As palavras pedra ou faca ou maçã, palavras concretas, são bem mais fortes, poeticamente, do que tristeza, melancolia ou saudade. Mas é impossível não expressar a subjetividade. Então, a obrigação do poeta é expressar a subjetividade mas não diretamente. Ele não tem que dizer eu estou triste. Ele tem é que encontrar uma imagem que dê idéia de tristeza ou do estado de espírito - seja ele qual for - por meio de palavras concretas e não simplesmente se confessando na base do eu estou triste.
João Cabral de Melo Neto
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Literatura num Minuto

GUIA PARA CANDIDATOS AOS INFERNOS XIII - Candidatos Sedutores

[15-09-2009] | Almeida Faria
De pedra cor de ferro, este Círculo Oitavo, lar seguro e garantidoDos artistas do crime e da política,Será também, um dia, domicílioDa nossa eternidade relativa. Ninguém de aspecto humano, ao que supomos,Envelhece por gosto. Nós menos queNinguém. Mas somos sedutores? Ou só Nos desejamos sedutores e somos Uns pobres seduzidos por aquelas,Aqueles, que julgámos seduzir. Temos as qualidades dos defeitos.Jasão foi um dos nossos. Falava bemE mentia melhor. Bem parecido, Por detrás da cabeça, mal escondido,Tinha um longo intestino retorcido. ...  Ler Tudo >>

GUIA PARA CANDIDATOS AOS INFERNOS XII - Candidatos Hereges

[18-08-2009] | Almeida Faria, Almeida Faria
Ser herege é ter de escolher, custe o que custar.Não pensamos o que querem obrigar-nos a pensar,Não fazemos o que esperam obrigar-nos a fazer.Mas quem escreveria hoje Os Heróicos Furores?Quem enfrentaria a fogueira do Campo dei FioriComo o homem de Nola? Quem estaria disposto A ser representado de olhos esbugalhados, cara De pernas para o ar e orelhas no pescoço monstruoso? Quem estaria pronto a morrer como Julião ainda jovem? Quem correria hoje o risco de ser morto como um cão,Na prisão, num descampado, numa esquina anónima? Sabemos que a mesa mais venenosa é a Mesa Censória, Aquela que usa o seu poder para definir o que é háiresis,Tentação diabólica, coisa de orgulhosos e heterodoxos. A fossa do sexto círculo é melhor e mais espaçosaQue a estreiteza dos Bempenteadinhos que decidem Quem é herético ou herética: os que ardem depressa....  Ler Tudo >>

GUIA PARA CANDIDATOS AOS INFERNOS XI - Aduladores

[14-07-2009] | Almeida Faria
Nós, os aduladores, adulamos por gosto.Para nós, nada mais delicioso que adular Gente famosa, poderosa, gente de posses, Gente que nos ouça e olhe e lá de cima Um dia, em público, nos ajude e elogie,Gente que nos defenda se for preciso,Gente que nos convide para o seu convívio,Gente que nos consiga a condecoraçãozinha, A sinecura, o título, o lugar político,O prémio (merecido ou imerecido).Adoramos os céus da fama, os amarelos Do ouro, do prestígio, da conta na Suiça. As metades das nossas caras de fugirSão a noite e o dia. Sob os nossos melhor sorrisosEscondemos focinhos grossos, de porcos bulldog.Chafurdamos no esterco, no lixo. Se nos descobrem, Assobiamos para os lados e disfarçamos, sorrindo. ...  Ler Tudo >>

GUIA PARA CANDIDATOS AOS INFERNOS X - Fraudulentos

[23-06-2009] | Almeida Faria
O Oitavo Círculo tem fama de ser o mais concorrido. Além de nós, incansáveis praticantes da fraude e deTodo o seu instrumental (o embuste, o branqueamento,Os documentos forjados), ao mesmo Círculo vão pararOs aduladores e sedutores de mansas falasE os temíveis rufias de várias rufiagens. Muitos de nós cultivamos a fraude fiscal, banal Quando Justiça e Estado andam neste estado.Os que têm três bocas preferem o comércio  Dos secos e molhados da mentirolaEm verso e prosa, das amplas promessasE solenes poses ideais para papalvos.Todos nós, mulheres e os homens,Porque a vaidade de aceder à verdade Não compensa, é pura perda de tempo e dá trabalho, Nos tornámos a fraude de nós próprios, defendendo A mais nobre das causas, a do direito à fraude....  Ler Tudo >>

GUIA PARA CANDIDATOS AOS INFERNOS IX - Ladrões

[04-06-2009] | Almeida Faria
O interdito é o que mais atrai quem como nós nasceuSem timidez, sem pejo, e de ágeis dedos.Não nos envergonhamos de fazer mão baixa Em mulheres de amigos, em homens casados, Em pedras preciosas, em jóias e antiguidades, Em baixelas de ouro ou prata, em tecnologia informática. Imaginamos fechaduras por abrir como outros imaginam Virgens perversas e miraculosamente disponíveis.Deliramos diante de portas fechadas, de cofres por arrombar,De golpadas que o vulgo considera impensáveis.Dizem que os nossos dons especiais nos deformaram, Mas orgulhamo-nos do nosso destemor, o que não é pouco.Mestres ou meros aprendizes da arte de furtar e desfrutar Sem ser caçados, estamos bem preparados para entrarNos tortuosos labirintos infernais, cheios de falsas escadasQue não levam a nada, de janelas que ninguém abrirá,De ilusórias saídas que um de nós acabará por encontrar....  Ler Tudo >>

GUIA PARA CANDIDATOS AOS INFERNOS VIII - Traidores

[29-04-2009] | Almeida Faria
Nem sempre fomos traidores. Aprendemos aos poucos,Praticando com método implacável a traição nada fácil,Traindo com rigor especial quem em nós confiava,Colegas, seres amados, amigos, sócios, família,Nossos alvos preferidos. A traição, seja ela arteOu defeito ou traço do carácter, é perfectível. Infiel, sei do que falo, sei o que faço, sei o que fizNa noite em que cheguei tão tarde a casa. Despi-me Com cuidado, de luz apagada, sem ruído, deitei-me Convencida de que Ugolino já dormia.Procurei o calor dele para beijá-lo. Foi aíQue um pano embebido em cheiro intensoMe abafou o nariz e a boca, enquantoQuatro mãos me prendiam. Os homens Traem mais que nós? Traem melhor.Adormeci, ou algo assim.Ugolino ri-se agora de mim....  Ler Tudo >>

GUIA PARA CANDIDATOS AOS INFERNOS VII - Candidatos Epicuristas

[12-03-2009] | Almeida Faria
No tempo em que os deuses eram genteE os humanos copulavam com elesCom astúcias e artes como as deles,Os humanos pagavam quando erravam,Não quando pecavam. Não havia pecado. Para nós, os de Epicuro, o único pecadoÉ não gozarmos os gozos que perduram,É ceder aos gozos velozes, passageiros,Que não vencem o tempo. Não andamos de um lado para o outro Como lobos, como loucos, como Feras fechadas numa jaula, incapazes De respirarem entre grades, como o homem De óculos de aros grossos e ares de detective Espiando a mulher nua na piscina que sonhaRomantismos. Nós, os epicuristas, exigimos Bastante mais das nossas vidas....  Ler Tudo >>

GUIA PARA CANDIDATOS AOS INFERNOS VI - Candidatos Gulosos

[12-02-2009] | Almeida Faria
Nós, os gulosos, temos mais olhos que barriga. Orgulhamo-nos disso. Cerbero nos espera, lá no terceiro círculo, não com uma cabeça, Mas com três, de cinco olhos em cada uma, nada menos,Soltando guinchos que assustariam as almas sensíveisSe não as protegesse o gigante Belzebu, todo nariz e boca,Cujas tripas lhe nascem na boca (o cheiro daquela boca!)Que não serve para sorrir, serve só para comer Sem mastigar, para sorver, tragar e devorar.Nos jantares mais formais, ao encherem os pratos,Ao enfardarem até não caber mais, Ao falarem antes de terem engolido,Ao pegarem nos talheres como animais,Alguns de nós não voltarão a ser convidados.Tanto lhes faz. Fazem como o trifauce Cerbero Cujas goelas, em trindade, nunca estarão saciadas.Seguem o exemplo da grandeza inalcançável De Nosso Senhor Belzebu, o grão-patrão da gula....  Ler Tudo >>

GUIA PARA CANDIDATOS AOS INFERNOS V - Candidatos Luxuriosos

[13-01-2009] | Almeida Faria
Ao contrário Dos patamares do purgatório,Agrestes, nus, exaustos, escalvados, Monótonos, concêntricos, iguais, repetitivos,Sem que ao pobre mortal, depois de morto, agrade o esforço  De escalar degrau após degrau, até ao cimo nebuloso, o anfiteatroCircular do monte seco, fero, duro e estéril, os infernosSão um mar ebuliente, um magma imenso, Comparável ao sem fundo da luxúriaOnde nós, os deste culto, Entraremos sem custo. No meio das ágeis águas desse mar, No coração das ondas desse magma,Fica o gelado Lago dos Lamentos. Aí, perto da lúcida luz de Lucifer,Seremos, como Paolo e Francesca, Luxuriosos por inteiro, e para sempre....  Ler Tudo >>

GUIA PARA CANDIDATOS AOS INFERNOS IV - Candidatos Usurários

[11-12-2008] | Almeida Faria
Fiéis amantes do alheio, não nos venham dizer que isto é defeito.Cobiçosos do que não é nosso, somos insatisfeitos de nascença.Nascemos com cabeças de mealheiro, mas há mais deploráveis cabeças. Nascemos com diversos pares de pernas, por isso andamos mais depressa.Somos devotos do deus Money, nosso verdadeiro deus. Somos em geral poupados. Alguns, vá lá, talvez ávidos.Não negociamos com promessas.Não há paraíso na nossa igreja.Nossos credos são a bolsa, os mercados emergentes, as redes.Houve usurários padres, bispos, cardeais e até papas, e nem por isso menos louvados.Príncipes, reis, imperadores foram vaidosos usurários, e nem por isso menos louvados. Doges usurários pagaram aos Bellini, a Tiziano, a Veronese, e ainda bem.A persistente devoção à usura fez dos grandes do mundo respeitados mecenas.Des...  Ler Tudo >>

GUIA PARA CANDIDATOS AOS INFERNOS III - Candidatos Suicidas

[25-11-2008] | Almeida Faria
Aos mais modestos bastará o cinto numa trave, a corda numa árvore. A mim, que na piscina nunca saltei senão da prancha mais alta, Depois da maior vitória não esperei pela falha inevitável.Subi ao terraço no cimo do alto prédio onde vivo, Cheguei-me ao parapeito sem olhar lá para baixo, Virei costas ao vazio, respirei fundo como nas provas decisivas, Concentrei-me nas voltas necessárias ao tipo de salto que ia dar, Um duplo mortal de costas com primeira e segunda reviravolta,Chamado (Porquê? Já não vou perguntar) salto do beduíno. Quando o salto corre bem, a seguir às duas cambalhotas O corpo enrola-se sobre ele mesmo, feito um feto. O peso do desespero, a altura em excesso,A dureza do asfalto e a rudeza da quedaConjuraram-se para que o salto não fosse perfeito, apesar de eficaz. Esborrachei a cabeça, esmaguei pescoço e costelas, fiquei em bocados. Alguns de n&oac...  Ler Tudo >>

Guia para candidatos aos infernos II - Candidatos Iracundos

[28-10-2008] | Almeida Faria
De nós, os iracundos, que sabe quem prospera à custa dos infernos? Os profissionais da salvação da alma mentem a nosso respeito. Diz-se que o Rei dos Judeus expulsou, irado, os vendilhões do templo.Excelente exemplo! Sermos filhos da ira será defeito?  Há quem nos creia indignos de descer aos infernos. Há quem nos considere meros proletários do berro. É certo que os nossos guinchos são de bicho. Guinchamos pelo prazer da pura ira. Diante da mentira, a nossa irada ira desata a vomitar.E podemos até desatar às dentadas de tanta ira acumulada.Se não mordermos, espigam-nos picos na testa. Se não mordermos, nas nossas caras abrem-se fendas. Se não mordermos, espinhos de ferro esguicham-nos das pernas.Os mansos detestam descobrir-se nos nossos guinchos e gritos.Detestam ver em nós os seus dentes cerrados, os seus olhos vazios.Detestam ver em nós o seu pescoço em parafuso, as suas mentes retorcidas.Não é por sermos humanos que abdicamos do nosso direito ao grito. ...  Ler Tudo >>

Guia para candidatos aos infernos - candidatos coléricos

[04-09-2008] | Almeida Faria
Nós, os coléricos, temos a nossa própria honra.Sempre levámos a sério as ameaças dos livros sagrados. Sempre acreditámos que a cólera decidiria deste nosso lugar. Escolhemos, apesar disso, a grande recusa, dispostos a tudo. Ou foi ela a escolher-nos, dá no mesmo.Mostrámos aos doutores de todas as igrejas que desprezávamos as suas ameaças.Mostrámos aos donos do mundo o teor da nossa justa fúria.  Mostrámos aos timoratos que o medo é curável.Mostrámos ao nosso medo que não o tememos.Nenhum de nós aqui tem medo. Medo de quê?Dos homens de cornos e olhos de mocho? Dos grandes lagartos de línguas longas? Dos que têm enguias e cobras na boca?Dos que têm lábios de patas de polvo? Do dragões que vomitam fogo?Dos venenos? Dos monstros?A nossa cólera foi a nossa força. Almeida Faria...  Ler Tudo >>

Breves notas sobre Arte (49)

[27-01-2011] | Gonçalo M. Tavares
Festival de arte (proposta) Festival de arte que demora 3 minutos. Não por acidente imprevisto. É mesmo assim. Abre, e passados 3 minutos, fecha.Antes, durante semanas, o festival foi anunciado em todo o lado.Milhares de pessoas vão ao festival. Demora 3 minutos....  Ler Tudo >>

Breves notas sobre Arte (48)

[20-01-2011] | Gonçalo M. Tavares
Explicando às crianças Uma série:1, 1, 1, 1, 1, 1, 1, 1, 1, 1, 1, 1, 1, ... A arte é:1, 1, 1, 1, 1, 1, 1, 6, 1, 1, 1, 1, ... A arte não é:1, 2, 3, 4, 5, 6, 7,. 8, 9, ... E a arte não é:1, 6, 9, 7, 2, 4, 3, 2, 1, 6, 4, 3, ... A arte é: 1, 1, 1, 1, 1, 1, 1, 1, 1, A, 1, 1, 1, 1, 1, ... ...  Ler Tudo >>

Breves notas sobre Arte (47)

[13-01-2011] | Gonçalo M. Tavares
De onde se vê melhorO outro lado de tudo.  Brutalidade, grotesco Artes decorativas da guerra.(A cereja no olho vazado do cadáver)....  Ler Tudo >>

Breves notas sobre Arte (46)

[06-01-2011] | Gonçalo M. Tavares
Monumento possível, em pedra (1) Monumento instantâneo.Um segundo depois da inauguração, a destruição.  E se pensarmos na expressão de um rosto? (2) Monumento instantâneo.Um segundo depois da inauguração, a destruição....  Ler Tudo >>

Breves notas sobre Arte (45)

[30-12-2010] | Gonçalo M. Tavares
Tese Instrumentos como obra de arte (a sublime).Em síntese: a ferramenta que pintou “Mona Lisa” deverá ser vendido a um preço mais alto do que o próprio quadro.Comércio tanto da obra como dos instrumentos que a fizeram.O instrumento tem dentro aquela obra e tem dentro, em potencialidade, outras obras.20 é mais do que 1.(a quantidade e a Potência)....  Ler Tudo >>

Breves notas sobre Arte (44)

[23-12-2010] | Gonçalo M. Tavares
100 milagres Milagre vulgar.Industrializar os milagres.Reprodução mecânica dos milagres,(30 serigrafias de um Milagre. Não da representação de um Milagre; serigrafia do próprio Milagre). ...  Ler Tudo >>

Breves notas sobre Arte (43)

[16-12-2010] | Gonçalo M. Tavares
Uma estranheza Partícula colectiva. Escrever da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda? Actas da Fundação do final. Na exposição Encenação orgânica. Uma doença-ficção depois da visão de uma obra de arte....  Ler Tudo >>

Breves notas sobre Arte (42)

[09-12-2010] | Gonçalo M. Tavares
Linhas e números Imaginação quantitativa.Imaginação 7.E imaginação qualitativa.O torto, o recto, e o 36....  Ler Tudo >>

Breves notas sobre Arte (41)

[02-12-2010] | Gonçalo M. Tavares
Dois vazios Toda a matéria pode ser concentrada num ponto e todo o ponto pode ser concentrado até que fique nada e coisa nenhuma.A matéria, tal como a existência: extensões e contracções.É um vazio mais largo, a matéria; um vazio que ocupa espaço. Um vazio que não te deixa passar assim tão facilmente de um lado para o outro....  Ler Tudo >>

Breves notas sobre Arte (40)

[25-11-2010] | Gonçalo M. Tavares
Para um lado ou para outro A matéria é o alongar do nome até ao infinito.(Se multiplicarmos a palavra até ao infinito obteremos a matéria).A matéria como a palavra gorda, (gordíssima); a palavra no limite.A palavra absoluta: a matéria.Por outro lado: se esvaziarmos por completo a matéria obteremos a palavra dita, o sopro....  Ler Tudo >>

Breves notas sobre Arte (39)

[18-11-2010] | Gonçalo M. Tavares
Cálculos orgânicos Bebo dois cafés pelo preço de quatro.O meu organismo interioriza quatro cafés; fico, pois, muito desperto, muito atento ao mundo....  Ler Tudo >>

Breves notas sobre Arte (38)

[11-11-2010] | Gonçalo M. Tavares
Outra estética Nenhuma arte é boa quando vista com o estômago insatisfeito.A fome provoca uma perturbação localizada no estômago que se expande rapidamente para o resto do organismo.Provoca instabilidade e prostração.Com fome é impossível pensar-se noutra coisa que não em comida. Só a comida é bela; a estética torna-se pois outro assunto....  Ler Tudo >>

Breves notas sobre Arte (37)

[04-11-2010] | Gonçalo M. Tavares
Lengalenga Quanto menos interior, mais exterior.Quanto mais interior, menos exterior.Óbvio.Quanto menos se mostra, menos se mostra. ...  Ler Tudo >>

Breves notas sobre Arte (36)

[28-10-2010] | Gonçalo M. Tavares
 1-2 (2) O material da memória é a ficção.O material da ficção é a realidade....  Ler Tudo >>

Breves notas sobre Arte (35)

[21-10-2010] | Gonçalo M. Tavares
Assinar onde? Assinatura de artista.Assinar os acontecimentos; as acções.Assinar tudo o que o próprio corpo faz.Alguém que diga: eu sou o autor dos meus gestos.O autor da minha vida – Eu (quase).Eu sou um gesto. Assinei-o. ...  Ler Tudo >>

Breves notas sobre Arte (34)

[14-10-2010] | Gonçalo M. Tavares
Outra forma de funcionar e avariar Tecnologia abstracta.(Uma ideia é uma tecnologia abstracta). ...  Ler Tudo >>

Breves notas sobre Arte (33)

[07-10-2010] | Gonçalo M. Tavares
Sobre a Multiplicação Multiplicar é dividir.Multiplicar é diminuir.5 x 1 não é 5 mas 1/5.Se a unidade se pode reproduzir então não é unidade mas sim parte da unidade.Se a unidade se reproduz cinco vezes, cada uma das reproduções e o original não são unidades, mas 1/5 da unidade. E já não há original....  Ler Tudo >>

Breves notas sobre Arte (32)

[30-09-2010] | Gonçalo M. Tavares
Sobre uma metodologia Deslocalizar New York (fácil).Des-localizar o espaço (tirar um determinado espaço do seu sítio).Des-localizar o local.Um determinado espaço não ter espaço.Espaço perdido. Espaço à procura....  Ler Tudo >>

Breve Notas sobre Arte (31)

[23-09-2010] | Gonçalo M. Tavares
Programa Prefácio intermédio.Cada intervenção artística deve iniciar-se no final de um movimento rápido. Isto é: deve anunciar a sua chegada no momento em que termina....  Ler Tudo >>

Breve Notas sobre Arte (30)

[16-09-2010] | Gonçalo M .Tavares
1-2 A repetição da experiência é uma repetição ou uma nova experiência?A experiência da repetição é uma nova experiência ou é uma repetição?...  Ler Tudo >>

Breve Notas sobre Arte (29)

[09-09-2010] | Gonçalo M. Tavares
Silêncio O silêncio terá intensidade, graus?Abrir o silêncio, fechá-lo um pouco mais.Aumentar o silêncio, diminui-lo.    Corolário Nunca repetir o mesmo silêncio....  Ler Tudo >>

Breve Notas sobre Arte (28)

[02-09-2010] | Gonçalo M. Tavares
Projecto Fazer esculturas com fotografias.(O presente é feito com o passado).O que é a escultura? Agora.O que é a fotografia? Ontem. Corolário  A ideia é uma escultura que utiliza fotografias....  Ler Tudo >>

Breve Notas sobre Arte (27)

[19-08-2010] | Gonçalo M. Tavares
Concordar, discordar Concordar com as sensações.Discordar das sensações.O raciocínio que diz: Eu não quero sentir isto.A sensação que sente: Eu não quero dizer isto.Concordar é uma opção.Sentir é uma ordem.Concordar ou discordar é menor que Eu. Ou: Eu sou maior do que concordar ou discordar.Sentir ou não sentir, pelo contrário, é maior que Eu.Eu sou menor que sentir ou não sentir.(O raciocínio é dependente; a sensação é autónoma).Não faz sentido dizer: agora vou sentir isto....  Ler Tudo >>

Breve Notas sobre Arte (26)

[12-08-2010] | Gonçalo M. Tavares
Palavras e intimidade Se emagrecermos progressivamente o vocabulário chegaremos ao corpo.As emoções que sentimos dentro do organismo são sempre uma restrição de vocabulário.Sentir é uma síntese de muitas palavras, sem a utilização de qualquer palavra.Claro, então, que o texto sobre uma obra tem sempre palavras a mais (todas)(se queremos que os outros sintam).A crítica a uma obra de arte é a expressão pública de uma sensação privada(Wittgeinstein e o conceito de sensação privada)O número de palavras de um texto dá o número de palavras até ao corpo, dá o afastamento - as palavras como distância.(Para quê então falar? Só o muito privado é importante)...  Ler Tudo >>

Breve Notas sobre Arte (25)

[05-08-2010] | Gonçalo M. Tavares
Sobre a ordem das coisas Não faz sentido entregar um horário ao sol e pedir a este que o cumpra.A lógica e a ordem é 2ª; a natureza é 1ª.  ...  Ler Tudo >>

Breve Notas sobre Arte (24)

[29-07-2010] | Gonçalo M. Tavares
Emoções Um conceito emocional.(És obrigado a piscar os olhos, incomodado, quando fixas o centro da circunferência).Os números não são emoções, mas podem enumerá-los:1: desgosto2: alegria 3: angústia.De outro ponto de vista poderíamos dizer: é como desejar que o desgosto ou a angústia resolvam uma equação.Mas o que resolve uma equação é um número....  Ler Tudo >>

Breve Notas sobre Arte (23)

[22-07-2010] | Gonçalo M. Tavares
Multiplicar o essencial é impossível.É como multiplicar centros continuando a designar como centro os 5 centros, por exemplo.Porém existe um único centro, sempre.Multiplicar o essencial é tentar fazer a circunferência quadrada.Porém, é necessário muito tempo para que o quadrado, por si só, role.(Se a forma não nos obedece, nós obedecemos à forma, eis a síntese). ...  Ler Tudo >>

Breve Notas sobre Arte (22)

[15-07-2010] | Gonçalo M. Tavares
Pureza/impureza A impureza é apenas combinação.A pureza é apenas isolamento.Reduzir o erro (aumentar a pureza) é afinal aumentar o erro (aumentar o isolamento)....  Ler Tudo >>

Breve Notas sobre Arte (21)

[08-07-2010] | Gonçalo M. Tavares
Pureza/impureza A impureza é apenas combinação.A pureza é apenas isolamento.Reduzir o erro (aumentar a pureza) é afinal aumentar o erro (aumentar o isolamento)....  Ler Tudo >>

Breve Notas sobre Arte (20)

[01-07-2010] | Gonçalo M. Tavares
Inventar Uma máquina para raciocinar. Uma sirene que se ouve, o tráfego que se afasta A velocidade do morto. Duas mudanças O aéreo solidifica: a obra de arte nasce.O sólido evapora-se: a Natureza exerce o seu único poder (move-se). Acaso O acaso como o acontecimento onde duas paralelas se cruzam, ou o acaso como duas paralelas que se vêem uma à outra.Opção: o acaso não é tocar ou ser tocado, o acaso é ver e ser visto. ...  Ler Tudo >>

Breve Notas sobre Arte (19)

[24-06-2010] | Gonçalo M. Tavares
Processo difícil Engordar o erro até à Beleza.Cortar uma máquina em dois com uma lâmina.Fazer duas máquinas de uma máquina a partir da lâmina.Duas máquinas funcionais e úteis.Insistir no processo:Cortar em dois os dois bocados que são duas máquinas e que tiveram origem na máquina original: obter quatro máquinas funcionais e úteis.Cortar cada uma destas quatro máquinas em duas: obter oito máquinas funcionais e úteis.Depois passar para dezasseis. Depois para trinta e duas.Chegados aqui invertemos o processo: utilizando uma cola forte passamos de trinta e duas máquinas para dezasseis, depois para oito, depois para quatro, depois para duas (cada uma sempre funcional e útil), e no fim colamos as duas máquinas e voltamos a ter uma única máquina, funcional e útil. ...  Ler Tudo >>

Breve Notas sobre Arte (18)

[17-06-2010] | Gonçalo M. Tavares
Veloz e lento Uma velocidade monstruosa é uma velocidade torta, é uma velocidade em zig-zag.Uma velocidade em zig-zag atrasa-se, é lenta.Uma velocidade monstruosa é uma lentidão.Uma velocidade monstruosa é uma lentidão perfeita.Em todos os sentidos acontece isto: o lindo é certo, o monstruoso é errado. Claro Claro que arte não é velocidade nem lentidão; é monstro.(Certinha-certinha é a realidade)...  Ler Tudo >>

Breve Notas sobre Arte (17)

[10-06-2010] | Gonçalo M. Tavares
Estratégia simbólica Um cubo simbólico.Ou então: um algarismo simbólico.Ou ainda: uma palavra simbólica.Como tornar abstracto o que já é abstracto?Só recorrendo ao concreto, ou seja:Um cubo simbólico - por exemplo: o corpo de um homem baixo e gordo.O cubo simbólico.O número 2 simbólico - por exemplo: um homem com uma corcunda.Transformar os corpos em símbolos é o último objectivo dos números.Mas os números, em si, não podem ter objectivos, senão não seriam símbolos, mas sim utilizadores de símbolos.Os números não são utilizadores de símbolos. Os números são utilizados.Simbolizar os números é inventar palavras mais complexas para nomear o mesmo.Uma palavra é um símbolo, uma palavra complexa (nas letras e não no significado) é o símbolo de um símbolo.Aos utilizadores de cubos simbólicos só poderemos responder à mestre Zen: com o murro na face, em cheio, com intensidade e velocidade.Eles queriam mais símbolos, mas nós: murro na face....  Ler Tudo >>

Breve Notas sobre Arte (16)

[03-06-2010] | Gonçalo M. Tavares
 Projecto para o futuro  O quadro é um espaço que se privilegia em relação a outros espaços.O quadro é consequência de uma hierarquia dos materiais.O quadro é dizer: isto é importante; vejam, olhem; isto é importante.Dizer: isto é importante, é dizer: aquilo não é importante.O quadro é a desvalorização de tudo o que não é quadro;O quadro é a desvalorização da realidade; O quadro é dizer: olhem para aqui e portanto é dizer: não olhem para ali.O único quadro a utar (a única pintura) é o que coloca a moldura à volta de toda a realidade. Fazer um outro quadro é exercer poder, exercer força, obrigar a olhar.Cada moldura menor é uma arma que nos apontam à cabeça.(e toda a obra de arte é isto)Conclusão:Não fazer nenhuma obra de arte.Olhem para todo o lado. Tudo é importante.Ou seja: não interferir na realidade.No limite é não agir, porque qualquer acção é dizer: esta acção importante enquanto as outras não são.(Dizer algo é dizer que o que se diz é importante e o que não se diz não é).É o Tao...  Ler Tudo >>

Breve Notas sobre Arte (15)

[27-05-2010] | Gonçalo M. Tavares
Futuro A estratégia dos objectos.Exemplo: um objecto por dentro.Cada objecto exterior tem objectos por dentro: o futuro.A forma modificada, por exemplo o copo que caiu no chão e se parte não é mais do que um objecto interior que se torna, subitamente, exterior.Cada objecto tem dentro dez mil objectos interiores; todos eles são possibilidades.O futuro vem e opta por um objecto interior: a alteração da forma é isto.Os factos, os actos, os acontecimentos.Tudo o que acontece é um objecto que antes existia dentro e agora existe fora. O futuro vem de dentro para fora; o futuro não vem do exterior, não vem de fora; o futuro vem do interior do que existe.Não existe futuro prévio (todo o exterior é também anterior), mas sim futuro interior (todo o interior é o que vem aí, é posterior).O exemplo: a semente, e dentro dela a árvore....  Ler Tudo >>

Breve Notas sobre Arte (14)

[20-05-2010] | Gonçalo M. Tavares
Os acontecimentos O corpo é um palco.Os actores entram; interpretam o papel das personagens e saem.Os acontecimentos não são o palco nem são o corpo. Um outro livro Leitor do espelho:eu sou um outro que me olha. Sobre alguém  Empatia não é degolar a cabeça do outro e dizer: Ai! ...  Ler Tudo >>

Breve Notas sobre Arte (13)

[13-05-2010] | Gonçalo M. Tavares
Um, dois tempos Acção prévia ao tempo,acontecimento antes do tempo.Existe o facto (cruzamento entre duas coisas) e depois, sim, surge o Tempo.Tempo atrasado,Tempo lento, tempo rápido.Dizer tempo lento ou rápido é fazer referência a um outro tempo perante o qual este é lento ou rápido.O tempo de cada corpo é o segundo tempo, o primeiro tempo é independente dos corpos.O primeiro tempo é espírito, o segundo carne.O segundo tempo pode encontrar-se atrasado ou adiantado em relação ao primeiro tempo.O primeiro tempo é o espírito e é exacto.Agir bem é a sincronização do corpo com o tempo espiritual.O corpo cruza-se no acto com o espírito universal: agiu no tempo exacto.A sabedoria é relógio certo....  Ler Tudo >>

Breve Notas sobre Arte (12)

[06-05-2010] | Gonçalo M. Tavares
Três, quatro, cincoSérie improvável: uma série de suicídios no mesmo corpo.sólidoMaterialismo gasoso.Exibição do materialismo em forma de vapor.Por dois ladosProcesso-escultura de alcançar a velocidade eprocesso rápido de alcançar a escultura.Por dois lados (2)A lâmina no corpo saudável é crime,a lâmina no corpo doente é medicina.  ...  Ler Tudo >>

Breve Notas sobre Arte (11)

[29-04-2010] | Gonçalo M. Tavares
Sobre o som Gravar um segundo do som de Tudo.200 Kg de som.Ou ainda: o alcance do som, a distância do som, 30 metros de som. Sobre o som (2) Encontro entre dois sons.Discussão sobre o autor: quem é o autor daquele som?Se 5 homens, lado a lado, não fazem nenhum som quem é o autor desse silêncio?O autor do som é um, o autor do siêncio é todos. ...  Ler Tudo >>

Breve Notas sobre Arte (10)

[22-04-2010] | Gonçalo M. Tavares
metáforas O instante actual como metáfora do corpo.O corpo como metáfora do instante actual. Vanguarda Instalar a vanguarda do meio.A vanguarda do centro.O artista que prossegue na frente porque prossegue no centro. O alimento O alimento dos artistas é o pão, o leite, o bife, o peixe e o arroz, etc. ...  Ler Tudo >>

Breve Notas sobre Arte (9)

[15-04-2010] | Gonçalo M. Tavares
O que é necessário é estar atento Isto não pode insignificar nada; pois tudo em todo o lado tem sentido: nada de insignificado existe nas coisas. Projecto  Acumular até atingir o Nada.Buraco na água. Realidade, jornais Cobertor sonoro.Zero dilatado.A verdade como uma das ficções da mentira.O jornal como periódico da realidade.A realidade como periódico do jornal;A realidade é um jornal diário;A realidade é uma informação instantânea.A realidade tem informação excessiva.(Esculpir um trapézio: explicar a realidade é como querer esculpir um trapézio. O essencial (o movimento) não aparecerá na escultura.)Realidade baixa e Realidade alta....  Ler Tudo >>

Breve Notas sobre Arte (8)

[08-04-2010] | Gonçalo M. Tavares
Outro museu Museu para pobres.Exibe, atrás de vidros: comida quente e cobertores, casas com telhado.Museu para pobres.(Os bilhetes de entrada são invulgarmente caros.) Definição Esta frase de Carl Andre:“um homem sobe uma montanha porque a montanha estava ali e um artista fez uma obra de arte porque ela não estava ali”.A arte é: descobrir o invisível.Tirar a venda que cobre o visível.(Desvendar) ...  Ler Tudo >>

Breves notas sobre Arte (7)

[01-04-2010] | Gonçalo M. Tavares
Museu O museu de museus.Um museu onde se vêem museus.É impossível ver obras. Expõem-se museus. Só temos acesso a Museus.Ao seu exterior.Um museu onde vemos fachadas de museus.O Museu como arte; para quê as obras? Catálogo com o rosto dos trabalhadores que construíram o museu. Variante:exibir a fotografia dos porteiros de museus famosos.Os vendedores de bilhetes.O catálogo da exposição mostra: as faces dos porteiros, de cada museu, e a respectiva fachada do Museu....  Ler Tudo >>

Breves notas sobre Arte (6)

[25-03-2010] | Gonçalo M.Tavares
Outro museuMuseu para pobres.Exibe, atrás de vidros: comida quente e cobertores, casas com telhado.Museu para pobres.(Os bilhetes de entrada são invulgarmente caros.) DefiniçãoEsta frase de Carl Andre:“um homem sobe uma montanha porque a montanha estava ali e um artista fez uma obra de arte porque ela não estava ali”.A arte é: descobrir o invisível.Tirar a venda que cobre o visível.(Desvendar) multidãoDesenvolver a ideia: multidão privada....  Ler Tudo >>

Breves notas sobre Arte (5)

[11-03-2010] | Gonçalo M. Tavares
Erro evidente Baptizar o movimento é errar.Não é possível baptizar o movimento.A modificação modifica-se.Baptizar é dizer: é estável.(Baptizar o movimento é um paradoxo - tal como movimentar o nome.) No meio O murro enquanto dúvida.A hesitação enquanto murro(os paradoxos)....  Ler Tudo >>

Breves notas sobre Arte (4)

[04-03-2010] | Gonçalo M. Tavares
Erro evidente Baptizar o movimento é errar.Não é possível baptizar o movimento.A modificação modifica-se.Baptizar é dizer: é estável.(Baptizar o movimento é um paradoxo - tal como movimentar o nome.) No meio O murro enquanto dúvida.A hesitação enquanto murro(os paradoxos). ...  Ler Tudo >>

Breves notas sobre Arte (3)

[25-02-2010] | Gonçalo M. Tavares
Destruição e estranhezaDestruição de categorias como método para compreender e analisar (as categorias da realidade).Destruir pode funcionar como método.Descategorizar é outro método.Modificar fronteiras, dimensões, escalas, funcionalidades, referências.Estranhar é a primeira fase do compreender diferente.Quem não passa pela fase de estranhar algo – uma realidade – compreenderá sempre de igual forma.Não estranhar é não aprender. É repetirÉ aceitar a estupidez....  Ler Tudo >>

Breves notas sobre Arte (2)

[18-02-2010] | Gonçalo M. Tavares
Métodos Desregular para compreender.Metamorfose.Modificação de proporções e escalas.Variações, combinações, fronteiras.  Abstracto e orgânico Um cavalo abstracto que relincha.Abstracção com cheiro.Um cubo com cheiro,uma linha recta com cheiro.Cheiros diferentes: o triângulo e o rectângulo.A forma é cheiro; o cheiro é forma.Um cheiro triângulo e um rectângulo-cheiro. ...  Ler Tudo >>

Breves notas sobre Arte (1)

[11-02-2010] | Gonçalo M. Tavares
O outro lado: Análise topográfica do tempo.O relevo do tempo. As zonas aquáticas do tempo.A latitude e a longitude do tempo.  Cronometrar o espaço.Quantos minutos tem o espaço?Quantos minutos tem um lugar? Um exacto lugar?Um ponto? Quantos minutos tem um ponto? ...  Ler Tudo >>

Linguagem e Matemática II

[17-02-2009] | Gonçalo M. Tavares
Voltemos à linguagem fraccionada – disse o senhor Perec. - Esta linguagem fraccionada poderá ser muito útil nas frases burocráticas e legais, onde o que se visa é a objectividade absoluta e a eliminação de qualquer dúvida de interpretação, mas também pode ser importante para a poesia. A palavra com a ponderação matemática certa – disse o senhor Perec - é também exemplo perfeito de uma mestria na arte da linguagem, inseparável do homem-poeta.Um exemplo:Os sinais bateram/73 sobre a mesa/2 e o poeta soube interpretá-los, pegando/73 neles com a minúcia que só o entendimento da beleza dá.Isto é (tradução da linguagem fraccionada para linguagem corrente): Apesar dos sinais do mundo baterem tão suavemente (como é o bater/73) sobre a pequena mesa (mesa/2) o poeta soube pegar neles (nos sinais) com delicadeza de pormenor (pegar/73), pois havia sido treinado durante anos a governar de modo eficaz os raros momentos de beleza que os dias, por vezes, têm. Na mesma linha de raciocínio (fracção como ...  Ler Tudo >>

A água e a sua força (cont.)

[20-01-2009] | Gonçalo M.Tavares
De novo na casa de banho, olhou para o fundo da sanita e viu a pedra exactamente no mesmo sítio. Olhou-se ao espelho. Numa prateleira, entre outros objectos, uma máquina de barbear. Esboçou um sorriso estranho, nada racional. De repente, pegou na lâmina de barbear e passou-a com força pela face do lado esquerdo. O sangue surgiu de imediato. Fez o mesmo do outro lado da cara. Duas passagens rápidas, forçando a lâmina contra a pele; sangue de novo, agora bastante mais. Pousou a máquina de barbear e parecia agora não saber o que fazer. Está em casa, mas está perdida. Fixa-se de novo na pedra que permanece no fundo da sanita. O sangue do lado direito da cara escorre para o pescoço. Ela afasta o roupão, senta-se na sanita e começa a urinar. Agora, naquele momento preciso, alguém começa a tocar repetidamente à campainha da porta, alguém que está desesperad...  Ler Tudo >>

A água e a sua força

[19-12-2008] | Gonçalo M.Tavares
Alguém atirou uma pedra da rua e partiu o vidro da janela. Lá de fora ouve-se:- Puta!depois não se ouve mais nada.A princípio ela não se mexeu. Sobre os pés, mas como que suspensa. A dois passos dos vidros partidos da janela ganha coragem para começar um movimento.Obrigou-se a fazer qualquer coisa. Instintivamente, o primeiro gesto que fez foi baixar-se para agarrar a pedra. Depois de a ter na mão dirigiu-se à casa de banho, levantou o tampo da sanita e deixou-a cair lá para dentro. Qualquer coisa se partiu mas ela estava demasiado longe dali para se importar com sons tão pequenos e estragos tão insignificantes.Puxou então o manípulo da água. Queria fazer desaparecer pela sanita aquela pedra. Quando a água acalmou ela viu a pedra ainda imóvel sobre o fundo branco. Olhou longamente para a pedra. Não era grande. Tinha arestas irregulares e um tom cinzento que n&at...  Ler Tudo >>

Na auto-estrada podemos guiar mais rápido II

[13-11-2008] | Gonçali M. Tavares
(continuação do texto anterior)Fascinada pela neve, ela continuou a aproveitar o toque na cara dos flocos que ainda não haviam derretido. Depois, de súbito, parou, como se o marido só naquele momento tivesse falado.  Porém, ele estava já ao pé da porta. Os olhos cansados, mas esforçando-se para parecerem felizes, para parecerem corajosos, para parecerem mais novos. Mas os olhos estavam velhos.tenho de irdisse ele novamente.estão à minha espera.A mala, agora esquecida, continuava em cima da mesa.Ele disse:não venhas até à portaE depois disse:faz-te mal.Ela, parada a meio da sala, fez uma breve declaração de amor usando só uma palavra. Ele abriu a porta e saiu. Ele - o marido, agora longe - e um amigo estão numa casa de banho pública no meio da auto-estrada. Sobre a visita à mulher o colega nada havia perguntado. Há coisas que n&atil...  Ler Tudo >>

Na auto-estrada podemos guiar mais rápido

[23-10-2008] | Gonçalo M. Tavares
 Neva abundantemente lá fora. Ela vê a neve, à janela, e sorri um pouco, com esforço.Daí a instantes começa a vomitar de novo. As convulsões do corpo impressionam. É incontrolável. O vómito é espuma, não há carne, às vezes sangue, raramente uma coisa sólida.Ela encontra-se no meio da sala. Os pés tremem e algo dentro da cabeça bate contra o crânio. Sente-se tonta. Aproxima-se lentamente de uma cadeira e ainda mais lentamente deixa-se cair.De súbito, o barulho de uma chave na porta. Está sentada, vira-se. É ele, o marido, e traz uma mala na mão direita. Como estás, perguntou; ou então ele, o marido, não disse nada - só olhou.Mesmo que tivesse existido pergunta, ela não precisava de responder. O cheiro a vómito sente-se. Ele olha para a casa de banho e sorri. Depois, na casa de banho, p&otild...  Ler Tudo >>

Linguagem e Matemática

[07-09-2008] | Gonçalo M. Tavares
  Contra-linguagem. Pensemos no simétrico nos números, como o número negativo –2 em relação ao número positivo +2. Em primeiro lugar, poderá parecer que há números negativos, mas nunca palavras negativas. Porém, podemos pensar nisto, por exemplo: existe a palavra terra e poderá existir a palavra negativa –terra. +terra – terra = zero (0)-cão + água + copo = copo com água sem cão. (Ou: copo com água à espera de cão).Explicando: -cão não é igual a zero ou a silêncio. Significa, sim, que o cão está ausente. Isto é: ameaça estar presente. Designar uma ausência específica, particularizá-la, é designar uma possível presença.Portanto: qualquer palavra, afinal, pode ser pensada como tendo um negativo:mesa e -mesa (retirámos a mesa da sa...  Ler Tudo >>

A prisão do autor, sobre o livro «A Prisão do ético», de Paulo Rodrigues Ferreira

[25-05-2009] | valter hugo mãe
Chegou-me às mãos há poucos dias o livro deestreia de Paulo Rodrigues Ferreira, um jovem nascido em 1984, natural de TorresVedras, a viver em Lisboa que, depois de editar um breve e-book com chancela daMinguante, entra magnificamente na Livrododia Editores. «A prisão do ético»assim se chama este que considero o anúncio de um autor a não mais perder devista. São cerca de 120 páginas de textos curtos, divididos em duas partesdistintas, «O livro de Pedra» e «Criaturas», que acusam uma destreza admirávelna criação de uma obra que traz ao de cima a ficção com tom de crónica ou breveensaio, assim como criando uma filosofia da escrita e do saber que não perdenunca o pendor atractivo do conto (do micro-conto, como se diria no Brasil). É fácil de referir a obra de Gonçalo M. Tavares quandose pensa sobre esta de Paulo Rodrigues F...  Ler Tudo >>

O lugar do acolhimento, sobre a pintura de Isabel Lhano

[27-04-2009] | valter hugo mãe
O trabalho de Isabel Lhano tem sido sempre o defranco acolhimento do seu interlocutor, procurando criar empatias e afectos quese fundem numa visão positiva e libertadora da vida. A benignidade que inspiraa maioria das suas telas é sobretudo uma atitude ética que procura no homem umaredenção – embora muito pragmática, terrena e não mística –, claramenteresultando numa estética do belo, como anteriormente já escrevemos. Acompanharo trabalho desta pintora tem sido um exercício de crescente entusiasmo, queadvém do facto de a encontrarmos em constante procura de um novo modo de exporas suas magníficas capacidades técnicas no encalço de complexas representaçõesda figura humana, sempre presente, sempre entronizada, seja a partir da suarobustez, seja a partir da sua delicadeza. A recondução do processo aos extractos do corpo, como diria Bernard No&eum...  Ler Tudo >>

Declaração de Amor a Maria do Rosário Pedreira, no dia de S. Valentim de 2009

[14-02-2009] | valter hugo mãe
Não tenho outro modo de começar um texto abordando, ainda que brevemente, a poesia de Maria do Rosário Pedreira sem dizer de imediato que a amo, à Maria do Rosário e à sua poesia, inequivocamente. Por mais inusitada que seja uma apresentação assim, é a mais pura verdade, e a verdade tem tudo de científico, como é bom de entender. Cientificamente, posso agora explicar que quando o meu ex-sócio numa aventura editorial me disse que tínhamos visita marcada à casa desta poeta, eu glorifiquei o dia em que o conheci porque andava com o volume A casa e o cheiro dos livros atravessado no coração há muito e não havia maneira de o tirar ou fazer com que me queimasse menos. A Margaret Atwood diz que querermos conhecer um autor porque se gosta de ler os seus livros é como querer conhecer um pato porque se gosta de foi gras. Mas eu, que adoro a Margaret Atwood, acho qu...  Ler Tudo >>

Fruto maduro, sobre «Carreira do Fruto» de Juan Carlos Reche

[10-02-2009] | valter hugo mãe
Não podem deixar de ser evocados os nomes de Eugénio de Andrade, Al Berto e Luís Miguel Nava depois da leitura do livro de Juan Carlos Reche que a Quasi publicou. Há uma solaridade marinha e uma tonalidade sapiente que, aliadas a uma cândida resignação ou difícil esperança, tornam os poemas um lugar muito sensível, delicado, como poucas vezes resulta assim.Claro que falo de um poeta espanhol (Córdova, 1976) e que as suas referências mais directas talvez devessem ser encontradas na abundante e maravilhosa poesia do seu país, mas é por esta comunhão de estéticas, esta sintonia grande com a que pode ser também uma tradição poética portuguesa, que me compadece verdadeiramente a leitura deste livro. Juan Carlos Reche coloca-se, belissimamente traduzido por Pedro Santa María de Abreu, como alguém que nos diz respeito pelo lado mais íntimo: o modo de sentir; um modo de sentir ibérico, arriscaria agora. Acontecem versos simples – daqueles aparentemente simples, quero eu dizer –, versos que par...  Ler Tudo >>

Câmara de Lobos

[05-02-2009] | valter hugo mãe
É preciso que se mude urgentemente na cabeça dos portugueses o modo de pensar em Câmara de Lobos. Se outrora aquele foi o lugar de tantos receios, hoje como que emerge de uma segunda forma para se apossar dignamente de um imaginário romântico que envolve a braveza das suas gentes com a passagem impressionada de ilustres visitantes num espaço geográfico belíssimo, como é apanágio da ilha da Madeira. Câmara de Lobos é ilha outra vez por se fortalecer admiravelmente contra tudo quanto desfavoreceu aquele lugar e gentes durante tanto tempo, criando infra-estruturas de primeiro nível, bem como devolvendo à luz do dia os caminhos mais escuros – e, ao mesmo tempo, mais apetecíveis – do concelho. Neste sentido, Câmara de Lobos demonstra a capacidade rara de se regenerar através de intervenções em que a vanguarda da arquitectura e da engenharia vão ...  Ler Tudo >>

Nenhum perdão ao leitor - sobre «Para que ninguém sobreviva ao perdão», de Pedro Gil-Pedro

[20-01-2009] | valter hugo mãe, valter hugo mãe
Há uma violência fundadora de toda esta poesia, uma preferência clara pelo enunciado como evocação impiedosa, ainda que colorida por expressões que, por vezes imediatamente pela fonética, induzem a uma ideia de beleza. Sim, também estaremos no domínio do belo grotesco, o fascínio nada raro que tanta literatura e autores nutrem pelo lado negativo da vida e que leva a uma estética do escuro, visceral e eloquentemente assombrosa, como se da evocação das verdades primordiais e proibidas sempre se tratasse. Mas antes da beleza, ainda que grotesca, gostaria de frisar aquela ideia da violência como ambiente ou mensagem fundamental. É que o tipo de discurso desta poesia, a expressão difícil e feita de palavras desusadas, especializadas ou metaforizadas, é já por si um acto de violência, assumindo o papel do poema mais pelo lado da rejeição do leitor do que pelo seu acolhimento. De facto, a atracção que os poemas hão-de exercer sobre nós radica em dois propósitos: essa ilusão primeira de um cer...  Ler Tudo >>

2008 em miúdos e de modo parcial

[05-01-2009] | valter hugo mãe
20 livros em 2008 «O arquipélago da insónia», de António Lobo Antunes, Dom Quixote «O amante japonês», de Armando Silva Carvalho, Assírio & Alvim «Um dia na praia», de Bernardo Carvalho, Planeta Tangerina «Logo, em Porto Formoso», de Carlos Mota de Oliveira, edição do autor «O filho eterno», de Cristóvão Tezza, Editora Record «Metal sem húmus», de Dércio Braúna, 7 Letras «Não é preciso gritar», de Eduarda Chiote, Campo das Letras «O Senhor Breton e a entrevista», de Gonçalo M. Tavares, Editorial Caminho «A faca não corta o fogo», de Herberto Helder, Assírio & Alvim «As 3 vidas», de João Tordo, Qudinovi «Efeito Borboleta e outras histórias», de José Mário Silva, Oficina do Livro «A viagem do elefante...  Ler Tudo >>

Maldoror de Lautréamont visto pelos Mão Morta

[17-12-2008] | valter hugo mãe, valter hugo mãe, valter hugo mãe, valter hugo mãe
O rock português encontra nos Mão Morta o seu caso mais estruturado. Nenhum outro projecto alia, com a mesma destreza, a aposta permanente no risco – e o rock tem de ser arriscado –, à garantia de qualidade. Com estas duas premissas, a de não sabermos nunca o que vão fazer a seguir, e a de ser certo que o que farão não nos desiludirá, a banda justifica uma longevidade invejável e tem de orgulhar-se do culto manifesto que permanece numa segura legião de fãs. Ao longo de quase 25 anos de percurso, os Mão Morta criaram um sem número de temas que, dentro do underground possível num país pequeno como o nosso, e por vezes até no mainstream, ficaram a representar as novas gerações, influenciando tantos outros artistas, e não apenas músicos (e por favor deixem-me já incluir neste contingente). Fizeram-no pela eficácia das suas composições, obviamente, mas parece-me inegável que o que blindou estas composições e as foi tornando infalíveis passa pela inteligência conceptual que o grupo soube pre...  Ler Tudo >>

Génios Casmurros, ou os Tindersticks ao vivo em Genebra, 6 Dezembro 2008

[09-12-2008] | valter hugo mãe
É claro que os Tindersticks estão bem mais velhos e já passam grandemente pela fase casmurra de não quererem revisitar insistentemente os antigos êxitos, sobretudo para nos obrigarem a entender que as canções dos últimos discos também são excelentes. Bem, vamos a ver, não são tão excelentes quanto as antigas, e algumas até são más, mas, nas cabeças desta gente outrora e momentaneamente genial, voltar ao passado e viver dessa glória é render de modo humilhante, pelo que o concerto da banda no passado dia 6 (de Dezembro), na célebre Usine de Genebra, foi uma longa caminhada por coisas boas e alguma treta dos discos recentes até que, para gáudio do público fanático, se chegasse à razão, para o fim do espectáculo, com a interpretação de «She’s Gone», «My Sister»...  Ler Tudo >>

O homem que vê sereias, sobre As Sereias do Mindelo, de Manuel Jorge Marmelo

[04-12-2008] | valter hugo mãe, valter hugo mãe
Aquilo de que mais gosto nos livros de Manuel Jorge Marmelo é o embaraço da alma humana na sua perspectiva mais auto-consciente e crítica de si mesma. O ímpeto do indivíduo como seu pior inimigo, desmotivando-se e esperando de si muito menos do que seria de esperar.O embaraço será uma palavra adequada para definir o constante da frustração na figura do narrador, personagem principal, deste As Sereias de Mindelo. As situações descrevem-se pelo seu cariz mais inconsequente e quantas vezes casual, acusando sempre uma inércia grande e até uma convicção de que valerá pouco qualquer tentativa para a felicidade porque, ab initio, não são para si as glórias. Nesta elaboração disfórica do narrador, que significativamente é um escritor, reside o grande trunfo deste livro que, mais do que importar por ilustrar as capacidades sedutoras das mulheres cabo-verdianas, importa pela ironização do papel do escritor, aqui despido de qualquer crédito ou honraria.No excesso de auto-consciência de que falei,...  Ler Tudo >>

O Voo Ordinário do Odor e das Transparências

[11-05-2009] | Vanessa de Oliveira Godinho
Estava tudo tão transparente! Deitou-se no suor da pedra e adormeceu. A pequena ponte de madeira, os chinelos, o aguado sal do mar, olhavam a baía de Luanda de olhos semicerrados. Dali a um bocado poderia chover.  As chuvas de Abril nem sempre eram de gotas mansas, poderia descer daquelas nuvens de algodão, não apenas peixes voando à sombra de pássaros caçadores, poderia cair daquelas nuvens limpas, uma cascata de aguas cinzentas e ruidosos rugidos de vento. Mas a hora ainda não era mais, do que uma vaga possibilidade. Por isso deixou-se ficar deitada na ponte, rodeada da música calma dos barcos e de um céu vagamente sonolento.  Um sabor delicado a alperces soltou-se-lhe da blusa. Sabor atrevido, com raízes de trepadeiras e asas de pelicano, ensaiou um voo por cima do barulho das gruas, colorindo de laranja os tons tardios da tarde.  Passou o tempo, tão devagar, no rosto do sol. Troca o p...  Ler Tudo >>

Livro do Desejo - primeiro capítulo

[15-09-2008] | Casimiro de Brito
Arte regendus amor.Ovídio.Quando o amor te acenar...segue-o.Khalil GibranA morte não existe.Tudo é sexo e canto.Livro das QuedasCAPÍTULO IA terra é feminina“As vossas mulheres são para vós como a terra.” Alcorão, II, 223. A terra é feminina, a terra é caótica e pertence, naturalmente, ao reino das mulheres. Floresce nelas o enigma do mar. A morte ao vivo. O mundo pertence à morte. Quando nasci já estava feito. Perfeito. Preparado para a morte — para regressar ao caos. A este caos vivo em que vivo e raramente se vê. Havia que regressar atrás e o caminho era e continua a ser o corpo ardente e húmido das mulheres. São elas quem, mais do que inspiram, escrevem o que vai ser, eu não sei, este livro.Regresso, anos depois, ao meu diário. Quantas vezes me caiu o coração? Deixei-o em deriva e assim o quero. Vivi tormentosas sepa...  Ler Tudo >>

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Editor: António Manuel Pacheco

Tua coxa é lisa


Tua coxa é lisa, o lado de dentro. Você é peixe de uma única escama, liso com ela e sem ela. Meus dentes não te rasgam, escorregam, escoriar tuas pernas é um descuido que me agrada. A mulher raspa tua cabeça, dinâmica debaixo d’água pra te salvar das Iemanjás. Azar dela, eu não preciso de oxigên...  Ler Tudo >>
[04-02-2012]  |  Andréa del Fuego
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Do "Livro das Pequenas Coisas"


5

Só o canto, que nem sei o que seja, me possui. Como se houvesse aqui uma faúlha de eternidade.

Casimiro de Brito
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[03-02-2012]  |  Casimiro de Brito
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Entreacto


Repassada do desejo daqueles risos que se perderam e da lembrança dos encantos que nunca chegaram a acontecer, está a casa, palco deserto, onde outrora fantoches ensaiavam uma monótona coreografia. Aí, já não cabem as aparentes histórias nem o som de vidas a fenecer. Ouve-se, somente, o rangido ...  Ler Tudo >>
[02-02-2012]  |  Julieta Ferreira
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Ohne Wasser


Ninguém sabia por que ela criava amebas ambíguas no aquário.  Não tinha peixes.   Com a sua cara de sardas, frequentava o Café Flor e sorvia Kir Royal em copo de Campari.  Sentia o beijo lambido que o argelino lhe dera na orelha, ainda de manhã.
Ele vestia black-tie.
Ela mal sentia a boca ...  Ler Tudo >>
[01-02-2012]  |  Kátia Bandeira de Mello-Gerlach
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Bomba atómica


A bomba vai explodir. Já está armadilhada. Só falta digitar o código de acesso e premir o botão.
— Vou-te deixar.
D. sufoca no ar que o rareia e leva as mãos ao peito. A dor fragmenta-se em inúmeros pedaços de amor tóxico. D. cai no soalho, fulminado por palavras terroristas, uma bomba at...  Ler Tudo >>
[31-01-2012]  |  Bruno Barão da Cunha
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Anotações


Ver é diferente de dizer o que se vê. Ver apenas, não incomoda o mundo. O homem está no remate da sua vida, mesmo que ignorasse como dedilhar o tempo há um espelho na parede, antes usado sobretudo para o ensaio de esgares mulherengos. Esse artefacto tem-lhe servido para desconvocar o eco da casa...  Ler Tudo >>
[30-01-2012]  |  Gabriela Ludovice
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Tintureiro


O china era mais cuidadoso com o ferro de passar. Seu empregado, ao contrário, usa-o como se fosse um trator. O resultado são as feridas em minhas costas. Às vezes, ele joga água em excesso sobre a roupa, e o contraste com o ferro quente tem-me provocado constipa&cced...  Ler Tudo >>
[29-01-2012]  |  Álvaro Cardoso Gomes
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O adeus


Nos clássicos movimentos de um cumprimento, a mão do doutor Proença desprendeu-se. Acidente: que, no aperto de dona Josefa, não houve ardor.
Ao sentir coisa grudada aos dedos, num gesto de automática defesa a senhora sacudiu. Projectada, a mão do doutor Proença caiu, enérgico desamparo, no em...  Ler Tudo >>
[28-01-2012]  |  Augusto Baptista
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Correspondências

Uma viagem à índia - 13

O tédio e a melancolia contemporâneos juntaram-se nesta viagem à Índia para caminharem em direção à explicação sobre o que é a viagem. A contemporaneidade dá justificação a tudo: ao bom, ao mau, e a esse ponto zero, nulo e justo, o tédio, que consome o homem. As paixões, os homicídios e os senti...  Ler Tudo >>
[05-08-2011]  |  Susana Leite
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Uma viagem à índia - 12

"[...]a verdade é o dinheiro." CantoX, 16   "Ea estranheza é esta: mais contida fica a prostituta à medida que o vinhoavança." CantoX, 22   "Opior sítio para estar vivo é entre aquilo que um dia nos exige e aquilo que oeter...  Ler Tudo >>
[26-07-2011]  |  Susana Leite
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Uma viagem à índia - 11

"Entre  dois cães raivosos em batalha, não há espaço para a pausa."Canto IX, 3 "[...] o melhor lado não é perfeito, porque é lado - e um lado tem sempre o lado oposto."Canto IX, 33 "O inesperado insinua-se no que parece definitivo e ninguém se conhece antes de morrer. Ámen.&...  Ler Tudo >>
[19-07-2011]  |  Susana Leite
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Uma viagem à índia - 10

"O que é o passado? Tempo que cada vez ocupa menos espaço [...] O presente - agora neste momento - ocupa todo o espaço que nos rodeia." Canto VIII, 2 "Núpcias da História com a Imaginação provocaram mais filhos e cópulas divertidas do que núpcias da Verdade com a boa memória[...]; mas...  Ler Tudo >>
[12-07-2011]  |  Susana Leite
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Andrei Rodosski – Entre escombros e flores, não deixar que a chama se extinga

Neste ano, em que se assinalam 95 anos sobre a morte de Mário de Sá-Carneiro (26 de Abril de 1916), foram editados, em São Petersburgo, no volume XXVI da revista literária “Sfinx” (“Esfinge”), 10 poemas do escritor, traduzidos em russo (“Álcool”, “A queda”, “Nossa Senhora de Paris”, “Salomé”, “Certa...  Ler Tudo >>
[10-07-2011]  |  A. L. Simões Gamboa
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Uma viagem à índia - 9

"A idade certa para conquistar o mundo é hoje. O homem levanta as interdições, avança, e quando se prepara para saltar: cai."Canto VII, 2 "Cair como a folha da árvore, tranquila e lenta, e subir como certos animais - a águia ou o avião guerreiro. A mobilidade inspira.[...]Canto VII, 3...  Ler Tudo >>
[05-07-2011]  |  Susana Leite
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Uma viagem à índia - 8

"Viajar não faz bem apenas aos homens, também é bom para os próprios percursos ter homens que os percorram. Um caminho é como uma casa, é preciso abrir a janela de vez em quando para que o ar circule. Precisa de ser arejado o caminho e os homens que o percorrem são os que utam esse ofício. São ...  Ler Tudo >>
[30-06-2011]  |  Susana Leite
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Uma viagem à índia - 7

"[...] quem relembra inventa: tudo começa de novo."Canto III, 5 "A intensidade com que se é esmagado não importa, de facto, o que importa é a intensidade que nos resta depois de sermos esmagados."Canto III, 75 "Se o progresso dependesse dos domingos, ainda andávamos de carro...  Ler Tudo >>
[24-06-2011]  |  Susana Leita
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Balanço Literário da Década

Balanço Literário da Década

Terá início em Setembro no CNC um ciclo que tem por objectivo fazer o balanço literário da última década. Organizado em parceria com a PNETLiteratura – um site que visa aproximar a lusofonia literária, contará com a intervenç&atild...  Ler Tudo >>
[21-09-2010]  |  Editor
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Traduzindo...
Coordenação: Maria do Carmo Figueira

CONCURSO

No site http://disquiet.com/thirteen.html, aparecem links para 16 (dezasseis!) versões diferentes do poema “Autopsicografia” de Fernando Pessoa em inglês. O poema é tão conhecido na língua em que foi escrito que qualquer uma das versões provoca gr...  Ler Tudo >>
[29-10-2010]  |  Maria do Carmo Figueira
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Colaborações Literárias
(reservado o direito de selecção)
                                                       Álamo Oliveira

as amigas de taunton

as minhas amigas de taunton gostam da américa devagar    como se fosse de mim. sabem cantar como ...   Ler Tudo >>
[15-01-2012]  |  Álamo Oliveira
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                                                       Álvaro Gomes

A seta, a montanha, o rio, a treva

Toda minha existência sonhei encontrar um poema que me transmitisse sentimentos autênticos. Em vão...   Ler Tudo >>
[16-01-2012]  |  Álvaro Cardoso Gomes
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                                                   António Ganhão

O Despertar dos Verbos

Título: O Despertar dos Verbos Autor: Mário Domingos Editora: Edium Editores Ano: 2011   O Despertar...   Ler Tudo >>
[30-01-2012]  |  António Ganhão
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                                                        António Lobo

POKER COM POSÊIDON ... PARTE II

  ‘ Tirem os chapéus depressa” disse o saltitao que continuava com os olhos esbugalhados pelo susto,...   Ler Tudo >>
[28-03-2011]  |  António Lobo
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                                      António Manuel Pacheco

Tolstói e o Diabo

Um dos mais inquietantes personagens de Tolstói é um jovem russo de vinte e seis anos que        l...   Ler Tudo >>
[27-01-2012]  |  António Pacheco
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  De Maceió-Alagoas – Brasil              Carlito Lima

ATÉ O DOMINGO AMANHECER

- Doutora, na verdade estou cansada, enjoada de meu marido, casei-me cedo aos 18 anos, hoje com 25 ...   Ler Tudo >>
[02-12-2011]  |  Carlito Lima
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                                                           Daniel de Sá

Em nome de Deus

“Em nome de Deus amém”. Assim começa, como muitos outros, o documento em que a Marquesa de Arronche...   Ler Tudo >>
[06-01-2012]  |  Daniel de Sá
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KARAKARIOKA (V) – Perto dos guarda-sóis

Em estado de alarme, abriu os olhos para o céu. Cegou-se com aquela luz ofuscante que fazia tudo fi...   Ler Tudo >>
[11-08-2011]  |  Editor
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                                     Eduardo Bettencourt Pinto

Domingo

A manhã avança lentamente, cinzenta. As árvores têm um silêncio pesado, inabitável, enquanto o Inve...   Ler Tudo >>
[02-02-2012]  |  Eduardo Bettencourt Pinto
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                                                   Francisco Rogido

Crônicas Implacáveis – Diário de Tuvalu IV - Os Efeitos maléficos de Hollywood

Os Efeitos Maléficos de Hollywood Quando adolescente, eu queria ser um desses jovens fo...   Ler Tudo >>
[03-01-2012]  |  Francisco Rogido
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                                                            Nuno Vieira

João (2ª parte)

Ainda não tinha falado com a mãe sobre a mudança, ia falar, estava nos seus planos falar. Faltava ...   Ler Tudo >>
[26-10-2011]  |  Nuno Vieira
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                                                Urbano Bettencourt

Imagens do Concelho de São Roque do Pico

Não é um livro recente. Mas  o facto de ir numa segunda edição e, mais do que isso, o reconhecimen...   Ler Tudo >>
[02-02-2012]  |  Urbano Bettencourt
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                                                   Vamberto Freitas

Cultura Para Todos Os Gostos, E Para Quem Não Tem

Todos os homens têm o direito de ser estúpidos, mas o camarada MacDonald abusa do privilégio. Leon ...   Ler Tudo >>
[03-02-2012]  |  Editor
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A Senhora da Roda de Prata

Ele observava a Lua, como fizera em quase todas as outras noites anteriores. Cotovelos pousados, n...  Ler tudo >>
[14-12-2011]  |  Paulo Serra
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Poema

quando o sol se abre em nós a tua cara resplandece fulgor de lua prata no olhar mãos de mel que serp...  Ler tudo >>
[14-11-2011]  |  Paulo Serra
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A poesia do cotidiano de Ronaldo Cagiano

I                     O sol nas feridas é um inventário lírico da trajetória de Ronaldo Cagiano (196...  Ler tudo >>
[01-02-2012]  |  Adelto Gonçalves
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Dicke: a reparação de uma injustiça literária

I                     Em algum lugar, este articulista já escreveu – e repete-o agora – que, daqui a...  Ler tudo >>
[02-02-2012]  |  Adelto Gonçalves
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LITERATURA JURÍDICA
Parceria

Espaço-parceria para Literatura Jurídica

Espaço disponível... 
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[11-06-2010]  |  Vítor Coelho da Silva
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Espaço editorial

Espaço reservado a eventual Parceria.... 
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[28-10-2008]  |  Vítor Coelho da Silva
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Literatura Popular
Literatura Infanto Juvenil

O Pé de Cereja e o Encanto do seu pé

Tenho um pé de cereja encantado ao lado do último olhar. Em frente, um botão de púrpura calado. Pela mão esquerda enxergada colho uma letra breve. O dedo indica-me a clave e perguntou-lhe: ­- Sol, ... 
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[31-07-2011]  |  Aval Ariam Sanchéz
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MAQUILLAGE. SAIGON. TAKE 3. 1943.

Há um lábiopintado rouge deolhar                           olhar derouge esguio paraa direita      direita  apara esguio em                                                                   em ceguei... 
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[30-07-2011]  |  Aval Ariam Sanchéz
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Sexto planeta desta sesta (Calão Minderico)

No quadrazal da classe do touquim piámos que as da classe da piação seriem gambiadas nos quintos planetas de cada sesta porque os charales que jordarem as do joão das penhas à Classe do Mestre Migança... 
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[16-11-2010]  |  Editor
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Monte Selvagem já reabriu

Ná página Crianças do Público de hoje, o destaque de Helena Melo vai para Montemor-o-Novo. (Agasalhem as crianças e visitem o Monte Selvagem.) Depois de três meses encerrado para manut... 
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[04-02-2012]  |  Letra Pequena                                                  Ver Mais >>
Vídeo

FLIP 2011 - Mesa 06 - Pontos de fuga - valter hugo mãe

Valter que veio da nossa mãe pátria Portugal - nos emociona com seu texto simples, bem humorado e sincero. É lindo mesmo,ver-nos brasileiros respeitados e reconhecidos por nosso jeito de ser e viver por nosso irmão colonizador.

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