As palavras pedra ou faca ou maçã, palavras concretas, são bem mais fortes, poeticamente, do que tristeza, melancolia ou saudade. Mas é impossível não expressar a subjetividade. Então, a obrigação do poeta é expressar a subjetividade mas não diretamente. Ele não tem que dizer eu estou triste. Ele tem é que encontrar uma imagem que dê idéia de tristeza ou do estado de espírito - seja ele qual for - por meio de palavras concretas e não simplesmente se confessando na base do eu estou triste. João Cabral de Melo Neto
Ele
observava a Lua, como fizera em quase todas as outras noites anteriores.
Cotovelos pousados, num jeito plangente de amante, na amurada da varanda da
casa, debruçada sobre a costa, erguida sobre estacas nas dunas que desciam a
pique. Assim que Ela surgia ele fazia tudo por tudo para escapar à atenção da
família e ir observá-la. Ainda que por uma curta fracção de tempo. Tinha era
que conseguir vê-la. Banhar-se na sua luz. Maravilhado com toda a sua
plenitude, magnitude, simplicidade. Única, suspensa, bela, no seu poiso. Umas
vezes ardente, outras fria e distante.
A Lua, sua
eterna paixão. E sentia-se ridículo, amando assim, tendo a Lua como substituto
de objectos ou pessoas, desafiando todas as leis do meio em que vivia. Por
aquele astro, enorme, misterioso, claro, gelado, longínquo.
Ele vivia
naquela casa, entre a família, inserido, mas sentia-se simultaneamente
apartado. Uma coisa que não percebia e que o desfigurava, demarcava de todas as
gentes, daquela praia, d...
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I
Para dizer quando foi que tudo
começou teria que recuar a uma outra vida, não outra encarnação, mas uma
primeira fase da minha vida em que tudo era muito diferente. Basta talvez
salientar que a verdadeira mudança se deu quando cheguei a este tempo, ou
antes, quando voltei a este tempo. Mas acho que a mudança ocorreu ainda antes
de ter cá chegado. Na altura tinha vinte anos e tudo se complicara para mim.
Diriam que tratando-se de um adolescente as coisas nunca correm de modo fácil.
Mas a razão não era essa. Estava no meu 2º ano de estudos na chamada
Universidade, que tem o intuito de profissionalizar os humanos numa área
específica. Tinha então vinte anos, no calendário terrestre, em que se vive,
numa estimativa incerta, no máximo dos máximos, até aos 90 anos. Desde criança
que os meus supostos pais se alertaram comigo, visto que eu não procurava a
companhia de outras crianças ou jovens como eu. Ficava fechado no quarto, lendo
e lendo, por vezes espalhando todos os meu...
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O vento agitou os picos das
árvores. O eco do choro de uma criança esvoaçou por toda a floresta. E, uma
hora depois, mais uma criança enchia os pulmões e berrava, para saudar o mundo.
»Ele viverá duradouramente,
morrerá velho e feliz, se entretanto não se mirar num espelho!
Todos os espelhos foram
arrancados das paredes da casa e quebrados nos troncos das árvores. Todos os
vidros e pedras baças que se encontraram foram enterrados.
Fedro caminhava a seu lado.
Tinham ambos dezassete primaveras volvidas de energia. E desde sempre se
conheciam. Narciso tinha longos cabelos encaracolados, que lhe emolduravam a
face e realçavam o lampejar dos olhos. Uma cara felina, de criança, uns lábios
constantemente húmidos, que eram a perdição de Fedro. Sentaram-se num penedo,
na brenha da floresta. Narciso segurava no caule de uma flor, olhando absorto,
os olhos marejados de castanhos e verdes, sorriu levemente, um perpassar
ligeiro, quando viu Fedro se aproximar.
»Narciso, queria ...
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É difícil estar aqui, ainda aqui, nesta praia, nesta costa. Ver as
nuvens que se aproximam do horizonte, enrolando-se, tal como as orlas de espuma
das vagas que rebentam no areal e nos rochedos a meus pés, ouvir o forte
assobio do vento que me percorre a roupa, o corpo, como línguas de um gélido
fogo. É difícil estar ainda aqui, último pilar de tudo aquilo que o mar levou,
na enxurrada; tudo aquilo que o mar submergiu, com os seus anos, décadas e
séculos. Pois tudo aquilo que desapareceu chegou mesmo a fazer séculos de
história. Foi toda uma ilha, toda uma série de casas. E a casa da duna, apesar
de ter resistido a outras fortes emoções, a outras forças interiores, não
resistiu às forças da natureza. Fazemos nós toda uma vida, e que somos afinal?
Joguetes dos deuses? Brinquedos que as forças da Mãe Terra manipulam? Pareceu-me ouvir o som de uma flauta. Não... é o choro distante de uma
criança. A criança é esta praia. Cada duna, cada moita, cada gaivota, cada raio
de sol ne...
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Avançando cuidadosamente, embrenhei-me na floresta. Adorava o Verão, quando o ar ficava saturado do cheiro das árvores e com o pólen de algumas das flores brancas que vingavam por entre os arbustos que irrompiam através dos ramos. Era preciso, naquele ponto específico da região, ter muito cuidado ou qualquer pessoa poderia perder-se. Eram cerca de dois quilómetros a andar até ao lago. Por ali perto havia também uma nascente que se abria numa clareira, circundada por uma maior abertura nas árvores que em redor daquele espaço se apertavam ainda mais que o costume. Era uma zona da floresta em que os troncos pareciam criar uma paliçada ou uma muralha, um tronco parecia brotar dentre as raízes de um outro, os arbustos eram espinhosos e pareciam azevinho, com pequenas bagas vermelhas, duras como pedras, que nunca experimentara comer. As teias espalhavam-se em grossos fios, sedosos ao tacto, por vezes colando-se à minha cara e cabelo. Mas isso não me enojava. A minha mãe estava noutra das sua...
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Era uma vez um velho que tinha uma ovelha. Um dia hás-de deixar-me, era o que sempre dizia ao animal. Era um velho muito velho que só tinha uma ovelha, mais ninguém e nada mais. Chama-se João Pequeno e está sentado à mesa. A rapariga dá-lhe sopa à boca. A sopa é vermelha, mas não sabe a nada. Cozinhou o meu coração, pensa. Mulher rima com colher, mas desta não me recordo. A mão dela é um navio e canta um, dois, três, era uma vez mas João não gosta da sopa porque não tem sal. O sal deve ser o mar de todas as coisas, pensa. Uma casa, por exemplo, paredes e escadas, se as lambesse, saberiam a sal.Um jardim no fundo do prato, exclama a rapariga. João espreita, mas não vê. O jardim afundou-se na sopa. Ela descobre-o novamente com a colher. Uma árvore, aqui outra. Uma fonte antiga no meio. Vê? Aqui está um pastor, mas não tem gado. Ou então escondeu-o nos montes. Os montes estão debaixo da sopa. A rapariga gosta de inventar histórias. Desliza a colher na borda do prato e diz-lhe que tem de c...
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À CatarinaO rio existe e talvez por isso a cidade tenha sido sempre tão doce. Não como riso contínuo ou braço rompendo terra, mas ventre de água espalhando-se em forma de mulher. Dizem que do fundo do rio vem uma gargalhada e quem de noite percorrer as suas margens poderá escutarUma história. Vou contar uma história dentro de mim para que ninguém me escute. O rio nem sempre existiu:Duas raparigas a conversarem com os pés dentro de água, mas não são irmãs. Não muito longe, um carro estacionado. Um homem dentro mergulha a cabeça sobre os braços. Tem as mãos sobre a cabeça, mas não chora. As duas raparigas riem alto como árvores, buscando lugares sem tempo. Rir é breve lugar sem tempo. O homem escuta inerte o riso que o rasga continuamente como ferida. Sente-se como se ele próprio chovesse dentro de uma caixa parada. Era uma vez uma mulher que vivia em cima de uma televisão. Era preciso regá-la todos os dias. Uma sereia seria porque tinha cauda em lugar de pernas, ou talvez saia verde, ci...
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Esta cidade de beleza maravilhosa se encolhe com a chuva, as pessoas penduram-se nos armários e apenas as que possuem um verdadeiro capote trench inglês se permitem atravessar a porta de casa e pisar com galochas de cano altíssimo nas poças alastradas sobre o pavimento. Os algozes também fazem encolher a cidade e as pessoas se ajeitam nos armários embora nem lá encontrem-se em segurança porque os mísseis anti-aéreos de curta distância irrompem parede. Os malandros de rua não gostam de calçadas molhadas porque temem escorregar e nos dias tão chuvosos, estiram-se sobre as camas colchão e estrado de madeira, depositam as sandálias de borracha logo abaixo, sobre o piso de cimento batido, atirado à colheradas. Os baldes cuidam de cuidar das goteiras, gota, gota, gota e o malandro dorme com taquicardia, é tudo no sobressalto. Todas as lajes têm goteira, ninguém repara.Esta chuva cinza cinzenta acinzentada nasce bem no desencanto porque o sol, apenas o sol, doura a pele dos passantes e f...
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Vergílio FerreiraO conto PUREZA, do escritor português Vergílio Ferreira, publicado no jornal “Tentativa” em dezembro de 1950, na cidade de Atibaia, SP, Brasil, não constava de seu espólio. Há lá um agradecimento pelo envio do conto por este colunista. É conto que merece ser lido. PUREZA A porta da prisão rangeu. Os dedos trêmulos da luz tatearam o chão esponjoso, o visco negro das paredes e do teto. Um homem fardado entrou, cerrou a porta nas costas. — É a hora, amigo? — perguntaram do escuro. — É a hora. — responderam para o escuro. O homem fardado bateu os bolsos, raspou um fósforo na escuridão compacta. — Trouxe uma vela, — disse. Gostei de te ver. E acendeu um toco de estearina que destacou do negrume igual uma face larga e pálida, uns olhos calmos, cansados de amar e de odiar. Os dois homens fitaram-se até se não estranharem. Gotas de água caíam, solitárias, do alto do teto, empoçando na lama do chão. — Não vais demorar-te? — perguntou o preso. — Posso demorar-me um pouco. Até nu...
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Aceita o convite. Há muito que se esqueceu de que fala noutra língua, mas reconhece o seu lugar e senta-se à mesa connosco. Sou quatro ou cinco dele, talvez. Dissolvida na espera, por vezes, como nos sonhos, acontece uma de mim derreter e colar-se-me ao sapato de outra. (O sapato é vermelho e o pé, espécie de lua que me obriga a flutuar e a ser sempre mais em nós suspensa.) Ele senta-se à minha frente e ainda antes de pedir, acrescenta-me na frase: I want to sleep in your life. Outras palavras vão surgindo.Como o não compreendo, imagino que me pergunte pelo futuro dos meus sonhos, os sonhos que me perseguem na realidade, coisas assim, imensamente assustadoras e divinas como a estrada e o tempo. Subitamente, um gracioso suspeitar de que sonhos são palavras (“recordações futuras”, “saudade” ou “fome de destino”) leva-me a chávena à boca, assim. Enquanto fala, sigo os seus movimentos como se contemplasse um aquário. Talvez o faça por imitação. Deveria então dizer: eu nasci para imitar os ...
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“Quando tomava banho numa praia ocorreu à Sr.ª Isotta Barbarino um desagradável contratempo. Nadava ela ao largo, quando, parecendo-lhe altura de regressar, e já se dirigia para a margem, se apercebeu de que um facto irremediável acontecera. Perdera o fato de banho.” Olhou em redor para ver se o vislumbrava mas não conseguiu ver nada que se lhe parecesse. Nadou de um lado para outro até a pele ficar tão encarquilhada, que mais parecia uma galinha de molho, do que uma respeitável senhora. Que fazer? A praia ainda estava cheia de frequentadores e era óbvio que não podia sair dali como Deus a tinha posto no mundo, mas não podia ficar mais tempo ali na molheira. Tentou erguer os braços para chamar a atenção do marido, mas quase se afogou. Mais uma vez olhou em redor, desesperada e viu aproximar-se de si um objecto deveras estranho. Quase parecia flutuar. Olhando-o de mais perto, apercebeu-se que era uma miudinha com braçadeiras e uma bóia em redor da cintura.Não pensou em mais nada. Arranc...
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Seja na mão de um realismo esbanjador à Mel Gibson (ouso imaginar), seja através da beleza harmoniosa dos clássicos, a imagem de São Sebastião/Oxossi continua a se reproduzir pródiga em resistência e em serenidade diante da provação: tudo parece desdenhar os limites da suportabilidade (do humano?), nada capaz de conter a pulsão hemofílica do santo, levemente escorado numa árvore, à espera de uma leitura, de uma devoção.Os canteiros religiosos estão prenhes dessa didática martiriológica, em que um signo ou um artefato, convocado para uma tarefa de perene convencimento, extrapola, exangue, os limites da realidade con/figurada. Resultado: a eficácia moral da imagem-ícone parece frustrada por seu próprio esforço extravagante de fidelidade: ambigüidade da morte mais imitada que vivida.Como no prodígio de lanças atravessando um paisano no filme “La Notte di San Lorenzo”(Itália, 1982), os traços da realidade e da convenção são mutuamente dissolvidos: aqui, na estampa sacra, o desperdício da a...
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conto I (coma profundo): o renascer da escritura – abril/06, coisa nenhuma cinza denso cansaço infinito sísmico estreiteza tamanha! agonia aniquilamento luto nenhum vazio vazio vazio vazio... só!? , sóis sobrenadantes de que fluxos? esse sem mim a tocar palavras ideias que dizem por mim vaporosos sujeitos territórios adiante cartografias inexploradas mônadas seguir de onde ? pensamento pra onde ? pergunta deliberação sentença? pulsante ir vir talvez ilusão de ir e vir repetição talvez vir ir pulsante talvez aflições moventes talvez ausências talvez impulsionem ilusão vacante em vácuo temperado vento rastros vestígios sinais sopro ilusão rouba invisível talvez repetições... marca nenhuma cinza ao redor da coisa nenhuma marca pisada a resgatar conceber impossível não há coisa vestígio rumo rota destino ma...
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Algo de importância a preocupava. A cabecinha rodopiava ao arear as panelas e guardá-las nos armários ao alto. Esforçava-se para alcançar. Separava os talheres na bandeija de plástico recém comprada naquelas lojas Tudo Por Um Real. Tudo Por Um Real! Parecia até nome de reality show. O avental de plástico também recém adquirido a alegrava com as margaridas brancas e amarelas, o laço amarelo nas costas irritava-a porque se desfazia com facilidade. Por sobre a cidade escorria um leite aguado, minguante. Chovia de leve. Qualquer vento fino que ousasse atravessar a orla seria abafado pela respiração das pessoas, dos blocos de foliões escorregando no asfalto gasto. Do outro lado dos túneis, na baixada, Dona Edineuza não reparava no tempo abstrato, e o tempo tão difuso a ignorava de propósito porque ambos não tinham tempo para estas coisas. Ela se guiava pelo relógio de pulso que a prendia às horas, aos minutos, aos segundos, cada número correspondendo a uma etapa da rotina domésti...
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Até que enfim consigo te escrever, meu amigo. Demorou porque optei pelo recurso da tradicional e antiqüíssima carta. Não estava disposto a enfrentar a censura dos corretores ortográficos dos e-mails. Queria sentir mais uma vez o gostinho de me expressar em bom português. Pois aqui estou. E creio que o primeiro a ser dito, daqui da Alemanha, é sobre a vergonha que sinto quando penso no passado. Calma, amigo U. Passado recente. Não os mais de cinqüenta anos vividos no Brasil. Não seria inconseqüente assim. Refiro-me ao tanto que tremia ao pensar no meu futuro pós-ditadutra. Lembras de como eu mirava com obliqüidade para o amanhã? Lembras, eu dizia que, depois da ditadura ortográfica, só me restaria me associar ao Ponto-final e tentar vaga de reticência. Cogitei também me virar, tentar ser dois-pontos ou até, no auge da intranqüilidade, emoticon! Vergonhoso...
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“Sentava-se, inteiro, dentro do macio rumor do avião: o bom brinquedo trabalhoso.” (Guimarães Rosa) As estrelas embaçadas pelo pano de luzes e faróis atirado ao alto da cidade, os galos emudecidos, ele andante sobre os velhos ossos a catar frascos de poliuretano, sobre uma vida mais, ou menos, indolente, tão boa quanto nem tanto. Não adiantava ludibriar-se: os momentos agora eram curtos tais as batidas do coração vindo das minas e parado sobre cada esquina do bairro do Queens, sobre o lixo salubre amontoado, lixo que os porcos selvagens do seu sertão enxotariam com o focinho enlameado nos campos que o criaram, que o rejeitaram e que o arrancaram d’alma até o corpo para o cimento escorregadio, gelo negro.O gelo negro o aterroriza. Num instante de atenção escapulida, fez com que tombasse e a humilhação da queda em país tão estrangeiro onde a gargant...
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Já tinha a lua baixado do seu lugar pensativo quando deitou o corpo na terra. Chovia seco contra a poeira e o corpo lamacento. Acreditava que era seguro plantar beijos no chão e ver nascer segredos.Abriu a boca sequiosa aguardando aquilo acontecer. Imagens. Esperava que caíssem, que movimentassem o olfacto, o paladar, e as pudesse devorar devagar.«Jardim.»Pediu.Passado um bocado suplicou:«Algodão...mais...mais algodão.»Cerrou os lábios, a boca inundada de água sabia a chuva, chuva de tempestade que fazia as cabras berrarem, os porcos saltarem as pocilgas sem abrigo. Ouvia as galinhas cacarejarem aflitivas atrás dos pintos. Lá de cima do pardieiro a avó desafiava a trovoada com o seu nome.«Aleiiiidaaa!...Aleiiidaaa!...»As portas batendo, o céu voluptuoso caindo, a chama da lamparina ao longe tremendo contra a escuridão de prata. Todo o mundo a fugir da claridade do c&e...
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Vontade tenho de fazer uma afirmação geral, categórica: o nome da gente é destino. Mas quando reflito sobre isso, descubro que apenas cometi o título de um tango. Ou uma imensa bobagem. Por isso digo agora, mais restrito e conformado: o nome de algumas pessoas é destino. Como este meu, Urariano. Mais de uma vez, em mais de uma oportunidade, esse meu nome exige ser repetido a quem o escuta pela primeira vez, e ainda assim, mais de uma vez, sofre equívocos. Para ser matemático, direi que a cada dez vezes que me apresento, recebo de volta nove traduções. No mínimo. - Urano? Uriano? Uraniano? Ulariano?... Algumas traduções não lembro, porque a memória, sábia, prefere não guardar. E não exagero. Se alguém põe dúvida, consulte o Google. Ali verá Urariano Mota, Uraniano Mota, Uriano Mota, todas versões, por incrí...
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Eu sei que havia um bote no mar, o mar cheio de água, a água cheia de sal, eu sei, vi a perna baloiçar por sobre a transparência veloz do bote-barco, um semi-rígido com muitos cavalos, era a perna e o colete, era o riso esvoaçando nas alturas impróprias da hora em que os peixes almoçavam e queriam sossego, era isso e mais o limo no fundo do lago, o lago de mar aberto, saindo pela fissura de um canal de areias serenas. Havia o homem inteiro e azul e a mulher semi menina dois quatros de velha e meia pessoa era um ser periliquitante, parecia uma folha, saída de uma primavera. Mas espera, não era bem assim, era um tipo e uma miúda, calhou definirem a mesma ilha para se encontrarem, calhou dessa maneira pela razão coincidente de amarem com o mesmo ouvido, a força das ondas batendo no seu coração. Quase assim, estavam mais por ali sentados, cada um na sua ponta de areia, um com ...
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Isto se deu em uma farmácia em Olinda, no começo do crepúsculo de uma sexta-feira. A farmácia possui três largas divisões, sem paredes. Na entrada ficam os caixas, um vigilante armado e um terminal de auto-atendimento, para saques e depósitos bancários. Depois, vêm remédios, alimentos em potes e outras bugigangas, para o bebê, para a gestante, para os adultos maduros e mais longevos. São mercadorias – as bugigangas – dispostas em sucessivas armadilhas, como em todo e qualquer supermercado. Se a mercadoria na outra ponta – os pacientes – está velha e doente, saúde para os bem-aventurados: aqui têm joelheiras, meias contra varizes, bolsas térmicas, medidores de pressão e doces finos que, bem temperados, despertam e aguçam o gosto antigo. Chocolates vários, misturados a mel com babosa e mel com própolis. Mix de a...
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quando o sol se abre em nós a tua cara resplandece fulgor de lua prata no olhar mãos de mel que serpenteiam em água no meu corpo operas milagres na saliva dos beijos escondem-se segredos medos e alegrias... só tu existes só tu me provocas o céu e o inferno as constelações de sabedoria infinita arquipélagos de sonho e de futuroPaulo Serra...
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Jogo das DamasHá livros não escritos. Jarras não. Partidas.Folhas esguias. Sós mas soltas.Oriente por desorientar.Arrumação por desarrumar.Rima por soltar e versos por acertar.Há uma folha quase gémeadividida ao meio dentro de nósunida por uma linha apenas:o fio do encantamento se no ocaso o encontrarmos.Há um cantinho musical à espera de uma outra leitura. Poemas que o não são.Leitoras que o vão ser. … nasce a vontade de alongar o rosto e as máscaras, e distende-se o canto. Pré-revelação: das duas, uma. Entreolham-se as duas. Damas. Damíssima. Meneiam-se. Meras actrizes. Meretrizes. De um lado, uma dama inclina o olhar para a esquerda; do outro, a mesma dama mergulha o olhar para a direita. Duplos olhares. A jarra, serena, é sempre a mesma. O mesmo arabesco azul-marinho. A mesma porcelana. Ambas enroladas em felinos, escondidas por eles e escondidas neles, numa música...
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PLURESIAAgora disponível em pdf para ser impresso. É resultado da oficina de grafite + poesia visual (Grafitemas) realizada na biblioteca Alceu Amoroso Lima, por Lúcia Rosa e Lívia Lima. Vale a pena viajar através das imagens produzidas durante o trabalho.mais grafitemas:Notícias Dulcinéia CatadoraSite Dulcinéia CatadoraMeiotom...
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Março/ 2008Uma passagem buscadareviravolta a paisagem onde o homem se confundecom a paisagem fugidia beiras, olhos à frentepassagens, pequenas mortes e a transparência inexistena insubmissão ao realPutas tristes, Musas velhasA um canto três velhas mascando cegasuma goma que escorre devagar(a goma inexistia ao catadortambém ele cediço de vitrines– forma sem conformar inexistênciainexistência sem fugir à forma)Olhos cavados a fundo penumbramlições de um texto à margem que os escondeSua presença incabível à visãoSuas mutações a céu e chão incertoSua imagem se arremessa contra o tráfegoante meus olhos áridos de asfaltoA baba que mastigo despedaça-meo riso e a claridade mais profundaJunto a mim três velhas mascando cegasA baba que esqueci de deitar fora Paisagem pelo Fernão DiasO asfalto se...
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Eu lembro-me de coisas...Querem ver?Esta manhã dispunha-me a escrever,Ou melhor, tentava escrevinharAlguma coisa que se lesse,Quando minha mulher me traz um papo-seco,Com não sei quê lá dentro,Pedindo que o comesse;Ao pôr-lhe o dente,Sentindo-o fofo e ainda quente,Lembrei-me do Raul,O Raul da ti'Jstina,Que se casou com a FinaE só por isso teve padaria,Se fez padeiro sem vocaçãoE para os outros amassou pãoPara ganhar aquele que comia.Era um artista o Raul!Um dia, lembro-me bem.Talvez ninguém reparasse,Mas eu vi,Eu sentiO seu temperamentoSensível e delicado,Na tristeza dum momentoQue vivemos lado a lado.A música...A nossa banda estava em crise.Não sei porquê. Teve tantas!...Mas, nessa ocasiãoFoi muito grave a procela.Ficou sem mestre, desfez-se a direcçãoE ninguém queria mais saber dela.Por Minde inteiro correu a novaQue dava a banda por acabada.De facto assim ficara...
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I O sol nas feridas é um inventário lírico da trajetória de Ronaldo Cagiano (1961), cobrindo um itinerário poético que começou em 1989, com a publicação de Palavra engajada, depois de sua saída da pequena Cataguases – “para não ficar menor que ela” –, passando por uma longa vivência em Brasília, até a sua recente transferência para São Paulo – “a metrópole apavorada e catatônica” – e viagens realizadas nos últimos anos a Portugal, Irã, Espanha e Argentina. Em “Autorretrato”, as influências sofridas pelo poeta nesse trajeto são nítidas: desde os versos gonzagueanos – “Não tive ouro nem gado/ muito menos fazenda ou legado,/ mas sinto-me mal e compulsório,/ nesse rebanho catatônico,/ nesse estábulo funcional/ em que me lançou o destino” –, passando por reminiscências drummondianas – “Esse lugar em que me (des)habito/ fronteiriço do hospício e do calabouço/ é uma Itabira pesada demais,/ a pedra no caminho/ de josés sem agora” –, ou guimarãesroseana – “(...) r...
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“A escrita não está a
serviço de um pensamento, como cenário realista bem conseguido que estivesse
justaposto a pintura de uma subclasse social; ela representa realmente o
mergulho na opacidade viscosa da condição que descreve” BARTHES, Roland “ O
grau zero da escrita” pp. 67-68; 1997 A
narração, através de um “eu narrativo”, adopta uma postura analítica sobre o
desenvolvimento do personagem/narrador, da sua relação com o meio que o
envolve, e da sociedade em constante convulsão. Salim, o nosso narrador, tem
uma visão tanto intrínseca como extrínseca sobre os acontecimentos que
interferem, de forma directa e indirecta, na sua realidade. Ele é um
inadaptado. E é a partir dessa condição que nos vai contando a sua experiência
perante o “desconhecido próximo”: “ A África era a minha
terra, fora a terra da minha família durante séculos. Mas nós éramos da costa
leste, e isso fazia a diferença. A costa não era verdadeiramente africana, ela
era simultaneamente árabe, indiana,...
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Depois
de ter lido “O filho do desconhecido” de Allan Hollinghurst sobre a
homossexualidade, aceitação e memória, eis que a leitura de “Os óculos de ouro”,
de Giorgio Bassani, apresenta, também, alguns destes assuntos, embora abordados
de forma diferente. A
obra de Bassani, escrita anos antes de “Um filho do desconhecido” de
Hollinghurst, foi construída sobre a perspectiva de uma só voz, de um narrador,
que nos alerta não conseguir ser fiável devido à incapacidade da memória reter
os factos ao longo dos anos. “Foi em 1919, logo a
seguir à outra guerra. Por razões de idade, só tenho para oferecer uma imagem
vaga e confusa dessa época” Pág. 7 A
visão dos acontecimentos é próxima e parcial, tanto no aspecto afectivo como na
amplitude da capacidade de observação. A cronologia da história sofre diversas
elipses. Contextualizado
por uma época de convulsão política, onde Mussolini vai ganhando poder e o
fascismo instala-se, Bassani aborda a problemática da aceitação e capacidad...
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Rejeito qualquer teoria da literatura,
qualquer academismo, que normalmente existe nos meus textos, para,
simplesmente, falar sobre um amigo de infância. O seu nome é Pinóquio e tenho a
certeza de que o conhecem O livro “As aventuras de Pinóquio”, editado
pelo Círculo de Leitores/Arte Plural, obrigou-me a interromper o texto que
estava a preparar para esta crónica. A magistral história de Carlo Collodi
encontrou as ilustrações que merece. Zdenco Basic fez um trabalho
extraordinário. Há personagens que sobrevivem ao tempo e
ultrapassam, inclusive, o nome dos próprios autores. Lembramo-nos de Pinóquio e
de Peter Pan. Lembramo-nos também, embora com um enorme desvio interpretativo,
de Alice e de Moby Dick. Menos pessoas lembram-se ou sabem os nomes dos seus
criadores. E o que será mais importante? Estas personagens habitam o nosso
imaginário de crianças, continuam a viver connosco na idade adulta e,
certamente, já entraram ou irão entrar no imaginário dos nossos filhos. Ao ...
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A
obra de Julieta Ferreira - Na margem do teu segredo – emite uma série de
telegramas, repartidos por personagens habitados pela memória e o
constrangimento, a recordação de quem poderiam ter sido em todo o seu esplendor
na vida, no palco, no lirismo de uma síntese resplandecente; como se o mundo
interior de cada um pudesse suplantar desígnios maiores, como os de um país ido
e regressado de um outro regime, de uma mesma tradição, para devassar a alma,
para prosseguir o tormento, volvido tanto tempo, no imenso espaço de um
conhecido bairro de espelhos, que confunde pela imensidão de perguntas herdadas
de pais para filhos, hesitações que sobejam para os bastardos, indignados pela
presença sombria de um olhar de soslaio, que grita mais alto que os segredos
que não o são. A margem do teu segredo, não
reside numa faixa de território, na manta de retalhos de diagramas que perduram
no espectro toldado de gente migrada de uma diáspora distinta. A margem é
central ao coração, aos ...
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“ Este é o destino que me calhou, penso,
ser o responsável por equilibrar um pouco as coisas” pag.66 A Verdade para o rapaz de 11 anos que nos
conta a sua história reside no espaço entre o facto e a observação do mesmo.
Esse espaço, que podemos nomear de interpretação, é moldado pelo hábito. E esta
é uma palavra-chave para a compreensão de “ A Arte de Chorar em Coro”. A dinâmica comportamental da família
(composta pelo rapaz, a irmã adolescente Sanne, o irmão mais velho Asger, o pai
e a mãe) é analisada através da ingenuidade infantil do nosso narrador e de
acordo com o comportamento padrão/ hábito que conhece desde que tem memória. Erlin Jepsen mostra-nos, logo nas
primeiras páginas, a perspectiva por si adoptada para contar a história de uma
família disfuncional: Quando a mãe tem dificuldades em definir
com sucesso a palavra “hábito”, o filho diz que o pai explicará melhor. Quando
o ouve, sente-se mais seguro. “ Levanto-me e sinto que percebi tudo, e
que qualquer coisa ...
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“É o mundo moderno, Anouk. Somos todos
putas.” Pág. 87 “ A bofetada” de Christos Tsiolkas é um rasgo na
realidade do leitor. Há livros assim: Pegam em nós e conseguem sacudir a nossa
realidade até à quase insuportável inquietação. A tensão existe e é mantida desde a
primeira até à última página. O enredo apoia-se em várias perspectivas, numa
polifonia, sem perder coerência. A narração adopta, frequentemente, o discurso
indirecto livre. A perspectiva associa-se de tal forma ao pensamento de cada
personagem que, por vezes, não temos a certeza a quem pertence a voz que
“ouvimos”. A linguagem apodera-se da realidade, expressa-se de forma obscena e,
por vezes, caricatural. No entanto, poucas vezes é utilizada de forma gratuita.
O comportamento das personagens consegue melindrar mais do que o léxico
utilizado. De uma maneira ou de outra, o leitmotiv (a bofetada dada a uma criança) é debatido em todos os capítulos. E é desta
forma que o texto não perde a coerência e a leitura mant...
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“Peregrinação de Enmanuel Jhesus” contém uma fulgurante riqueza imagética,
complexidade narrativa e demanda existencial sobre a génese de uma cultura. É, na minha opinião, um dos grandes livros
da literatura contemporânea, assumidamente influenciado pela literatura de
viagens desde o século XVI até à actualidade. O território do romance (fiquemos por esta
caracterização embora a hibridez do texto permita catalogá-lo de outras formas)
não se limita à geografia de um território. É uma viagem pelos momentos
históricos que moldaram as características do povo (s) de Timor Lorosae. A
viagem do autor pela psicologia, cultura e sociedade timorense, com todas as
suas interacções e indefinições culturais, sustenta-se não só numa deslocação
física, essencial à literatura de viagens, mas também numa viagem na
literatura. Se no primeiro caso, como foi dito, o observador desloca-se de um
ponto a outro, no segundo caso tal não é necessário. Em “Peregrinação de
Enmanuel Jhesus”, o autor in...
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SÃO PETERSBURGO – Alunos do Centro Lusófono Camões, da Universidade Estatal Pedagógica Hertzen, participaram da recepção oferecida pelas autoridades de São Petersburgo aos oficiais e cadetes do navio-escola Brasil, em sua estada no porto daquela cidade russa, em agosto. Como são fluentes no idioma português, a participação dos alunos do Centro foi fundamental na confraternização entre brasileiros e russos. O navio atracou nas proximidades do chamado Cais Inglês e permaneceu em São Petersburgo até o dia 13. O navio-escola Brasil é o hóspede mais comum entre todos os navios estrangeiros que atracam em São Petersburgo. Base para o estágio de cadetes, o navio faz todos os anos uma grande navegação de treinamento para que os cadetes possam consolidar na prática os conhecimentos teóricos obtidos na Academia Naval. Neste ano, o Brasil realiza-se a sua 25ª campanha de treinamento. O navio visita os maiores portos do mundo. Esta foi a sua 13ª visita ao porto de São Petersburgo. ...
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“ Onde pousa a borboleta, ali é o centro”
pag.32 Erri de Luca construiu um duelo poético
entre dois seres dominados pela obsessão da perseguição e pela expectativa de
um duelo. Em O “peso da borboleta” há uma
comunhão de entidades pertencentes a vários círculos existenciais: O animal, o
homem, a natureza e o imaterial (a morte, os espíritos). Tudo se move em
simultâneo e numa infinita conexão de causa-efeito. A opção pela narração paralela da evolução
dos dois personagens permite avaliar a comunhão da solidão, o avançar
melancólico da idade e a perspectiva de finitude. Acompanhamos os caminhos que
ambos trilham, a observação mútua e sentimos a aproximação do desfecho que
adivinhamos dramático. “ Chegou-lhe, a subir, o cheiro a homem e
ao seu óleo. Pertencia ao assassino da sua mãe. Era ele, subia para abater
gamos, sozinho, procurava o seu rei há anos” pág.14 A obsessiva perseguição remete, de forma
explícita e implícita, para Ahab e Moby Dick. Tal como Ahab,
ele é conh...
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I A revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, da Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília (UnB), em seu número 37, de janeiro a julho de 2011, traz um dossiê de 11 ensaios sobreLiteraturas e outras linguagens, além de três artigos que discutem obras do poeta Ricardo Domeneck e dos romancistas Mário Sabino e Clarice Lispector (1920-1977) e a resenha de Fisiologia da solidão (plaquete) e do livro Artes plásticas, de Ricardo Lísias, assinada por Victor da Rosa, mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina. Escritos por estudiosos de várias universidades brasileiras e também de Portugal, Estados Unidos e França, estes ensaios tem a uni-los a preocupação não só com a linguagem escrita, mas também com a visual, já que alguns deles abordam as ligações entre literatura, cinema, fotomontagens e quadrinhos (novela gráfica). É o que faz, por exemplo, Vera ...
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“Os Lindos Braços da Júlia da farmácia” J. Rentes de Carvalho Quetzal I “O caso do senhor Mandel acabou por se
fundir na minha memória (…) Alguns factos que inventei tornaram-se «verdade» à
força de repetições.” Pag. 126 “Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia” é
composto por 30 narrativas escritas com a mestria de quem sabe contar bem uma boa
história. J. Rentes de Carvalho surpreende-nos com a sua ironia queirosiana e
com a fluidez de uma prosa equilibrada, que transmite a sensação de que tudo o
que é necessário está em cada frase, em cada conto, na proporção exacta. Se partirmos para uma análise por
decomposição dos contos (estudo fónico, das personagens, da acção, do espaço,
etc.), podemos afirmar que a temática, dadas as características inerentes a uma
compilação de narrativas curtas, é plural. Seguimos histórias de amor e
adultério (“Um amor em Sevilha”), origem e exercício de autoridade (“Lord
William”), crime passional (“A prisão nova”), contrabando (“o outro la...
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LETRAS A vida vista pelas margens Adelto Gonçalves (*) I Qual é o papel do intelectual na questão da exclusão das grandes massas do campo da cultura? Há legitimidade naquela literatura que procura representar os marginalizados, que estão afastados dos espaços sociais de produção discursiva e assim são sempre apresentados por meio de um olhar externo, de quem, bem posto da vida, procura se passar por um dos excluídos? É o que procuram discutir os 14 ensaios reunidos em Pelas margens: representação na narrativa brasileira contemporânea, de Regina Dalcastagnè e Paulo C. Thomaz, organizadores (Vinhedo-SP: Editora Horizonte, 2011). Escritos por pesquisadores do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, da Universidade de Brasília (UnB), liderado pela professora Regina Dalcastagnè, estes textos debruçam-se sobre questões que “envolvem a teorização crítica do que entendemos por representação, papel do intelectual nos domínios do exercício desta exclusão e os modos discursivos l...
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I Ainda há muito que se desvendar a respeito da história da propriedade no Brasil e o livro O Direito às Avessas: por uma história social da propriedade (Vinhedo: Editora Horizonte, 2011), de Márcia Motta e María Verónica Secreto (orgs.), ajuda a jorrar luz sobre um tema que, depois dos pioneiros trabalhos na década de 1980 da professora Maria Yedda Leite Linhares, doutora em História Moderna e Contemporânea pela Universidade do Brasil (1954) e professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e pesquisadores como Ciro Flamarion Santana Cardoso e Francisco Carlos Teixeira da Silva, caiu no limbo à medida que as expectativas por uma reforma agrária foram defraudadas e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e suas reivindicações perderam força e visibilidade, ainda q...
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Beijar lábios cinzasINão sei se foi quem inventou esta espécie de jogo, mas pelo menos a conheci ao ler um texto de Jorge Luis Borges (1899-1986), “El acercamiento a Almotásim”, uma das notas que encerram "Historia de la Eternidad" (1936), em que o escritor argentino fez a resenha de um livro que só existia em sua imaginação. Por muito tempo, os críticos e leitores imaginaram que o livro havia sido mesmo escrito e publicado. E que o texto de Borges seria uma recensão de uma obra de Mir Bahadur Ali, escritor de Bombaim. Para confundir seus leitores, Borges não só fez um suposto resumo da obra como ainda citou críticos e jornais que haviam resenhado o livro, sem deixar de comparar o autor ao escritor britânico G.K. Chesterton (1874-1936). Era uma broma.Ainda recentemente, o suplemento Mais!, do jornal Folha de S.Paulo, de 30/9/2007, partindo da inspiração borgeana, pediu a vários autores que escrevessem resenhas de livros imaginários. Alessandro Atanes, um dos mais talentosos h...
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“Um lugar chamado Oreja de Perro” IvánThays Eucleia Editora “Cheguei à conclusão de que o pior que nos
podia acontecer era acostumarmo-nos à morte, à impunidade, ao horror, ao mal”
pag.19 I Iván Thays constrói um cenário de silêncio,
de melancolia e afastamento emocional a tudo o que rodeia o personagem
principal. O jornalista em plena decadência profissional e destruído
emocionalmente por uma perda irremediável é enviado para uma aldeia pobre,
assistida por caminhos quase intransitáveis, que se prepara para assistir a um
acontecimento que o jornalista adjectiva como “ridículo intento populista de
um presidente que já se vai do governo e cujo partido não tem nenhuma
oportunidade nas eleições” pag.15 O presidente é Alejandro Toledo Manrique. Se acompanhamos o caminho de perda, de
deterioração emocional do protagonista, fazemo-lo dentro do contexto
sociopolítico do Perú. O Presidente Toledo prepara-se para ser substituído na
presidência por Alan García Perez, outrora pres...
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LETRAS Anônimos e famosos Adelto Gonçalves (*) I Não há quem não aspire à celebridade, ainda que instantânea, os famosos quinze minutos de fama a que todos, um dia, teriam direito, na igualmente célebre previsão de Andy Warhol (1928-1987) da década de 1960. Até mesmo aqueles homens célebres que anunciam aos quatro cantos do mundo que não mais recebem a imprensa, pois o que mais prezam na vida é viver em reclusão, longe dos olhos da multidão, no fundo, o que querem é chamar a atenção de todos. Ou será que não era exatamente isso o que pretendia o famoso J. D. Salinger (1919-2010)? Ou a bela Ava Gardner (1922-1990), que passou o seu último ano de vida reclusa num apartamento em Londres? A expressão “quinze minutos de fama” referia-se geralmente a uma pessoa ...
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Metade da
Vida” Darin Strauss Quetzal “Por fora, os anos passam, as vidas mudam.
Mas, por dentro, é apenas um dia que se repete” pag.172 I Catarse O livro de Darin Strauss, “Metade da
Vida”, é um doloroso e honesto exercício de catarse, onde o autor enfrenta
durante anos a memória do instante em que se viu envolvido num acidente. “A meio da minha vida, matei uma
rapariga”pag.11 A partir desse momento, a memória é agente
dominadora dos actos de Darin. Esse dia tornou-se uma sombra que o acompanha em
cada movimento, em cada palavra dita enquanto ele percorre o caminho
escorregadio da memória. O dramático rasgo da realidade presumível
é quase simultâneo ao afastamento de Darin em relação a ele próprio. Logo após
o acidente, ele “desliga-se” dos seus sentimentos em relação à vítima e
afasta-se da realidade quando a realidade se rompe repentinamente: “(...) depois de um excesso de informação
adicional o sistema fica cheio demais, corta-se a corrente, o quadro fica
es...
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tudo voltaire ao cabaré é o segundo livro de poemas de Luís Serra, publicado por Fernanda Frazão, na curiosíssima colecção «Literatralhas Nobilizáveis» da Apenas Livros . O seu primeiro livro, com o não menos insólito título Brinquedos de latão e sarampo(2009) foi igualmente publicado na mesma colecção. É com muito pouca cerimónia que Luís Serra trata as convenções poéticas que associamos à estética lírico-romântica, ainda muito estimada pelo leitor comum (isto é, não especializado) de poesia. Através do título - tudo voltaire ao cabaré (que convoca de imediato Tristan Tzara e o dadaísmo) – e da epígrafe (uma citação de Alexandre O’Neill) – Luís Serra convoca e simultaneamente assume a tradição de uma literatura em ruptura com as noções de representação, de experiência e de linguagem como meio (ou instrumento) produtor de sentidos sobre o real e a experiência humana da realidade.O mundo de Luís Serra é uma espécie de cabaré, um universo quase carnavalesco, marcado pelo distanciamento f...
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Colum McCann é um autor irlandês, premiado
em sete ocasiões (cinco romances e duas colecções de contos). O romance
anterior “ Deixa o Grande Mundo Girar” foi premiado com o “National Book Award”
de 2009, entre outros prémios e nomeações. Os seus livros estão traduzidos em
trinta línguas. “Deste Lado da Luz” chega a Portugal através da Editora
Civilização “Toda a luz verdadeira regride com a
memória da luz” pag.255 I Em “Deste lado da luz”, Colum McCann
estabelece uma relação tanto intrínseca como extrínseca com a pintura. As
construções das comoventes e poderosas imagens baseiam-se numa dialéctica entre
luminosidade e sombras. A caracterização emocional das personagens, a
construção de todo o ambiente onde se inserem, a própria contextualização
social é sugerida ao leitor através de uma luz que se concentra em aspectos
particulares. O que fica na sombra enfatiza o facto desnudado pela luz. A
memória e o tempo estão dependentes entre si e a constante referência ao
“Melti...
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Alexander Kielland é um autor norueguês do final do século XIX, que, juntamente com Henrik Ibsen, Bjornstjerne Bjornson (Nobel) e Jonas Lie, faz parte dos quatro escritores mais importantes dessa época.A sua sensibilidade para as questões sociais está bem patente na sua mais importante obra, “Garman & Worse”, traduzida por João Reis e editada pela Eucleia Editora. “E enquanto os anões esforçam os olhos para ver acima dele, o mar canta a sua velha canção. Muitos mal a percebem, mas nunca dois a entendem da mesma forma, porque o mar tem uma palavra diferente para cada um que se coloca cara a cara consigo” pag.7 Olhar para o mar e ouvir a sua canção implica silêncio, obriga a reflexão, e propõe o encontro da pessoa com ela própria, num processo de auto-avaliação. Kielland dota o mar de características humanas (prosopopeia): “ (…) e autêntico bate o coração, o último saudável num mundo doente” e adjectiva o humano de anão que anda num mundo doente. E se o faz, tal se deve à fuga do pensame...
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Dois livros, escritos em tempos diferentes, de autores diferentes, mas na mesma língua, cruzaram-se num espaço criado para eles, num tempo único em que ambos se juntaram e coabitaram. Inevitavelmente, as personagens de um livro transitaram para o outro e, independentes dos seus autores, dialogaram num espaço criado para elas. Um espaço chamado leitura. I“ A língua a que chamamos portuguesa nasceu na Galiza e numa região minhoto-duriense que, na época, também era galega; a língua já existia, portanto, quando o país foi desenhado a sul do rio Douro e transplantou-se para aqui exactamente como depois se transplantaria para terras brasileiras e africanas. Em Lisboa, como em São Paulo e em Maputo, é uma língua que veio de fora. O que não impede os portugueses de afirmar que a língua lhes pertence; impede-os, sim, de afirmar que a língua só a eles pertence, como ainda se ouve dizer”(CASTRO: 2004; pp. 279) Ao longo da leitura de “Milagrário Pessoal” de José Eduardo Agualusa e “Peregrinação d...
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I“A amizade é um amor transfigurador e potente. É uma arma.” Pag. 127Patrícia Reis oferece-nos um livro optimista, onde a amizade é a verdadeira reconstrução num mundo destruído. No seu 6º romance, transporta-nos para um mundo pós apocalipse e arruinado em estruturas e emoções. A sobrevivência é imperiosa e o Homem regride à sua condição de animal.Nas primeiras páginas, a autora demonstra que existem relações produtivas e explícitas (intertexto) com outros textos. Neste caso, existem relações identificadas com textos de Fausto, «Por este rio acima», e com Brecht, «Do pobre B.B.». Por ser um livro que aborda directamente o papel da literatura na sociedade, existem outras aproximações a outros autores com a subtileza exigida, ou não, pela própria autora. “Por este mundo acima” é um livro que dialoga com a literatura; não é fechado em si mesmo, mas antes abre possibilidades de leituras a outros livros. De outra forma, pode-se afirmar que existe abertura do texto ao pensamento sobre a hist...
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tudo voltaire ao cabaré é o segundo livro de poemas de Luís Serra, publicado pela língua morta, e muito em breve disponível nas livrarias. A sua aquisição dependerá muito, contudo, da perseverança do leitor, pois apenas se farão cem exemplares, autografados pelo autor, e a sua distribuição será naturalmente muito restrita. O primeiro livro de Luís Serra, com o não menos insólito título Brinquedos de latão e sarampo (2009) foi editado por Fernanda Frazão, na curiosíssima colecção «Literatralhas Nobilizáveis» da Apenas Livros, e trata-se igualmente de um objecto de circulação restrita, sendo contudo fácil de encomendar através do site da editora. Quatro dos poemas da sua primeira obra publicada foram seleccionados por Manuel de Freitas e Luís Miguel Queirós para figurarem na a...
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Há cinco anos que eu fujo, literalmente, de muvuca, zoeira, badalação e festa do carnaval de Salvador. Desta vez eu fui para o litoral do Rio de Janeiro, curtir a paz e o sossego da Praia do Machado, em Angra dos Reis.Saí de Salvador às pressas. Trabalhei a manhã inteira e saí do trabalho às 2 horas da tarde. Do trampo para casa eu gasto cinco minutos caminhando. Moleza. As sacolas já estavam arrumadas há uma semana. Faltava colocar um par de sapatos, um par de meia, fechar tudo e correr para o aeroporto, distante de minha casa cerca de 40 quilômetros. Um amigo me acompanhou na viagem, Léo Dragone, poeta e romancista.De casa para o aeroporto gastei quase todo o tempo disponível. O voo sairia às 15:40h e eu cheguei ao balcão de check-in às 15:20hs. Ufa, por pouco meus planos de paz e descanso iriam por água abaixo. Impressas as passagens, embarquei as bagagens: dua...
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Convém ter um cuidado particular ao querer que a poesia relate a realidade ou se refira ao mundo de forma relevante. Tomo como referência um artigo de Luis Dolhnikoff, publicado em 2003 na revista Babel no 6, cujos contornos são acentuados num texto e numa entrevista posteriores ( e ). O artigo foi impropriamente intitulado "Da irrelevante exuberância da poesia brasileira contemporânea" (digo impropriamente porque o autor, sob o pretexto de abordar a poesia brasileira contemporânea, a rigor não fala nada sobre o assunto, a não ser no enfático intróito: "o problema central da poesia brasileira contemporânea pois há um problema central na poesia brasileira contemporânea é a falta de realismo"). Confesso que esperava que o autor destacasse essa exuberância ou criticasse, por exemplo, os exageros da auto-referência, os inflados torneios metalingüísticos ...
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Comece a espalhar a notícia, estou partindo hoje, / Eu quero ser parte dela / Nova Iorque, Nova Iorque”. O novo romance de Denny Yang evoca a canção de Sinatra: impossível não sê-lo. Basta pousar os olhos no título e a melodia flui à mente do leitor. New York, New York (Ed. Multifoco, 2008) é paradoxal com relação a um ponto em específico, o de vista: desenvolve-se no 11 de Setembro, período em que a mídia centrou toda a sua cobertura nos atentados terroristas em território estadunidense, mas mostra a quem lê que, muitas vezes, a verdadeira guerra trava-se em nosso cotidiano, não importando a quantas anda o mundo-cão exterior. Se o episódio nos EUA já era confuso por si só, imagine como seria se você ficasse longe de tudo por dois anos, em meio às montanhas. É exatamente o que se passa com o narrador da trama, e &ndas...
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- A senhora voltou, disse.Voltei para curar feridas antigas e levar outras.Voltei para vos ver e convosco ajudar o meu estar …" (p.9) Se nos últimos anos se tem assistido em Moçambique a um surto memorialista (particularmente desde o livro de Helder Martins) muito ligado à narrativa da "contrução da nação", torna-se ainda mais interessante esta raridade. Um pequeno livro, reportagem dos sentimentos de um breve Natal em Pemba, um regresso algumas décadas decorridas - a autora pertence a conhecida família local. A casa velha que revisita, antigos amigos e seus andares de hoje. Mas o que por ali sente mais importante: o som da língua que lhe falta desde então, o arrastado tempo do areal. E, ainda mais, aquele mar, o Índico do Cabo Delgado. Enquanto isso ainda há a abertura, talvez fruto da ausência, partilhando-se com as pessoas, ouvindo alguns sonhos avulsos - que ...
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"Travessias singulares – Pais e Filhos" é um livro sobre o qual os grandes jornais ainda não falaram. Mais um livro no silêncio, para todas as redações, poderia ser dito. É para romper essa paz dos cemitérios que alinhavo aqui algumas linhas. "Travessias Singulares – Pais e Filhos" é uma antologia que reúne escritores grandes, magníficos, e, dói-me dizê-lo, pequenos. De Machado de Assis a J. J. Veiga, passando por Moacyr Scliar, Carlos Heitor Cony, Antonio Torres, Wander Piroli, Silviano Santiago, Raimundo Carrero. Todos unidos pelo tema da relação entre pai e filho, de norte a sul do Brasil, do século XIX ao XXI. Essa é uma relação que interessa a todos os brasileiros, de pais que faltamos a um companheirismo, até os filhos que não guardam com os seus algum amor. Um terreno de conflito, mágoa...
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Conheça as vantagens em ser membro da PNETliteratura
Tua coxa é lisa, o lado de dentro. Você é peixe de uma única escama, liso com ela e sem ela. Meus dentes não te rasgam, escorregam, escoriar tuas pernas é um descuido que me agrada. A mulher raspa tua cabeça, dinâmica debaixo d’água pra te salvar das Iemanjás. Azar dela, eu não preciso de oxigên...
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Repassada do desejo daqueles risos que se perderam e da lembrança dos encantos que nunca chegaram a acontecer, está a casa, palco deserto, onde outrora fantoches ensaiavam uma monótona coreografia. Aí, já não cabem as aparentes histórias nem o som de vidas a fenecer. Ouve-se, somente, o rangido ...
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Ninguém sabia por que ela criava amebas ambíguas no aquário. Não tinha peixes. Com a sua cara de sardas, frequentava o Café Flor e sorvia Kir Royal em copo de Campari. Sentia o beijo lambido que o argelino lhe dera na orelha, ainda de manhã. Ele vestia black-tie. Ela mal sentia a boca ...
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A bomba vai explodir. Já está armadilhada. Só falta digitar o código de acesso e premir o botão. — Vou-te deixar. D. sufoca no ar que o rareia e leva as mãos ao peito. A dor fragmenta-se em inúmeros pedaços de amor tóxico. D. cai no soalho, fulminado por palavras terroristas, uma bomba at...
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Ver é diferente de dizer o que se vê. Ver apenas, não incomoda o mundo. O homem está no remate da sua vida, mesmo que ignorasse como dedilhar o tempo há um espelho na parede, antes usado sobretudo para o ensaio de esgares mulherengos. Esse artefacto tem-lhe servido para desconvocar o eco da casa...
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O china era mais cuidadoso com o ferro de passar. Seu empregado, ao contrário, usa-o como se fosse um trator. O resultado são as feridas em minhas costas. Às vezes, ele joga água em excesso sobre a roupa, e o contraste com o ferro quente tem-me provocado constipa&cced...
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Nos clássicos movimentos de um cumprimento, a mão do doutor Proença desprendeu-se. Acidente: que, no aperto de dona Josefa, não houve ardor. Ao sentir coisa grudada aos dedos, num gesto de automática defesa a senhora sacudiu. Projectada, a mão do doutor Proença caiu, enérgico desamparo, no em...
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O
tédio e a melancolia contemporâneos juntaram-se nesta viagem à Índia para caminharem
em direção à explicação sobre o que é a viagem. A contemporaneidade dá
justificação a tudo: ao bom, ao mau, e a esse ponto zero, nulo e justo, o
tédio, que consome o homem. As paixões, os homicídios e os senti...
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"[...]a verdade é o dinheiro." CantoX, 16 "Ea estranheza é esta: mais contida fica a prostituta à medida que o vinhoavança." CantoX, 22 "Opior sítio para estar vivo é entre aquilo que um dia nos exige e aquilo que oeter...
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"Entre dois cães raivosos em batalha, não há espaço para a pausa."Canto IX, 3 "[...] o melhor lado não é perfeito, porque é lado - e um lado tem sempre o lado oposto."Canto IX, 33 "O inesperado insinua-se no que parece definitivo e ninguém se conhece antes de morrer. Ámen.&...
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"O que é o passado? Tempo que cada vez ocupa menos espaço [...] O presente - agora neste momento - ocupa todo o espaço que nos rodeia." Canto VIII, 2 "Núpcias da História com a Imaginação provocaram mais filhos e cópulas divertidas do que núpcias da Verdade com a boa memória[...]; mas...
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Neste ano, em que se assinalam 95 anos sobre a morte de Mário de Sá-Carneiro (26 de Abril de 1916), foram editados, em São Petersburgo, no volume XXVI da revista literária “Sfinx” (“Esfinge”), 10 poemas do escritor, traduzidos em russo (“Álcool”, “A queda”, “Nossa Senhora de Paris”, “Salomé”, “Certa...
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"A idade certa para conquistar o mundo é hoje. O homem levanta as interdições, avança, e quando se prepara para saltar: cai."Canto VII, 2 "Cair como a folha da árvore, tranquila e lenta, e subir como certos animais - a águia ou o avião guerreiro. A mobilidade inspira.[...]Canto VII, 3...
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"Viajar não faz bem apenas aos homens, também é bom para os próprios percursos ter homens que os percorram. Um caminho é como uma casa, é preciso abrir a janela de vez em quando para que o ar circule. Precisa de ser arejado o caminho e os homens que o percorrem são os que utam esse ofício. São ...
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"[...] quem relembra inventa: tudo começa de novo."Canto III, 5 "A intensidade com que se é esmagado não importa, de facto, o que importa é a intensidade que nos resta depois de sermos esmagados."Canto III, 75 "Se o progresso dependesse dos domingos, ainda andávamos de carro...
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Terá início em Setembro no CNC um ciclo que tem por objectivo fazer o balanço literário da última década. Organizado em parceria com a PNETLiteratura – um site que visa aproximar a lusofonia literária, contará com a intervenç&atild...
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No site http://disquiet.com/thirteen.html, aparecem links para 16 (dezasseis!) versões diferentes do poema “Autopsicografia” de Fernando Pessoa em inglês. O poema é tão conhecido na língua em que foi escrito que qualquer uma das versões provoca gr...
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Tenho um pé de cereja encantado ao lado do último olhar. Em frente,
um botão de púrpura calado. Pela mão esquerda enxergada colho uma letra breve.
O dedo indica-me a clave e perguntou-lhe: - Sol, ... Ler Tudo >>
No quadrazal da classe do touquim piámos que as da classe da piação seriem gambiadas nos quintos planetas de cada sesta porque os charales que jordarem as do joão das penhas à Classe do Mestre Migança... Ler Tudo >>
Ná página Crianças do Público de hoje, o destaque de Helena Melo vai para Montemor-o-Novo. (Agasalhem as crianças e visitem o Monte Selvagem.)
Depois
de três meses encerrado para manut... Ler Tudo >>
Valter que veio da nossa mãe
pátria Portugal - nos emociona com seu texto simples, bem humorado e sincero. É lindo mesmo,ver-nos brasileiros respeitados e reconhecidos por nosso jeito de ser e viver por nosso irmão colonizador.