcando, segundo a segundo, a aproximação do novo ano. A jovem, de cabeça baixa, cabelos caídos sobre o rosto parecia ser a única que temia a nova data. Apertando a mão do namorado, murmurava: “queria que este ano nunca acabasse…”
Não há como alterar a vida. À janela, o velho acende o cigarro. Vê as gaivotas aprumadas que sustentam o peso de uma grua e praguejam ao sol. As gaivotas fugiram do mar e os pombos fugiram das ruas, o mundo sofreu uma inclinação, diz, o velho. E aspira a morte para dentro dos pulmões. E bate o indicador na boca acesa. E a cinza cai sobre o canteiro de rosas. No canteiro: uma rosa levanta-se para receber. A rosa é um fio de terra que se levanta. Sandro William JunqueiraLer Tudo >>
O vendedor de chapéus, que viera das Furnas, parou na loja do senhor Noé. Entre pilhérias e cálices de aguardente, todos os dias mestre José Pacheco "Ferro-Velho" passava lá quase todo o dia. O visitante propôs-lhe que fosse vender por si os doze chapéus que restavam, ficando metade do dinheiro da venda para cada um deles. O ferreiro não demorou a regressar, mas trazia ainda meia dúzia de chapéus. Entregou-os ao dono, e disse: "Eu já vendi os meus. Agora vai tu vender os teus." Daniel de SáLer Tudo >>
Caminhávamos sempre de mão dada ao começo da manhã e a cada final de tarde. Havia uma estrada de terra que atravessava todo o parque e que rodeava o lago. O meu pai dizia sempre que me ia mostrar coisas nunca vistas: cabelos de árvores, animais extravagantes, lagostins da terra, pássaros com voz humana e ao longe, se parássemos a escutar poderíamos até ouvir o rei Lumumba que vivia lá na África mas que tinha uma voz tão poderosa, tão poderosa que chegava até aqui ao lago plano e metálico do parque da Curia. E assim parávamos e assim escutávamos, eu e ele, olhando-nos nos olhos, incrédulos, eu por uma razão, ele por outra. A voz profunda de Lumumba ouvia-se distintamente no meio do lago da Curia quando ao fim da tarde os jovens casais de namorados davam aos pedais das gaivotas, entrelaçando as pontas dos dedos das mãos e deixando um rasto de beijos que desenhavam amores líquidos. Assim passei muitos meses de Agosto, eu e o meu pai, a caminhar, a caminhar de mão na mão por infi...
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tínhamos aproveitado para passar uns dias de férias em um dos lugares mais bonitos do brasil, que, como qualquer um sabe, se insere nessas rotas dos mais mais de todo o mundo. do outro lado da fronteira, um turismo oposto ao da exuberância da natureza, com o prosaico das compras mais baratas de nosso tempo, acaba mesmo por ser convidativo não apenas para o trabalho dos sacoleiros. ciudad del este: no pouco que conhecemos, um excessivo camelódromo sujo, repleto de homens, depois da ponte aduaneira, ao qual chegamos dentro de um ônibus de linha e do qual saímos na garupa dos motoboys. ao comprar um tênis nike para presente em uma das inúmeras barracas de rua, diante da completa semelhança entre o original e a cópia à nossa frente, a pergunta inevitável dirigida ao vendedor: – fala a verdade, meu amigo, é falsificado, não é? a resposta, digna de um filósofo paraguaio, foi imediata: – nada é verdadeiro no paraguai, minha senhora, no paraguai não há original, no paraguai tudo é falso, tudo....
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O centro da criação não está sobre a terra, tampouco no meio da galáxia. O centro da criação, embora não seja fixo, não nos visita. Centros existem para expandir o seu redor. Dentro das células, dos átomos e partículas menores, há mais vazio que conteúdo. Se sou o núcleo aqui, os elétrons estão lá. E por mais que eu ande, não tocarei os limites do meu corpo. O limite vai se estendendo, longe do próton que o permite girar na velocidade que eu quiser. Um bambolê em uso que a cintura da menina ora se opõe ora não ao círculo de plástico. A cintura da menina está longe o suficiente para que uma era completa não a sinta. Por isso o buraco negro não regurgita pistas, mas gases. O que acha que há numa menina, senão oxigênio e rodopio?
Entra e logo o dono do estabelecimento: — Muito bom dia dona Mariazinha. Então que manda? — O costume, senhor Silva. Foi à estante, colheu uma braçada dos de lombada grossa, pesou. — Três setecentos e cinquenta. E que mais? — Olhe, já agora, levo um par de badanas. E uma dúzia de frontispícios, para o gato.
In Histórias de coisa nenhuma e outras pequenas significâncias
O dia inteiro sobre faturas, letras de câmbio e contas a pagar e a receber, perdia a noção de que era um ser humano. Voltando à casa, sentava-me e começava a dar marteladas na cabeça. Única forma de me sentir vivo. Mas até com isso tive de parar, porque minha esposa ficava sobremaneira irritada com as manchas de sangue no sofá.
As cores conhecem nomes variados,o batismo é na bacia da retina. Há cor sem nome, as que não dão valor e volume ao pigmento. Nomes de preto: coca-cola, tabaco. Rosa: palha, champagne. Branco: gelo, neve. Roxo: berinjela, hematoma. Já número não tem sinônimo, um é um, cinco é cinco, não há dois nomes para um. Justo a cor não se acomoda, é volúvel; diga a cor daquele sobrado, e direi sua primitiva direção.
Tom suave, quase a medo, ele disse, dá-me um beijo, logo ela descia a ladeira, partia sem olhar para trás. Ela, lábios em fogo, de ela fugindo a correr. Ele ficou-se a olhá-la, mãos frias perdeu-se na noite rumo a uma outra cidade qualquer. Depois fez-se tarde.
Estado Novo. O apresentador entrevista na Portela uma família de bons portugueses, que se prepara para partir em direcção a Moçambique, onde irão trabalhar a terra. Pai, três filhos, e a mãe. O chefe da família é anguloso e gasto, tem poucos dentes, mas um entusiasmo que nem parece forçado. Dois rapazes que aparentam ter saído de um anúncio de cereais para o pequeno-almoço e ao lado do pai uma filha cuja beleza é tão inesperada como evidente. Cara redonda e forte, bem modelada, de elegância modesta e luminosa. Vai escondendo o rosto, com vergonha da televisão, e as mãos grossas e calejadas contrastam com o resto. Terminados os preliminares com o pai, o entrevistador avança de imediato para a filha, a perguntar-lhe se deixa noivo em terra. Ela ri-se muito, abana a cabeça, responde que não, e por segundos vê-se no pai uma expressão pouco canónica, a ira do patriarca, machados e terra funda para quem belisca a honra da família. ...
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O menino recebeu um xilofone no aniversário. Começou, lentamente, a tocar, aprendendo, pelos seus meios, várias músicas. A facilidade com que aprendia novas músicas, levou-o a ganhar gosto pelo xilofone e a tocar todos os dias. À medida que foi crescendo, o menino foi tocando menos tempo, até que o xilofone ficou guardado e esquecido, dentro de uma caixa de sapatos. O menino cresceu, tornou-se um viajante e, à semelhança do que acontecera com o instrumento musical, foi viajando cada dia, um pouco mais, até que perdeu o caminho de volta. Um dia, num país distante, encontrou um menino a tocar guitarra. Lembrou-se da sua infância e, particularmente, do xilofone. Procurou um instrumento destes, numa loja. Encontrou um exemplar em segunda mão. Comprou-o, mesmo sabendo que o instrumento tinha pouco valor. A grande razão para comprá-lo não estava no valor, mas no significado: se tocasse todos os dias, talvez se lembrasse do passado e, consequentemente, do caminho de volta.
O coto das asas surgiu-lhe nas costas quando a mulher se tornou minha amante. O bico e as penas apareceram depois. Já então ensaiava voar, pulando do guarda-roupa para a mesa e daí para o chão. A mulher, irritando-se porque ele defecava no assoalho e passava as noites crocitando, exigiu que o expulsasse de casa. Antes que eu tomasse a iniciativa, ele atirou-se da janela. Para minha surpresa, as asas suportaram-lhe o peso, e ele acabou pousando num plátano em frente à casa. E de lá passou a vigiar-nos. A mulher atirava-lhe pedras, ele fugia para longe, mas acabava sempre voltando para a árvore. E sua presença só me fazia crescer o remorso. Suportando o frio, a fome, a sede, mostrava-me o quanto fora ingrato. Um dia, a mulher me deixou. Em vista disso, temendo pela solidão, chamei-o da janela. Mas ele só fez abanar a cabeça, já toda coroada de penas, e crocitou: - Never more, Never, more.
Enfim ando de automóvel em Paris, eis o que queria, seguir com as pernas quietas. O sangue descansa nos tornozelos e sobe à montanha, onde está o pensamento. Se mistura ao ômega três e me dá o borrão das luzes rápidas. Tiro a lente que corrige dois e meio de miopia, pessoas e postes riscam o trajeto. Uma reta é um conjunto de pontos. Meu rosto resume todos os outros, reconhece? O corpo não é o território absoluto, a nudez dos óculos não garante seu domínio, tampouco brioches.
Os objetos no aparador da sala e, bastante, apenas um toque. Um leve toque de pontas de dedos e sucessivas as alternâncias de cores, épocas e cenários indizíveis até que uma nota manca vibrasse, com eco, nossas vidas destroçadas. A mancha de sol no corredor, a incidência da luz. As três partes do dia.
Num estranho acidente, as mãos da menina Alice ficaram presas na porta do autocarro 35. Avaliadas as hipóteses de desencarceramento, os técnicos concluíram: melhor seria não arriscar. Posta ao corrente, concordou, tanto mais que lhe garantiam o mesmo ordenado do escritório, descontos para a Segurança Social, subsídio de refeição, pernoitas. E, ademais, sempre que quisesse, a família podia vê-la. A partir daí, dia e noite, a menina Alice e o 35 passaram a viver juntos: um casal, a bem dizer. A ocorrência tornou-se notícia, com cobertura mundial de televisões, rádios, jornais. A sorte grande para a menina Alice, que parecia condenada a passar a vida a teclar ofícios, mãos presas à velha Remington.
Todos os dias, a meio da tarde, num ritual que se acomodara aos ossos e à carne, ele deixava a casa e tomava o caminho para a taberna da viúva Mariquinhas. Não que procurasse o aconchego do vinho ou das amenas tertúlias com os velhos companheiros; não era isso que o fazia subir aquela rua estreita e íngreme, de calhaus gastos pelo tempo: apenas desejava encontrar os olhos da Mariquinhas, deliciar-se com o seu riso, as suas maroteiras e o chiste na ponta da língua, numa apaixonada formalidade, cortejando-lhe a presença e graça. Mulher ladina, a Mariquinhas ainda era bonita e mantinha uma jovialidade de fazer inveja às outras da sua idade. E ele — tal como ela — estava só. Embora a vida declinasse, ele teimava em não se deixar vergar pela idade e pela soledade, subindo todos os dias aquela ladeira. E aquela subida, qual metáfora, transformara-se no seu combate particular, no seu campo de batalha: fizesse chuva ou fizesse sol. Pouco falava, quedando-se em silêncio, a contemplar. No secret...
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Os gritos, horríveis, assim como as frases cuspidas um contra o outro. E ela teve de sair de casa, para respirar, para se lembrar de que existiam outras pessoas e outros sítios, finais felizes. E ele em casa, a rasgar-lhe a última folha de todos os romances.
Dentro da selva existe um animal semelhante a um jaguar, cujas pintas são feitas de canções sagradas. Chamam-no asyda e é o animal do tempo. É ávido por anos e o que ele faz é caçar os dias, a juventude (que está cheia de tempo), os anos. Assim tudo envelhece, porque o jaguar sem tempo não tem tempo, e quando acaba cada uma das suas caçadas – que demoraram, para cada presa, uma vida – deixa apenas umas peles enrugadas ou uns ossos prestes a morrer. Ou somente um punhado de terra.
Conquistou-a com muita paciência. Levava-lhe moscas, besouros, e até mesmo camundongos à frincha da parede. Finalmente conseguiu que ela viesse comer-lhe à mão. Após devorar a presa, contemplou-o com uma picada, que lhe provocou dolorosa ereção. A partir daí, habituou-se a dormir em sua companhia, escondida numa dobra do lençol, debaixo do travesseiro ou sob o relógio da cabeceira. O amanhecer era um jogo de esconde-esconde, que terminava com uma carícia no veludo negro, as cócegas das patas sobre a pele e, quando ela estava de bom humor, uma picada. Contudo, inconstante como todas as fêmeas, ela o abandonou. Procurou-a dias a fio e terminou por encontrá-la noutra frincha da parede. E devorando um macho que, ao contrário dele, soubera-se consumir no fogo do intenso amor.
Depois da descoberta daquele planeta, depois da confirmação das condições favoráveis à vida, depois de todo o planeamento, os humanos partiram em busca da descoberta. A mais potente nave alguma vez construída permitiu o que, antes, seria impensável: alcançar um planeta situado fora da Via Láctea. Quando a nave aterrou, os passageiros estavam radiantes: seriam os primeiros a contactar com vida extraterrestre. Saíram da nave e já tinham quem os esperasse: os guardas daquela base. Foram levados àquele que parecia ser o líder local. Um sofisticado sistema electrónico fazia a tradução, para que humanos e extraterrestres se pudessem entender. O líder dos humanos transmitiu a sensação partilhada por toda a equipa: parecia que eram esperados, naquele planeta. O líder local explicou que os esperavam, efectivamente. A sua civilização já estivera na Terra e sabia que, mais cedo ou mais tarde, os humanos chegariam ao seu planeta. Na visita que fizeram à Terra, os extraterrestres não ti...
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Teu coração vai parar três dias antes do teu aniversário. Dispensei enfermeira, você mesma lave teu sovaco, os dois. Ou peço que te limpem enquanto asseio o corrimão. Você não me ouve, deixa uma pálpebra cair, uma folha da cortina se arrasta no trilho. Vendo-me pela casa com um olho fechado, é possível que perceba: estou pela metade. Quando a metade é do tamanho da parte que resta, muito pra faltar. Tô esperando você morrer, e essa metade me devolverá pra dentro do teu olho, no arrastar da outra cortina.
Daquele conto e as entrelinhas, restaram dois meios parágrafos curtos e um salutar cansaço à custa de intuir que nem era necessário que amor fosse a palavra. Bastava o sempiterno agora. O meu olhar.
As posses de um sem-abrigo estão abandonadas desde ontem no separador da Avenida Afonso Costa, junto à praça do Areeiro. Malas danificadas a mostrarem um interior obscuro de sacos velhos e coisas sem identificação, unidas pelas pegas com um complicado sistema de correntes e cadeados, que termina num puxador único, protegido por uma quantidade generosa de fita gomada. Puxando o fio puxar-se-ia, penso eu, todo o conjunto de malas.
Depois de terem alterado o antigo café para uma coisa mais lounge e apelativa, sempre que se sentava na cadeira onde tinha estado a sua cadeira do costume, sentia um desconforto que talvez fosse das luzes ou do branco e creme das paredes, ou das miúdas de treze e catorze anos que saíam de casa sem cuecas e se sentavam à sua frente de pernas abertas, rodando isqueiros nas mãos e pedindo “tem um cigarrito que me arranje?”, ao longe, com os olhos pintados e as mini-saias e dois dedos em frente aos lábios, num gesto de cigarro invisível. À noite pensava nestas coisas, no duche, tendo atenção em ver se a mangueira do chuveiro não ficava a fazer uma barreira, dobrada em semi círculo, pouco à frente dos pés, para poder mijar e empurrar a urina com a água em direcção ao ralo, afastando-a de si. Tinha em conta todos os acidentes que podiam suceder no banho, mas não lhe saía da ideia esta coisa metálica da pedofilia secreta em que incorria, sempre que uma miúda de catorze anos, dessa...
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Não bata não, sinhá, não bata não. Nunca ninguém pegou minha mão por gostar, nunca ninguém, sinhá. Papai morreu no negreiro. Eu viajei segura dentro de mamãe, que morreu dez vezes na viagem, e a última na senzala quando nasci. Nunca ninguém catou meu cafuné. O sinhô abriu caminhos no meu corpo, e nem pediu com licença nem por favor. E eu não mando no sinhô. Nem mando em mim, sinhá. Bichinho da terra não tem dono, nem ave do céu, sinhá. Mas se o sinhô gostou meu coração mirim, ficou seu dono, sinhá. Me deixa, dona, me deixa chorar. Não precisa bater, sinhá, não precisa bater. A dor que eu tenho dá. Daniel de SáLer Tudo >>
Silêncio, antes. A primeira respiração. O corpo contrai-se devagar, suspende-se. As pálpebras duas vezes, devagar, a boca uma fenda delicada para
e fios de aço em trança explodindo súbitos numa maré violenta contra o centro do corpo, uma cortina de fogo descendo, cabelos, pescoço, medula. Ele encolhe-se perante o som e fecha os olhos com força: encolhe-se para dentro, primeiro, para logo se expandir, os seus braços asas, o seu corpo voo. Abre os olhos e dos lábios uma película de ar quase uma palavra. Quase amo-te, quase adeus (ou quero-te ou perdoa-me). A primeira respiração, ainda, o ar que o peito retém, fervendo. O coração inteiro de uma só vez.
Hesitou, o metal tinha um sabor desagradável, inesperado. Até no final a vida reservava surpresas. Isto comoveu-o, e receou chorar. Sabia que agia em vão. Não entenderiam aquele gesto como sacrifício - a nota que deixava até soava a conto fantástico. Quem sabe se não lhe dariam um prémio póstumo? Riu-se, o que lhe deu coragem para continuar. A verdade é que se borrifava para todos eles. Se não fosse a perspectiva da morte lenta e dolorosa, teria deixado a maldição corroer-lhe a carne e abrir os portões do Inferno, soltar os demónios no mundo ingrato. Que melhor destino para a puta da Humanidade que sempre o desprezara?
As palavras entre os Abokowo confundem-se com os gestos. Por exemplo, a palavra "amo-te" implica caçar vivo um minúsculo pássaro castanho e amarelo – que nidifica dentro de ovos partidos de jacarés – e oferecê-lo. Já o léxico para vingança é mais simples e apenas exige uma dança frenética, uma loucura temporária, porque, dizem os Abokowo, a vingança é uma demência.
Todas as noites, o marujo senta-se à mesa de costume. Não troca palavras conosco: volta toda sua atenção para a ratazana, que salta do bolso da sua japona. É o sinal para que o garçom lhe sirva uma cerveja e grãos de milho ao animal. Enquanto bebe, o marujo contempla-a fascinado e alisa o seu pêlo sedoso. A ratazana, terminando de comer, retribui com cabriolas, que muito nos divertem. Depois, o dono do bar põe um disco na vitrola, e o homem dança com o animal entre os braços. Contudo, há dias em que a ratazana se recusa a sair do bolso da japona, ou se esconde sob a boina do marujo. Uma noite, incomodada pela solicitude do companheiro, chegou a mordê-lo brutalmente. Mas é uma exceção nos hábitos deste animal, que, via de regra, tem comportamento exemplar, alimentando-se com evidente prazer ou correndo o salão nos braços do marujo.
No laboratório, decorria uma experiência com um gato. Devido ao teor dos produtos utilizados, o gato ficou fluorescente. Os outros gatos admiravam-no. Quando sentiu este estado de celebridade a atingir o ponto mais alto, o gato fluorescente sentiu que o laboratório era pequeno de mais para a lenda que estava a ser criada. Elaborou um plano e fugiu. Na rua, as pessoas sentiam medo dele, pois tinham por base a ideia de que algo fluorescente não aparenta ser inofensivo para a saúde. Os outros gatos procuravam-no, querendo perceber, observando-o de perto, por que motivo era aquele gato tão diferente. Mas, em pouco tempo, as distracções da cidade levavam-nos a deixar o gato fluorescente, já que algo mirabolante, no frenesim da cidade, perdia sempre algum interesse. Faltava a opinião dos cães e estes foram claros: o gato fluorescente era para afugentar, pois poderia representar perigo. Ao final de alguns dias, o gato fluorescente era temido pelos humanos, ignorado pelos gatos, que ...
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Conforme-se ao teu corpo, à jarra de suco que foi destinada à tua polpa. É bem melhor que outro transporte mais bruto. Se não gesticula o exato da tua opinião, pelo menos não corre da tua vontade. Use um manto que não sufoque, nem corte o cabelo ao meio-dia. Devolva a jarra como a encontrou, tingida de sumo, no canteiro que a terra germina ao se acomodar nela outra vez.
E antes do silêncio derramado que também ocupou um lugar entre nós, ainda ouvi sua voz arrastada. Depois se endireitou na cadeira e secou o suor que lhe corria pela face corada. A cigana. Suas argolas tremeluzentes. Sobrancelhas marcadas. Os olhos negros. Baços. A madrugada de ventos e redemoinhos recorrentes. Uma estrela riscou o céu. Outra mais. A lua, entre nuvens esgarçadas. Estou chegando agora e me colhe o brilho frio do espelho da sala. De frente, de perfil. Por esse ângulo talvez. Desde então insisto.
Nicole Kranz é uma jovem escritora suíça-brasileira que vive em Genebra. O trecho abaixo foi extraído de seu romance inédito “Square Room”, que conta a história de um casal doente: ela, borderline, e ele, um narcisista perverso. No embate doloroso e destrutivo que se transforma o casamento, é difícil reconhecer o que é paixão, desespero e doença.
Sou borderline. Toco as bordas, vou além, supero e ultrapasso. Eu me atenho aos limites que determino à medida que minha loucura avança. Não tenho medo, não temo nada, toco a morte todo dia, eu gosto disso. A vida, eu a sobrevivo, temerosa do que ela pode me dar. Gosto de morrer a fogo brando. Calculo o que posso oferecer, cuspo na felicidade alheia. Sinto tédio, o cotidiano é insuportável. Preciso de adrenalina, de substâncias que me dão energia, luzes, barulho, velocidade, na dimensao de Manhatan. Eu me mexo, grito, danço, não paro. A inércia me mata. Minha vida não passa de uma doença mental. Meu cérebro está em vigíli...
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Entro em casa. Ecoa uma frase antiga em que se diz, na fala do poeta, que a casa é como um rio. Não esperava que ecoasse na minha memória do presente a exausta lembrança do passado. Vivi há muitos séculos o que uniu Hanna Harendt e Heidegger. De certo modo Heloísa e Abelardo. Linhas paralelas de uma mesma trágica consumação do amor. Lembro-me de quando o tempo estava parado e não havia desespero ou cortinas de fumo como oceanos inavegados. O tempo, esse animal mnemónico dos meus dias, essa luz sideral e feita de mínimas gotículas de água lustral, eis o tema primordial de quanto escrevo. O tempo. A memória. O amor breve. De tão breve o amor que tudo é fogo-fátuo e o escritor tão cansado, exausto, evoca um tempo em que poderia haver a eternidade de um corpo porque se lia um livro do princípio ao fim. Julguei recuperar contigo o prazer de ler até ao fim um livro. Paolo e Francesca... Já nada me basta para converter em eternidade a certeza de tudo ser efémero. Isso me dói. Como o retrato n...
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O primeiro homem, que era também o primeiro abokowo tinha dentro de si o universo inteiro que era, nesse tempo, uma unidade semelhante a um ovo luminoso. Um dia, o primeiro homem, ao ver-se reflectido no rio, dividiu-se em dois: um ficou com a língua, o outro com o paladar; um ficou com as melodias das canções, o outro com o ritmo dos tambores; um ficou com o vento, o outro com os cabelos a ondular; um ficou com os lagos, o outro com o reflexo da lua. Então, para os descendentes do primeiro Abokowo – que são todos os homens –, o mundo deixou de ser uma unidade para passar a ser um vaso de barro partido em bocados.
- Funciona assim, sr. Presidente: o mecanismo vai contando as palavras à medida que o senhor fala e escreve, e quando chega ao limite, zás! Liberta os contentores de cianeto transportados pelos milhões de nanobôs que injectámos nas suas veias. E ao fim de cinquenta palavras...
- Cinquenta palavras?!
- Quarenta e oito... – corrigiu maliciosamente o terrorista.
Ao primeiro dente, seguiram-se outros, de modo que vovó abandonou com alegria as sopas, exigindo comida mais substanciosa. Mas os dentes não pararam de crescer e deram de surgir também no céu da boca, na garganta e sob a língua. Para desespero de vovó, a solução foi arrancá-los. A esta primeira dentição, seguiram-se outras, extirpadas em vão pelo dentista. À noite, sorrateiramente, os dentes voltavam a crescer. Resultando inútil qualquer extração, vovó, a boca em chagas, foi sendo tomada pelos caninos, incisivos e molares, que lhe atravessaram a língua, os lábios, as bochechas. E ela só descansou quando, em meio a dores atrozes, sua cabeça se assemelhou a um ouriço do mar.
Descobri de onde você veio. A marca na pele, da miscigenação entre uma mulher e um jaguar. A coroa crespa vem do avô andarilho. Tua mãe era tão negra, que teus olhos têm a febre interna, o glaucoma. É impossível, negão. Não dá pra me ter e a você ao mesmo tempo. Escolha por mim, te pingo o colírio que suaviza, a escolha por si já cicatriza o nervo ótico. Outras podem ter lágrimas e delas você lavaria os cílios. Nunca será como a mim, que tenho coragem de costurar a pálpebra e deixar o glaucoma explodir seu globo, te livrar de todo cisco insistente. É melhor não ver, negão, a ver o que vejo, teu jaguar dormindo em ladainha doce de civilização.
Não, ele não desceu ainda. O pé do feijoeiro mágico está por cortar. E tu… tu continuas a correr, a empestar o ar com o teu hálito sangrento. Aqui, no alto do mais alto, para cá das nuvens que tapam a vista à mãe do João, que terrível caçada empreendeste! Em que dobras do céu anda o rapaz a tropeçar, arrastando a galinha dos ovos de ouro? – que o saco das moedas, esse já lá canta, sob o olhar vigilante da mãe. Em que covas se esconderá esse valente João que não paras de perseguir, atroando os ares com o barulho das tuas botas? Sim, é contigo que estou a falar, contigo cuja voz ecoa ainda em meus ouvidos: «Cheira-me a carne humana, cheira-me a carne humana!». – Joããããão! – grita agora a mãe, rosto aflito fitando as nuvens, escutando, cá em cima, os teus passos trovejantes de gigante: Trrroom! Trrroom! Trrroom! Mas só as folhas do feijoeiro, vergastadas pelo vento, lhe respondem. E os teus olhos, leitor, não mora neles a aflição? Como poderia morar, se continuas ...
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Quando morávamos em Icaraí, todas as noites meu pai ia verificar a altura da água da cisterna. Levava o flash light (como ele chamava a lanterna), e um dos filhos pra segurar a tampa. Quando chegava a minha vez, eu olhava para o céu e a noite tinha olhos azuis.
1 de Outubro, 9:00 Um homem sobe sozinho as escadas frente ao edifício do Santander, pequeno e vertical, fato escuro a prumo e pasta preta na mão, a consciência única, e ao mesmo tempo o símbolo do todo, imagem a exemplificar o conjunto. O homem e a máquina, o homem–máquina, etc. 1948. Variações Goldberg.
Os Abokowo dão, com frequência e enquanto conversam, pequenos saltos. O salto é, para eles, a prova de que por mais que tentem afastar-se da terra, ela chama-os sempre de volta. Pertencemos-lhe, dizem. A palavra para terra é "pupua" e significa mãe e quando os Abokowo dizem essa palavra – ou outras como, "amor" ou "amizade" –, dão sempre um pequeno salto. Afonso Cruz
Não faz muito tempo que meu marido trouxe a égua para casa. De início, sua presença não me incomodou, embora defecasse e urinasse em tudo quanto é canto. Quando, porém, ele quis partilhar a cama com ela, fui obrigada a dormir na sala. Além dos coices que me marcaram as pernas, era vexatório vê-lo beijando-lhe os beiços. Se pensava, contudo, encontrar sossego na sala, enganei-me totalmente. Nos transportes da paixão, a égua rincha e escoiceia a guarda da cama. Lembro-me então de meu recato de sempre e não consigo conter as lágrimas. Será que de agora em diante terei que dormir no quarto de despejos?
Quando me pediu pra ir embora, achei melhor. A Miriam estacou no portão, ela e Francisco de Assis. Devota, carismática de uma estátua, cada dia se entretendo mais com Assis que comigo. Homem quieto, de pouca força no baço, operado da vesícula, eu. Saí pela rua, na faixa de pedestre, encontrei Assis em pessoa. Se estava lá, como o vi com Miriam? Agarrei o santo e o fiz voltar comigo até em casa. Assis atendeu, vi a barra da saia de Miriam terminar de subir a escada. Um santo pediu pro outro entrar e fechou a porta na minha cara. São dois.
Olavo ainda rezingou ao sair da casa da cartomante com um inexpressivo sete de copas nas mãos: A sorte da vida onde sempre esteve foi no inferno. A minha sorte é que vou para o inferno, pensou ao abater a anciã que olhava estática seus olhos de homem desesperado. O meu azar é que vou encontrar você, disse ao estreitar as mãos no pescoço do siamês que o arranhou quase como Claudina deixaria de fazer para sempre, quando chegasse a casa, naquela noite.
ERRATA:
Onde se escreve: A minha sorte é que vou para o inferno, pensou ao abater a anciã que olhava extática seus olhos de homem. O meu azar é que vou encontrar você, disse ao estreitar as mãos no pescoço do siamês que o arranhou quase como Claudina deixaria de fazer para sempre, quando chegasse a casa, naquela noite.
Deve ser lido: A tua sorte é que vais para o inferno junto a ele, pensei ao abater sua mãe que olhava extática meus olhos de esposa infiel.
O pensamento está ocupado a desfazer os nós das vozes que se sobrepõem. As vozes acotovelam, num despropósito, as palavras das minhas listas. Não me lembro de alguma vez ter feito listas de intentos ou até de compras. Inútil. Desperdício de tempo. Hoje, divirto-me a fazer listas de palavras porque as palavras despertam sensações e aprendi que o tempo não se perde. Somos nós que nos perdemos no tempo. Colecciono as palavras. Uma colecção obscura e absurda, ao resguardo do olhar dos outros. Não se vê. Existe e não existe. As pedras (os calhaus, como a minha mãe lhes chamava) e as folhas de tons variados e de formas peculiares eram colecções que eu exibia com orgulho. Nessa altura, a terra mole e húmida, a ceder sob os meus pés descalços, o chão atapetado de erva que eu pisava era a minha pátria. As palavras servem-me para regressar a um tempo donde parti há muito.
Uma nuvem de fumaça enevava a esquina. Já eram horas. Horas de chegar ou sair. Horas de qualquer coisa. O mercador iemênita da loja de ferramentas trava conversa com uma jovem de óculos, os cabelos sob um lenço chador improvisado, a calça jeans de bainha larga arrasta na chuva, carrega o aguaceiro cinzento a derramar-se pela cidade num daqueles dias à beira do fim porque o vizinho ensaia cantos líricos no apartamento do quinto andar e inunda a rua com a sua voz de barítono, que, interrompida para uns goles rápidos de água, joga-me no abismo de um requiém. Se conhecesse o tal cantor, pediria a ele para não parar. Desde a infância, assusto-me quando as coisas ficam suspensas no ar, um espaço vazio entre uma nota e outra, um não sei o que de indefinição enervante, e dá-me cá a mão para eu me segurar.
Rés-do-chão. A noite cresce na cama zangada. De costas voltadas. Ela, ele. Respiram a fingir: dormir é aquilo. Olhos adúlteros interditos por pálpebras. Corpos quietos que doem nos lençóis. A noite como competição. Quem vence a maratona da insónia? Ela finge melhor o sono. Engoliu a borboleta. Ele respira grilos nos pulmões. Ela move a tíbia esquerda. A omoplata. Ele hesita no embate da pele. Corpo a perdoar? Ele roda a cabeça, tronco. Procura o hálito das abelhas. A sua mão tenaz descobre as costelas dela. Ela não tem dúvidas. Os dedos dele: flores de penugem que vão mutilá-la.
Minha mãe tocava harpa. De vez em quando uma das cordas rebentava e ela dizia o nome da nota. Então nós, crianças, mal escutávamos uma corda rebentar, dizíamos: ai, meu ré! E ela: não é ré, é fá. Ai, meu si! Não é si, é lá. Foi assim que ela nos afinou.
Hoje andei entre as nuvens ali perto do saldanha. Ninguém reparou em mim, mas posso garantir que estive bem lá em cima, perto daquela massa cinzenta carregada de chuva. Chorar assim dá menos nas vistas.
Ontem, por volta das sete da tarde, à espera de me virem buscar, vi da janela do gabinete a última imagem deste Verão: parte do edifício projectava-se no início da imagem, depois o verde-escuro dalgumas árvores nos quintais em frente e finalmente o campo de futebol. Alguns minutos após o por do sol, um resto de luz a dar um tom azul-cobalto ao céu e destacando com precisão algumas nuvens mais escuras; o campo de futebol, iluminado artificialmente por holofotes, preenchido por um halo inesperado e falso, incongruente como naquele quadro de Magritte (L'empire des lumieres), e dentro desse halo os jogadores coloridos, alguns usando coletes reflectores. Movimentando-se lentamente como se sobre uma superfície lunar, rumando ao fundo da luz, nesse aquário protegido pelo esforço falso dos holofotes, pelo doce esforço artístico. Sozinhos e esplendorosos, num mundo próprio, os jogadores. Miúdos treinando à noite, a coberto dos últimos ensinamentos do Verã...
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Olhos dançarinos, sorriso contagiante, postura teatral, von ade insaciável de viver e de ser grande. Devora livros, carnes, massas, quitutes, tortas, bolos, sorvetes e docinhos. Cresce intelectual e fisicamente. Cada dia maior, mais sábia, mais atriz. Estuda teatro, faz novelas, conta histórias para crianças e adultos. A cada dia ocupa mais espaço. O peso de alegrias e tristezas, adensa alma e corpo. A balança no banheiro já não é capaz de medir seu peso. Os pensamentos são ágeis e faceiros. O corpo move-se com dificuldade. Interna-se em um hospital. Cortará excessos. Dali só sai para o cortejo de despedida. Com ela leva possibilidades. Deixa saudades. Hoje flutua leve, miúda e conta histórias para seres livres de massa como ela.
Meu pé tem seis dedos.Depois do menor, há outro menor ainda. No direito cinco, no esquerdo seis. Ele tem osso e falange. Quer dar-me estabilidade, mas o sexto ponto, ao pisar, deixa um lado mais pesado. Penso nele e ele responde, vai pra cima e pra baixo, tem unha estreita e bem cortada. Uso sapato fechado, ninguém realiza que minhas patas não são iguais. Cuido pra que ele não se atrofie, ao custo de compensar seu esquecimento com a nascença de meu rabo.
Os bestiários de há muito vêm registrando os mais estranhos avantesmas. Mas tenho certeza de que compilador algum tratou do Sintag, o ser literalmente composto de palavras. É o que se sabe: há em português (há quem diga que também em eslovaco e armênio) um encontro de palavras que faz nascer o Sintag. E ai do responsável pela infâmia: a criatura devora a língua do seu criador e desaparece para sempre. É, pois, com um suspiro de alívio que dou fim a este relato, já que o acaso poderia fazer de mim mais uma vítima.
O caçador branco escolhera um bisonte a seu bel-prazer. Apontou-lhe a Winchester à testa, e disparou. O animal caiu, como se um sono repentino o tivesse arrastado para a morte. O resto da manada fugiu. O caçador deu um grito de júbilo. Calmamente, cortou-lhe a língua, que levou para casa, abandonando a carcaça. Para os abutres, a ceia estava garantida. À mesma hora, um índio choctaw conseguia ter um veado ao alcance da sua flecha. Apontou, com um nó na garganta. Bebeu a saliva da boca quase seca. Retesou o arco, e, antes de largar a corda, rezou: "Veado, perdoa ter de ferir-te, mas o meu povo tem fome."
A mão no bolso e os dedos perdidos no escuro à procura de isqueiro enquanto o frio a tomar conta da pele e fachadas antigas, ele entre ruas estreitas e, de repente, a Reitoria escura e angulosa, de repente, ele há anos atrás contra o granito sabendo de um corpo macio onde se apoiar contra o frio, de repente, ele sem ter de partir, ele sem ter de comboio viagem uma outra vida qualquer à sua espera, de repente, ele de costas e a Reitoria uma sombra sobre as costas ou um conjunto antigo de sons entre os dedos procurando calor.
Os Abokowo têm uns espíritos no ventre – chamados equra – que vivem junto das palavras juntamente com o som destas. Uma palavra, quando é pensada, desenvolve automaticamente um som no peito ao mesmo tempo que surge, dentro do estômago, o seu significado. Significado esse que é precisamente aquilo que os espíritos, os equra, transportam em cada palavra e permite que todos nos entendamos.
28 de Setembro 9:00 (…) Na avenida de Berna, antes da faculdade, dois toxicodependentes, que já foram protagonistas destas linhas, riam com a obscenidade expressiva de alguns quadros de Boch (A Crucificação), enquanto um velho de ar professoral, que eu conheço de algum canto, talvez de um livro ou da televisão, se encostava ao vidro da porta do autocarro, para estudar melhor, parece-me, a arquitectura do prédio em frente. De vez em quando olhava para os marginais, a tentar perceber se o riso era contra ele. (…)
Sobe, filho. Olha a aldeia tão pequenina, lá em baixo. Parece um presépio.
A aldeia sempre me pareceu pequenina mas nunca consegui divisar o tal presépio. Talvez porque me recusava a subir a encosta. Ficava na falda da montanha, rente aos troncos das árvores, de pé firme na solidez da terra, sobre o seu tapete verde com salpicos de orvalho e riscos de sombra.
O meu pai com as botas engraxadas, no seu andar pesado, levantava a poeira do caminho. O cachimbo largava nuvens espessas, até ao adro da igreja. Eu seguia, uns metros atrás, de cabeça baixa, a mão esquerda entrelaçada na mão macia da minha mãe e a direita dentro do bolso das calças, dando voltas e reviravoltas à última pedra encontrada nos campos. Conhecia de cor as suas arestas, porosidades, grânulos.
À entrada da igreja, a minha mãe tirava-me o boné e afastava os cabelos dos meus olhos. Eu sentia o calor dos dedos na testa. O sorriso dela e o toque leve dos seus dedos eram as agua...
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As pessoas ardendo pela cidade ou a cidade em fogo nas escadarias de mármore ou a cidade em som movendo-se, agreste ou as pessoas em som, as pessoas a cidade em chamas subindo degraus, as pessoas as ruas compridas sem nome próprio. As mãos e os olhos, rompendo. A cidade um sítio novo, um mundo novo ou a cidade a mesma casa de sempre mas de portas abertas, por isso, as pessoas uma casa aonde regressar ou as pessoas um ponto de partida e chegada. A boca e o coração na ponta dos dedos.
Isolam-me, meu corante é vagabundo, vai com os outros. Pra secar as fraldas de cozinha, é preciso corrente. Fecham de propósito as janelas, o vento derruba enfeite. Peça pequena não tem superfície honesta, não estica, a água se evapora quando o tecido permite. O dono abriu a janela pra acordar, encanou o ar do oceano; no sereno da gripe, fez um par de meias voltar pro chão. Não mais consolo as calcinhas, me desculpe a franqueza, mas quem precisa de elástico pra servir, não compartilha da minha etiqueta. De elástico precisam as donas de recheio alterável, sem cabimento em roupas de alfaiate. Visto um homem, apesar da estampa.
Os Abokowo medem a distância segundo os seus sentidos. Como a visão chega mais longe do que a audição; e esta, por sua vez, chega mais longe do que o olfacto; e o olfacto chega mais longe do que o tacto; e este, mais longe do que o paladar; os Abokowo dizem, por exemplo: o rio está a três olhares. Isto significa que está muito longe. Se disserem que certa pessoa está no nariz, significa que ela está próxima de nós, como um amigo. O sabor fica reservado para experiências interiores.
Seja onde for que estejas, a percorrer as ruas de São Paulo ou do Rio, estou ao teu lado. Quando um homem te olhar, mantenho-me ao teu lado mas irei comentar, já sabes. Quando parares para fumar um cigarro num local que seja legítimo, onde não corras perigo de ser multada, fumarei contigo. Quando cantarolares qualquer coisa, da Cajuína às Pérolas aos Poucos, também farei de coro. Aí onde estás eu também estou.
Tarde quente, uns whiskies, chegou a casa com a boca em labaredas. Conta da electricidade, doença da mãe, renda, despedimento, a mulher esperava-o no cimo das escadas, insuflada de humores adversos. Fugaz, mero hábito, um beijo. O comandante dos bombeiros, entre os escombros do imenso quarteirão a fumegar, matutava: Que raio terá provocado isto?
Era um rio. Um rio sem margens. Caudaloso. Encapelado. De resto, a agonia das cores à hora do crepúsculo. Antes, foram as gotas-d’água que faltavam para exilar meu antigo desejo de solução, de consolo. E somar espinhos ao que eu já suporto com dor e medo: padre Antônio desistiu da batina na festa do padroeiro e insone a cidadezinha. Prima Alícia ateou fogo às vestes e, no alto da ladeira, um tição na noite fechada. Uma história de indumentárias. E cores. Quase. Mas de tão íntimo e irremediável sentir que não cabe pergunta. Tão claro como um caminho claro, imperativo, insiste o que bordeja. Vislumbro os sinais. Decifro códigos. Dure pouco ou não: eu espero.
Jorge Luís Borges escreveu, um dia, que, na China, há um mapa que tem toda a China. Logo, esse mapa tem que ter o mapa que tem toda a China. Pensando nesta ideia, o Filósofo escreveu um texto que contivesse todos os pensamentos. Como escrevia depressa, ao fim de 16 dias, 12 horas, 7 minutos e alguns segundos (não determinados, pela dúvida entre historiadores: uns dizem que foi ao 3.º segundo, outros dizem que foi ao 4.º segundo…), o texto estava pronto. Para terminar, escreveu o pensamento que continha a ideia de escrever aquele texto. Enviou o texto ao Especialista, que pediu 21 dias para responder (menos tempo do que a escrita do texto, note-se). Ao fim desse tempo, a resposta chegou: - O texto está excelente, merece 19 valores. Só não dou 20 porque não adivinhou a nota que eu iria dar.
Pessoas belas, com as suas vidas a transbordar de sentido. Pequenos gnomos claros, no trajecto que os há-de levar de volta ao bosque. Calma e lucidamente e ao mesmo tempo totalmente perdidos. Procurar a lei das coisas, onde está a lei das coisas? Usar os dons da natureza e estar calmo em relação ao resto. Pequeno anjo exterminador da dúvida, cheio de pensamentos incompletos.
A chuva contra as portadas e, no quarto, roupa pelo chão, alguns papéis, tesouras, isqueiros, um silêncio abafado pela respiração das coisas, duas pessoas separadas por uma porta. Na rua, água pelo passeio e as pessoas escorregam, o lixo acumula-se com o vento. A tempestade cá dentro.
Uso lenço e feltro,freqüento o mesmo barbeiro há quarenta anos, dou a nuca pra lâmina. A guilhotina fica na praça. O amolador está lá, dando jeito, botando óleo nas juntas pra faca não ranger na descida. Há três na fila da ução, um bispo e duas rainhas. Agora ninguém mais se casa debaixo do ouro romano, não me abalo. Na botica encomendo a colônia, gosto do garbo que usa um homem à missa. Vou assistir à cabeça escapar do resto, dos três. Não perdoe, assim, do jeito que eu perdôo.
Antes de disparar, os Abokowo segredam o nome das suas vítimas contra o bico das suas flechas, como se as enchessem de veneno. Os primeiros estudiosos julgavam que o faziam por superstição, mas a explicação é outra: os Abokowo não querem matar indiscriminadamente, sem motivo, sem objectivo, por isso sussurram o nome das suas vítimas, tal como os jogadores de snooker anunciam o buraco onde vão colocar a bola. Para evitar a arbitrariedade.
No livro aberto, esquecido sobre o banco de jardim, um verso sublinhado. Ela leu, com olhos comovidos, como se estivesse recebendo uma mensagem do seu amor, desaparecido há tantos anos…
Eram três homens vulgares, de estatura mediana, olhos sem luz, andar fatigado e que chegaram em curtos intervalos de tempo, cada um trazendo uma rosa amarela na mão. Observei‐os, surpreendida, à distância, sem desejar ser notada, no meu minucioso exame. Deveriam ser mais ou menos da minha idade, embora a passagem dos anos tenha sido menos generosa para com eles. Apesar de não mostrarem sinais de parecença física, dir-se‐ia existir um vínculo de qualquer espécie a uni‐los. Era o olhar que os traía, enquanto se miravam de esguelha, cautelosos, relutantes em se cumprimentarem, quedando‐se rígidos e sérios nos seus fatos escuros, à entrada do cemitério da Ajuda. Quando o carro fúnebre chegou aos portões, avançaram como se tivessem sido previamente encenados e soubessem exactamente o que cada um deles pensava, dirigiram‐se à urna e ofereceram os seus ombros, ao lado dos homens da casa funerária, em silêncio, mas de rostos mais serenos e olhares rarefeitos. Ness...
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“Prezada Amália, irmã de culto e amiga, já deves ter ouvido falar pelas alcoviteiras. Sinto muito ter beijado o rapaz na boca. Um cadáver, tal qual uma senhora idosa como eu, merece respeito e um fim digno. Sim, os mortos e as velhas virginais... contam-se histórias a mais valer. Não creio que cheguei a violá-lo, embora haja possívelmente espantado as moscas incestuosas, que povoam a nossa cidade e não se ausentam dos nossos funerais. Conta-me, por favor, se depois o enterraram no caixão azul celestial pintado às pressas pelo Seu José da carpintaria. Apesar de todas as refeições, lambo os beiços sem me livrar da acridez da morte de um jovem. No aguardo do teu retorno, aceite a minha condolência pela ceifa do teu filho, cuja formosura pagou os tributos à natureza, Maria José.”
Então foi assim, o tipo ia na rua, descansado, não viu o buraco e caiu. Começou aos berros
Socorro, socorro!
Passou um bombeiro que, preocupado, com ar cansado, desgastado, disse:
Acabei o meu turno, quando chegar a casa ligo para o ajudarem.
Passou um padre. Olhou para o buraco e para o seu ocupante, encolheu os ombros e atirou uma Bíblia, dizendo:
Não posso fazer mais por ti, meu filho.
A seguir, ouvindo uma voz que reconheceu, um amigo abeirou-se do buraco no asfalto.
Olá, o que estás a fazer aí?
Tira-me daqui, caí.
O amigo suspirou e atirou-se para o buraco. Uma vez lá em baixo,
limpando as mãos cheias de terra às calças de ganga, o outro, o primeiro
a cair, largou aos berros:
O carro guinou para a direita, por instantes ziguezagueou sem governo, logo encostou junto à berma. Foi ver: um pneu furado! Só então se lembrou do macaco. Esquecido em casa, e nenhuma banana.
Chefe cruel, transformou o campo de trabalho em um vale de lágrimas. Prepotente, reafirmou sua pretensa superioridade, gritou, ofendeu, importunou, desrespeitou subalternos... Um dia serviram-lhe um café feito com lágrimas. Uma nuvenzinha de fumaça flutuou sobre a xícara. E ele saiu da sala na horizontal.
Meus chifres são gêmeos. Idênticos e de marfim. São a extensão da coluna vertebral, se alonga no pescoço, bifurca abaixo das orelhas, e sobem, debaixo do couro. Nasceram os dois alinhados com os olhos, ornam a cabeça. Se os aponto para o inimigo, tenho nele sentido às setas de cálcio que minha fronte abençoa e influencia. Se os aponto ao amigo, tenho nele razão para deixar de ser eqüina e campestre, mas não posso. Aponto-os então ao céu, ergo meu focinho e que saiam da minha frente e meu rumo. Amar ameaça, meus chifres apontam se olho onde piso.
Ele tinha o hábito de ler atentamente todas as informações dos painéis que encontrava nas estradas: as distâncias entre localidades, a temperatura do ar, as horas, a propaganda governamental, etc. e tal. Só refreou esse impulso, quando o seu contabilista o informou das despesas anuais com a reparação do automóvel.
Mais à noite. E a noite em dobras debruçada. A casa guarda seus mortos. O cheiro dos mortos, seus aposentos, mil enredos e uma só palavra: sentimento. - Amanhã, o embarque! O navio zarpa às dez. Seis meses. Quantos países?
– Trouxe recomendações, um vestido e acessórios da Casa Canadá.
Um cortejo agora. Perfilados. Os gestos. De éter.
E sombras. Estalidos de móveis. Também vozes. É à minha volta que prescruto.
– Com o namorado, o filho do dentista!
– Toda cidade já comenta.
– De um amor contrariado. E ainda mais que.
Fazenda do Matão. Sete Quedas. Três Voltas. Aquele baú. Um cofre. O piano. Gens do meu sangue.
Além. Muito além desta hora inaugurada e os gemidos. Os vocativos. E as manhãs sorrateiras por trás das venezianas azuis.
Os biólogos percorriam aquela floresta, em busca de espécies que ainda não tivessem catalogado. No topo da prioridade, estava uma espécie de sapo que não era vista desde 1929. O líder do grupo tinha um caderno, onde eram colocadas anotações referentes à vida naquele espaço. Os restantes exploradores alertavam-no para toda e qualquer observação que lhes parecesse digna de registo. Depois de algumas aves típicas e de uma planta completamente desconhecida, para aqueles cientistas, um dos exploradores parou, olhando para um sapo que se encontrava num charco. Olhou para o animal, atentamente, durante algum tempo, até que ficou com a certeza de que aquele era um exemplar de uma espécie que não era vista havia largas décadas. As surpresas não acabaram por ali. O sapo dirigiu-se ao explorador. - Sim, pertenço à espécie em que estás a pensar. Não somos vistos há mais de oitenta anos. - Como sabes que procurávamos um exemplar da tua espécie? - Li na Internet.
À entrada do jardim Gulbenkian, que me pareceu meio apagado por uma neblina que talvez não existisse, estava uma mulher a apanhar as folhas do caminho. Blow-up, a calma arrepiante dos jardins ingleses.
No terceiro andar do lote 19 um homem cospe nos livros de filosofia da sua biblioteca pessoal. Após cuspir, dá omoplatas às lombadas e tende para a cozinha. O homem concentra-se no essencial. Tem fome. No lava-loiça lava um quilo de batatas. Diz, Platão filosofou porque tinha a barriga cheia e criados que descascavam batatas. Pega na faca. O tacho com água. As batatas entram no tacho. A cozinha tem um fogão equipado com dois bicos a gás e uma placa eléctrica. E a questão vital com que este homem se defronta a cada dia é: ao usar o fogão para cozer batatas, gasto luz ou gás? Onde conseguirei poupar? O homem está desempregado. Cuspiu nos livros de filosofia. Nem a longitude do pensar, nem a lentidão, fazem parte das prioridades do mundo ultra moderno. Já ninguém coloca questões como: será a vida apenas um constante fazer cemitérios? Colocam-se outras, essenciais: gás ou luz?
Os Abokowo não conhecem a palavra “ter” e, tal como os Shuar do Equador, também não conhecem a palavra “castigo”. O motivo é simples: os nómadas não possuem coisas. Pelo contrário, sentem-se fazer parte de todas as coisas. Andam de um lado para o outro, por isso não podem ter propriedades, nem casas, nem templos, nem prisões. E é por causa de não terem prisões que não conhecem a palavra “castigo”.
A cidade tem outro calor. As ruas enchem-se de uma forma estranha e há burkas e miúdos com piercings e coisas do género. A mulher não arrasta a adolescente pela mão porque não existe isso entre elas: o verbo arrastar, o dar as mãos. Dão as mãos à noite, antes de dormir. De resto estão uma com a outra, lado a lado, uma mais à frente, a outra ao telemóvel, uma a ver um livro, a outra a jogar numa consola portátil. Uma adolescente e uma mãe ou duas mulheres, depende do entendimento. Há coisas, pequenos gestos, em que são iguais, mas isso não lhes é evidente. Não são o espelho uma da outra e encaram-se com pensamentos secretos. Cada uma pensa: a cidade tem outro calor. Mas não dizem nada uma à outra.
Naquele tempo os porcos morriam ao nascer do dia. Sob um céu de estrelas ainda, iam os rapazes chamar os parentes e amigos que ajudariam na matança. Ao Roberto e ao seu primo Jaime coube-lhes acordar o velho Augusto, que antes costumava aparecer como vagabundo e pedinte vindo da Ribeira Grande, mas que agora dormia numa antiga moagem onde um tio de ambos o acolhera, dando-lhe comida a troco de pequenos serviços. Toda a higiene matinal do velho consistia apenas em calçar as botas. Sentou-se na beira da cama, estremunhado, e pegou numa delas. Num gesto calmo, que facilmente se percebia ser um hábito de quem sabia o que era preciso fazer, voltou-a com o cano para baixo e sacudiu-a com delicadeza. De dentro dela saiu então, sem pressa, o companheiro das suas noites de solidão. Um rato.
O fim do amor faz as pessoas olharem para baixo, para a frente e em baixo, dir-se-ia para o rodapé do coração, o fim do amor faz com que as pessoas se amem como irmãs, com todo o ódio, com todo o amor, o fim do amor torna as pessoas trágicas e, por isso, infinitamente belas, o fim do amor faz com que as pessoas se enrolem sobre si mesmas, como se aquecendo qualquer coisa que se quer esquecida dentro do peito, o fim do amor não mata as pessoas e torna-as mais fortes, para fora, o fim do amor faz com que todos os sítios se tornem cais de partida, o fim do amor torna as pessoas em coisas imóveis segurando objectos como âncoras, uma sombra procurando agarrar o corpo que se esvai, o fim do amor faz com que as pessoas fumem mais porque todos os cigarros sabem ao último, o fim do amor é o fim do amor é começo de todas as outras pessoas.
Andas sempre com as mãos a esgravatar na terra. Olha para as unhas, António. Não venhas para a mesa sem limpares as unhas, ouviste? Olho a minha mão direita no movimento banal de dar uma, duas voltas à chave. Os ossos salientes parecem querer furar a pele. Em tempos, eu carregava os ossos do ofício, levava-os para casa, enrodilhavam-se comigo na cama. Chegavam a formar montinhos pela sala onde era raro receber uma visita. A mão, que me parece alheia, roda a chave para a direita, no buraco da fechadura, numa morosidade aflitiva, depois detém-se num gesto impreciso, suspenso. Não tenho pressa de entrar. A pressa ficou estilhaçada no consultório, com o médico afadigado em compor um ar que se encaixasse no momento. A mão empurra a porta. Sinto o olhar fixo do vazio a cair sobre mim e vejo o reflexo do meu olhar. O desejo tardio de ter um cão, à minha espera, bate-me na mente, em pancadas secas.
Por dificuldade de os partidos mais votados chegarem a acordo após eleições, aquele pequeno país do norte, com dois idiomas oficiais, vivia, há mais de um ano, sem governo novo. Não era este, porém, o verdadeiro motivo de perplexidade. Mas sim a circunstância de o seu povo sair à rua, em desfiles reivindicativos, reclamando, sem mais demora… um governo. It’s beyond all reason – comentava um velho anarquista inglês.
Cildo abriu o teclado, posicionou o pé direito no pedal, inicia o legato a dissipar-se nos corredores higiênizados do shopping. Com aquele empreguinho fedido à desinfetante, cobria as contas de luz e condomínio, o suficiente para que o proprietário não despejasse mãe e filho do apê em Copa. Agosto fazia requiém, folhas de amendoeira, cilindros giratórios encrespados no pavimento, libertam-se dos galhos sem nostalgia. Um dia eu me mato pelos ventos uivantes, pelo trânsito paralisado, pela octogésima quinta nota. O Cildo é música de fundo, repete o paletó de veludo tricolê, não é como se a garçonete com cabelos de Rapunzel o reparasse. Ele pega condução, caminha no lado sombrio dos edifícios para não manchar de sol o couro dos sapatos ou do corpo. A mãe reclama que ele rói as unhas, ele não discute. Na soma, ele é menino + anêmico + parvo mas não subtrai o dom musical, ele toca Chopin, a melena lhe dá um quê de Richard Clayderman enquanto idolatra verdadeiramente John Cage. As fuosforesc...
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O congresso estava no ponto alto. O cientista mais famoso do Mundo fazia a sua comunicação, relacionada com o seu estudo sobre Astrofísica. A sala estava repleta de outros cientistas, dos quais alguns já tinham ouvido um estrondoso aplauso, provocado pelas suas apresentações. O famoso cientista fez uma pequena introdução, baseada no seu tema, para dar a entender, aos poucos, o teor do seu estudo. Havia um projector, através do qual se mostrava uma animação, feita em computador, sobre o contínuo espaço-tempo. No ponto alto da intervenção, a mensagem atingiu a sala como um relâmpago: não será possível, no próximo século, viajar no tempo. Houve um silêncio, entre os especialistas presentes na sala. Seguidamente, e quando se esperava um aplauso, ouviu-se uma espécie de trovão. Na sala de congressos, entrou um cão, seguido de um homem, que vestia um fato estranho. As primeiras palavras foram para o cão. - Conseguimos! Depois, o homem dirigiu-se à plateia, que estava sem reacç...
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Começou por me dizer que o seu caso era deveras simples – e que se chamava.... Macário. E eu retorqui-lhe que nisso consistia a singularidade dos plagiadores: em poderem escolher o pai, mas não o nome de baptismo.
A mulher fingiu que estava mas não estava. Parecia que ouvia e atendia às palavras dos outros mas era em vão, todas as palavras iam bater num muro que desenhou na sua cabeça. A mulher pensava na vida. Na sua vida. Nos trilhos errados, nos corta-matos desnecessários e na impossibilidade de criar empatia com o outro. Fosse ele quem fosse. Tinha esgotado o que havia para dar, como um envelope vazio. Por isso, fingia.
Trazia as filigranas dos dias aureolados de irrealidades. Dádivas bastantes. Imerecidas. O indizível, uma quase dor. Depois, o núcleo do êxtase. E mais o que não ousei. Aqui, onde mais este remorso se adensa. E não decanta. Por algum motivo renasci incólume por entre humores tépidos e fino sangue. E agora conto.
Não há verdadeiramente tempo, pois não? Senão nos interstícios do quotidiano. Em que este gabinete se transforma por milésimos de segundo nesse quarto seguro onde que Xavier de Maistre exercia a sua solene vontade de viagem.
Os Abokowo acreditam que existe uma árvore infinita, a Dagafagé (literalmente,que não tem fim) que, ao pensar, cria os pássaros. Quando pensa de noite nasce uma coruja, mas quando pensa de dia nasce um falcão. Quando lhes perguntam onde está essa árvore que não acaba, eles dizem que não sabem. Pode ser qualquer uma e é por isso que os Abokowo nunca abatem uma árvore e os seus abrigos são construídos com madeira morta. Para não haver a possibilidade de, sem querer ou por ignorância, matarem a árvore que imaginou todos os pássaros.
Darlene desenterra o dia das ruas. Dispõe dos cabelos crespos alisados para trás; os fios brilhosos, afixou com dedadas de gel; o arco não é auréola; Santa Darlene-Cruz Credo!? Anda a dar baforadas, os de trás respiram o ar convoluto da Darlene e basta cravar o olhar nela para retrocederem. Há pouco saíra da tourada. Tequila on the rocks: noite inteira, as unhas postiças giraram o gelo servido pelo bartender com quem dividia as comissões. Ah, Darlene, em cujos cartões postais para a família contava ser dançarina de sapateado na Broadway. Quando o mundo acabar, onde você vai estar?
Gostava de ser mais nova. Não lhe perguntei porquê. Era um esforço estéril. Eu sabia a resposta. Todos querem ser mais novos. Não me lembro de querer ser mais novo. Acho mesmo que nunca fui novo. Cortei a fala à minha mãe, sentada a um canto, de xaile atravessado no peito seco e manta nos joelhos. Eu via a minha mãe a tricotar a manta de quadrados de muitas cores, nas noites gastas de Inverno, junto ao lume sem chama. A manta cobria o colo e as pernas, caindo muito direita sobre os chinelos coçados. As mãos rugosas da minha mãe tremiam sobre a manta. Quis sair depressa daquele asilo. Tudo cheirava a velho. Não gostava de velhos nem dos seus cheiros. São cheiros particulares. Nem maus nem bons. Não é sujidade. É desgaste. Cheiros de corpos a desgastarem, de peles a encolherem. São cheiros que nos agarram. Calei a minha mãe para calar o tempo a esgueirar-se, rápido na sua descida para a morte, único desaguar da espera que se arrastava pelos dias alagados de silêncios pernicio...
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À meia-noite, O. à janela de sua casa olhando o céu na esperança do fim do mundo. Como ele, muitas outras crianças de olhos arregalados às línguas de fogo e exércitos de mortos – uma oportunidade única de saldar questões antigas – , ouvidos ao silêncio estelar, ao silêncio último após os gritos e os grifos e as hidras, arcanjos em fúria, a mão do próprio Deus escavando sulcos pela terra e alcatrão, um Cristo pairando sobre espinhos de peito aberto, milhares de crianças à janela na esperança de alguma coisa que ou simplesmente à espera de alguma coisa. O que veio foram os fogos de artíficio na Austrália e China, o Herman José na televisão, doze passas que ninguém gosta realmente, espumante, um ou outro familiar demasiado velho para tão demasiadamente bêbedo e bem-disposto, beijinhos e cuecas azuis a desejar bom ano, carros sem festejos na estrada, hotéis em Vilamoura com 2 e 3x0 surgindo na fachada, discotecas ao rubro, O. à janela desiludido por continuar à janela, tentando a esperança...
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Lavei todos os copos menos aquele onde bebeste ontem à noite um vinho comigo. Nele estou agora bebendo o néctar que sobrou. Os teus lábios passaram por aqui. Dois perfumes.
Nasci na hora certa. Lugar e pais perfeitos. Cresci como promessa. Na escola as notas sempre boas. Casei bem, ampliei meu rebanho, juntei heranças, tive filhos sadios, e naquele tempo ninguém me segurava. Mas sempre fui mesmo meio caladão. Acreditei piamente que a Fortuna sorria para minha empreitada, e por ser lacônico, todos me consideravam uma boa pessoa, dessas que cerram-se numa névoa plácida, como uma muralha de fadiga que oculta os ódios e os rancores, e tudo passa a fazer parte de uma bonança abençoada pela Providência, até aí tudo bem. Cheque especial, cartões de crédito de diferentes cores, contas, impostos, juros, números, desapropriações, tudo tranquilo. Mas perdi. Enquanto sonhava que saía da cidade, meu rebanho morreu, começei a ter feridas, me coçava o dia inteiro, uma ziguizira dos diabos; os invejosos diziam que ficavam-me bem as poucas palavras quase tanto quanto as escrófulas. Os amigos. Elifaz, o clemente, chamou-me prostrado; Bildade, o pertinaz, hipó...
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No meio do caminho, tinha uma palavra: crise. Pontapeou-a como quem pontapeia uma pedra, pois sabia que não era palavra inventada pelos seus. A palavra desenhou um arco breve e caiu mais à frente, numa nuvenzinha de poeira. Pontapeou-a mais e mais até a palavra se partir em duas sílabas, depois em cinco letras, levantando, de cada vez, um pouco de poeira. Quando a palavra de todo se desfez, pegou nos restos e compôs palavra sua – sirce – enquanto em sua mente o anagrama, convertido em acrónimo, se desdobrava na mensagem inútil, que alguém jamais descobriria (excepto tu, leitor): Soletrai a insanidade, rasteiros compatriotas eunucos. No final, ainda hesitou: entre eunucos, ecóicos e eclipsados.
Carlos Lopes acabara de chegar à meta da glória na Cidade dos Anjos. A emoção apertou-me a garganta e espremeu-me as esponjas das lágrimas. Pensei no Professor Moniz Pereira. Deveria estar sofrendo a solidão dos treinadores quando os atletas vencem na pista e recebem todos os aplausos. Como se fosse possível aplaudir uma obra-prima esquecendo o seu criador. Então, e apesar de mais de sete mil quilómetros nos separarem, imaginei que me aproximava dele e dizia: “Já pensei em si.” Ele olhou-me, sorriu e respondeu: “Pois eu ainda não.”
Há mais de cinquenta mil anos, aquele indivíduo pertencente à espécie Homo Neanderthalensis (também conhecida como “Homem de Neanderthal) estava a fabricar o seu objecto em madeira, quando notou que se tinha enganado completamente. Mostrou-o a outro espécime que ali se encontrava e os dois fizeram um sinal de profunda reprovação. Não era nada daquilo que se esperava. O escultor de circunstância ainda tentou analisar a possível utilidade do objecto, mas não encontrou nenhuma. Atirou-o para o meio de uns arbustos. Outros objectos, esses sim, adequados à função, foram fabricados, e a vida daquela tribo prosseguiu. Cinquenta mil anos mais tarde, no mesmo local, um arqueólogo encontrou o exemplar deitado fora pelo espécime. Mostrou-o ao seu colega e os dois fizeram um ar de aprovação. Havia ali matéria para estudo. Quem sabe, para um artigo.
A notícia era curta e lacónica. Um casal de jovens fora apanhado a namorar no banco traseiro de um Citroën Saxo, em lugar recolhido e a horas muito pouco iluminadas. Assaltados os dois, um deles foi ainda esfaqueado, tendo recebido assistência hospitalar. A vida cada vez menos se parece com os filmes. Impressionado com este drama do quotidiano, o revisor de provas nem deu pelo erro ortográfico no modelo do veículo.
Já há muito que o Doutor não via o amigo. Sentado, o Doutor esperava-o na mesa daquele café histórico no centro daquela histórica Vila Real. O amigo aproximou-se. Saudaram-se. O amigo sentou-se e pediu “um café”. Nisto, por obra do destino, o amigo virou-se e viu, junto do balcão, a pagar uma caixinha de covilhetes (uns folhados muito bons), uma senhora. Então, disse ao Doutor: “Olha aquela! Já a comi!” O Doutor ficou vermelho. O Doutor ficou envergonhado. O Doutor pôs-se de pé e gritou ao amigo “Repete lá!” E o outro, atónito: O que se passa contigo? “Repete” ordenava-lhe o Doutor. O amigo repetiu e logo o Doutor o esmurrou. E o Doutor disse-lhe: “Nesta terra, um cavalheiro se come não arrota.”
Na minha mala da minha mãe há uma lixa específica para as unhas. Uma água de colónia nova, dois telemóveis de redes diferentes, uma carteira, um baton, chaves e um espelho pequeno. Não há rebuçados, mas podia haver. No carro dela, a caminho do novo museu do Oriente, ouve-se rádio ou,
mais tarde, Mayra Andrade em francês (e a minha mãe canta baixinho para
não dar nas vistas, ela é assim). Admiramos as máscaras, os pagodes, as
tapeçarias, as caixas de chá e corremos atrás dos miúdos que lêem nas
paredes coisas sobre os biombos namban e a chegada dos portugueses ao
Japão, a história de Macau e as tradicões no Vietnam. Vimos tudo na
escuridão que o museu oferece de dedo dado, porque não damos a mão,
apenas o dedo mindinho de uma enfiado no dedo mindinho da outra, uma
pequena amarra. Não sei quantas pessoas podem visitar os museus com as mães, não quero pensar nisso, deveria ser consagrado na lei como um direito e dever. Faz-nos bem.
Surgiu do fundo do palco e o ocupou por inteiro. A sua fala. O seu gingado. O destemor em movimento. O seu olhar abrasado. A desafiar a plateia. E aqui, o que nele se me assemelha. Ou me tenta. Ou apaixona. A cismar. Um mar revolto a fantasia. O que nasce e renasce. E esta cortina aberta. A minha imagem. Estas vestes. A minha voz. Desusada a minha voz. E este outro que me exige e clama. Hoje rezei por ele.
Um banquete de mulheres. Mamãe presidia a mesa principal, com sua cabeleira ruiva que, ora sim, ora não, bailava fagulhando no ar. Vestia lençol branco e tinha as unhas pintadas de azul celeste. Pressenti que era uma festa de comemoração da loucura. Que fartura. As outras, e tantas eram, esbravejavam, vociferavam, clamando pelos seus homens, seus maridos de volta. Alguma se arrastavam no chão em lamentos ininteligíveis, outras queriam matar umas tantas. Mamãe tocava um sino e elas se aquietavam, por momentos, para em seguida voltar a imprecar contra a vida e contra mulheres. Uma delas enforcou-se na manga do vestido no meio do salão, tendo no centro do peito, bordado, o nome de um homem. Do lado de fora centenas de mulheres arranhavam a porta, querendo se banquetear. A entrada principal estava tomada por uma infinidade de meninas, impedindo a passagem. As mães as levavam. Para se tornarem mulheres, precisavam do batismo da loucura. A cada barulho maior que as do lado de fora faziam, ma...
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Sai de casa e olha o céu grave, olha o carro velho (feio, pesado, lesado, estranhas manchas negras espalhando-se pelo metal), olha os passeios desnivelados e as fendas nos muros da escola, ouve os gritos atrás dos muros da escola (alguém irremediavelmente apaixonado nesse momento), os candeeiros de pedra erguendo-se brutos, a estrada passa, estende-se numa curva e desce. Olha a cidade lá em baixo e adivinha as filas de prédios com três andares apertados entre vasos e gatos e viúvos de pé junto às janelas, as lojas sem interesse sucedendo-se (sempre um rádio ou uma televisão estalando o silêncio da espera), raízes levantando o alcatrão, paredes rasgadas por cartazes, os homens que param a meio dos passeios e olham como dizendo sabe onde o deixei?, a estrada estende-se, continua, desce ainda passando por cafés contendo gente, moscatel e imperiais, tabaco velho, as árvores sem copas explodindo em dedos magros, tudo conduzindo ao macabro aqueduto de luzes roxas e verdes, a estrada rom...
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Enfim, entre paredes, cercado de letras, sem saber por onde
começar. Tinha de meter as mãos no fogo. Domar o alfabeto, as letras. Insubmissas.
Tocar-lhes, aprender-lhes o corpo, saber-lhes o tipo, itálico, redondo, caixa
alta, baixa. Tinha de compor. Passar o rolo, a tinta, sobre a mancha de chumbo.
Amordaçar os ruídos com música. Acabrunhar o cheiro. Imprimir o jornal, papel
tão fino quanto a mortalha do cigarro que lhe pende dos lábios, agora. Ousa compor a palavra. Mede-lhe as vogais, mira-lhe as consoantes. A medo isola um L, o maior que encontra na tituleira, e com a mesma desmesura de corpo junta um I, sempre em caixa alta, um B, a soletrar com os dedos busca um E, logo um R, um D, A, outro D e… E, inflamada com um ponto de exclamação, a palavra. A sua primeira palavra. Clandestina.
3. Ao passar a passadeira junto à praça, olhei para a avenida cheia de carros. Dia prudente por entre os prédios, o sol manifestando-se como um disco muito pálido por de trás da neblina e depois, por segundos, desaparecendo, tapado provavelmente por uma nuvem mais escura. Mas era como se de facto tivesse deixado de existir. Depois parecia uma lua, distante, indiferente e correcta, ou um astro inesperado, desses que aparecem nos céus de planetas distantes, nos filmes de ficção de científica.
Eu cumprira todos os conselhos para vencer a insónia. Chá de tília, leite quente, cavar terra, acartar pedra, contar carneiros… Até recorri ao curandeiro da Fajã, que já fora promovido a ervanário. Mas acabei por ir parar ao consultório de um psiquiatra. Falei, falei, falei… e o homem sem dizer nada. Quando acabei, ele rabiscou qualquer coisa num papel, entregou-mo e disse: “Dez contos.” Paguei calado e saí mudo. Do papel onde eu esperava encontrar a salvação apenas constava: “Diagnóstico – insónia nervosa. Terapêutica recomendada – dormir bem.”
Depois de tanto ouvir falar dos estranhos e das repisadas advertências para estar de sobreaviso e se afastar deles, a criança indagou: “Onde moram os estranhos?” A resposta seria vaga ou nula, como quase sempre que o adulto fala com a criança. Tanta sabedoria e experiência derrubadas de uma assentada, qual pirâmide de blocos que oscila ao mais pequeno sopro. O adulto não quer perder tempo a pensar. E a criança, na sua ingenuidade incomodativa, continuou: “Quem são os estranhos?” Sem ter aprendido ainda as regras das conversas dos adultos, insiste em saber se o pai do menino que vive no segundo andar é um estranho. É que a criança nunca o tinha visto e não sabia onde ele morava. O adulto fez um trejeito de enfado e apressou-se a desviar a atenção da criança para os brinquedos abandonados no meio da sala. O adulto não tem tempo para explicações. Mais tarde, no jardim, o adulto diz à criança para não falar com aqueles que não conhece. A criança olha em volta trist...
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O homem passeava pela floresta, apreciando as árvores e toda a sua imponência, chegando mesmo a dizer que gostaria de ali estar, em tão boa companhia, todos os dias. Porém, a meio do seu trajecto, notou que uma fera se escondera, atrás de uma árvore, pronta para atacar. No papel de presa, o homem correu o mais depressa possível, contornando as árvores que se apresentavam no caminho, como que tentando mantê-lo naquela floresta, para sempre. Perdeu todo o respeito pelas árvores. “Se saíssem da frente…” Ao longe, já via o carro, o meio de salvação, naquela situação tão perigosa. Mas, assim que chegou ao carro, levou a mão ao bolso, e foi aí que percebeu: a chave ficara na sua mochila. Que estava bem longe, naquele momento.
Num mundo que se desmedia, imensificando-se, o cartógrafo nos apaziguava transformando continentes em ilhas. As caravelas, enormes, apareciam em cada mapa como deusas conquistadoras, onde antes as bochechas infladas dos ventos se estampavam. Era o nosso momento. Sim, todos nos sentíamos maiores que o mundo, capazes de colocar nossa marca em cada recanto. Hoje, apequenados, procuramos refúgio nas estrelas…
Fato rasgado, camisa sem botões, a gemer de dor, sentiu-se puxado pela gravata até à janela aberta da sala. Na avenida, os carros, com o freio nos dentes. Empurrando-lhe a nuca, o outro forçou-o então a colar os olhos no abismo. E no alto daquele décimo andar, brutal, cuspiu: «Ou passas para cá o bago, e é já, ou vais parar lá em baixo, feito um hambúrguer! É a tua janela de oportunidades.» Momento fundador – alguém disse – da inesquecível metáfora.
Lembro-me perfeitamente do dia em que te trouxe para casa. Tinha acabado de receber o meu primeiro ordenado no Coiffeur et Compagnie e, sem pensar duas vezes, voei para a loja onde te namorava há vários meses, fazendo planos fantasiosos para os momentos que passaríamos juntos. Quando entrei, vi-te no lugar de sempre, com o constante ar ansioso de quem espera para ser adoptado. Peguei-te, paguei-te e corri, corri o mais que pude até casa, com as pernas a contornarem os obstáculos da calçada como nunca as tinha visto fazer. O coração, esse contorcia-se de felicidade. Liguei o aquecedor, o fim de tarde estava frio a fazer anunciar um inverno longo e rigoroso. Banhei-te demoradamente, enrolei-te numa toalha, lubrifiquei-te e fiquei a contemplar-te com ternura estendido na cama, à fraca luz tremeluzente das velas de patchouli. Eras (és) único! Vinte centímetros de perfeição, beleza e magnanimidade. Em homenagem ao meu filme preferido baptizei-te de Lover Boy, e fiquei durante uns minutos a ...
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Tudo aconteceu. Alheio a qualquer batalha, a paisagem é este pátio
retangular, muros de pedra e hera, nesgas de céu entre árvores copadas.
Daqui a pouco, o ondear de vozes, restos de frases. Alguém tosse dando aviso de mão. Quer falar e já não mais. Eu
sou o repositório de gestos, olhares fixos, solidões. Rostos e nomes
que se diluem e fogem antes de resgatados: um exercício de cansaço. Às
vezes, a sensação de vagar em dois mundos. A hora da partida. A hora da
chegada. E agora, ainda agora. Como nunca antes nada.
Era curta a distância entre Port Bou e a Estação de França, entre a surda desistência e a esperança, essa palavra que o século cruel não se cansou de gastar. Talvez este o cais onde Benjamin não chegou a descer.
Naquela manhã, o ponteiro dos minutos começou a andar mais depressa. Aos poucos, o seu movimento confundia-se com o do ponteiro dos segundos. O ponteiro das horas, farto de ser o mais lento e que mais impaciência causava às pessoas, rapidamente entrou no ritmo dos outros dois. Dois homens assistiram a este estranho fenómeno. Um, mais impulsivo, entrou em pânico, pelo facto de se encontrar num local onde aquele era o único relógio. Outro, mais calmo, riu-se e revelou a sua ideia: “É simples, contamos 3600 movimentos de qualquer um dos ponteiros e temos uma hora”. Assim fez, mas nem precisou de 60 segundos para perceber que não poderia fazer mais nada. Parou a contagem e notou que o homem impulsivo já nem estava por perto. A fera estava a caminho.
Não fales aos teus filhos em todos os livros que te seduziram na adolescência (às vezes, a ignorância é uma das Belas Artes). Assim, eles nunca suspeitarão de alguns emplastros que te ajudaram a crescer como leitor.
Unya era uma mulher, física, quase religiosamente física – era, por isso, impossível não desejá-la e Unya sabia-o. Infelizmente, Unya também amava. Unya conheceu o amor da sua vida por acaso, num desses acasos onde é noite e muita gente se junta, onde se bebe um pouco, um pouco bêbadas as pessoas fumam muito e bebem um pouco mais. O seu amor não bebia. Unya sabia-o e, por apego a uma sua estranha tradição e medo de agoirar, bebia por todos os que, como o seu amor, não o faziam. Unya era uma pessoa que, naturalmente, articulava perfeitamente o seu corpo entre a dor e o prazer. Daí que gemesse duas vezes ao entalar um dedo.
Jacinto entrou em casa, descansou o cajado à porta do quarto da filha, pousou o saco de merenda em cima da banca da cozinha, abriu a gaveta por baixo e tirou a faca de desossar. Sem dizer palavra, aproximou-se da sua mulher Maria, esperou que ela se voltasse e, olhando-a nos olhos, invadiu-a de uma só vez, sentindo na mão o calor da correria do sangue interrompida pelo frio do aço. No alpendre, prendeu um pequeno cordel no estendal ao qual pendurou a faca gotejante, e ali ficou, à espera que viessem por ele.
No jardim das delícias. Puro laranjal, sítio incógnito e sem som. Espelho de água. Constante e breve, por trás do escrínio protector. Sítio de vantajosas oferendas, portal do esquecimento. Destruição ruidosa.
Passado de chuva e pele. Árvores desaparelhadas de seus dotes.
Profundo encantamento.
Ordem e desejo: o príncipe é quem separa as águas de um mar morto e navega ao mesmo tempo nos dois compartimentos.
E apressei-me estendendo-lhe a mão num cumprimento. As suas mãos frias, trêmulas. Os olhos de um castanho e névoa esbranquiçada. A voz. Uma foto no porta-retrato retornando vívida. E o desconforto antigo. E o que pensei quase apaziguado. De novo maio. Esta cidade: jazida que não ouso. Quase noite. Eu. E um banzo. Uma litania.
Chegou sorridente, esboçou um afago, encostou a barba à cara da mulher: quase um beijo. Ela estranhou: – Estás doente, querido? Logo, a praguejar, ele deu um pontapé na mesa, três tiros contra o tecto da cozinha. O habitual. Ela ergueu as mãos ao céu, aliviada. E domingo, prometeu, vai acender um círio à Senhora do Rosário.
A adúltera ficara sozinha à sua frente. Enquanto os homens que a acusaram se iam afastando, porque nenhum se julgou mais puro do que ela, Jesus baixara-se uma segunda vez a escrever no chão. Quando percebeu que todos haviam ido embora, perguntou à mulher: "Ninguém te condenou?" Ela respondeu: "Ninguém, Senhor." Ele sossegou-a: "Nem eu te condeno." Veio depois uma brisa que apagou, sem pressa, o que Jesus escrevera: "Pai, por que a fizeste tão bela?"
Nunca tinham visto a vida. Deixaram a porta aberta para a vida entrar, ainda que os adultos dissessem que as portas tinham de ser aferrolhadas. A vida é madrasta. A vida é ruim. A vida é difícil. No hospital, tinham visto os avós de corpos tolhidos, olhos fechados, rostos sem brilho. E dentro do silêncio havia o barulho esquisito de uma máquina. Tinham ficado especados ali. Esquecidos. Quiseram brincar com os tubos. Os pais enxotaram-nos, zangados. Fecharam a porta. Em casa, os pais falavam, em vozes gastas e eles, a um canto, perdidos. De repente, parecia que a vida se tornara importante. Valiosa e bela. Desligar aquela máquina estranha com a qual eles não tinham podido brincar, era apagar a vida. Para sempre. Então a vida estava dentro de uma máquina? Eles queriam aprender o que era a vida, onde estava a vida. Queriam que lhes mostrassem o que deveri...
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O hipnotizador garantiu ao homem que o iria hipnotizar. Este aceitou o repto, algo reticente. Mas passou bem depressa a satisfação de tentar provar que o hipnotizador não tinha qualquer capacidade. O homem começou a ficar sonolento e…entrou em estado de hipnose. Esse momento marcou a sua revolta e o homem prometeu retribuir o gesto. Um dia, administrou um sedativo ao hipnotizador, prendeu-o com cordas e colocou-o pendurado numa torre. Quando este acordou, o homem explicou o que se passava. - Vou hipnotizar-te e o pêndulo és tu! Colocou o hipnotizador em movimento, seguiu-o com atenção, mas começou a ficar sonolento e…
E tudo se constrói e desconstrói em constante reconstrução. Ruidosa, a que fazem os homens — excepto em alguma da sua voz, ritmos. Musical é o mar e o crescer da relva, se ainda formos capazes de ouvi-la crescer.
- o senhor é parente? - pode ser. - vai vazar... - o quê? - daqui a pouco vai começar a vazar pelo nariz, pela boca, por todos os orifícios. a tendência é que todos os odores seguidos dos líquidos saiam. permita-me, meu nome é mateus araripe, tome meu cartão, trabalho com estética. fazemos tudo, corremos com papelada, vestimos e higienizamos. - hmm... e daí? - o senhor sabe, nosso trabalho já foi feito... vestimos o corpo, mas a gente pode dar uma maquiada antes que os condolentes cheguem e o vejam assim tão... simples. colocamos algodão nas narinas, uma base no rosto, penteamos o cabelo com goma, ajeitamos a dentadura e amarramos, o queixo cai, né.... fechamos os olhos pra dar a impressão de estar apenas dormindo, sabe como é... a morte é muito dolorosa para os que ficam, mas nós estamos aqui para tornar tudo melhor... e colocamos também um terço combinando com a cor do terno que será vestido, somos respeitados no mercado. - mas e a roupa, o terno, o...
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Dói vê-lo quando perto o melro pousa. Geme e treme o maxilar do pequeno predador. Dói vê-lo quando perto pousa um corpo, atento e palpitante. Quisera trazê-lo à boca que saliva, quebrá-lo ainda, vivo e quente. A certas horas, porém, os deuses condoem-se dos mínimos.
Argo corria pela casa com tesouras e nada de mal lhe sucedeu. Argo amou uma mulher que lhe correspondeu completamente, sem um único grito, uma única discórdia. Argo recusou uma vida no Teatro pela estabilidade de um emprego com horários fixos e pontes obrigatórias e a verdade é que o largo ordenado lhe permitiu sempre uma vida desafogada e um mês de férias em Agosto. Argo tinha um pequeno mas extremamente fiel grupo de amigos que, religiosamente, lhe fazia companhia ao final do dia e aos fins de semana. Argo comprou uma casa junto ao Jardim da Estrela, acabamentos perfeitos e nenhum problema com infiltrações. Argo tinha um gato preto que nunca afiou as unhas contra os móveis e fez sempre as necessidades na areia. Argo sempre estudou depressa para que, depressa, passassem os anos de estudo e terminou a licenciatura e pós-graduação com uma média muito interessante. Nunca houv...
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Tinha um diário. E no diário escrevia sobre as outras entradas do diário: «Lembro-me agora que, num destes dias, escrevi no caderninho: “Ora bem, pois cá estás tu, meu caro amigo, novamente deprimido. Vejamos, repara no seguinte: o que não tens tu que sempre desejaste? O que tens tu que sempre desejaste? Pois bem, é no confronto destes dois conjuntos de variáveis, nesta possível equação, que deves reflectir de tempos a tempos e chegar calmamente, se possível, a uma conclusão. O que tenho sobrepõe-se ou não ao que não tenho?, e vice-versa. É assim que se deve fazer.» Deixou duas linhas em branco e escreveu: «É claro que, no meu caso, o que não tenho – nem que seja o pão e o leite fresco todos os dias pela manhã – se transcende fenomenalmente e, em tantos casos, me parece mais importante do que tudo o resto». Deixou mais duas linhas em branco e escreveu: «Ora bem, voltemos então ao princípio.»
Ontem eu e […] ficámos sentados durante um bocado junto ao ventilador, perto das escadas que descem da rua. Era perto das sete horas. No ângulo da Alameda, observámos sossegados a misteriosa engrenagem universal, a realidade polimorfa e bi-dimensional. Dois negros a correrem à volta do relvado; três adolescentes conversando junto à fonte sem água; um grupo de rufias perto da escada oposta, a jogarem à bola com um pit-bull; um negro que dança ao som de auscultadores, um branco grunge que arrancou as mangas da camisa quadriculada; uma mulher com um carrinho de bebé, à espera da mãe da criança; um casal de namorados, num dos bancos, nos outros bancos reformados; cães de raças distintas; etc, etc. Ao fundo ficam o parque infantil, a brilhar, meio indefinido por uma poalha luminosa e melancólica, impressionista, e as várias cores de roup...
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A montra está de doce requinte, o estuque dos frisos é belo, as mesas estão cobertas por boas toalhas. Os espelhos, esses, estão por toda a parte. Versailles lembra um canto de Versailles que se tenha desintegrado durante um sonho poético, e voado. Sinto-me na perfeição. O único problema é este – Depois que os ocupantes da mesa em frente se levantaram, o espaço abriu-se e ficou, diante de mim, uma mulher horrível. Não consigo retirar os olhos da sua figura. Está bem vestida, bem ornamentada, o problema é o cabelo e o olhar. Pelo cabelo, ela não pára de passar a mão, virando-o de um lado para o outro, como se fosse um molho de feno que não sabe onde arrumar. Mas são os olhos que mais me prendem. Neles, há um esgar trocista pela forma de fechar as pálpebras, de as abrir, de as revirar, de toda ela se contorcer. Tão estúpida, tão violenta, a mulher horrível, sem me dizer nada já me contou o que não deveria contar. Agora reparo que está a comer uma torrada e a beber um sumo. Eu tam...
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Entro no metro e logo me perco na mulher, excêntrica aristocrata ávida de aventura, certamente. Outros passageiros vão embalados na mesma volúpia, entretidos no mesmo jogo de olhares. Vestido negro, tecido caro, a todos ela corresponde. Dálmata aos pés, um longo lenço, jorro azul-mar, lhe cai dos ombros sobre as mãos, os joelhos nus, a pele clara. Fim de linha, eu esquecido do destino que levava, fixamente a olhá-la, fixamente a olhar-me, se levanta. Onda, luz incendiada, sai. Por perto o cão a guiar-lhe os passos.
Num livro, uma frase – uma ferida. Contaminada. Um vírus, à espreita, para se espalhar. Sem uma ferida, que se propaga, não há frase, não há livro. Sem uma ferida, não há leitor. Num leitor, em algum lugar impalpável, uma ferida, mas não a frase contaminada. A diferença do livro: espalhar, não a ferida – que esta, sem ela, não há leitor –, mas, além de cutucar, de dentro, a ferida, espalhar o vírus, na outra ferida, até então imunizada. A frase, o livro – uma contaminação. O leitor, ferida viva, tenta – esparadrapá-la. Consegue: esparadrapa a frase. Não o vírus. Que o invade. Um outro leitor, desse livro, página contra o sol, descobre a frase: Pedir? Como é que se pede? E o que se pede? Pede-se vida. E vejo, então, o que já me contaminara.
Naquela manhã, como uma presença envolta em arabescos. Dissimulada. Escorregadia por entre becos, esquinas, frestas. À distância. Tão perto. Até que nos entreolhamos e um arrepio fino. Mais tarde, no galho seco do oiti à altura da minha janela. Um olho aberto. Difícil o outro: cego. Coruja errante que afugentei. Nem noite ainda. O ar crestante. A janela entreaberta e a madrugada azul e uma névoa seca e o tilintar dos pingentes do lustre antigo. Um silêncio depois. Um empecimento. O negror.
Eram sete homens loucos à volta de um homem são, e diziam adeus. Vestiam pijamas à volta dele, abraçavam-no, tocavam-lhe com as mãos e sorriam ou choravam. Ele chamava-os pelos nomes secretos que tinham, Jesus, Belzebu, Salazar, Sebastião, nomes de guerra e de ser louco, de fugir com as ideias de uma cabeça doente. Ele de mala na mão, corpo direito e lágrimas verticais, “a seguir são vocês… Tu, Rasputine, tu também, Madalena, a seguir são vocês.” Cá fora a família que espera, alegria e medo, quem és tu agora que a nós voltas, por onde andaste, quanto de ti te resistiu? Olhos limpos a adivinhar o mal escondido nos pijamas e nas árvores do jardim. Ele dá dois passos e olha para trás, mais quatro e alguém corre até ele. Salomé puxa-o pelo ombro e abraça-o com um cheiro íntimo, &...
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À terceira obra publicada o reconhecimento dos leitores chegou. De imediato, a pressão editorial para maior produtividade surgiu, levando o autor a dedicar-se em exclusivo à produção literária. Passou um ano e a veia criativa parecia ter-se esgotado, a folha em branco projectada no monitor do computador mantinha-se inalterada. Tentou escrever na sala, na cozinha, no quarto, na varanda, no café, enfim, as possibilidades ensaiadas foram muitas. Ao segundo ano passado, o contrato foi quebrado, o sucesso dissipado, o dinheiro findado: era altura de voltar a entrar na roda. Sentado à sua velha secretária, conferindo, carimbando e assinando documentos, sentiu o conforto do relógio na parede atrás de si, sem contratempos nem surpresas que lhe alterassem o dia-a-dia. Ao fim de seis meses uma nova obra chegou às livrarias.
A moça tinha um desses cursos que vieram substituir o chá de tília ou os curandeiros. Foi-me apresentada ao telefone por um seu amigo. Queria perguntar-me qualquer coisa. Ela pediu-me que lhe explicasse a diferença entre conto, novela e romance. Se eu fosse desportita ou político, diria agora: "Fiz o meu melhor". Depois ela explicou. Já não se lembrava do que era novela e romance, mas queria escrever um romance.
Ele gostava tanto de ver-se no telejornal que decidiu provocar um aparatoso acidentede viação. Quando o operador de câmara chegou ao local, encontrou-o já morto – «extremamente morto», diria mais tarde Ferlinghetti.
A escada rolante era uma excelente metáfora da vida: uns subiam, outros desciam, sendo impossível contrariar a tendência. Excepto para aquele homem, que resolveu andar em sentido contrário, na escada. Assim, em poucos segundos, algo aconteceu: o homem chocou com uma mulher. No longo prazo, esse acto de rebeldia teria tudo para resultar num grande amor. Mas nem sempre o longo prazo tem tempo para actuar, e quando chegaram ao topo da escada, outro rebelde colocou a escada a mover-se em sentido contrário. O homem já estava na plataforma e foi desse lugar que viu a mulher a descer. Podia ter descido a escada, mas teve medo da altura.
Neste meu rio que tem o nome de Tejo, mais de águas que securas, mais de fogo que branduras, em delírios de saudades, marujos dum só adeus; vira-te a mim meu amor, segue a aflição dos meus olhos, dá-me piratas e ventos, dá-me fúrias, barlaventos, que o meu destino é amar-te. E mesmo sem marulhar, em noites de lua cheia, em noites de maravilha, tudo calmo, tudo em paz, eu cá estarei de arrepio, eu te verei de soslaio, a minha voz ouvirás, eu em ti mergulharei, eu por ti tudo farei, meus apelos ouvirás, tu por mim tudo farás.
É assim com dois amores, um a ir outro a voltar, é a sorte é o destino, é a alma, desatino, mas sempre e sempre a avançar.
Pela noite, morto de cansaço, Pantaleão Nomeratski* entrou no quarto, despiu-se e, num abrir e fechar de olhos, desabou em cima da cama. Pesava quase duas toneladas. O seu longo bigode grisalho acompanhou-o, caindo logo de seguida. Na manhã seguinte, acordou com outra cara. Ergueu-se da cama e calçou as pantufas de pelúcia, usando de mil cuidados para não tocar com os pés delicados no chão frio. Quando finalmente se viu ao espelho, recuou horrorizado, o seu coração gelou, ficou pálido, mordeu os lábios com força e os cabelos puseram-se de pé, muito direitos como recrutas em dia de revista. No quadrado brilhante do espelho, estava reflectida a cara barbeada e luzidia de Nicolau Ivanov. - Nossa Senhora me valha! – gritou Pantaleão, tomado de terror. Eu não disse que ele tinha acordado com outra c...
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Certificado um milagre, naquele mês beatificaram um papa, uns príncipes estrangeiros contraíram matrimónio e o clube de futebol – paixão antiga – deu- lhe uma alegria: conquistou o campeonato. Na empresa, cortaram-lhe parte do salário – única coisa de que as televisões lhe não deram notícia. No mês seguinte, beatificaram uma freira, não houve boda em nenhuma família real, mas o clube brindou-o com mais uma vitória noutra disputa futebolística – e os adeptos celebraram o feito danificando as instalações da feira do livro local, na praça principal da cidade. Nesse mesmo mês, foi despedido. As televisões cobriram quase tudo. E ele, não obstante o mal-estar, quase tudo acompanhou. No mês que se seguiu, o rapto de uma criança provocou comoção pública, não houve beatificações nem casamentos reais, mas ele vibrou com novo troféu conquistado pelo seu clube. E a televisão estava lá. Nesse mês começou a sobreviver do subsídio de desemprego, mas logo viu anunciada para o mês seguinte a ...
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não pense que vou chorar. quebrei os discos do tom, do donato, do chico e do paulinho. agora você me fez arrepender disso, cachorro. mas da gente nem fotografia há mais. queimei tudo. e se voce voltar te queimo também. não pense que vou chorar. entendeu? falava olhando para a última foto, a dos dois em milão.
( é preciso adicionar que ao desligar a luz da sala, andou até o banheiro, abriu as gavetas do gabinete, tomou três lexotans e começou a chorar, até que tudo, tristeza e raiva, fosse afrouxando ao redor)
Moramos numa casa caiada de branco, com vasos de gerânios na janela, eu, minha mãe e o gato. Minha avó mora numa casinha no meio da floresta e não consegue mais sair. Vive lá deitada. De vez em quando mamãe vai à casa de vovó levar coisas que ela chama de guloseimas. Um dia, mamãe acordou diferente. Não falava direito comigo, não saia de casa e nem queria mais saber do gato. Perguntei o que estava acontecendo:
— Nada, nada... — Ela disse.
— É por causa do lobo mau? — Perguntei.
— Não me fale nesse animal traiçoeiro!
De repente, mamãe arrancou o avental pela cabeça, jogando-o na pia, dizendo:
— Que loucura a minha vida, que loucura!
— O que aconteceu, mãe? — Corri atrás dela perguntando.
— Preciso evitar que a história se repita! — Disse, e enfiando o capuz vermelho na cabeça, saiu em disparada pela floresta.
— Há muitos perigos na floresta, o caminho é deserto e o lobo mau passeia aqui por perto! — ...
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Já que a vida arrancou de mim a ilusão, que me roube por completo. Que o ar fique vazio do passado e a mente seja folha em branco para soletrar palavras novas, sem serem a cópia de um original adulterado. Porque as sílabas das palavras, que julguei ser capaz de modificar, estão agora muito gastas, com rasuras do tempo que as maltratou. Volto-me para o lugar da ausência e vejo uma luz nublada que me sorri em desdenho. Como é possível que o silêncio tenha uma voz tão altiva e me faça estremecer de mágoa? Quero imagens despojadas do insidioso conhecido. Quero agarrar um diferente sentido. Este ficou sem brilho. Se tivesse um vaso em que o sentimento desse flor, plantaria uma semente. Mas onde encontrar tal recipiente e como saber qual semente? Que fazer com o tempo em que não reconhecemos mais o fulgor das madrugadas? Que fazer com os dias em que parámos de nos recriar? Que fazer com o escuro a boiar no pensamento? Não compreendo bem a razão por que nada lá fora acusa o que se passa cá de...
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Naquele ano de 2146, os livros eram passeados pelos leitores como transeuntes num jardim. Falava-se com equações ou escorregava-se por um gráfico de uma exponencial inversa. Entrar era fácil. Tocava-se a capa e a contra-capa com os indicadores e olhava-se para o censor óptico na lombada. Depois, por neuro-alavancagem, o leitor entrava no livro. Quando ele ainda estava no Secundário, divertia-se a pesquisar as entrelinhas. Depois, aluno de Doutoramento de Neuro-Economia, divertia-se a olhar de perto as equações descritivas dos comportamentos dos agentes em experiências de laboratório. E como as equações já então lhe falavam! Bebia com elas e até dormia com elas! Mas, um dia, perdeu “aquela” equação. Perguntou às outras – nada. Poderia sair daquele livro – bastava atirar uma pedra para o céu que a experiência de neuro-alavancagem pararia como se olhasse para um “ponto final”. Jurou que não. Que sentido teria a sua vida sem aquela equação? Paulo Reis MourãoLer Tudo >>
Decidiu comprar o Infinito. Viu, num programa de televendas, que o Infinito estava em promoção e pareceu-lhe uma boa compra. Alguns dias depois, devidamente selada, chegou a caixa com o Infinito. Colocou a caixa debaixo da cama, com medo de a abrir: o Infinito podia fugir-lhe e nunca mais o apanhava. Chegou à conclusão de que, afinal, o Infinito não lhe servia para nada. Escreveu umas quantas de reclamação, mas, nos CTT, responderam-lhe sempre que a empresa que criara o Infinito tinha falido já há muito tempo. Passou uma eternidade a olhar para a caixa, tentando decidir-se sobre que raio é que haveria de fazer com o Infinito.
Sento-me com o papel em branco no tampo da mesa. Em repouso. É um tema gasto. Mas ainda assim tento. O papel pode representar exactamente o quê? A ausência de um mundo? A presença dos fantasmas? As letras - cuja conhecida metáfora pessoana não usarei aqui - não são apenas signos. Em rotação, claro. Penso nisto enquanto espero. Projecto imagens antigas à procura do tema e, obviamente, que o tema é exctamente isto sobre que escrevo no exacto momento em que o leitor lê o que escrevo (a repetição do advérbio «exactamente» é de propósito. Tem o efeito de uma respiração sincopada). Penso, por exemplo, no ano de 1993. Isto sem qualquer saramaguiana ressonância. Eu nem sequer conhecia o livro de poesia, híbrido livro, diga-se, em 1993. Do que me lembro é da origem da imagem. Do arquétipo. Era um andar permanente na cidad...
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Enquanto se lê sobre o Bushido (renúncia, ascetismo zen), podem por vezes ocorrer histórias que não andam muito longe disso. Um velho característico, de boina e prótese auditiva: - Isto é que vai uma crise. Nunca mais chove. (sorri, jocoso) - Há-de vir, há-de vir. – responde o condutor. - Ah pois há-de. E aí há-de ser ai que frio, ai que frio. Agora é ai que calor, ai que calor, mas depois há-de ser ai que frio, ai que frio. Não estamos contentes com a natureza. – depois assobia, sopesando distraidamente o seu jornal desportivo. (…)
As batatas estavam recolhidas já no granel, mas o senhor Manelinho Bispo foi à terra ver as outras novidades. Uns bons pares de anos mais tarde, o filho Adelino haveria de ir à mesma terra também para ver como iam as sementeiras. As batatas ainda estavam por tirar. O senhor Manelinho deu com um velho miserável que, por um buraco na porta do granel, ia puxando umas batatinhas com um pau. O filho apanharia em flagrante uma pobre mulher que esgravatava a terra para juntar batatas que dessem para uma sopinha de matar o essencial da fome. Ambos se esconderam entre as canas do cômoro, assistindo aos pequenos furtos. E um e outro pela mesma razão. Para que os ladrões por necessidade não passassem a vergonha de serem descobertos no acto de roubar.
As asas brancas de Hölderlin protegem decerto este poeta negro, de negro vestido, que a negro escreve em folhas brancas. Com o grosso marcador negro entre os dedos, olha em redor antes de cada metáfora. A hamburgueria, como todas, é sórdida e fede. Mas sentado à mesa, entre a multidão que entra, come e se suja, e sai depois em frenesim estival, o poeta põe a navegar no seu rio um barco febril, ainda jovem. É o lugar certo para desfrutar o espectáculo da vulgaridade humana. Saberá captá-la? Ouve-se então, vindo não sei donde, o apelo de Hölderlin: «sê-lhe propícia, feliz Suttgart, acolhendo cordialmente este teu forasteiro».
Quando sussurrei eu te amo, ela ficou me olhando, com cara de paisagem. Depois subiu a escada e foi andar na corda bamba, sem rede. Ela era assim, independente, selvagem. Eu sou um mero palhaço. Mas deixaram de rir de mim, depois que disparei o revólver. Ela devia ter usado rede. As balas que usei eram de festim.
Foi muito concorrido o Colóquio Internacional «O Trânsito de Vénus e o desaparecimento da Atlântida». A aderência do público, dizem os jornais, foi de tal ordem que os participantes acabaram colados uns aos outros.
Tatuou no braço direito a palavra jurisprudência e no esquerdo pro archias. Com uma memória prodigiosa, considerava-se muito cheio de futuro, embora ficasse sempre com febres altíssimas quando, nas revistas de trivialidades, o apelidavam de pós-moderno. Era do signo balança e nos aniversários da república descolorava sempre o cabelo.
[DOLLY IN - câmara se aproxima do objeto. travelling ou grua de aproximação]:
três homens caminham numa rua mal iluminada. em direções opostas: dois homens vinham, um ia na direção dos outros dois. o solitário que vai, olha rápido para os olhos de ambos como num jeito de quem mede ou estuda.
[CLOSE-UP]: dois flashes rápidos para os olhos de caim e abel. os três estão quase se cruzando (cinco. quatro passos, no máximo. dois três metros de separação).
3x [CONTRACAMPO - tomada efetuada com a câmara na direção oposta à posição da tomada anterior]: e se cruzam, quando o solitário apressa o passo e se aproxima de um dos que vem. passam rente. o menos seguro, abel, encara o terceiro e joga a cabeça para a frente....
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A mulher senta-se na esplanada a ver as outras mulheres. Altas, carnudas, decotes profundos, o cliché da américa latina porque, felizmente, há clichés que são bons. Por isso se ri. Só para si. Pede um copo de rum e outro de água, para ir alternando. Um homem senta-se à sua esquerda, um puro nos dedos, um telemóvel, nada de especial. De repente, num espanhol rápido que não consegue perceber na íntegra, o homem desfaz-se ao telefone: cariño.. no, no, por Dios. A mulher volta a rir. Paga e quando começa a andar em direcção à praça sente-se alta, enorme, capaz de abraçar tudo e todos, os desgostos e as traições, as felicidades e as saudades. Atira uma moeda a uma fonte por superstição europeia, quase ridícula, considera, e continua na sua colecção de recortes, a ver a multidão, a guardar este e aquele pa...
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02 de Setembro 9:00 (…) ao escrever-se o acto fala-se, provavelmente, sobre o pensamento das coisas. Escrever é, à partida, um enorme exercício de estilo, mesmo se nos obrigarmos só à descrição exterior. A linguagem não serve para nada, quando se põe com precisão as coisas sobre da mesa. Pôr o mundo como se põe a mesa. Cuidado com a geometria. (…)
O veneziano Marco Polo muito falou a Kublai Kan, imperador mongol, da cidade fraterna que dura uma noite. Esse relato o conheceu Italo Calvino, sem que entretanto a tenha arrolado entre as urbes invisíveis que a seu tempo deu a saber, por de todas ser a mais fantástica, tanto que se tornaria inverosímil. Todos os anos, noite certa, quando o velho jacarandá é uma grande flor azul, nasce a cidade. Os circunspectos cidadãos com fazenda encerram seus graves ofícios e, acompanhados das virtuosas famílias, vêm para a rua folgar com os pobres, os chulos, as prostitutas, carteiristas, polícias, frades, ateus, gente de todas as crenças que ali arribou de longínquos tempos e remotos lugares. Entre fumaça, balões, pirilampos, carrosséis, foguetes, música, comem, bebem. Incensam-se com ervas, expiam excessos em altos fogaréus saltando e, honra a um orago sem cabeça, dançam. Dançam e martelam-se. E martelam-se. Martelam-se uns aos outros, na cabeça. Fraternal desatino. Súbito, m...
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Desencantado com a vida, a família e os amigos, disse adeus ao mundo e refugiou se na adega com vista sobre o mar do Canal. Ao fim de sete dias e sete noites de muito beber, começou, finalmente, a ver uma luz ao fundo do tonel.
O vento está frio. E eu na fonte, atrás dela, à espera de que acabe de encher a lata. Veste roupa leve, saia talvez de chita, que usou no Verão e há-de usar no Inverno entre uma barrela e outra. Mora mesmo ali ao lado. O vento é frio mas bonançoso. De repente, dá lhe na gana um sopro mais forte. E levanta-lhe a saia até à cintura. As suas mãos não acodem a tempo de impedir que fique à mostra, por instantes, a nudez absoluta por debaixo da saia. Dá meia volta, envergonhada, e foge para casa, deixando a lata na fonte. Sinto-me triste, neste hoje de há muitos anos e neste hoje de quando escrevo. Estou tão triste na fonte, a encher o meu balde, como ela na sua vergonha.
Conheci uma mulher, a avó de um amigo, que a cada dia se levantava com uma voz diferente. Não se tratava de um deslocamento gradual do timbre em direção a um registro mais grave, como costuma ocorrer a tanta gente, mas a cada manhã, da profundeza de sua garganta parecia nascer uma voz nova, independente da voz anterior. Nada me assombrou tanto, ao frequentá-la, quanto a coerência de suas opiniões. Apesar de tão ampla variedade de vozes, vi poucas pessoas mais consequentes em matéria de ideas.
Do livro "La vida imposible" (editado por Emecé España y Emecé Argentina en 2002), de Eduardo Berti. Tradução de Patrícia Melo
Ágil de pensamento, astuto de movimentos, abriu o franchising da moda: a moderna roulotte de farturas e seus derivados na Feira do Livro. E quando a Feira do Livro faliu, o negócio das gulodices prosperou: havia-as em forma de livro – e também inacreditáveis brindes, cupões de desconto e promoções aos sábados.
Só chegaram ao topo no cair da tarde. A cidade ainda não estava preparada para a noite, mas o mar já se solidificara, imobilizando os barcos. Os irmãos se deram as mãos. Estavam suadas. Trocaram um último olhar. Depois esvaziaram a urna e ficaram tentando ver para onde o vento levava as cinzas. Mas o sol já se escondera. E, ao invés das cinzas, foram as luzes que enfeitaram a paisagem.
Chega afogueado pelo galope. Recolhe a montada no estábulo, afaga-lhe o pescoço suado, três pulos galga ao primeiro andar, como se conhecesse o caminho: o corredor, a porta ao fundo. Abre. Na penumbra, sobre a colcha acetinada, uma mulher. Roupa exígua, dispendiosa. E uvas. Uma cilada! Voa para a montada, em brasa ainda, e no frenesim da fuga aos paparazzi ouve uma criança, olho azul, que o confere pelo retrovisor, ouve «papá!». Na agitação mete a primeira, a segunda e sucessivamente, irrompe aos ziguezagues pela pradaria, perseguido já por manadas de sirenes a piscar, e na confusão, na poeirada, ocorre-lhe se o doutor Mendes lhe andará a dar as pastilhas certas. Ou se o narrador, que vagamente conheceu no restaurante, se terá excedido. No Campolargo.
02 de Setembro 9:00 (…) Num dos prédios, já quase no Areeiro, existe uma cadeira solitária, numa das varandas viradas para o resquício de um morro que fica junto à paragem de autocarro – cadeira de onde, presumo eu, talvez se veja o pôr do sol, acontecendo entre os restos das árvores. (…)
A balsa tem um nome estranho, fora do sítio: extraterrestre III. Observo-a todos os dias. Leva as pessoas das margens da lagoa, ali onde o mar espreita já. Dizem que os golfinhos entram por aqui. Vejo-os uma manhã, recortes escuros no mar, dorsos que correspondem ao nosso imaginário. Estar de férias é isso: uma sombra de paz, uma ideia que construímos de sossego e outros desvios ao caminho. Não queria voltar para casa à beira do rio. Preferia ficar a ver a balsa a ir, devagar, evitando o remoinho e as correntes. A balsa que se chama extraterrestre III.
Uma tarde, entre o cigarro e a cerveja, ele queixou-se de um certo U. Bettencourt, que andava a rapinar-lhe versos e até períodos inteiros dos seus livros. Aconselhei-o, então, a usar aspas e citar fontes, para que esse tal Bettencourt pudesse copiar directamente do original.
Abandono a sombra da minha árvore e parto, vou dar a volta ao mundo, ao mundo que se movimenta — mas nem sempre vejo — na folhagem da minha árvore, no branco da minha casa, no sexo da minha mulher.
1949. A meio caminho para a América, vai a meio a noite. Em Paris já é madrugada de 28 de Outubro. O Constellation da Air France voa sobre São Miguel, rumo a Santa Maria para a escala de
abastecimento. Ginette Neveu sonha. Quase um pesadelo. Quando toca pela
primeira vez o fá da 1ª corda, a corda parte-se. Um ligeiro som de
pizzicato, uma leve ferroada na face. A mão esquerda desce no braço do
Stradivarius e na 2ª corda. Ninguém dá por nada. Nem a mais subtil
alteração do timbre. Quando Sibelius lhe impõe o fá mais grave, o
contacto das cerdas faz rebentar a 3ª corda. De novo o pizzicato, de novo a ferroada na face. Agora os dedos procuram na 4ª corda as notas que lhe faltam na 3ª. De repente, suspenso o arco numa breve pausa, rebentam a 2ª e a 4ª cordas. Havia uma montanha a meio do caminho.
Foi até a janela e a abriu. Observou os prédios em frente ao seu e mais adiante, no horizonte, a ilha e a chuva avançando sobre o mar. O vento estava forte. Um arco-íris se formou de repente, mas logo desapareceu. Tornou a fechar a janela, virou-se, caminhou até a porta. E, num arranco, saiu afinal do apartamento, sabendo que era para sempre.
Acumulou funções num clube de futebol: presidente, treinador e jogador. Jogou quatro anos como avançado centro sem uma única lesão e com uma estatística admirável: nenhum golo e sete bolas ao ferro. Ergueram-lhe uma estátua, participou nos noticiários e nos programas de celebridades, escreveu um livro. Era um intrigante caso de sucesso, aquele de alguém que levara um clube a descer três vezes de divisão.
Ela sentia tanto pudor que evitava despir-se na sua presença. Um pudor desmedido, observou ele. Um pudor que ocultava, podia se dizer, algum mistério. Por fim lhe deu as costas, tirou a blusa e se voltou mostrando-lhe os seios pontiagudos, ainda que cruzando os braços na altura do abdômen. “Está vendo?”, disse sem olhá-lo. “Nenhum homem viu isto antes”, e lhe mostrou em seguida seu assombroso corpo sem umbigo. “Quando nasci – contou – não foi necessário cortar o cordão umbilical. Puxaram por ele e meu umbigo limpo e inteiro foi arrancado do ventre. Meu pai me chamou Eva, como a primeira mulher que, ao nascer da costela de Adão, também carecia de umbigo. Minha mãe se assustou e, num ataque de superstição, exclamou que se a primeira mulher nascera sem umbigo, agora eu podia muito bem ser a última. Os médicos riram muito, e at...
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cleck: cão puxado. suor frio. cano na cabeça. a mão do matador não tremia. na manhã em que morreria em meio ao calor e um cheiro de merda: “caim” com olheiras tremia amedrontado e amarrado a uma viga. no momento em que tirou-lhe a venda, e os olhares se cruzaram, o matador, jonas, murmurou para dentro uma espécie de oração. “caim”, sem coragem de levantar os olhos ou endireitar os ombros. começou a chorar. jonas cospe na cara de “caim” e desengata o cão. abel, o sócio, bigode grosso, chegou ao escritório, prédio espelhado, gravata de seda, cara barbeada, barriga utiva, filhos no mba, amante da idade da filha mais velha. jonas ganhou cem, “caim” oferece duzentos para matar o mandante. dois dias depois abel aparece com o pagamento; jonas rende abel, leva-o ao cativeiro e amarra-o de frente para o irmão; a câmera focaliza apenas as duas ga...
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No autocarro, dois viúvos discutem o modo de fazer uma cama. - O que mais me custa é fazer a cama. Dois é fácil, mas um é complicado. Um gajo puxa de um lado e puxa do outro e aquilo nunca fica bem. - Ela a mim faz-me bem a cama. Mas eu, não sei porque sim ou porque não, enrolo sempre os lençóis em baixo.
Depois comentam o facto de o motorista ser mulher. - Há cada vez mais mulheres a guiar. - Se calhar para bem.
Era
uma vez um livro insubmisso. Começou
a passar palavra. O
número de livros insubmissos não tardou a aumentar. Um deles, editado na quadra
natalícia, lembrou-se de impedir a presença do Pai Natal nas suas ilustrações.
A atitude, considerada intolerante, vedou-lhe a possibilidade de qualquer
resenha nas páginas culturais de jornais e revistas. A
vozearia tornou-se insuportável. Os livros saíram à rua, dirigiram-se para as
grandes superfícies. Derrubaram expositores, escaparates, prateleiras. Alguns
sabiam explicar bem as razões da insubmissão. Outros menos. O tempo foi
passando. Pontuado por tumultos. Acabaram
todos guilhotinados (coisa que, dizem, já só pode acontecer aos livros),
acusados de terroristas e inimigos da democracia.
Os livros fazem fazer coisas. Divórcios, poemas. O amor também. Ele gosta de livros. Ela gosta dele. Oferece-lhe livros. Ele lê os livros que ela lhe oferece deitado no lado esquerdo da cama. Ela não lê, antes medita: Para que lado se deita o amor? Por qual narina respira melhor? Ela levanta-se do lado direito da cama e veste o robe de seda púrpura. Prepara-se para o afecto. Ele continua a ler: prefere a carne e o odor forte de certas frases. Adormece com o livro aberto a fazer o cume do coração. Com a página 63. Ela destapa-lhe o coração, lê uma frase aleatória. Rasga, amarfanha, mastiga, engole. Despe o robe de seda púrpura e veste o pijama com o cheiro a vésperas. Algodão impregnado de monotonia. Os livros fazem fazer coisas. Divórcios, poemas. O amor também.
As tuas imagens que fui recolhendo, flagrantes de um adeus anunciado, ao correr dos anos foram sempre dos mesmos lábios entreabertos, do mesmo olhar apreensivo frente à objectiva da câmara. Sempre do mesmo cabelo espesso e bárbaro e, nas fotos dos grupos do Verão, sempre do mesmo corpo: barro húmido por modelar pelo barro húmido de outros corpos. Pois, agora resigno-me: chegou a hora de me obrigarem a entregar-te – à tua pele, músculos e ossos saudáveis, esquecidos como estão os aniversários com pais e mães a decorar o segundo plano, desfeitos os grupos de adolescentes nas gares dos aeroportos, obrigaram-me a entregar-te assim, tão inteiro e completo num gesto de reconhecimento final da tua ausência desde o primeiro disparo da minha máquina fotográfica. Decidi desfazer-me de todas elas, das tuas imagens. Incapaz, porém, do desapego absoluto, guardei o que resta de ti num rectângulo minúsculo, a dita foto-tipo-passe – um “tu” reduzido ao mais comum e ao mais simples, sendo ist...
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Um ano de excessos, disseram. E os pássaros nasceram abundantes. Em prejuízo do silêncio, do equilíbrio das espécies, disseram. E das colheitas: depenicam ervilhais, desrespeitam editais, cagam nos espantalhos, disseram. Ao som de bandas militares, canções heróicas, as autoridades mobilizaram os cidadãos. Nos jardins-escola, Ordem Unida tornou-se actividade obrigatória. Fisgas, pistolas, caçadeiras, carabinas, metralhadoras, para os alunos mais grandinhos, passaram a fazer parte do equipamento escolar. E, da alva ao anoitecer, universal, ininterrupto, o tiroteio. Uma razia de verdilhões, tentilhões, rouxinóis, pintassilgos, piscos, pombas, carriças, pegas, gaios, rolas, poupas, corvos, petos, alvéolas, estorninhos, andorinhas, pardais, melros…Enumeração fastidiosa. Extermínio demorado, difícil, que eles eram muitos, tinham asas. E pode até, escondido atrás das nuvens, ter escapado um ou outro anjo.
Ela disse: - Podemos colocar um poço cheio de cobras, um touch screen com um questionário, uma parede para escalar ou ainda um templo maia que desaparece no nevoeiro. Ele respondeu: - Podes viajar na maionese o que quiseres, depois fazemos um orçamento e caimos todos na real. Palavras para quê?
Sentado na beira do tanque em frente ao mosteiro de Nossa Senhora de
Guadalupe, Don Antonio Mayoral. Numa esplêndida tarde que tardava em
acabar, o Sol morria. Falou-me dos Republicanos. E mostrou-me o
indicador direito, torto, rígido, como um mapa feito de cicatrizes.
Disse: "Foram eles que me fizeram isto..." Certamente haveria mostrado
aquele dedo centenas ou milhares de vezes, e dito centenas ou milhares
de vezes "foram eles que me fizeram isto". Perguntei-lhe: "Já pensou
que também fez isso a eles?" E com Don Antonio fiquei triste quando,
tristemente, como se nunca tivesse pensado que havia eles no mesmo lado
do sofrimento, respondeu: "É verdade..."
Sempre fora um homem muito complicado, conseguindo criar, mesmo nas situações elementares, os mais inacreditáveis problemas. Ao servir-lhe o café, a empregada do restaurante perguntou-lhe se tinha gostado da refeição. Depois de alguns momentos, respondeu que não tinha como responder àquela pergunta. O problema era o seguinte: se, por um lado, toda a sua educação tinha sido alicerçada na sinceridade e na honestidade, por outro, essa mesma educação – que lhe moldara os valores e, por conseguinte, a conduta – obrigava-o a ser cortês, impedia-o de ferir a susceptibilidade de alguém que o tratara de uma forma tão simpática. A comida era intragável, isso parecia-lhe óbvio, mas o dilema em que a senhora do restaurante o colocara parecia-lhe irresolúvel, uma verdadeira aporia. E, por isso, o que fez foi tentar esquivar-se, transmitindo algo tão inútil como «peço desculpa, mas não estou em condições de lhe dizer se a refeição estava boa». Ler Tudo >>
Nas manhãs, o senhor Winkel toma o ônibus às dez e um quarto. Espera no ponto porque não lhe custa viver antecipado. Fita o par de sapatos de couro marrom brilhoso sob os raios expansivos. O lustre é uma de pequenas manias que o satisfazem. O menino o encontra através da janela do ônibus em movimento. Seriam bolas de gude, os olhos do senhor Winkel, amigo da Mary Poppins em vôo rasante sobre as casas de tijolos? Objetos de brincadeira celestial. O senhor Winkel coça a calvície com as pontas dos dedos cobertas por unhas transparentes devidamente lixadas. Ele sobe pelo degrau rebaixado porque o motorista apertou o botão automático da máquina fantástica. O senhor Winkel acotovela-se entre os passageiros enfileirados, prefere uma ordem natural que o favoreça. Nota-se, em seu rosto, a pele emborrachada e a amarelidão da dentadura. Nos dois braços delgados, resta a goma enegrecida dos esparadrapos que o senhor Winkel não conseguiu esfregar da pele. Enfermidade, temeridade, isto ...
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Minha existência é muito curiosa: todo o fato volta a me acontecer, não importa sua relevância. Condenado à repetição, espero outra vez pelo bons momentos e temo o retorno daquelas desgraças que tive que suportar. Na minha vida, há um só fato que não se repetiu: meu nascimento, embora eu pareça lembrar de outro parto e de outro ventre que não é o da minha mãe. Poucas vezes esperei em vão para que um episódio voltasse a ocorrer. Em tais casos, se algo não consegue se repetir, descubro logo minha obtusa confusão: aquele acontecimento que eu supunha ser o primeiro renova, na verdade, algum fato esquecido. Este texto, por exemplo, às vezes penso que voltarei a escrevê-lo, outras vezes creio que é a cópia de outro.
Do livro "La vida imposible" (editado por Emecé España y Emecé Argentina en 2002), de Eduardo Berti. Tradução de Patrícia Melo
naquela manhã: abriu os olhos. era a primeira manhã em que despertava sem a tontura da anestesia e sem o poder inabitável dos analgésicos. a primeira visão foi do teto branco quando sentiu uma forte pressão que iniciava no baixo ventre e percorria a uretra. sua bexiga quase explodia com o volume de urina e soro. o silêncio reinava ao seu redor: com uma exceção: o “bip...bip” do monitor cardíaco. o branco tinha cheiro de éter e naquele caso era silencioso, pois o plano de saúde pagava quarto individual. levantou com o pé direito naquela manhã, mas desequilibrou-se. caiu. certamente ouviu-se o estrondo nos outros quartos. olhou assustado para a perna esquerda. no mesmo instante a enfermeira entrou pela porta às pressas. trocaram olhares: e há situações em que o olhar comunica mais que as palavras. mas naquele momento, caído, chegou a pensar que e...
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Deu a volta à vida quando conseguiu a imagem, episódio que se
conta em poucas linhas. Logo que soube da visita de Sua Excelência, comprou fato,
gravata, esmerou na aparência e, numa afoiteza, insinuando-se entre os convivas, alcançou que um bate-chapas disparasse
justo quando – vencido o cerco – desenhou aéreo enlace, Sua Excelência, leve
sorriso em si tão raro, a corresponder. Abraço familiar, para quem visse. Depois, investiu no facto: mudou-se para a cidade, casa nova,
tudo em grande. À medida da ampliação que mandou fazer do instantâneo, a
revestir a parede do escritório em que recebe clientes, toda a gente enfim que
carece da sua influência, intimidade com Sua Excelência.
Votava há mais de vinte e cinco anos, dando assim o seu concurso para a alternância democrática. Fosse ele qual fosse, o partido que elegia era sempre o vencedor. Mas os dois ou três em que votava cada vez mais se confundiam. Era o não cumprimento de promessas, a corrupção impune, a sucessão de escândalos... De ano para ano, desiludiam-no de forma irreparável. Crescia, por isso, a sensação do logro em que se via enredado. Tendo atingido um pico de indignação, prometeu a si mesmo que, dessa vez, votaria em branco. O seu voto iria engrossar o protesto dos que, como ele, se sentiam ludibriados. E cumpriu gostosamente. Ganhou, é claro, o primeiro dos dois ou três partidos do costume – cujos dirigentes, secretamente, agradeceram tanto voto impoluto. Da vez seguinte pensou melhor (já lhe haviam cortado parte do salário). Optou por nem sequer votar. Ganhou o segundo – ou o mesmo (quem se recorda?). Num íntimo silêncio, os líderes deram graças por tão elevada abstenção. E ele sentiu ...
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Tudo
o que o homem esperou escapou-se, como areia entre os dedos das mãos,
foi a imagem banal que lhe surgiu. Tinha colocado uma folha mental que
permitia decidir e tomar conta dos dias. Estava feita com um prazo
razoável, portanto, sem grandes expectativas. Quando o dia terminou
sentou-se na cadeira do escritório vazio. Tudo mudara, como se um vírus
informático o tivesse invadido. Nada seria como estava à espera e
lamentava profundamente ter feito planos. Lamentável eram ainda outras
coisas, mas no deserto do local de trabalho, não teve coragem de as
enumerar. Decidiu ficar um pouco mais. Até a luz do dia o obrigar a
enfrentar a ruína dos dias seguintes.
Leitor compulsivo de Borges, o seu sonho era tornar-se um outro Pierre Menard. E, num acesso de patriotismo (pouco moderno, hélas!), pôs-se a escrever o Livro da Enssynança de bem cavalgar toda sela. Ao dar por concluído o trabalho, verificou com bastante folgança que se havia transformado na coisa cavalgada. À boa maneira clássica.
Ao fim de Esperando Godot, uma senhora virou-se, dizendo: “Você gostou disso? É horrível! A gente sai de casa para se divertir e tem de ver uma coisa dessas... Me diga, você gostou disso?” Imediatamente, ao meu lado, um casal nos 20 anos confrontou-a: “É demais! A senhora é que não entendeu nada!” Aliviado da necessidade de dar qualquer resposta, achando que o filme havia sido tão terrível para a senhora justamente porque, de alguma maneira, ela o entendera, e que os jovens o adoraram justamente por não o terem compreendido tanto quanto imaginavam, ou seja, por não o terem tão cravado na carne, pensei apenas – como é bom não ter mais 20 nem ainda 75 anos... E poder permanecer em silêncio.
Agora até parece mentira, mas naquela altura ele ainda não sabia o que era isso de bookcrossing. Num golpe de linearidade linguística, calculou que se tratasse de uma forma apurada de ler. De atravessar um livro em todas as direcções, folheá-lo, revolvê-lo até ao âmago dos sentidos, persegui-lo até ao fundo das entranhas. Mas não passaram muitos dias que o assunto não ficasse esclarecido. Em vez de se atravessar o livro, era o livro que atravessava o espaço, andando de mão em mão. Então, conta ele, a ideia pareceu-lhe romântica e resolveu pôr-se em acção. Acabava de escrever um livro com 538 páginas, o que pode acontecer até aos menos incautos, e resolveu fazer uma experiência. Um dia de manhã, depois do pequeno almoço, avançou pela avenida afora, com o tijolo debaixo do braço e procurou um banco de jardim onde deixá-lo. Não foi necessário muito tempo. Por ali passavam pessoas a caminho da Universidade, alguns a caminho de cafés, outros a caminho de casa, ou...
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Diante do mar. Uns arbustos rasteiros. Umas rochas. Velhas testemunhas. Sal no ar. Aparentemente não acontece nada. O vento penteia-nos, a mim e às areias e ao mar. O vento e as paixões, tantas vezes invisíveis. Alguma coisa acontece.
Aquela rubrica, lembra-se? O mais rápido possível. O Banco quer saber quanto mede o fundo negro das suas olheiras, a percentagem de risco de suicídio, o conteúdo do seu cofre de memória. E escreva tudo, escreva dentro dos quadrados e o mais rápido possível. Desculpe, mas tem de ser, o impresso, o carimbo, a marca de fogo na sua testa, a impressão digital no seu passaporte caducado, a sua ida para nenhum lugar, a sua chegada a qualquer sítio temos de saber e é para ontem. Se tem par ou se não dança, temos de inserir no computador o mais rápido possível quanto tempo gasta a acordar, a lavar os dentes, a tomar banho, a dar aquele beijo, quando e como pretende fugir, isto com muita antecedência, para se poder amordaçar, amarrar, aprisionar e você vai implorar para que seja tudo o mais rápido possível. Deixe-se enterrar com missa breve, o caixão mal pregado, as lágrimas que se enxugam no gesto mais rápido da História. Depois, regresse, o mais rápido possível, o formulário, o carimbo, a coim...
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1. Ao que escreve, o aforismo breve concede a efémera ilusão da verdade única.
2. Quando toma consciência de que o aforismo mais não faz do que lhe dar a ilusão de uma verdade, o aforista, melancólico, sobe mesmo assim um degrau: da ilusão avança para a expressão do desejo. E já aforista não é. É apenas parvo.
3. Existe, em certos aforistas, a inconsciência de uma pulsão fascista que mascara, talvez, a sua exasperação.
minto. minto descaradamente (pedro aparava a borda do cavanhaque na frente do espelho). minto por dinheiro, projeção, prestígio, ascendência, influência, amicus curiae, participação nos lucros da empresa: dependendo com quem falo, tiro uma frase da revista seleções e até digo, como disse xerxes ao invadir termopyla, “só a união faz a força..”. (enxaguou a lâmina e continuou pela outra costeleta). minto sobre meu nome, meu passado, meu presente, meus sonhos, e finjo bem também, que quase passo por honesto já que sempre olho nos olhos delas, mas é aquela velha estória... uma mentira convicta convence mais que verdade disfarçada (agora com seu cortador-de-pêlos-de- nariz, aparava e sentia um bem-estar equânime). e no fundo, fuçando bem, numa mentira acaba-se encontrando um monte de verdades. minto sobre minha mãe, e se for preciso minto para minha mãe, e sei que se eu estives...
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Dom Manuell, per graça de Deos, Rey de Portugall e dos Allgarves daquem e dallem maar em Africa e senhor de Guinee e da comquista e navegaçam, comercyo de Etiopia, Arabia, Persya e da India. A Augusto Baptista e a todollos esprivães e tabelliães de nosos regnos e senhorios e a outros quaesquer officiaes e pessoas a que desto ho conhecimento pertencer per qualquer guisa, per noso livre e comprido poder hordenamos que as letras se usem ho menos que poder ser para nom gastar sem proveyto tinta da nosa rreall fazenda.
Item. Que per rrespeyto aos patos bravos se nom abuse de suas penas.
Item. Que sendo costume aver dobradas aquellas ditas letras se use nom mais que huma.
Item. Que Portugall e ho Reyno do Allgarve se façam mais pequenos reduzindo huma letra em cada hum.
Item. Que ho dito se aprique ao Funchall e ao Brasill até guora chamado Terra de Vera Cruz.
Item. Que em todollos nomes de lugares e pesoas se faça de iguall modo. ...
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A janela piscou três vezes. E logo salta do fundo do buraco por detrás do arvoredo. Prudente, olhos a farolinar a noite, percorre o descampado. Em silêncio faz-se à janela, põe-se no quarto. A salvo! E já rebolam no tapete, ávidos, ensandecidos. Persistentes. Alta madrugada desfalecem de cansaço, as pernas. As suas pernas frenadas há horas no valhacouto por detrás do arvoredo, cabeça libertina a galope de luxurioso intento, o funesto descampado a refulgir na noite espelhada.
– Não gosto da palavra «cidadão» – dizia o primeiro livro. – Provoca-me urticária, o que é péssimo para a saúde do papel. – E de «cidadania»? – inquiriu o segundo. – Não me agrada tão pouco. Soa a… mediania. Diz tudo e nada diz. – É a raiz da palavra que te incomoda? – Começa por aí – respondeu o primeiro com ar de quem principia a especular. – Imagina tu um livro sem prateleira, a dormir por onde calha, à chuva, ao relento… – Um livro sem abrigo, queres tu dizer. Mas mesmo esse não deixa de ser um cidadão livre, ou melhor, um cidadão livro. – E achas tu que é tão cidadão, e tão livre, c...
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O camelo já havia passado metade do seu corpo pelo buraco da agulha quando disse uma mentira, as duas corcovas cresceram mais e ele ficou ali preso para sempre.
Do livro "La vida imposible" (editado por Emecé España y Emecé Argentina en 2002), de Eduardo Berti. Tradução de Patrícia Melo
A myrrhar-se na vacillação, o illustre auctor assignalou, com irreprehensivel caligraphia: «A escriptura de nossa bemdita lingoa é immudavel?» Foi ahi que, inflammada na afflicção, a syncope lhe accommeteu a penna. *Cfr “Diccionario de Synonymos”, J. I. Roquete, 1878 Augusto BaptistaLer Tudo >>
A visão acromática de certos daltónicos é perigosa. Tende a ver na vida colectiva um interminável, estéril conflito entre o preto e o branco. Qualquer que seja a cor oculta sob o preto percebido pelo paciente, acontece que esta última, dominante, é a cor da fome e do ressentimento social – como ensinam os mais sábios e prudentes espíritos das nações. Daí a tornarem-se visíveis os potenciais indícios de anarquia e desagregação social resultantes de tão nefasta doença vai um passo. Convém, pois, manter debaixo de olho o olho do daltónico de visão acromática. De preferência, corrigir-lhe o enviesado olhar, convencendo-o de que é rica a realidade, diversa e matizada, plena de subtilezas que escapam a visão tão distorcida. A revelar-se impossível a&...
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O deputado da oposição perorou: “O povo não gosta deste governo.” Um deputado da maioria respondeu: “E o governo não gosta deste povo.” E enunciou em seguida as razões deste desamor. O povo não ajudava o país, porque, para poupar uns cêntimos, comprava leite de Espanha, batatas da Holanda, bananas da Costa Rica, sapatilhas do Paquistão, e assim sucessivamente. Aplausos. Depois da sessão, o senhor deputado foi jantar num restaurante da alta. Bebeu um aperitivo Villa Sandi a acompanhar caviar de esturjão. Seguiu-se lagosta da Terra Nova molhada num Sorella Lambrusco. Com o bife de rena, saboreou um Gran Reserva la Rioja. Fechou o jantar com um Cognac St. Rémy.
O bisavô da minha amiga T., ao completar noventa e cinco anos, começou a falar unicamente no pretérito. Dizia “fui ao banheiro”, levantava-se e ia. Dizia “fui dormir”, levantava-se e ia direto para cama. O velho, afirma minha amiga, havia adquirido inteira consciência de que não era senão “uma criuatura que pertencia ao passado”. Do livro "La vida imposible" (editado por Emecé España y Emecé Argentina en 2002), de Eduardo Berti. Tradução de Patrícia Melo Patrícia MeloLer Tudo >>
Começou por um botão. Um vulgar botão de camisa. Depois achou outro, outros, foi guardando. Guardou anilhas, caricas, moedas modernas, antigas, de muitos tamanhos, origens. E testos, anéis, câmaras-de-ar, pneus. Guardou rotundas, redondel de circo pobre, arenas de perdidas praças. Neste caos, em tanto guardar nunca se deixou seduzir por cautelas de premiadas lotarias, notas esquecidas no chão. Nem – como exemplo – por picassos, mirós, klees, atirados ao lixo. Coisas fora de colecção de certa forma. Rectangulares.
Nos olhos do rosto aquilino, olheiras de um bistre ligeiro, pesavam as horas da noite. Ao dormir, Judith, sonhada por Claudina, sonhou com uma melodia de Bártok. Quando chegara à terceira, das sete portas misteriosas, foi perdendo os sentidos ao dar-se conta de que seus dentes caiam podres e mal cheirosos no chão. Ao levar suas mãos à boca, num misto de pavor e incoerência, não dá falta deles. Mas de pronto um novo choque. Judith ( ou seria Claudina? ) percebe que as jóias da recamara estavam manchadas de sangue desconfiando já quase sem forças que não chegaria a despertar a tempo, mesmo que Vieira de Castro afrouxasse suas mãos e a deixasse respirar.
Quando soube que meu pai tinha levado, nos seus últimos trinta anos, uma vida dupla, sucumbi à curiosidade e averiguei o nome de sua outra mulher e o endereço do seu outro lar. Toquei a campainha com uma desculpa qualquer – uma inspeção da companhia de seguros, ou algo assim - e uma mulher alta e equina me convidou a entrar. Na hora não pude acreditar no que via: o interior daquela casa era uma réplica perfeita daquela que havíamos compartilhado meu pai, minha mãe e eu; os mesmos móveis, os mesmos sofás, com o mesmo estofamento, distribuídos exatamente da mesma forma, e até os mesmos quadros, os mesmos pratos de porcelana e as mesmas esculturas de gesso. De volta à casa, aquela noite, me dediquei com malévolo prazer a desordenar os móveis e a revolver as coisas nas estantes. Minha mãe acompanhava perplexa meus movimentos, mas eu não lhe dis...
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«Sou», dizia, «um espírito livre. Seria incapaz de alinhar com qualquer das partes em diferendo, tão povoadas de medíocres ambas.» O que, a princípio, fora apenas ingenuidade transformara-se em fundo convencimento. E o tempo dar-lhe-ia razão; até a parte mais forte, secretamente, lhe admirava a indomável independência de espírito. O facto é que nunca o importunaram – o que para ele era de tal modo valioso que não tinha preço. Também eles, os mais fortes, tinham uma inclinação para independentes e livres-pensadores. Viam-nos como um pilar, digamos, da cultura democrática da organização, uma justificação para a existência da autoridade. Sempre necessária, acrescente-se.
Antes de cruzar com algum conhecido que não vejo há anos, nos dias anteriores, começo a encontrá-lo por aproximação. Isto significa que dois dias antes encontro por acaso com um estranho que me lembra vagamente este conhecido, e horas mais tarde, ou um dia depois, volto a cruzar com outro estranho ainda mais parecido com este amigo que anuncia assim a sua reaparição. Às vezes, a aproximação é breve: uma ou duas caras semelhantes e finalmente o sujeito original. Mas outras vezes, a corrente se prolonga a tal ponto que os elos finais, me refiro aos últimos transeuntes desconhecidos, na prática resultam quase idênticos àquele amigo querido. Várias vezes cheguei a cumprimentar um desses sósias. Outras, entendi na verdade que de fato se trata de quem eu penso, só que já me esquecera, ou fingia não me reconhecer.
Na penumbra da antecâmara, não pode já dizer a Madeleine: «Havemos de tornar a ouvir...». Ou sequer procurar a incompleta partitura da Tocata para Sopros e Cordas. Pois nele o sangue corre, corre rumo ao chão.
É de tarde, em Genebra, e ele senta-se ao piano pela última vez. Os dedos ainda guardam a incerta pulsação do lume, e trançam o andante cantabile como quem acena aos que ficam deste lado.
«Aprende-se até ao último dia», pensa Dinu. «Para desnudar o seu corpo de noiva a morte escolhe sempre as mais belas moradas.»
Se eu disser que ontem encontrei Camões, quem ouvir espanta-se até ao infinito ou chama-me doido. Corro o risco. Encontrei o vate, sim. "Um perdigão depenado", como no filme de Leitão de Barros. Incapaz de fazer uma canção, uma endecha, uma estrofe que lhe não enxovalhe a fama. Insisti. Dei-lhe a minha palavra de que não venderia o autógrafo. Que valeria uma fortuna maior do que ele ganhou a poetar a vida inteira. Seria um insulto. O original, guardo-o ciosamente. A transcrição vai abaixo. Talvez com falhas. A sua caligrafia é mais difícil de entender que a do Vergílio Ferreira.
Sam taes os dões na Lingua Portugueza, Tam forte, femenil, e tam fermosa, Como erão na latina. Tal belleza, Despois na nossa posta, é mais famosa. Mas a patria christã da-me a certeza D'esta sentença fea e desditosa: Se eu vivera outra vez, morria à mingua, Pois ja ninguém entende a minha lingua.
Forão sutis mudanças a mudalla, A pouco e ...
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A mulher não percebeu os gestos. Ocorreu-lhe um fado e uma cena de tiros de um filme. Pensamentos em segundos. Uma espécie de sonho. Imaterial e exterior a ela. Quando ouviu o seu grito não percebeu. Depois um pombo pousou perto de um quiosque de rua. É tudo. Não se recorda de mais nada.
6 Hotel no Funchal. O dia começou a brilhar. Vim sozinho mas alguém passeia no meu terraço. Vou ver, pé ante pé. Uma gaivota. Será a mesma que nos visitou há 15 anos? Talvez queira perguntar-me por ti.
Desenha-se a primeira vogal, dir-se-ia aberta. Mas, em timbre convertida, é um tecto baixo. Com esse som fechado a palavra principia, assobio que sobe e se demora. A Utopia vive a infância, a adolescência; não atinge, porém, a idade adulta. «Eterna criança sonhando o possível» – dizem uns. Como o desenho da vogal que é sempre aberto. «Perigosa criança sonhando o alcançável» – rosnam outros – «que em breve se torna um lugar infernal». Como a vogal que se fecha em sua pronúncia. Letra e palavra e ideia. A tensão é a sua morada.
Um acaso feliz da anatomia: se a palavra tivesse lábios próprios, largaria de vez o ser humano ao seu próprio abandono de réptil, cerca ou pedra no meio do caminho.
Carmen caiu pelas escadas e, depois de um suspiro, viu à sua frente o galã Javier. Lola aproveitou a altura para se vingar. Apertou o lenço embebido em clorofórmio na boca de Carmen, tirou a gravata a Javier e engoliu o microfone miniatura tinymike.
Levanta-se e fica a observar os vidros da janela. São cortinas de renda branca presas aos lados, quase suspensas. Passa pela sala e coloca os narcisos na jarra chinesa. Antes de desmaiar, Maria Callas volta a montar o cavalo que já tinha entrado em casa.
Leonor correu até ao fundo da carruagem. Parou junto à porta do restaurante, fixou a paisagem adormecida e aquele homem muito alto que tinha um jornal debaixo do braço. Até que entrou no compartimento 36. Aí se sentou ao colo de Proust e adormeceu.
Carlos está zangado comigo. Queria ser um herói numa história com muita acção e sexo. Eu trapaceei-o e pus-lhe uma série de obstáculos. Primeiro coloquei-o entre pontos. Carlos. Mas isso foi uma tarefa fácil. Saltou por cima do ponto do...
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Passa duas vezes no corredor do avião. Pequena, essencial, um olhar vago e cansado, cheio de enigmática experiência. Quarenta, cinquenta anos. A sua mão pousa no banco diante do meu. Penso num pássaro que tivesse pousado no ramo de um salgueiro. A sua presença, que lentamente passa, é ...
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Acenas, me chamas, provocas. Resisto. Alegre, circundas, te vais e regressas, me tocas. Resisto. Dengosa, enleias, ondulas, volteias, me tentas. Resisto. Te enrolas, encostas, me cinges, enredas. Resisto. Em labaredas, enfim teu corpo devagarinho pousa no meu ventre ensandecido. E por instantes ...
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A mulher que saiu no parque da Gulbenkian apresentava um braço quadriculado - por cima da cicatriz de uma grande queimadura, a pele desenhava pequenos losangos muito regulares. Primeiro pensei que ela se tivesse encostado momentaneamente a algo com aquele padrão, mas ...
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«Acabou-se o tempo do emprego para toda a vida. É necessário que cada um se adapte às mudanças de uma sociedade em constante evolução». Avisadas palavras ditas por um homem sensato (alguns diziam-no sábio), com emprego garantido para a vida. Todos o escutaram atentos, no encerramento do colóquio...
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Há um único cruzamento no deserto. No relógio de Sebastião os ponteiros mostram uma hora vaga. “19h10m? 11h09m? 09h11m?” — Escolhe o teu tempo. É agora! Sebastião sai do carro, o motor em convulsão, envolto numa nuvem branca que se estende rumo ao azul. Tem um cano encostado à cabe...
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O taxista está irritado com aquela multidão protestando. Uma baderna infernal na cidade: manifestantes legítimos, maus elementos que se infiltram no movimento para promover o caos, polícia, bombeiros, vitrines quebradas, saques, carros e ônibus incendiados, e ele parado ali, a poucas quadras de ...
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A Feira chegou! E com ela a chuva, infelizmente. Logo neste ano, em que a crise obriga a saldos que se poderiam dizer pornográficos, se a pornografia merecesse tamanho insulto. São saldos do outro mundo, isso sim. Mas o outro mundo não existe – esqueçam. São os saldos da Troika. Tróikósaldos portant...
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Algo
que me despertou a atenção, e que acho de facto de suma importância, foi um
pequeno artigo na revista Ler, de Abril, da autoria de Paulo Ferreira, dos
Blogtailors, que desconstrói em uns ligeiros cinco pontos o que um futuro autor
pode esperar quando envia um manuscrito para uma Editora. A
...
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Para este mês de Março, a minha escolha do Editor terá de recair
sobre a apresentação do plano editorial da Estampa, feito ontem à comunicação
Social. Será um plano orientado para o reactivar de algumas das nossas
colecções mais emblemáticas, com maior destaque para a literatura de autores
portu...
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A grande novidade destes últimos meses veio pela forma de colecção
e é muito monocromática nas capas mas colorida na felicidade que nos traz: a
colecção de prosa da Tinta-da-China. Nesta altura já terá saído o quarto volume
(da Alexandra Lucas Coelho) mas ainda escrevo apenas com o conhecimento d...
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O
tédio e a melancolia contemporâneos juntaram-se nesta viagem à Índia para caminharem
em direção à explicação sobre o que é a viagem. A contemporaneidade dá
justificação a tudo: ao bom, ao mau, e a esse ponto zero, nulo e justo, o
tédio, que consome o homem. As paixões, os homicídios e os senti...
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"[...]a verdade é o dinheiro." CantoX, 16 "Ea estranheza é esta: mais contida fica a prostituta à medida que o vinhoavança." CantoX, 22 "Opior sítio para estar vivo é entre aquilo que um dia nos exige e aquilo que oeter...
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"Entre dois cães raivosos em batalha, não há espaço para a pausa."Canto IX, 3 "[...] o melhor lado não é perfeito, porque é lado - e um lado tem sempre o lado oposto."Canto IX, 33 "O inesperado insinua-se no que parece definitivo e ninguém se conhece antes de morrer. Ámen.&...
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"O que é o passado? Tempo que cada vez ocupa menos espaço [...] O presente - agora neste momento - ocupa todo o espaço que nos rodeia." Canto VIII, 2 "Núpcias da História com a Imaginação provocaram mais filhos e cópulas divertidas do que núpcias da Verdade com a boa memória[...]; mas...
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Neste ano, em que se assinalam 95 anos sobre a morte de Mário de Sá-Carneiro (26 de Abril de 1916), foram editados, em São Petersburgo, no volume XXVI da revista literária “Sfinx” (“Esfinge”), 10 poemas do escritor, traduzidos em russo (“Álcool”, “A queda”, “Nossa Senhora de Paris”, “Salomé”, “Certa...
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"A idade certa para conquistar o mundo é hoje. O homem levanta as interdições, avança, e quando se prepara para saltar: cai."Canto VII, 2 "Cair como a folha da árvore, tranquila e lenta, e subir como certos animais - a águia ou o avião guerreiro. A mobilidade inspira.[...]Canto VII, 3...
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"Viajar não faz bem apenas aos homens, também é bom para os próprios percursos ter homens que os percorram. Um caminho é como uma casa, é preciso abrir a janela de vez em quando para que o ar circule. Precisa de ser arejado o caminho e os homens que o percorrem são os que utam esse ofício. São ...
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"[...] quem relembra inventa: tudo começa de novo."Canto III, 5 "A intensidade com que se é esmagado não importa, de facto, o que importa é a intensidade que nos resta depois de sermos esmagados."Canto III, 75 "Se o progresso dependesse dos domingos, ainda andávamos de carro...
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Terá início em Setembro no CNC um ciclo que tem por objectivo fazer o balanço literário da última década. Organizado em parceria com a PNETLiteratura – um site que visa aproximar a lusofonia literária, contará com a intervenç&atild...
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No site http://disquiet.com/thirteen.html, aparecem links para 16 (dezasseis!) versões diferentes do poema “Autopsicografia” de Fernando Pessoa em inglês. O poema é tão conhecido na língua em que foi escrito que qualquer uma das versões provoca gr...
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II Bico-de-Penasolta a pena que há em ti Sofia Semper[1] in Bicos-d’-Obra. Micro-bio-grafia de Sofia Semper: ave rara,
debicadeira aqui e acoli, escrevinhadeira e eterna procuradoira de sonhos. No... Ler Tudo >>
I Bico-de-Arabescoespio uma ruela p’lo canto do @ lá fora um vaso espreita a flor não me voa o ciúme na pena da cola quem me quer amar daqui para fora?[1] in Bicos-d’-Obra. Micro-bio-grafia de S... Ler Tudo >>
Tenho um pé de cereja encantado ao lado do último olhar. Em frente,
um botão de púrpura calado. Pela mão esquerda enxergada colho uma letra breve.
O dedo indica-me a clave e perguntou-lhe: - Sol, ... Ler Tudo >>
... agora, está em
http://blogues.publico.pt/letrapequena/
Visitem-nos. Só faz sentido estarmos aqui se houver alguém desse lado do ecrã. Até já.
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Valter que veio da nossa mãe
pátria Portugal - nos emociona com seu texto simples, bem humorado e sincero. É lindo mesmo,ver-nos brasileiros respeitados e reconhecidos por nosso jeito de ser e viver por nosso irmão colonizador.