manoel-manoel

temas: Inéditos ficcionais de Outros Escritores   |  [02-12-2009]  |  Ondjaki

dita assim, a expressão era uma quase invocação: “manoel-manoel...”, com reticências e tudo, a modos que chamativa.

de regra, era o uso do “o” em manoel. neste manoel. distinto de outros: com “o”, com barro, com gosma, com frescura de gruta, com asa vincada de morcego tonto, com imitação de bruma, com resto de bruma, com tendência para miró. “o”.

de vizinhança, era um “manoel” que perto de um “bernardo”. pelo lado afectivo da poesia e da palavra nem dita. nem dita. manoel é um ex-sempre-menino à procura das tardes dentro desse seu bernardo. (sendo que bernardo é um ser aberto a cucos; a nespras...). e havia ainda o bernardo que perto deste manoel. bernardo com “o”. manoel com “o”. “ó”, de falado com abertura de pássaro fonético. (sendo que manoel é um ser aberto a bernardos; a nenúfares...).

assim – desentenda-se que: “manoel-manoel” é uma expressão excedente da ferrugem das latas: é que mesmo o corpo dele com a mão no lápis faz parte da oração silenciosa de um grilo: “manó... manóéu!...”; por parte de uma crisálida libertando-se a borboleta, também pode acontecer: “manoel-manoel que estás em mim, seja farta a tua bondade...”. (borboletas e pedras desaguam em manoeis desses... é depois do barro...).

de mãos e vozes, era um manoel que poético – mas com uns instrumentos desses: da rudeza da pedra, da farpa do lápis de carvão, do ruído inóspito da ardósia sobre a memória, da pele breve do rio, das margens escorregadías no corpo dos peixes... mas desmunido de bússola: atrás de bernardo quando este sabia encontrar margens no olhar dos peixes. “porque bernardo sabe também da vida pelo brotar de escamas”, escreveram algures...

...

e eu também invocava, mesmo acordado: “manoel-manoel”..., da gruta à margem, da maresia ao retorno, da brisa ao assobio. era um quase ciúme pueril de nada: é que eu nunca fora um que perto de bernardo...

mas – ah!..., oxalá...!

 

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