 Folhetim |
Literatura num Minuto
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[05-02-2012] |
Primeiro surto Assim a história. Tudo pulsa anos depois. A(r)t(e)mosfera. Do país,
(ex)pulsos. Átimo.
Gente. Entre
luzesnéonoutdoor. Fugas. Simulacro. O estudado e o analfabeto
são a mesma
merda. MeRda. MErDa. MERdA. No poderfoder. Dissimul(ação).
Quem lá
chega é venda.
Secos & Molhados.
Miudezas. Que
Congr(Esso) é esse? RecePTaDor.
CEptAdOr. PtdoR. Outlet. Onde o rei?
Manufaturado. Pacto. Acorde(om). O mágico
de Óz. Estrela nenhuma pulsa. Nebulosa.
Nós da contravenção.
Malha. MaLHa.
mAlhA. Ilha. Fuga. Estrangeiros.
A mãe-terra amordaçada. GenEticaMente. Se foram. As irmãs gêmeas. Mídia. Medeia. Aldeia.
É boteco. Rabo-de-Galo.
Afe! Ganistão. Bum! Bum! Bum! Baba-se metálicos
explosivos no cangote
da fome. Extermina-se a fome com a própria fome. Salteador e assaltado. Quem
a lei protege? O justo
delinquente. Pulsa na prisão
especial. Nonne dissimulavi? Nonne silui? Nonne quievi?/ et venit super me indignatio. Jó,
3, 26. não dissimu(lei)?
Não ca(lei)?.
Não me
m...
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[04-02-2012] |
CAPÍTULO LVII Non-sense
4 O sangue vaza pelo orifício
provocado pela bala
e coagula as frases no céu da boca. É
a hóstia dos medos
da infância. A lembrança:
o que é dela? Estou sempre
construindo passados que nem mesmo sei se existiram. Assim
engano a morte.
Mas o ponto
de partida cada
vez mais
distante; mais
próximo o de chegada.
E a sensação de não
ter saído
do lugar nessa viagem
planetária e infinita.
Observo uma rosa como
poderia estar
diante de um
cravo, a natureza
acontece, não se explica, repete-se em sua diversidade. Quando
o espírito abandonar
o corpo, não
haverá necessidade de oxigênio nem
sofreremos o aprisionamento provocado pela
gravidade. (continua)...
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[29-01-2012] |
Cena 3 Lindsay...
O que é dessa menina
que toca o jardim como flor e que a mãe chama quase em desespero? Lindsay! Lindsay! Lindsay! Aos pássaros soa como
cantoria. Mas a menina
metida com
lesmas e formigas.
Atraída pela lentidão dos moluscos e pela
possessão dos insetos
sem asas
a armazenar alimentos.
Ouve o chamado, mas demora
a responder. Na casa,
a mãe é a única
que não
sonha. Diz que
alguém ali
precisa ter
o pé no chão.
Pagar as contas.
E os negócios do pai
não vão
bem. Reclama que
ele insiste com
os rádios de válvula.
Mas Lindsay não
entende a mãe. Nem
a resistência dela em
viajar com o pai. Raramente sai no jardim.
Ela odeia o jardim.
Seu mundo
são as panelas,
os velhos cristais da família e a televisão.
A renda foi deixada de lado depois que os dedos
começaram a entortar pela
artrite. Aos poucos,
está cimentando tudo. A alma já está
perdida sobre argamassa.
O pai diz que
a doença da mãe
são brotamentos do que
ela não
vive e que crescem no...
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[28-01-2012] |
Cena 2 Todos na mesma sala...
No colo da mulher
o livro, as mãos
no esqueleto da novela.
A mente e o corpo
rígidos, agregados
aos móveis. Continua enlutada nos trajes.
Veem-se esporadicamente os dedos em movimentos sobre a capa do
livro; perdidos no espaço.
A mente destroça
a linguagem. Ninguém
esperava um final
tão trágico.
Não aprendemos. Nunca!
As rupturas dão o itinerário.
Mesmo que
neguemos, é fato. Os depoimentos e os registros
escritos são
carregados de impressões subjetivas. A linearidade e o discurso
direto dão lugar
ao fantástico e ao absurdo.
Não fosse a vida
um jogo
de espelhos, se os cadernos
escolares não
tivessem os mesmos traços
vermelhos separando os exercícios, se não
houvesse uniformes ou
grifes... A história
é a própria rigidez
do cenário. Uma obra
ficcional amalgamada em gesso. É preciso
profanar. Atordoar a roupagem. Habitar a loucura. Deixar cair máscaras de amar; e ser feliz. A arte está no desconexo, no pó
amarelento e invisível...
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[22-01-2012] |
Tempo partido
1 02:00 horas.
O tempo não
passa. Mas
o que faria quando
a primeira luz
trouxesse do fundo seu
rosto? E se estivesse em todos os jornais? Sentou em
uma mesa de canto. A mão em sua coxa fez com que mudasse de lugar.
Diante dele a mulher
nua, pelo rapado retangular. Um piercing na vulva. Um sujeito se masturbava ao lado.
Uma das garçonetes ofereceu-lhe sexo oral. Por que fui me meter em confrarias e política?
De nada adiantariam os arrependimentos. A merda estava feita.
O rosto da mulher
entre as pernas
do homem. No palco,
a asiática agarrada
por um
bêbado. O segurança
deu-lhe uns safanões e jogou-o para fora. O homem do sexo oral fechava a braguilha. Não viu a mulher
levar sua carteira. Bêbado.
Porco ambulante.
Gordo na barriga
e inchado no rosto. É um juiz,
disse-lhe a mulher ao passar
por ele. (continua)...
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[21-01-2012] |
Cena 1 Na esquina,
uma placa: 10 de Outubro. — O que quer dizer? Sigo sozinho. Pensamento
na companheira que
deixei em algum
lugar. Houve um
desencontro. O fato
me angustia. Diante
de mim um
sujeito de nariz
arredondado e corpo inclinado. Pego um papel e desenho aquele rosto. A ideia é utilizá-lo como
personagem de alguma peça ou filme. Repetição
de Fellini. Adiante
deparo-me com tapume
esburacado. Alguém desenhou dois rostos na madeira. A cidade
está sendo restaurada. Há prédios antigos em
quantidade. Preciso
rever os românticos. Camilo Castelo
Branco poderia
ser um início... Não
há ninguém a quem
eu possa sugerir.
Apesar de uma multidão
que atravessa meu
caminho... E a voz:
Refúgio... Não
é do homem o prazer
dos vazios e os estranhamentos das ausências, das perdas
restam cicatrizes dos esquecimentos que levam às pílulas,
aos alucinógenos e às vitrines masturbatórias, sem
qualquer ideia de um
dia não
estar mais, e
assim vai de abrigo
em abrigo, de
ac...
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[15-01-2012] |
CAPÍTULO XXIV Perdido 3 Batem
na porta insistentemente:
Polícia! Polícia!
Abra a porta! (continua)...
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[14-01-2012] |
Perdido
354 Nenhum de nós...
Na maca o comatoso é corpo
inerte à mercê
de mãos, soros
e ideias. Palavras e imagens brincam em
seu cérebro
sem saber se
o resultado compensa. Literatura
é algo assim,
fruto de um
suicida mal-resolvido, muito
mais que
de um psicótico. (continua)...
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[08-01-2012] |
Roteiro
3 (terceiro-esboço) (Des)memória 3 (próximo do espelho): Não
vai me dizer...
Não! É claro
que não!
Até me
admiram por isso!
Isso mesmo!
Você sabe! Sou admirado, um
sujeito que
saiu da merda e venceu. É lógico que entre os pares de profissão
continuo tendo o carimbo da exclusão. Marcado como
o gado. Miséria
tem cor e cheiro.
Na verdade só
não morri na esquina,
mas estou morto
há muito tempo,
em todas as dobras,
em todos
os atalhos, em
todas as relações. Desculpe-me, você nada tem a ver com isso. Nem sei o
motivo de tê-la colocado nessa situação. Não
foi você que não fez a pergunta. Fui eu que nunca me
perguntei: Você está bem?
Você é feliz? Você está bem? Você
é feliz? (olhando-se demoradamente no espelho.) (continua)...
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[07-01-2012] |
Perdido 989 Em estudo... Há os que arriscam... (continua)...
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[31-12-2011] |
Roteiro 2 (segundo
esboço) (Des)memória 2 (indo na direção
do espelho): Que
me lembre, nunca
parei para saber. E o medo de obter a resposta? Dizer a mim mesmo: Não! Nunca!
Fugi como um
doido da miséria
que conheci na infância.
Miséria de carinho,
miséria de condição,
miséria de espírito...
Cagar com
medo de ser mordido por um rato, dormir com medo de ter
uma barata na boca.
Acordar com
as brigas constantes
dos pais. Quando
não, com
a fornicação. (abaixa-se e pega algumas fotografias.)
Aqui está toda
a minha história,
registrada nos fotogramas em branco e preto. Estas imagens
me deprimem, sinto-me um estranho entre figuras
desconhecidas; totalmente desconhecidas.
Quando me
dizem Olha, este
aqui é você!,
eu confirmo com
o movimento da cabeça,
mas dentro
a pergunta Quem
é esse sujeito
que não
sou eu? Talvez
tudo não
passasse de uma grande mentira
para justificar essa minha pobreza
de Ser. Sei que
corri, corri, corri... Muito. Fato que ninguém pode des...
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[18-12-2011] |
Registro 433 Quem
seria esse outro de mim? Reforço. Da incerteza. Memória.
Cheia de armadilhas.
Aprisionamentos. Versões diversas.
Dispersas. De que vértice
se olha? Relatos. Bloqueios. Acréscimos. Todo
passado é um
novo presente. Quando não criação. Lembrar-se do próprio
nascimento. Nasci em dia chuvoso. Madrugada. Meu pai pisando na lama.
À procura de parteira.
Descobrir que
era um
belo dia
de primavera. Parto
fácil. Simulacros.
Enganos. Pontuemos. Espaço
e tempo. Personagens.
Duas vítimas. De uma mesma ocorrência.
O que arquivamos? O fato
ou a intenção? (continua)...
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[17-12-2011] |
Roteiro 1 (primeiro esboço) (Pouca luz, de modo que só se percebem sombras.
No espaço, uma poltrona
com uma mulher
cabisbaixa, amordaçada, amarrada e nua. Um homem com barba por fazer, descabelado, vestindo terno
com gravata
fora do lugar,
segura um
revólver. Às suas
costas, um
espelho. No chão,
álbuns de fotografia
e fotos antigas espalhadas.) (Des)memória 1: Você algum dia me perguntou se eu
estava bem ou
feliz? Perguntou? Ah?! Vamos, me
responda! É claro que
não vai me
responder! Nem
pode. Nunca se preocupou com isso. E o medo que eu dissesse que
não! Ah?! Perder
seu referencial de sucesso.
Reencontrar a sua
metade mal
sucedida. Bela merda o sucesso! Que
foi dele? Um diploma?
Uma carreira? Uma vida
estável e escrota?
Seu silêncio
sempre me
incomodou. Ah, como me
irritava seu silêncio!
Não, nem
precisa dizer
o que pensa.
Melhor calar.
O silêncio é o soberano
entre as respostas
afirmativas. Não
dizer é confirmar o questionado. E de que
adiantari...
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[11-12-2011] |
Registro 433 Quem
seria esse outro de mim? Reforço. Da incerteza. Memória.
Cheia de armadilhas.
Aprisionamentos. Versões diversas.
Dispersas. De que vértice
se olha? Relatos. Bloqueios. Acréscimos. Todo
passado é um
novo presente. Quando não criação. Lembrar-se do próprio
nascimento. Nasci em dia chuvoso. Madrugada. Meu pai pisando na lama.
À procura de parteira.
Descobrir que
era um
belo dia
de primavera. Parto
fácil. Simulacros.
Enganos. Pontuemos. Espaço
e tempo. Personagens.
Duas vítimas. De uma mesma ocorrência.
O que arquivamos? O fato
ou a intenção? (continua)...
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[10-12-2011] |
CAPÍTULO XXXII Roteiro
1 (primeiro esboço) (Pouca luz, de modo que só se percebem sombras.
No espaço, uma poltrona
com uma mulher
cabisbaixa, amordaçada, amarrada e nua. Um homem com barba por fazer, descabelado, vestindo terno
com gravata
fora do lugar,
segura um
revólver. Às suas
costas, um
espelho. No chão,
álbuns de fotografia
e fotos antigas espalhadas.) (Des)memória 1: Você algum dia me perguntou se eu
estava bem ou
feliz? Perguntou? Ah?! Vamos, me
responda! É claro que
não vai me
responder! Nem
pode. Nunca se preocupou com isso. E o medo que eu dissesse que
não! Ah?! Perder
seu referencial de sucesso.
Reencontrar a sua
metade mal
sucedida. Bela merda o sucesso! Que
foi dele? Um diploma?
Uma carreira? Uma vida
estável e escrota?
Seu silêncio
sempre me
incomodou. Ah, como me
irritava seu silêncio!
Não, nem
precisa dizer
o que pensa.
Melhor calar.
O silêncio é o soberano
entre as respostas
afirmativas. Não
dizer é confirmar o questionado. E de ...
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[04-12-2011] |
Non-sense
8 Um casal fazendo
69 é encontrado mumificado na praia depois de um tsunami como
se fosse uma escultura em areia e ganha manchetes
na mídia internacional.
O tablóide fala
sobre um
caranguejo que
teria saída da vagina
da mulher na hora
em que
carregavam os corpos. (continua)...
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[03-12-2011] |
Tropos
3 Nenhum dilúvio retomará ao início.
Tudo será continuidade. E sobreviventes serão a repetição.
Vísceras putrefatas sobre
o balcão canino
da negociação. As relações em balcão de açougue. Esperma perdido no
fundo cego
das vaginas. O mijo quente
em colchões
d' água. Lençóis do tempo.
Chapéu mexicano. A física
é o artefato religioso
do intelecto. A economia
dos odores do tempo.
E o Conde Drácula alegrou os pobres dando-lhes alimento
e queimando-os vivos, estômagos fartos. O cheiro de carne
queimada. O rasgo no tórax. Ruídos metálicos. O coração
pulsando fraco. Mênstruo. Gazes embebidas da morte lenta. As luvas
largadas sobre o campo
verde. Um
corpo abandonado nos
mistérios do fim.
Todos dão as costas
ao morto. Somente
a enfermeira desnuda o corpo-morto. Desperdício! Todos
olham na direção do saído
de sua boca
e se afastam. Ela é a última. Na sala
de cirurgia, um
morto depara-se com
a solidão que
sempre evitou. Sonha? Rumo. Prumo. Do papai-e-mamãe ao s...
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[27-11-2011] |
Perdido 3 Batem
na porta insistentemente:
Polícia! Polícia!
Abra a porta! (continua)...
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[26-11-2011] |
Tropos 2 Não é da mente calar. Será a derradeira a desaparecer do
mapa. Depois
de milênios do sempre
o mesmo de outro modo
o mesmo sempre.
Para diminuir a dor, necessária
se faz a repetição. Cacofonia. Nem a dureza
dos ossos permanecerá. E você
não ouve. E você
finge. E tanto! E sem
ser poeta, que ao poeta há a liberdade do expressar. Mas o homem...
A frágil língua
a lamber as fronteiras
da insanidade. Da mentira. Das aparências. Mergulhado
em
luz. Um
hospital tem sempre
um gerador.
Pinça! Gaze!
Não tem jeito!
Merda! O sujeito está ferrado. O traçado linear no monitor. Choques e abalos.
Corpo mole
no vazio. Salta
e cai. Escuridão também.
O criminoso foi mais
perito. A fila
tortuosa de faróis e luzes amarelas e vermelhas. O retorno
da impotência. Poderia
ser qualquer um, em qualquer dobra. O rio lento. A fala mansa da enfermeira enovelando sangue
e sexo. O riso
contido e malicioso percebido no olhar da auxiliar entregando a pinça. A pinça
estrangula a art...
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[20-11-2011] |
Perdido 34 Lindsay... O que
é de Lindsay? (continua)...
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[19-11-2011] |
Capítulo II Tropos
1 Chove.
Faz meses, tudo seco.
Agora a grama
recolhida na semente se assanha. O
embaçado, berço. A varanda,
lugar de descanso.
A luz de fundo,
faca afiada a
rasgar o ventre
da escuridão. Silêncio.
Alguma barriga aberta
na clandestinidade. Do ventre o verbo diante da
tempestade. Sombra.
Criação é esse
nascimento sem sêmen
e sem óvulo.
Sem tempo.
O flash nos
apartamentos vizinhos
surpreendendo instantes. Fótons do cotidiano. Mergulho na escuridão.
Negritude úmida. O metal
risca linha
reta. Da carne
perfurada vaza o vermelho.
Baba da morte.
O embrulho carrega propedêuticas do crime. Tudo é aparência. Ficção.
O dedo no gatilho.
A mão segurando a faca.
A técnica exige enfiar
e cortar. Rasgar a aorta. Única luz. A
ideia. Qual tropo
sustenta uma ideia? O homem perdido na rua
e no desassossego das imagens. A mágica
de um roteiro.
Na memória a expressão
de uma mulher desesperada pela possibilidade de um
mínimo movimento
levar tudo pelos a...
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[13-11-2011] |
Estrato 3 Avó
transgressora. Caso com
um religioso.
Clementina o nome. Serviu ao frei. Ou ao rei. O espaço sacro brilhava. O ejaculado mantido em segredo. A diocese calou. Para o católico pecar é seu próprio vício. O povo
apostava em uma saída
divina. Uma imolação.
Um filho
doente. Reforçaria a ideia de pecado.
Quem sabe uma gravidez
tubária. Boatos.
Em bares
e pizzarias. Tanto Deus
quanto o Diabo
são criações
humanas. Fruto da esquizofrenia
genital. Anjo
torto. Maldoror. Tantos
demônios quanto
anjos. Tempos
depois... Clementina mãe de duas meninas. Eugênia, a mais
velha; e Ricardina. Podem lhe soar conhecidos os nomes.
Tradição dos avós. Escolher
os nomes entre
figuras literárias. Mas
agora ausente
e no aguardo. Nas estranhas vozes órfãs de bocas. Pare! Ouça! Ouvir o quê? Ouça! Ouça! Ouvir o quê? Irritado, o sujeito-expectador entra na loja. Pede uma caneta
e papel à balconista.
Anota o diálogo e sai. Não encontra mais o Paulo Autran. Está sozinho.
Amassa o...
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[12-11-2011] |
Non-sense 11 Corolários Acerca dos Tropos,
Monstros e Transformações Poéticas. Masturbação
da mente criadora. Filosofia
é essa coisa de jogar palavras nos afluentes. Poesia
tem algo de espermatozóides
trôpegos e sem
óvulo. Mais
fácil tocar estrelas que o ventre da terra. Ontem gozei palhetas
de Mozart ouvindo o inacabado depois do crime. (continua)...
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[06-11-2011] |
Estrato 2 Que utilidade poderia
ter uma massa
encefálica sem
memória? Livros
rasurados são inúteis. Assim é a memória
de Ricardina, esburacada por cupins, tornando-a sempre
a mesma. Cheia
de linhas no rosto
e o olhar em dimensão desconhecida.
No desconexo e nas certezas
incomuns. Ricardina já
não carrega o sofrimento dos visionários. Talvez
um pedaço
dela, das rupturas em
seu fluxo
para a morte,
pulverizou-se. Não há futuro; atalhos
e caminhos inesperados.
Não há saída
além do esquecimento.
Onde sobrevivem pedaços
e fragmentos não
se pode pensar na totalidade.
Nem no devir.
Ali tudo
se repete, variações do mesmo, amarrada
a uma linha cuja
origem remete a Platão, em sua
cadeira-armadilha que lhe reserva como única saída a morte. Enquanto ela não vem, coexiste com
as vozes. — Pare! Ouça! Expectador
estica o braço para
que Paulo, ainda
sobrevoando estranhezas, atente para o que ele
percebia: — Ouvir o quê? Paulo
Autran não ouve o som
e esboça continuar
...
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[05-11-2011] |
Non-sense
7 As pedras sobre águas azuis onde
um homem
caminha de sandálias
na direção da ilha dos cisnes de Beckett: No
Sertão a pedra
não sabe lecionar,
e se lecionasse não ensinaria nada; lá não se aprende a pedra:
lá a pedra,
uma pedra de nascença,
entranha a alma. (continua)...
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[30-10-2011] |
Estrato 1 Ricardina
levita na caduquice própria
da idade. Da varanda,
vejo-a sentada. Vive no inacabado e nos esquecidos. Parente
deixou de ser ou
mudou de grau. À mercê
da obscuridade e dos cabelos
brancos. Tem a memória
remota discursada como
uma fotografia. Nada
de passado atualizado, mas passado como foi. Sem
as mentiras da vontade.
Nunca mais
soube da lucidez. Nem
na dor nem
na alegria. Sentada em
uma poltrona de balanço.
Nela não habita uma trama
linear, mas amarras e nós sorumbáticos. A degenerescência roubou-lhe o direito de assistir pessoalmente às ilustrações
externas, convive com
novas e estranhas vozes. — Preciso fazer uma adaptação de William Shakespeare dentro
da realidade brasileira. O
sujeito-expectador fala enquanto caminha
pela calçada
ao lado de Paulo Autran, o personagem delirante
vestindo um casacão
de tecido cru
que cobre
parcialmente o coturno
de solas altas,
lembrando um deus
ou herói
grego, carregando um
texto em
inglês debaixo...
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[29-10-2011] |
Perdido
247 Nas correntes
dos mesmos rios,
entramos e não entramos, somos e não somos. (continua)...
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[23-10-2011] |
Movimento terceiro Há apenas um expectador assistindo a representação.
Percebe que o livro
que o ator
carrega é sobre física,
tenta avisá-lo da distorção,
mas é ignorado, e o que
fala continua seu
quase delírio:
morram as moscas e as formigas dentro
de um dilúvio
gerador da renúncia
dos pássaros voarem e que os peixes
deixem suas espinhas
entre rochas
vulcânicas e que das fossas saiam vermes
regeneradores da matéria
orgânica necessária a gerações ciganas e desertos
nômades provocados pelos
ventos originados do afogamento em águas putrefatas levando consigo
cemitérios com
seus cadáveres
e lápides e que
a terra se faça única
pútrida e fétida
e que desapareçam também
os ossos e os portos. E esta
varanda que
me aporta no deserto
das palavras ocas.
Enclausura. Os rios sem
vida. Avenidas
repletas de mortos. Vísceras
a expelir dejetos,
cadáveres de suicidas
e assassinatos. Se há volume, a ideia de um
livro ou
alguma verdade, não
passa de possibilidade. Os ...
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[22-10-2011] |
Perdido
78 A pausa é o porto dos prudentes. Um acaso apaga os registros
da criatura viva.
Aportar é descarregar as malas, esticar as pernas e pensar oceanos. Incauto
quem não
aborta para repensar a repetição.
Nem tudo
recomeça depois
de uma boa foda, mas é preciso saber olhar. Cheirar. Tocar.
Ouvir. Ouça
o que o vento
tem a nos dizer.
Observe os vermes que
nos habitarão no fim.
Sinta o mais que
puder o odor das coisas
vazias. Toque as sombras.
Mas cuidado para não feri-las. (continua)...
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[16-10-2011] |
Movimento segundo Diante da
plateia, um sujeito
caminha de um
lado a outro,
fala de um
modo fragmentado, carrega um livro na mão que, às vezes, folheia: trópicos
transparentes de deuses
embutidos em
esgotos a transferir
elétrons e irradiar
tempestades iônicas no pensamento de homens
carentes de chumbo
líquido e perdido em
viagem cósmica entre
migalhas de estruturas
barrocas enquanto
você nada faz
diante das sombras
provocadas pela ausência
de luz e dos gemidos
de gozo e ejaculação
que condenam pelo
próprio gesto
e pensamento tal
sujeito duplo ao ver-se imagem atrás do
espelho. Do outro lado do
envidraçado, meretrizes fecham contratos comerciais.
A droga quebra
sequências. Um dedo
no gatilho e a bala
estraçalha encéfalos. Esfacela pensamentos.
Acaba em um
milésimo de segundo
com a identidade,
com os traços
de poemas e as ideias que seriam utilizadas em
prosa. Pneus
limpam as avenidas das marcas de restos
humanos. Cedo,
tudo recomeçará limpo-sujo, ...
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[15-10-2011] |
Non-sense
10 Lógica que significou fábula,
que se traduziu em
italiano como favella, e favela
é lógica da miséria
e fábula na riqueza,
tudo é ideia e palavra,
nascimentos da mente, abstrações esquizotímicas. (continua)...
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[09-10-2011] |
Movimento
primeiro Ambiente com pouca luz. Em uma cadeira desgastada pelo tempo e central há uma mulher
nua e amarrada por uma corda cuja ponta se liga a
um dispositivo
pendular. Qualquer
movimento do corpo
acionará um sistema
que detonará uma bomba.
Ela está literalmente
aterrada, o medo cria
raízes no assoalho, tem o rosto
branco e verdadeiramente rendido à morte. Muito distante de tudo... Da varanda, avisto longo
rio de engenhos
movediços e homens
a conduzir ferragens.
Taturanas mecanizadas. O trágico e a comédia
orquestrados por sinaleiros
e assaltos. O espelhado multiplica-se entre sons de cordas de tripa
e de outros que
apreendo no silêncio. Vomito. Intempestiva reclamação visceral. Tenho todos os olhares
em minha
direção. Ação não comportada. Não
esperada. Vomitar é expelir
tudo o que
é nocivo ao corpo;
à alma. Rejeitar
o que o dia-a-adia obriga-nos atuar. Abrir as pernas ao poder ou prostituir-se, por
exemplo. É preciso
palpar estratos,
criar novas ...
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[08-10-2011] |
Capítulo XXVI Non-sense
1 Há um longo silêncio de espera. Nem sossego, nem paz, nem calma.
Aflora o vazio, a agonia
do nada. Espreita-se. Como faz o lobo
no final de tarde.
Então adormeço a tarde
e acaricio a noite, como
a criança, um pai
violento; convulso. (continua)...
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[02-10-2011] |
Capítulo
MCMLX Perdido ainda não numerado Somente a curiosidade seria capaz
de trazê-lo a mim. Essa necessidade pelas coisas
raras e originais. Adianto que tudo já foi escrito
e dito, de um
modo ou
de outro. Eu
sou fruto do vazio,
sou mais exílio,
longe de mim
os excessos e as armadilhas,
vivo de meus
pedaços, as coisas
partidas são
meu alimento,
procuro o que ainda
permanece em minha
memória, preciosidades literárias que a doença e os remédios ainda não levaram. (continua)...
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[01-10-2011] |
Capítulo Final Alguns
anos se passaram. A obra
quase no fim.
Eu na janela
de grades. Na cidade
suspensa na neblina. Pedaços.
Partes. Amadurecemos. Eu e esse outro de mim.
Pensávamos no nosso final.
Depois de tantas rupturas
e acasos. Mereceríamos um final cabalístico. Com
uma consciência aprimorada. Adversa e transformadora. Com
um terceiro
elemento emergindo do conflito da dualidade. Lançando a possibilidade da conjunção dos opostos.
Antecipando um novo
mito. A possibilidade da coniunctio erótica se identificar com a crucificação
de Cristo. A união
de Cristo com
Satanás. Momento da metamorfose
dos princípios e dos símbolos primordiais.
Sem que
percebêssemos. Tudo muito
silencioso. O vaso
fragmentado na mente. Libertar
a estranha e poderosa
luz. Em
nome do Pai,
do Filho e do Espírito
Santo. A mãe
no mesmo espaço
tempo que
o pai. A imortalidade
cristalizada em marfim
e ouro. Leva
o tragicômico da vida
com ela.
Depois, mas
muito depois,
tempos de pa...
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[25-09-2011] |
Eu
muito próximo do lugar onde não há mais para onde ir, a morte será sempre o
presente do futuro, só quem conseguir o livro conhecerá a obra de Samuel F.,
mas não saberá quem sou nem onde tudo ocorreu, não há corpo nem cartografias
nesse putrefato sentado em uma cadeira, diante de uma velha máquina de
escrever, ao lado um pacote ainda virgem de papel reciclado, obra por se
(des)fazer, na parede a fotografia com Carol, Clara e Samael F.; e chegamos a
um não-lugar, não há mais para onde ir... FIM...
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[24-09-2011] |
O
pai um sujeito magro e alto, queixo e orelhas grandes, logo os levam para
dentro da casa, dizem que passam o dia jogando xadrez, que nas férias vão à
praia, não conhecíamos o mar até o dia em que papai alugou a casa na praia, mas
não ficou conosco, era para se livrar da família um tempo, diz que tem muito
trabalho, Clara não reclama, foi quando descobri felicidade no rosto dela,
permanecia horas sentada diante do mar enquanto brincávamos na praia, era outra
mulher a que via caminhando na areia, fitando o crepúsculo, mas foram poucas as
vezes que a vi feliz assim, nunca saímos daqui, a cidade cresceu e nós fomos
ficando pequeninos, o apito da fábrica, meio-dia, hora do almoço, os
funcionários saem da fábrica e enfileiram-se sentados no muro que ocupa todo um
quarteirão, roubou nossa rua, aliás nossa rua não existe mais, melhor
entrarmos, é bom estarmos juntos, reconstruir o cenário, os movimentos, os
personagens... Não suporto conviver com tantas pessoas me olhando, o lim...
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[18-09-2011] |
Se
não, os filhos cresciam dormindo no quarto dos pais, depois na sala, os mais
felizardos ganhavam um quarto, nós pertencíamos a esse grupo, André não, como
não havia homem em casa, demorou para a mãe construir um quarto somente para
ele e para a irmã... Lá estão André e nós, descendo de carrinho de rolimã,
apostando quem era o melhor, desviando dos buracos, o breque um pedaço de pau,
a manhã quente, vento bom para pipa, aqui fica a escola, barracão de madeira, o
diretor mora na casa construída de alvenaria, tem dois filhos, Pedro e Paulo,
mas eles não se misturam com os moleques da rua, estão sempre limpos e
arrumados, ficam na mureta da casa olhando o proibido, que mal poderia haver em
passar a infância na rua? (continua)...
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[17-09-2011] |
Na
minha época não havia tantas férias assim! Na sua época não havia nem escola,
você não terminou nem o primário... Era vovó saindo em minha defesa. Seria
capaz de permanecer horas ao lado dela, ouvindo as músicas e o som do movimento
das agulhas, mas vovô muito impertinente, logo arrumava alguma coisa para mim,
buscar alguma coisa na padaria, recolher folhas que o vento levara para o
corredor... Então, na primeira oportunidade, corríamos para a rua, imensidão
verde, que pouco a pouco foi sendo ocupada por mais casas, no início quarto e
cozinha, logo vinha um puxadinho, bastava melhorar um pouco a vida. (continua)...
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[11-09-2011] |
Clara diz ser Mozart, tocaram no velório dele, último pedido junto ao de não deixarem encomendar o corpo ao modo cristão, passei a apreciar Mozart ao escrever, a me acompanhar nos surtos, é a bisa, adora passar os dias sentada na pequena varanda da casa, não demora e aparece o bisa, usa uma bengala para se manter em pé, tem a perna torta, problema no joelho, Não tem lição para fazer?, pergunta que nos dirige sempre, não importa a hora, Férias... (continua)...
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[10-09-2011] |
chutando as maiores, a rua em aclive, adiante a casa abandonada onde tem um poço que dizem haver uma mula sem a cabeça e que gosta de crianças, passamos receosos, entro na casa dos Mendes, já não há ninguém, o mato ocupa quase todo o corredor. Coloco uma senhora de cabelos brancos tricoteando, sentada em uma rede, ela sorri ao nos ver chegar, sento-me no chão de cimento cru, ela ouve a música que vem do rádio de válvulas, em casa Clara não houve música, o pai tem uma eletrola no escritório que ninguém além dele pode mexer, as músicas que houve são estranhas para mim, (continua)...
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[04-09-2011] |
daí André viver a vida dos outros, não a dele, mas ela ali,
dependurada no muro, eu torcendo para que caísse, muito mais tarde quis bolinar
comigo, o irmão de castigo no quarto, a mãe passando roupa, ela no quintal
levantando o vestido do outro lado da cerca de arame, sem calcinha, ainda sem
pelo, só penugem, eu ainda cheguei perto, mas saí correndo, nem pensar a
húngara flagrar alguma coisa, poderia me surrar como faz com o filho, a rua sem
sombra, agora tudo blocos vazios, eu jogando pedra sobre pedra, (continua)...
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[03-09-2011] |
mas André não mais, nem aqui nem no amanhã, apodreceu, não fosse o
cheiro não descobririam o corpo, os filhos longe, como dizem ele colheu o que
plantou, mas aqui se vê que não teve oportunidade de plantar nada além inveja e
ciúme, não viveu como deve a criança, mas como seria um viver normal de uma
criança, teríamos que tirar os adultos de suas vidas, sem parceiro só resta
ficar sentado no portão, observando o vento levantar poeira, a irmã de André
fazendo pirraça no muro, cresceu perversa, foi sombra na vida do irmão até na
morte, depois também, a perversidade da irmã adquirira vida mesmo depois de
morta, ela lhe vinha nos pesadelos, encontrava-se em cada canto da casa, (continua)...
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[28-08-2011] |
daí
André viver a vida dos outros, não a dele, mas ela ali, dependurada no muro, eu
torcendo para que caísse, muito mais tarde quis bolinar comigo, o irmão de
castigo no quarto, a mãe passando roupa, ela no quintal levantando o vestido do
outro lado da cerca de arame, sem calcinha, ainda sem pelo, só penugem, eu
ainda cheguei perto, mas saí correndo, nem pensar a húngara flagrar alguma
coisa, poderia me surrar como faz com o filho, a rua sem sombra, agora tudo
blocos vazios, eu jogando pedra sobre pedra, (continua)...
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[27-08-2011] |
mas
André não mais, nem aqui nem no amanhã, apodreceu, não fosse o cheiro não
descobririam o corpo, os filhos longe, como dizem ele colheu o que plantou, mas
aqui se vê que não teve oportunidade de plantar nada além inveja e ciúme, não
viveu como deve a criança, mas como seria um viver normal de uma criança,
teríamos que tirar os adultos de suas vidas, sem parceiro só resta ficar
sentado no portão, observando o vento levantar poeira, a irmã de André fazendo
pirraça no muro, cresceu perversa, foi sombra na vida do irmão até na morte,
depois também, a perversidade da irmã adquirira vida mesmo depois de morta, ela
lhe vinha nos pesadelos, encontrava-se em cada canto da casa, (continua)...
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[21-08-2011] |
de
fazer-lhe algum mal, voltamos ofegantes, a sacola vazia, logo cheia, e a mãe
entrando em casa, o português torcendo o bigode, subindo na carroça, soltando o
arreio, chicoteando o lombo do animal, e o ruído arrepiante da roda, a carroça
subindo a rua, a próxima casa fica distante, nossa casa é a única no
quarteirão, depois veio a família do André, levantou paredes, vamos chamá-lo
para brincar, já há guias nas ruas, na entrada da casa há um pinheiro enorme,
nos natais eles cortam a ponta e colocam na sala com as bolas coloridas e
algodão, colocam o menino Jesus debaixo da árvore, entramos pelo corredor lateral,
chamamos pelo nome, ele aparece na janela, está de castigo, a mãe não vai
deixá-lo sair, a irmã é uma linguaruda, se fugir ela alcagueta para a mãe de
André, uma húngara de rosto sempre fechado, testa enrugada, costuma surrá-lo,
ficou viúva muito cedo, dois filhos para cuidar, acho que os culpa pelo
aprisionamento imposto às viúvas, todos na rua fiscalizam seus m...
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[20-08-2011] |
Ao
mesmo tempo em que traciona o pescoço do animal com o arreio, as mãos de Clara
escolhendo naquele colorido o fruto mais suculento, a leguminosa mais
desenvolvida, as verduras mais verdes e limpas, o burro cabisbaixo, relinchando
às vezes, babando muito, acho que é cansaço, não gostamos do jeito de seu
Manoel tratá-la, todo solícito, mas ela não percebe o homem olhando suas
panturrilhas quando vai pegar algum fruto mais no fundo da carroça, temos
vontade de pegá-lo pelos bigodes, lambuzar seu rosto com a bosta que o cavalo
despeja no chão, obrigá-lo a beber aquele jato grosso de urina e que o chão
absorve, as moscas já voejando a merda do animal, a mãe pedindo a sacola, eu e
você, agora únicos, na correria, para não dar tempo ao português (continua)...
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[14-08-2011] |
Merda!
O alarme da fábrica. 7h00. Já não sei dia e hora. Sinto alguém no quarto.
Procuro nos cantos, sem sucesso. A colcha é feita de retalhos coloridos. Depois
da alta é a primeira coisa que vejo em cores fortes. Há vaga lembrança de
televisão em branco e preto. De um desenho do Pica-pau, ele diante da linha de
trem, olha um lado demoradamente, depois, para o outro, mais algumas vezes,
nada, os dois horizontes tranquilos, certo de não correr riscos, atravessa, mas
um trem surge do nada e passa sobre seu corpo. Mas personagens de desenhos
animados não morrem, logo estão de volta, em outra cena, e você ri, esquece que
morreu. Ninguém está livre da morte, por mais cuidadoso que seja, acho que o
desenho dizia isso, não temos controle do fim. Não sei o que fazer, não sairei,
há comida para semanas, a casa está cuidada, talvez me levantar e ficar sentado
debaixo da jabuticabeira aguardando as visitas, elas virão, é só meu corpo
metabolizar a química, transformar os medicamentos...
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[13-08-2011] |
Vou
festejar a noite em algum bordel, as putas fingem como os poetas, e o fazem
tanto que nos fazem crer verdadeiro todo e qualquer fingimento. De onde isso?
Nem Amélia, nem Dulce... Pagar não deixa porta aberta à cobrança. Escolho um na
Augusta. Olho todas elas sem saber o que procuro. Atrai-me as coxas, gosto de
vê-las de baixo para cima, como enxerga a criança, há uma delas com as coxas de
Dern, dou um toque, ela se aproxima, discute o preço segundo uma tabela de
ações, me diz que não há limites ou restrições, posso usar qualquer porta,
entrar e sair como bem entender, basta pagar. Há quartos no fundo do bordel,
tudo muito arrumado, espelhos na parede e no teto, sobre um móvel os
preservativos de vários tipos expostos, objetos para atuar o gozo ao gosto da
clientela, prefiro ao comum, nada ao sugo ou com temperos exóticos, divertido
brincar, tomar a iniciativa, meus instrumentos são os dedos e a língua,
penetração no final, na maioria das vezes elas se surpreendem, o fi...
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[07-08-2011] |
O
senhor conhece o autor? Olho para o sujeito, expressão de empregado de
funerária, aquilo era depósito de coisas mortas, respondi que sim... Nunca
ninguém entrou aqui pedindo livro dele, eu já li o livro, deve ser um sujeito
muito fora desse mundo, o texto é tanto suicida... Talvez tenha sido o modo de
se livrar da morte precoce, respondo mesmo sem saber o motivo do que digo.
Deixo o vendedor caçando interrogações, saio com o livro debaixo do braço, vou
deixar as coisas correrem, sem os remédios, caso haja necessidade, relerei o
que eu mesmo escrevi e não me lembro... A capa até que é interessante, as
palavras saindo de dentro de uma objeto que se parece com um vaso, mas apenas
esboço, as folhas ainda conservadas, aspecto de livro pouco lido, levo-o como
um troféu. A
víscera começa a chiar, passo diante de uma quitanda, fico um tempo olhando as
verduras, os legumes e as frutas, começam a ter cor, verde e amarelo opacos,
percebo o dono preocupado comigo, parado diante de ...
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[06-08-2011] |
O
que está precisando, vamos ver... A fita para a Remington Rand que foi de seu
pai? Engulo o último gole do café confirmando com a cabeça. Então vamos lá...
Segue na direção da última prateleira, mais ao fundo da loja. Aqui temos,
quantas vai precisar? Pode colocar uma caixa... Pelo jeito tem uma grande
história na cabeça, li seu último livro, devo dizer que é muito pesado e
triste, mas hoje entendo melhor o que o senhor escreve, a idade vai desnudando
a falcatrua em que nos colocaram, mas escrever aquelas coisas ainda tão jovem,
deve ser difícil carregar esse seu mundo nas costas... Vejo um brilho nos olhos
daquele libanês que nunca pediu a cidadania brasileira, compartilho com um
sorriso, não me lembro de que livro fala, mas minha mãe também anota a
existência de um livro em seu diário... Tudo que escreve está nas ruas, diante
de nosso nariz, mas não nos permitimos enxergar, tem lá uma passagem que o
senhor fala da diferença entre olhar e enxergar, li várias vezes, é um...
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[31-07-2011] |
Uma
pena, Dulce... Quem sabe posso ligar algum dia desses. Não tão cedo, ao ter
alta quero viajar um tempo, descansar, conhecer gente, enfim, me distrair,
levar a vida que todos levam. Ela parou um tempo, pensativa, e sorriu. Então
está bem, quando voltar me ligue, sabe onde me encontrar. Estava aberto um
caminho que eu não procuraria, mas levá-la ao gozo contido ajudou-me.
Acompanhei-a até a porta, ela fez questão de me beijar no rosto, agarrei-a pela
boca, chupei seus lábios e língua como um apaixonado; e larguei-a, sem reação.
Se fosse para escolher, Amélia seria a eleita, mais selvagem, mais cheiro de
carne e terra... Fecho
a porta. Ao entrar dou de encontro com a empregada. Fita-me de um jeito sacana.
O senhor está bem? Por que me pergunta? Parece diferente, conheço homem depois
do coito. Que é isso, Amélia? Não sei não! Também, não tenho nada com sua vida,
e se trepou é sinal que está melhorando, o senhor soube do André? Como não
saberia? Quase não consigo entrar em...
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[30-07-2011] |
Outra
vez? Podem tocar... Toquem à vontade que hoje estou feliz. Na fresta da janela,
quatro pernas, um par de saias, uma com chita, Amélia, sem dúvida, a outra
vestida com tecido mais nobre, sapato colegial de grife, veio mais cedo, usa
meia, daquelas transparentes, pernas bem torneadas, coxas bojudas, vê-se parte
de uma pasta em uma das mãos: Amélia e Dulce, a assistente social. As mulheres
emancipadas estão sempre preparadas para algum homem; ou alguma mulher. Não
devem vestir calcinha como Da Graça, sinto pelo cheiro, o nariz da criança
batendo na vulva da mãe, conheço o odor de uma fêmea na ovulação, não perdi o
extinto animal. Já vou, digo firme. Visto uma roupa melhorzinha, uma calça
azul-marinho, camisa branca de manga comprida e sapatos brilhando, tudo
preparado para não passar qualquer sinal de insânia. No espelho, ajeito o
cabelo, ainda bem tê-los aparado, a barba feita, uma pitada de Dolce &
Gabana... Pronto! Termino escovando os dentes. Para o singular a norma...
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[24-07-2011] |
Será internado tão logo não tenha mais ninguém, hoje sei que é doente, conversei com o médico, falou-me que há um componente genético em algumas psicoses, que o álcool pode desencadear surtos, mas eu estou contente que não beba mais, não vê-lo mais nos cantos, falando sozinho, diminuiu o tempo em que fica no escritório, não ficou triste com a repercussão do livro, muitas críticas perversas, mas ele acredita no que escreve, rejeitou entrevistas para defender a obra, o editor não gostou muito, disse-me dias desses que não me preocupasse com ele, que a doença faz com que viva no limite, lugar evitado por todos, daí as críticas nada elogiosas... Não seria de todo mal o momento de minha morte. Pelo menos posso pedir que Carol continue a cuidar dele. O que mais poderia desejar uma mãe que não fosse ser substituída por uma mulher tão preocupada quanto ela própria nos cuidados com um filho? Mesmo sendo um homem... Para a mãe, o filho nunca cresce. Há culpa nisso, sei bem, sem irmão, um pai aus...
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[23-07-2011] |
Necessito do outro de mim, a impossibilidade da literatura me destrói, preciso do excesso, do caminhar no limite, nas fronteiras, o mundo eu já perdi, estou pronto novamente para dizer, como ela, na primeira pessoa, devo suportar um pouco mais, até a última visita, enquanto leio o diário, sedimento algo de quem fui, através de resenha materna, ela não mais aqui, não sei o motivo, deve ter registrado no diário, mas agora não mais, a velha Remington Rand me assediando, melhor sair, comer alguma coisa, morrer mais uma noite, amanhã não haverá ninguém a me incomodar logo cedo, vontade de colocar um aviso na porta, como dos hotéis, NÃO INCOMODE, mas na rua estimulará ação de vândalos, nem no hospício há tantas variedades de loucura, tantas tatuagens no couro, tantos registros estranhos nas paredes, tantas desavenças sem motivo, tanta desigualdade, tantas mortes violentas, tantas vísceras ruidosas de fome, tantos crentes, tantos incrédulos, tantos mortos vivos... O mesmo nas ruas, cada vez m...
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[17-07-2011] |
Ela havia saído. Senti-me aliviada. O filho retornou antes. Estava preparando um caldo verde quando chegou. Ouvi a sineta, entrou primeiro no escritório, sempre age assim, como o pai, temos um gato, o animal aguarda-o em uma das prateleiras da biblioteca, quando chega, desce, rodeia suas pernas e corre na direção da cozinha, só aceita ser alimentado por ele, Samael entrou em seguida, trazia a vasilha onde colocou a ração que ofereceu ao bichano. Eu sentada na cadeira, aguardando para jantarmos juntos. Carol? Saiu antes do almoço, respondi. Em que trabalha? Ele me observa um tempo, como a querer dizer algo, mas desiste, afasta-se, abre a torneira da pia e serve água ao gato. Volta-se olhando algum ponto muito distante, depois me encara fixamente enquanto se ajeita na cadeira. Pega a colher e experimenta o caldo. É difícil dizer-lhe em que trabalha... Não me olha, brinca com a colher no caldo. Como assim? Ela é uma profissional, ele me diz, levantando os olhos lentamente. Profissional em...
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[16-07-2011] |
Quinze dias... Um martírio. O apito. Levantar, escovar os dentes, tomar meu lanche matutino, passar o dia andando sem objetivo, fazendo compras, jogando conversa fora, suportando comentários e preconceitos do André, a assistente social ficou feliz com o que viu, deve ter conversando com o André antes de tocar a campainha, um pouco mais jovem que eu, acho que está interessada em mim, mas faço que não percebo, preciso de mulher, mas prefiro pagar caso não encontre alguma aventurosa, não quero compromissos nesta altura, já me falou de sua vida, é divorciada, tem dois filhos adolescendo, eu não tive filhos para evitar problemas, não vou adotar de terceiros, além disso tem a doença, nem sei de quem, agenda outra visita para daqui a um mês, é muito tempo, não sei se suporto tomando medicamentos, mas será a última, se estiver bem na próxima visita precisarei apenas ir às consultas psiquiátricas. Fez perguntas sobre as mudanças no quintal, quis saber o motivo de um pé de jabuticaba, inventei u...
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[09-07-2011] |
Não sei... Quem sabe Samael está lendo o que escrevo em algum lugar distante no tempo, eu não mais aqui... Se não for ele, quem poderia? Devo imaginá-lo nessa casa, a única coisa que temos em nosso nome, isto se não houver alguém mais a reclamar o espólio, a última aventura do marido veio cobrar um filho, mas disse-lhe que ele não poderia ser o pai, que tinha documentos provando sua esterilidade, não voltou mais a não ser no dia do velório, acompanhou o féretro, talvez para me provocar, não tenho o que reclamar de você, Samael, deve perdoar seu pai, não aceitaria um filho que não fosse doutor em alguma coisa, devia dar exemplo aos parceiros da loja, para ele era a glória nos apresentar como se expostos em alguma vitrina, família perfeita, deixo a fotografia que estava sobre sua escrivaninha presa na página seguinte, o homem trajado até no rosto, eu ao lado de vestido abaixo dos joelhos, sem decote, sem maquiagem, os cabelos presos, você entre os dois, calça curta, camisa branca, manga ...
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[03-07-2011] |
O mundo ao redor mudou, poderia arrumar outro companheiro, oportunidades não faltaram, a gravidez mudou meu corpo, tornou-me mais mulher nos gestos, mas quando o medo tem sua raiz na infância há muito pouco a se fazer... É o passado repetindo-se infinitamente, em cada botão de camisa, em cada orgasmo, como se afirmasse a fragilidade da mãe, da fêmea que neguei pela falta de reação. Sei que meu terceiro período sofrerá poucas modificações, não desejo a experiência de outro homem, o amor conhecido apenas a Samael, mas é dúbio o que sinto, algumas vezes me lembra o irmão, outras, o marido, tem o nariz aduncado como o dele, a mesma sobrancelha, os pelos vazantes nas orelhas e no nariz. Sei que Samael é especial, sensível, tem um jeito muito particular dirigido às mulheres, as empregadas em casa sempre se deram bem com ele, até demais, acredito que Samael não saiba que conversei com Da Graça quando dispensada, o pai havia flagrado-o com a empregada.Agora não sei o que será de nós... Samael ...
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[02-07-2011] |
Isto quer dizer que ele saberá tão logo saia daqui. Não patrão, pode ficar sossegado... Só vou dizer se o senhor for para a máquina de escrever com uma garrafa de uísque ao lado. Fique sossegada Amélia, não vai acontecer tão cedo... Quer dizer, então, que vai voltar a escrever e beber!? Quem pode saber do futuro Amélia, não se preocupe, termine seu trabalho, e obrigado pela compra, depois acerto tudo. Não precisa não senhor, deixei pendurado na padaria, disse que o senhor passaria por lá para acertar. Tudo bem, Amélia, passo depois. Não sei o tempo que Amélia está comigo. Na verdade, não me lembro nada sobre ela. Dirijo-me ao quintal, sento-me no banco de madeira encostado no muro, sou capaz de jurar que havia uma jabuticabeira por aqui. Abro o caderno:Quem sou eu? Pergunta feita por Tolstói aos 26 anos. A metade da idade que tenho agora, quase a de Samael. Acho que meu filho será a única pessoa a pegar o que escrevo, aprendi com ele o gosto pela leitura, lia escondido do pai que não p...
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[26-06-2011] |
Entro e fecho a porta, giro a chave duas vezes em sentido horário até o ruído da trava, coloco-a no prego, estranha sensação que me toma, déjà vu, única palavra que me recordo em francês, o longo corredor, o piso gasto, a parede tem várias camadas de tinta, sei disso, mas não de quando ou de onde, piso de leve, a não provocar ruído, sigo até o quarto, coloco a mesma roupa de ontem, hoje há luz, Amélia acertará os últimos detalhes, passará a roupa, não há muita, o necessário para um solteirão à porta da morte, arrasto os pés até o banheiro, escovo os dentes com a água deixada no copo pela Amélia, olhando as linhas de meu rosto, preciso cortar o cabelo, rapar a barba e aparar as unhas, fazer todas essas coisas que qualquer sujeito faria para manter a aparência de normalidade, não sei se vou fazer a barba, talvez melhor deixá-la formar-se, ocupar o rosto todo, como os personagens e escritores russos, mas lá tem utilidade, faz muito frio, aqui o melhor é ter todos os pelos do corpo rapados...
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[25-06-2011] |
Nada sou sem os atos falhos e os lapsos que me foram roubados pela química. Não desejo o singular a bebericar paroxetina, modo de suportar o mundo convulso, não há sentido algum em viver anestesiado ou deitado em divãs onde a assimetria de poder é fato, onde singular domina singular, referência de ritual dualístico, mas o mundo é fluxo de rio, águas nunca as mesmas, com seus duelos abstratos esquizofrênicos. Faz-se necessário procriar cartografias, retirar as palavras do uso comum...É cada vez mais noite. Vela consumida. O vento que entra pela janela brinca com a chama. Ouço o roedor na prateleira. Adora escuridão. Seria apenas um? Age às caladas, em surdina, taciturno e traiçoeiro. Não carregariam a alma dos homens mortos? Engolem fragmentos de páginas, talvez ansiedade em alcançar o conhecimento, mas as enzimas gástricas transformam tudo em aminoácidos, assim meu cérebro, roedor incondicional de tempos perdidos ou do porvir, preciso religar os elos, retomar a alquimia do cadinho, rea...
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[19-06-2011] |
Quase me esqueço... Retiro a chave do bolso, coloco-a na fechadura, dou duas voltas até ouvir o ruído do trinco. Suspiro fundo. Filho de uma anta! Ler meus textos! Melhor tomar os medicamentos, está na hora. Tranco a porta, retiro a chave da fechadura e a dependuro no prego. Observo o longo corredor. Gostaria de enxergar, mas os medicamentos só me permitem olhar. Nada além do vazio e do silêncio, morada sem passado. Sigo lentamente como se arrastasse uma bola de ferro presa aos tornozelos. Paro na porta do quarto. Dos móveis, apenas o esboço. Com os remédios tudo se torna raso, bordas, não há volume, profundidade, perde-se o barroco. Logo tudo será uma escuridão só, ontem nem percebi tamanho o cansaço. Se não jogaram no lixo, tenho umas velas na gaveta do armário... Os azulejos que restam na parede da cozinha rebrilham entre as falhas cimentadas e opacas. Aqui estão... Entre ovos de barata e talheres. Melhor retirá-las, são três, uma para o banheiro, outra para o quarto e a derradeira ...
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[18-06-2011] |
Olho para aquele sujeito, que não me lembro parte de meu passado, cheio de dúvidas, Estará tudo bem para quem? Dentro de alguns dias quero minha insanidade de volta... Penso, não posso dizer. Agarro o fio onde a ruptura provocada pelo pensamento, Assim espero André! Preciso terminar o trabalho. Você não acha que essas coisas que escreve acabam com você? Como sabe o que escrevo? Desculpe-me, mas não pude evitar, havia um calhamaço sobre a mesa, ao lado da máquina, peguei para ajeitar na gaveta, mas a curiosidade foi maior, não sei como alguém pode fazer essa confusão toda com as ideias e as palavras, você complica a vida... André, eu não permiti! Eu sei, por isso peço desculpas. A literatura não me deixa doente... Quase digo que é a mediocridade reinante ao redor que me deixa adoecido, mas me calo, com seu jeito calmo o que ele quer é verificar através de meu comportamento até onde vai a tal da cura. Homem, como alguém pode conviver com todos os fantasmas, as mortes e as perversões ali ...
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[12-06-2011] |
Não quero para mim o que escrito na pausa urbana, a cegueira de Saramago não me interessa, só me aparece nesses momentos em que uso os medicamentos, eles me aproximam da multidão acéfala, de corpos com as vísceras ao avesso, ruídos vindos das tripas das avenidas, tudo em branco e preto, não consigo ser um deles, tratado ou não, com os medicamentos necessito das mãos para tocar o volume das coisas, e o tempo, o que é dele, já quase duas horas na torre da igreja, eu já na dobra que me afastou do vizinho, felizmente ninguém na rua, a porta de casa aberta, a mangueira ainda bloqueando a entrada, a limpeza tem cheiro próprio, não há barro no limpa-pés, coloco a mão no bolso do casaco por hábito, a chave que me lembra a lagartixa, não sei de onde, devolvo-a ao mesmo lugar, a luz mortiça no corredor, e a voz de Amélia. De quando a lembrança? Existiram as árvores? Jabuticabas lustrosas no tronco, cascas ressequidas e pisadas no chão, a ereção, o pelo negro e a vulva rósea, a casca negra e o fr...
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[11-06-2011] |
o posso fazê-lo enquanto estiverem no meu pé, fiscalizando meus passos... Depois, retomar à escrita caótica e desejante... Precisam de algum tempo ou alguma desgraça provocada pela natureza para me esquecerem. Enquanto isso, suportar meus dedos trêmulos, a salivação incontrolável diante da velha Remington Rand, a abstinência provocada pela falta da escritura, não sei quantas madrugadas mais aguentarei, o que de mim escritura é atraída pelas desoras, quando se ouve os ossos dos fantasmas estalarem junto aos arrotos estrelares, o riso sardônico da morte, o medo latido dos cães, os gritos histéricos dos bêbados, o serrilhar dos segundos...A víscera já não ronca, grita! Boteco sujo! Há uma vantagem, sem viva alma. Entro. Um sujeito mal encarado palita os dentes, pano encardido sobre o balcão. Peço pão com manteiga na chapa e café com leite. Limpa as mãos no avental que devia estar branco... No alto, a televisão ligada, não há espaço privado, a violência da cidade verborrágica pela audiênci...
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[05-06-2011] |
E na casa nunca me senti só como agora ao ver essas crianças, empilhamentos de ossos, brincarem em águas empoçadas e fétidas, corpos com suas úlceras pútridas nas calçadas aguardando um trocado ou o camburão do IML, jovens aspirando droga, só eu atento, tudo em branco e preto, o que atenua um pouco a dor, o líquido que escorre das feridas não é vermelho, mas preto, e as pessoas passam desinteressadas no que enxergo e continuam seus pesadelos, só eu fora, diante de mim um exército de cegos funcionais. Na casa, sem os remédios, reencontrarei meus parceiros, o outro de mim, a velha Remington Rand, quem escreve é sempre o outro, escrever é agora o interminável, o incessante, Blanchot, não esqueço nem na insanidade, é o outro de mim com suas mensagens sutis, as intermináveis cartas enviadas aos amigos, não há leitor nessa massa amorfa e repetitiva, não, na casa não me sinto só, desejo a solidão da casa, a ameaça do fascínio, a imprudência dos delírios, onde bastam alguns passos para sair do...
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[04-06-2011] |
Caminhar lento entre sonâmbulos, seres ameaçados pelo existir, pelo desejo, pela vontade. Todos tão estranhos que sinto certo alívio. Não aceitei a família, a escola, os padrões... A subjetividade reducionista da ciência com sua falsa ideia evolucionista. Torne frágil o Estado, estaremos em um hospício a céu aberto, sem quadrado azul, sem muros, apenas estas bestas soltas a lutarem pela sobrevivência. E falta pouco... Muito pouco. Esgotada a água e a comida restará a selvageria. Mutantes apenas na tela que os engole diariamente. Lá esta o banco. Visual novo, os banqueiros enriquecem às bancadas. Há um tumulto na porta. Procuro me aproximar. Um homem de cuecas, meias e sapatos, na rotatória de vidro. Discute com o segurança. Pergunto o que há para um sujeito franzino que a tudo assiste com atenção. O homem não consegue entrar, já faz uns quinze minutos, a porta dispara o alarme, começou deixando a chave com o segurança, agora não tem além da cueca e das meias e sapatos, e ameaça tirar a...
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[29-05-2011] |
Nunca lhe falei da semelhança com o animal... Por que faria isso por mim? A aposentadoria mal dá para pagar os impostos e comprar os remédios. Aí está um bom motivo para tanta presteza, sempre recebe algum como pagamento, guarda nome e telefone de chaveiros, encanadores, eletricistas, cozinheiros, empregados domésticos, motoristas de táxis, dos policiais que fazem a ronda no bairro. Tudo o que é preciso para uma emergência. Ficasse nisso... Mas não, com certeza foi ele quem armou a internação, mas não me lembro de nada. Permaneço atento nos lábios em movimento, pretos, o cigarro vai levá-lo daqui. Em cores, os lábios estariam arroxeados, pedintes de oxigênio. Não sinto pena nem raiva dele... É o que está na minha frente, um sujeito comum, como tantos outros que conheci e conheço, sobrevivendo com o que dá, sem motivações pessoais, cujo nome nada diz além das seis sílabas, talvez ali um acento final querendo alertá-lo, uma interrogação, André?, mas o nome não diz nada, não há o que dize...
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[28-05-2011] |
Nada disso Amélia, nunca estive tão singular, tão igual, tão normal... Não se preocupe. Isso é verdade, se o senhor fizer a barba e pentear o cabelo, ninguém vai desconfiar de onde veio, o senhor sabe, lá do hospital. Hospital não, Amélia, hospício. Não fale assim que agora o senhor está normal, ouvi bem o que disse do seu André, e tem razão. Fico imaginando o que diz de mim por aí... Nada não, eles é que dizem do senhor, acham esquisito o modo de vida que leva, mas aqui entre nós, cada um tem lá sua loucura, veja o seu André, vive lavando as mãos, sem motivo algum, Dona Heloisa carcome a unha como o rato faz com a madeira, as três irmãs da esquina, solteironas, vivem paparicando o padre, limpando as santas e adorando os anjos na paróquia, deram de vesti-los com roupas de renda que elas mesmas fazem, onde já se viu esconder o sexo dos anjos, que Deus me perdoe, ficam parecendo travestis, mas não vêm ao caso, elas gastam o rosário de tanto rezar, e que fique aqui entre nós, são virgens ...
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[22-05-2011] |
Abrir as janelas? Sem possibilidade, estão emperradas... Mas Amélia é dessas empregadas irmãs do vento e do trovão, escancarou janelas e portas sem dificuldade, tudo estalou, ruidou e rangiu, como se houvesse ossos na casa. É para iluminar e ventilar, disse em uma das passagens rápidas por mim. A luz flagrou as vísceras da residência. Nossa, que sujeira! Não devia morar sozinho... Homem solteiro dá nisso, precisa arrumar uma companheira, logo vem doença, quem vai cuidar do senhor? Responderia que prefiro morar sozinho não fosse sua saída rápida da casa, deixou a resposta dependurada em minha boca, aterrado em inquietações. Já entrava no quarto quando ela ressurge na porta, traz uma mangueira que leva até o banheiro. Seu André é um homem precavido, olha só o comprimento, dá para chegar do outro lado da casa. É para compensar a altura... O que disse? Nada, Amélia. Que disse, disse... Besteira! Continue seu trabalho. Vai lá o senhor começar a falar sozinho outra vez... Não se preocupe com...
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[21-05-2011] |
Melhor sair, dar uma volta. Mostrar à plateia que estou bem. A chave na fechadura. O ruído seco. A porta destravada e aberta. O céu carregado. Atravesso a rua na faixa. O bar aberto. O caixa pergunta como estou. Não posso lhe dizer que o vejo em branco e preto. Respondo, então, estar bem, só me falta o cigarro, digo, pegando o dinheiro enquanto ele um maço de cigarros e uma caixa de fósforos. Ainda bisbilhoto o fundo. Frustração. Não está lá. No lugar, uma mulher com seus cinquenta anos. Ela sorri. Não é hora para isso, digo a mim mesmo, mas três meses não é pouco, mesmo anestesiado pelos remédios, volto-me para a rua, acendo um cigarro, trago profundamente, o sujeito comentará com os fregueses meu retorno, procuro afastar a ideia de que alguém me segue, atravesso a rua na faixa, com a luz verde acesa para pedestre, paro diante da porta de casa, observo o animal no frontão, retiro a chave do bolso, encaixo-a na fechadura, dou uma volta, ouço o ruído do destravar, sinto um bafo quente n...
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[15-05-2011] |
Até lá, sairei um pouco mais, cumprimentarei as pessoas, deixarei que alguém limpe a casa algumas vezes por semana, evitarei que percebam minha vida sem tom, respeitarei os roteiros e as repetições do comum, convencerei que divido a mesma fé ao olhar, compartilharei os clichês de afetos, desejarei bom dia, comentarei notícias de crimes e assaltos... Depois do esquecimento, abrirei a cela do outro de mim. Aos poucos. Deixar-me turvar naquilo que se olha, ver é esse diluir-se no ausente, tornar-se a própria obra ficcional, estrangeiro nas margens, refratário. Mas a obra... Objetivo existencial único, como o das abelhas. Sempre inacabada. Viver assim com Carol, eu suportava melhor. Mas Carol não mais aqui. Na falta das nuanças do cinza,Carol me oferecia o volume, minha mão a resgatar o perdido, como se tocá-la devolvesse as cores à matéria quando tudo na casa gritava o vazio. Mas Carol não mais aqui. Ou melhor, ausente por um tempo. A velha Remington Rand emperrada, meus dedos doídos, efe...
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[14-05-2011] |
Medo sem cor, sem esperança. Pavor de caminhar na rua, de retornar a casa. Da noção de tempo perdido. Agora sepulcro onde a máquina me olhando depressiva, silente, palavras à espreita, à espera, sem música ou ligações possíveis... Suturaram a fenda com agentes químicos. Onde o não juízo, a fratura? Onde a eternidade entre os instantes? Eu no sofá do velho, sem o outro para me distrair, dar cor à natureza, trazer alegria nestes lábios ressequidos pelo efeito dos remédios, as cartas sobre a mesa e a mesma vontade de não abri-las, o gato desaparecido em alguma fenda, os fantasmas que me fazem falta, a sineta calada, penso naquele que chamou a polícia... Às bestas sérias, o veru! Lá longe, a cobrança: Quando você terá juízo? Quantas vezes a frase estuprando o ouvido, desejosa de me privar de ser o diferente? Qual o motivo desta vez? Talvez minha resistência em marcar território nômade... Ou o incômodo de a clausura pontuar a possibilidade da morte. Tiraram-me daqui à força... Os móveis for...
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[08-05-2011] |
Ignoram o entorno em troca de algum que satisfaça seus delírios consumistas. Para os braçais, não existe o que é justo ou não, mas o que determinam como justiça, eles têm as algemas, o choque e a celas; as drogas. Os médicos, psicólogos e assistentes sociais são instrumentos na mão deles. O poder... Oh, Santo Poder! Aqui, em meu canto, quieto, não corro o risco de ser enviado ao ambulatório médico. Nem pensar em adiar a alta... A sala de choque fica ao lado do posto de enfermagem. Boca tapada com chumaço de pano, o corpo amarrado, tendo os neurônios estuprados até a exaustão pela corrente elétrica. Depois o caos, moída a memória, corroído o corpo, o outro de nós não mais presente... Por isso somos condenados a arrastar atrás de nós, do berço à sepultura, um irmão mudo e sem rosto, que é todavia co-responsável pelas nossas ações e, portanto, pelas nossas páginas. Não mais aqui... Fragmento, rastro, do outro de mim... Hiberna enterrado na areia encefálica. Perdeu-se no buraco negro provo...
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[07-05-2011] |
O olhar muito distante, lá longe, onde nem pássaros habitam. Mas eu aqui, mergulhado neste visual lúgubre, úmido e escuro, sem a teimosia de Jó, sem as luzes dos magazines e das salas de jogos, Dolce & Gabana por aqui é odor de suor, fezes e urina. Depois de um tempo, acostuma-se, desaparecem a náusea e o vômito, permanecem apenas os sons dos porões da inquisição, da dor provocada por vozes e monstros conspiradores. Só os mais dementes não saem de suas celas, permanecem em prisão própria, o corpo acorrentado em fios invisíveis, misturados à merda e ao mijo de rato, gementes, aterrorizados, recolhidos no canto ou agitados, batendo a cabeça e dando murros nas paredes. Muitos são levados à enfermaria, rostos ensanguentados, lutando contra monstros que só eles presenciam, e retornam carregados nas macas, cabeças enfaixadas, corpos acal...
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[01-05-2011] |
Alguns morrem dependurados na cerca, vítimas de alucinações, quando o louco avança em territórios arcaicos com seus manjaléus, deradelfos, dicéfalos e tricéfalos, em orgia imaginária grega, e encontram as armadilhas criadas pelos guardas e funcionários. Há quatro guaritas, uma em cada ângulo do muro, mas nem sempre há guardas ali. Aqui ninguém se estranha além do instante, o território do demente é fistuloso, repetição do improvável, ilha desarvorada do caos, é estar na fenda ou apossar-se dela, mas de um modo marginal e fronteiriço a outro surto que pertence à maioria formada no ritual cuja fenda é ninho de alguma religião, filosofia ou ciência, que instrumentalizam a repetição do provável, eco que mantém o sistema e a normalidade, essa neurose possessiva e de comportamento único do convívio comum. Repetir-se e submeter-se diariamente aos trajetos do emprego, da igreja, da escola, de shopping center, aos prazeres da carne, ao consumo, diante de um mundo definido por regras e placas, m...
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[30-04-2011] |
As mesas enfileiradas. Passar o tempo carimbando documentos, redistribuindo processos, observando as cabeças à frente, ser o último da fila. Sempre foi assim. Se não por opção, por ordem do professor. Desejavam humilhar, mas não sabiam ser do agrado agir como o último. O primeiro representava ser o melhor do mesmo. Singular... Preferia ser único, por mais que isso doesse aos outros. A quem a vida pertencia? Ao Estado, é claro! Voz de algum lugar que não o mesmo. Tanto fazia se pertencesse a Deus ou ao Estado. Não lhe incomodava. O trabalho, por mais rotineiro que fosse, permitia viver sem favores. Até 16h00. Nem um minuto a mais. Colocar o capote, pegar a maleta e sair. Ajeitar-se no vagão do metrô, maleta no colo, observar as pessoas através dos reflexos nos vidros das portas e janelas. Não sabendo observadas, conhece-se o sósia, rompe-se com o jogo de sedu&cced...
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[24-04-2011] |
Você ainda está aí? Mamãe sofria com essa mania... Ovos! Agora, pouco importa. Só o fantasma dela presente. E o seu... Vim pegar a garrafa de uísque. Você não leu as cartas. Faz meses que não lê as correspondências. Estão todas sobre a escrivaninha. Acho que não foram avisados... Foi tão rápido. Lembra-se de papai? Não! Você não tem memória. Ele comia a pera. Abria a boca para mordê-la. Não nos demos conta. Ver tudo quedo: a fruta, o braço, a cabeça, o corpo. Não respira... Mamãe diante de alguma sombra que não vemos, sussurrando frases desconexas, você deixa o pão sobre a gema do ovo e corre a socorrê-la. Eu continuo sentado. Descobrimos que morrer é essa pausa no espanto. Deixamos mamãe na agonia do instante e nos fechamos no escritório. De nada adiantou a porta fechada, as sutilezas do passamento transpassam as frestas, os vãos e as paredes. Você colocou-se no canto, rosto virado para a parede e tapou os ouvidos. Não me lembro se chorou. Pouco importava o que eu lhe dissesse. Só sai...
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[23-04-2011] |
Adiante o longo corredor no viés de um dos tempos possíveis. Frio. Faz frio. Piso forte para contaminar o silêncio. Preciso de ruídos para me sentir vivo. É assim quando estou irritado. Ser ignorado me inerva. Neste estado misturo todos os tempos, todas as imagens possíveis. Sinto vontade de urinar, o banheiro uma bagunça, mijo fraco, maldita idade que dizem ser a melhor idade, não quero perder o clima, o caminhar dos personagens, sei que a história não terá um fim, na vida real nada tem um final, melhor voltar à história, deixo as cartas sobre a mesa, acumulam-se, procuro a maleta, rio de minha distração, já não tenho mais a maleta, torço o resto do cigarro no cinzeiro, teclo, o som da sineta... Seria possível? 17h30. Só pode ser... Sempre pontual. Mantenho-me quieto. Coloca o chapéu e o casaco no cabide. Abaixa para pegar as cartas esparram...
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[17-04-2011] |
Órfãos... Ele estava sentado em um banco de jardim, fumando prazerosamente. Sempre agiu como se nada lhe pertencesse. Não me deixou chorar. Ouvi suas frases prontas, um dia aconteceria, não liguei, conhecia-o muito bem, sempre carregado com um ar irônico. Tudo continuou igual. Talvez a mudez que nos permeia esteja um pouco mais intensa. Aceitar e suportar faz parte do acordo. Crescemos assim... Nem as perdas serviram para nos aproximar. Está lá, dentro do costumeiro capote amarronzado, óculos escuros que não tira no inverno nem nas madrugadas. Retorna da repartição pública. Morrer tem muito a ver com esse tapar a visão com óculos escuros. Opção pela solidão ou pela orgia. Masturbar-se ou descarregar espermas nas entranhas de profissionais, como alguém que aperta a descarga no vaso sanitário; jamais nu. Nada de relações em que o devir é a dor. Como se tivéssemos nos ignorado a vida toda e chegássemos a um ponto em comum, ponto de interseção, lugar onde duas faces se encontram, mas não s...
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[16-04-2011] |
Retiro chapéu e casaco da estaqueira e os visto. Pego a chave dependurada no prego na parede. Olhos de lagartixa. Comparação do outro de mim, em algum momento. Ajeito-a no buraco da fechadura. Duas voltas provocam o ruído seco da trava. Ajeito a palma da mão na maçaneta fria, forço um pouco para baixo, uma claridade abre-se em leque e ocupa parte do corredor da casa. Protejo-me da luz com a aba do chapéu, assim entra obliquamente, sem agressividade. Há barro no limpa-pés... Afasto a estranheza. Não desejo mais respostas. Pego a chave, puxo a porta pela maçaneta até ouvir o ruído de travamento, e tranco-a. Fora, um barulho ensurdecedor. Irrequieto, adianto alguns passos. Cabisbaixo, refugio-me nas sombras. Depois mergulho nos rostos. Carcaças a proteger a mesma enunciação de palavras, ideias e opiniões. Não preciso de espelhos no entorno, meus outros me bastam, nos suportamos, vestimos a mesma máscara. Como arquicêmbalos, com suas infinitas notas musicais em cada oitava. Eu me enclausur...
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[10-04-2011] |
Observo-o enquanto abre o primeiro botão da camisa, percebo a umidade em suas axilas e costas, o quanto está cansado, dedos no teclado, ele pega a vasilha e sai na direção do animal, um gato envelhecido, rabo torto e pelo ralo. Nega minha presença. Nem sempre... Melhor respirar um pouco, fugir do mofo. A escuridão e a fumaça são companheiras do desvario. Faltam-me cigarros. Melhor sair para comprá-los. Os dedos merecem um descanso e aqui ninguém cobra pela nicotina alheia. Preciso terminar o texto, um mês de atraso. Há duas horas lendo o mesmo parágrafo, à procura de alguma ideia: Tinha a impressão de ter reconhecido o estranho. Não era só isto, porém. O pior era que sabia que o mundo o conhecia; conhecia-o até muito bem. Tinha-o visto noutra ocasião... Sim, tinha-o visto em algum lugar e não fazia muito tempo... Até sabia o seu nome completo. Sem dúvida, por preço nenhum deste mundo, diria aquele nome...Estou saindo! Digo alto. Ninguém responde. Os últimos anos têm sido assim. Preciso...
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[09-04-2011] |
A esquizofrenia da filha de Joyce. O lugar onde arcanjos degradados lançaram as estrelas de suas fontes. Focinhos enlameados de porcos, mãos que fossam e fossam, agarram e arrebentam.Devaneios oportunos... Alimento literário. Bachelard! Ah, companheiro das fantasias impossíveis! Inúteis, por que não? Do sonho quando o jovem ao entrar no mar encontra o crânio sem encéfalo. Onde foram parar os pensamentos tão bem guardados dentro da caixa óssea? Mas há registros, tatuagens sobre a ossatura, que permitem saber a origem do ser que habitava um quase cofre, não fossem as artimanhas da memória e os abalos sísmicos dos sentimentos. Viajou alguns quilômetros antes de ser encontrado. Pelos traços, podia-se definir a distância da origem. Talvez alguma vítima de hábitos canibais. Em que tempo? Pouco importa. No devaneio, todos os tempos coexistem. Na mudez e tortuosidade da massa encefálica encontraremos tantas cavernas quanto moradas, tantas histórias quanto personagens, tudo é transitório, passa...
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[03-04-2011] |
Saciada a sede, o animal vai ao alimento. Fica o ruído do gotejamento. O pequeno animal jamais saberá daquele mundo que assunta questões desconhecidas, olhos parados, regozijo só no pensamento, expressão a mirar estranhezas, lugares onde ausente a matéria, indiferente à sujeira ao redor, às formigas que avançam pelos cantos levando tudo que encontram pelo caminho, às baratas que já não têm preocupação com o local da desova, às lagartixas que encontram ali alimentação farta.Adiante, sentada junto à mesa, um vulto, figura feminina, a observá-los em atroz privação de fala. Sorria? O ruído do gato em disparada fuga, pelos eriçados, como se diante de um fantasma, levou-o a desviar-se por um tempo da atenção dirigida à mulher. Quando retornou... Encontrava-se sozinho. Só e delirante. Amaldiçoou o animal. Levantou-se e abriu a geladeira. Tinha o gosto de outra mulher nos lábios. Saudade é esse materializar o extinto ou o distante; possuir os ausentes. Desvario que ainda o mantém preso à vida....
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[02-04-2011] |
Dependurada em uma das prateleiras, a frase: Às bestas sérias, o veru! Sorriu... A ordem dos livros é a do acaso da leitura. Literatura é o forte da coleção. Muitos relidos, outros começados e nunca terminados. Alguns nunca abertos. Muitos fragmentos de leitura, tatuagens na memória. Pó. Poeira cobria a janela e as bandejas de mostruário. Poeira escurecia os dedos que se moviam penosamente com suas unhas de abutre. Poeira dormitava sobre os espirais inertes de bronze e prata, os losangos de cinábrio, sobre rubis, pedras escamosas de cor de vinho escuro. São os odores que atraem à leitura. Nunca soube definir o que seriam essas emanações oriundas dos textos, sutis e sem rumores, bem diferente do bolorento e funesto que emana dos poros das santidades e da morte.Olhar na direção da velha máquina de escrever... Alguém tecla. Seria capaz de dizer qual a palavr...
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[27-03-2011] |
Deu um primeiro passo. Caminhou pelo velho e conhecido corredor de madeira corrida, pé direito alto, com lentidão pegajosa, pés enraizados em inquietações. Seguiria de olhos vendados, sem dar um tropeção ou desviar-se do destino, não precisaria das pernas para alcançar o escritório, bastaria a imaginação, estão todos onde não mais, apesar de único sobrevivente. Habituara-se ao ranger dos dentes e aos passos ásperos de seus fantasmas, rastros pálidos da história dos personagens que passaram por ali, o mofo a resenhar acasos na umidade da parede, vontade nenhuma de retornar à rua, fechar a porta representava dizer não às bestas sérias que infestavam a repartição pública onde trabalhava; e as ruas. Atravessou o longo corredor de luz pouca como se penetrasse a própria solidão, um retorno aos brotamentos ...
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[26-03-2011] |
Dois guardas conversam próximo, um cão passa perto da mulher queda, fareja o corpo, levanta a pata traseira e urina, dá uma última olhada e vai embora. Também não liga, o sósia transformou-se em gelo, tem os passos pesados, são sessenta nas têmporas, o corpo discretamente envergado, pescador de solidão, não há mais ninguém, fala sozinho pelos cantos, a porta com o animal no frontão. Pegamos a chave do bolso do casaco. A sineta agitada, pego as cartas, olho os remetentes, sem curiosidade, alguém tecla no escritório, ouve-se um teclar lento, ele já lá, sempre apressado, falta inspiração, olho os aposentos, passados que pesam repensar, entro no escritório, separo-me da maleta e do casaco, folgo a gravata e desabotoo a camisa. Procuro o gato, dois olhos assuntando, ele pula, dá uma volta completa ao redor de meu corpo e segue na dire&ccedi...
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[20-03-2011] |
O outro de mim. Segue no corredor, na direção do escritório. Ouve-se a Remington Rand. A mesma história escrita a quatro mãos, memória dupla, jogo de espelho, o desejo não realizado e o real não sonhado, da luta restou uma película, um privado exposto ao público. Mas não somos todos assim, uma mentira, resultante matemática do preço de se viver em uma sociedade que põe o individual à mercê do social? Mas por favor! Herrmann com as dobras barrocas, por aqui, não! Mas já está na tela... É do desejo. Plano em que o medo do real não interfere, é uníssona a decisão. Já está na tela, no texto. Você não tira o olho do escritório? É Carol percebendo a pausa diante do prato. É que estou com algumas ideias. Você precisa se cuidar, para tudo há um limite. Não ...
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[19-03-2011] |
Havia o lado bom quando ficava assim. Clara, pegue um ovo! Para quê? E não me chamo Clara, já disse que não gosto dessas confusões de nomes, Clara era o nome de sua mãe. Desculpe-me Carol, me dê o ovo, vou estalá-lo no caldo, como fazia quando menino. Tanto capricho e agora você com essa ideia de colocar ovo na sopa! Nessa hora Carol está sendo Clara. No ar, o cheiro de alho e cebola; de sangue e da mãe. Carol preocupada com o desinteresse do marido, com o meu, mas Carol não mais, o romper lento com a vida, não sabe como me ajudar, as depressões cada vez mais duradoras e frequentes, a gema do ovo flutuando no caldo verde, a clara esbranquiçada, o calor da sopa no rosto, a fumaça fugindo dali, quase imperceptível, o menino querendo virar fumaça, esparramar-se no teto, centenas de tentáculos, sair pelas fissuras abertas nas paredes, olhar o mundo do escuro das...
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[13-03-2011] |
E a sineta... É tio Anastácio a despontar na porta da cozinha, dá um beijo na testa da irmã, passa a mão na minha cabeça e dá boa noite ao velho que tem a colher entre o prato e a boca, imagem fotográfica, a mesma expressão dirigida aos mendigos e pobres, tio Anastácio não liga, puxa uma cadeira para próximo da mesa, pega um prato e serve-se, elogia o caldo, sabe o que pensam dele, principalmente o pai, a mãe feliz nos olhos, mas apreensiva nos lábios, muito depois soube que tio Anastácio levantava a bandeira gay, lutou até onde pode pelos direitos deles, a mãe sempre aconselhando, ele sabia que abrir o leque dos direitos tocava perigosas forças contrárias, silenciosa e hipócrita resistência, e assim morreu tio Anastácio, corpo abandonado em um parque, facadas pelo corpo todo, até hoje ninguém soube, Fez por merecer, o co...
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[12-03-2011] |
Ela olha no velho cuco pregado na parede da cozinha. Hora do jantar e nem terminara os afazeres. Trata de esconder o avental e a roupa sujos de sangue, limpa as lágrimas da criança, olha ainda uma vez mais para verificar se o sangramento havia realmente estancado. Aguardou os movimentos do marido. Ele pegaria as cartas, haveria uma pausa para leitura dos remetentes, daria alguns passos até o escritório, sentaria na velha poltrona de couro de carneiro, abriria uma a uma com o instrumento afiado que comprara em uma de suas viagens ao exterior, faria uma leitura minuciosa, soltaria alguns resmungos, teceria alguns comentários estéreis, faria algumas anotações e largaria as cartas sobre o móvel, responderia mais tarde, pegaria o cachimbo, colocaria o fumo importado no fornilho, acenderia com o fósforo que a mulher deixara sobre a mesa, daria uma longa tragada, olhar distante, a pensamentear particularidades não di...
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[06-03-2011] |
E Carol, muito depois; aqui, Vamos o quê? Jantar, o que mais!? De que abismo da mente vem o chamado para jantar? Fonte de todos os delírios lugar onde nada além do desvario, lógica linear é superfície, desejo de ter o controle nas pontas dos dedos, mãos de Balzac, roteiro de novelas, orgasmo reprimido comportamentalista a tecer cancros na malha cristã e judaica. Luz na tempestade é o sofá vazio, a garoa pontuando o presente (que é dele?), o cimento castrado de jabuticabeiras, o velho mandou cortá-la depois da doença, justificou pela sujeira provocada pelos frutos, o lugar placa única cinzenta, também não serviria mais para os devaneios da infância, eu e Carol não tivemos filhos, e nós não curtiríamos mais a sombra e a natureza, o tempo nos faz argamassa, quase esculturas, frias, não Rodin, simulacros. Os dois olhos no alto da biblioteca...
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[06-03-2011] |
E Carol, muito depois; aqui, Vamos o quê? Jantar, o que mais!? De que abismo da mente vem o chamado para jantar? Fonte de todos os delírios lugar onde nada além do desvario, lógica linear é superfície, desejo de ter o controle nas pontas dos dedos, mãos de Balzac, roteiro de novelas, orgasmo reprimido comportamentalista a tecer cancros na malha cristã e judaica. Luz na tempestade é o sofá vazio, a garoa pontuando o presente (que é dele?), o cimento castrado de jabuticabeiras, o velho mandou cortá-la depois da doença, justificou pela sujeira provocada pelos frutos, o lugar placa única cinzenta, também não serviria mais para os devaneios da infância, eu e Carol não tivemos filhos, e nós não curtiríamos mais a sombra e a natureza, o tempo nos faz argamassa, quase esculturas, frias, não Rodin, simulacros. Os dois olhos no alto da biblioteca pertencem a nosso único companheiro, um gato que encontramos na soleira da porta, no inverno, faminto e hipotérmico, quase morto, e que vive arrepiando...
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[05-03-2011] |
Há uma mulher, Carol, ainda nem projeto, lembra um pouco a mãe, mas só no visual, nos cabelos ondulados e acastanhados, no nariz e lábios delicados, mas de fala e comportamento decididos, impulsiva, nem imaginar esse outro meu lado assumir as rédeas, Carol não prega um botão e não faz nada que não seja de sua vontade. Foi dela a voz... Não de Clara. Mas nenhuma das duas aqui... O que foi menino? Mania de ficar atrás da porta! A fala vem com um bafo quente, como o mormaço que o vento carrega junto à poeira no verão. Não há mais sombras, não há devir, as pernas amolecem e o coração acelerado, entonação que por si expulsa a criança do lugar, mas o sintoma permanece, saio em disparada pelo corredor, atravesso a cozinha, a ouvir minha mãe perguntar O que foi, viu Satanás? e ver Da Graça, a empregada, traçar com o dedo uma cruz no rosto dizendo Cruz-credo, dona Clara, não diga isso!. Distante, sentado debaixo da jabuticabeira, ainda apalpo o silêncio na esperança de novas geografias, não ouç...
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[05-03-2011] |
Há uma mulher, Carol, ainda nem projeto, lembra um pouco a mãe, mas só no visual, nos cabelos ondulados e acastanhados, no nariz e lábios delicados, mas de fala e comportamento decididos, impulsiva, nem imaginar esse outro meu lado assumir as rédeas, Carol não prega um botão e não faz nada que não seja de sua vontade. Foi dela a voz... Não de Clara. Mas nenhuma das duas aqui... O que foi menino? Mania de ficar atrás da porta! A fala vem com um bafo quente, como o mormaço que o vento carrega junto à poeira no verão. Não há mais sombras, não há devir, as pernas amolecem e o coração acelerado, entonação que por si expulsa a criança do lugar, mas o sintoma permanece, saio em disparada pelo corredor, atravesso a cozinha, a ouvir minha mãe perguntar O que foi, viu Satanás? e ver Da Graça, a empregada, traç...
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[26-02-2011] |
Capítulo III: As orgias da memória(de quando a lebreia?)Você não vem jantar? De quem a voz? O susto do menino pela voz próxima, mas a prima com a boca presa no pinto, resistindo à mão que empurrava a cabeça dela para longe, preso como um cão emparelhado na cadela, você olhando de longe, rindo da situação, avisando que a mãe estava próxima, e a prima que não largava o picolé, era como chamava meu pinto ao brincar, mas a voz não de tempos tão distantes, o coração acelerado e o suor frio, Já vou, respondo, mas a voz sai tremulante, cheia de contaminações de um tempo anterior, não se atualiza o ontem, ele se repete, fora chuva fina e contínua, talvez devesse trazê-la para o texto, Lá vem a lebreia, dizia o velho, era seu modo de tratar a garoa que neblina tudo, que avança criando a ilusão de u...
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[26-02-2011] |
Isto mesmo, retirar o corpo, ele estava incomodando, ocupando o lugar de outro, minha Carol no não-lugar, sempre viveu assim, descompromissada, permaneci com o sinal de ocupado no ouvido, lembrança da mãe quando do aviso do derrame do pai, da existência de palavras fraturadas e do desejo de o tempo retornar a um pouco antes do dito, mas não houve engano, o telefone ficou mudo depois do aviso, nem sei como cheguei ao hospital, o corpo de Carol frio e marcado por manchas roxas nos braços e pernas, uma vontade enorme de ter relações com ela, mesmo morta, misturar-me ao corpo morto, ouvir seu gemido de gozo, ter sua língua na minha boca, seria o modo de me despedir, mas não conseguiria, mesmo sabendo que Carol concordava com todas as minhas maluquices, o que fazer com o corpo? Gelado... Não podiam ficar com ele por muito tempo. Foi você que me levou à funerária, sempre foi mais forte que eu, negociou o caixão, ficamos os dois velando Carol madrugada afora, puta não tem amigos, mas clientes...
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[20-02-2011] |
Isto mesmo, retirar o corpo, ele estava incomodando, ocupando o lugar de outro, minha Carol no não-lugar, sempre viveu assim, descompromissada, permaneci com o sinal de ocupado no ouvido, lembrança da mãe quando do aviso do derrame do pai, da existência de palavras fraturadas e do desejo de o tempo retornar a um pouco antes do dito, mas não houve engano, o telefone ficou mudo depois do aviso, nem sei como cheguei ao hospital, o corpo de Carol frio e marcado por manchas roxas nos braços e pernas, uma vontade enorme de ter relações com ela, mesmo morta, misturar-me ao corpo morto, ouvir seu gemido de gozo, ter sua língua na minha boca, seria o modo de me despedir, mas não conseguiria, mesmo sabendo que Carol concordava com todas as minhas maluquices, o que fazer com o corpo? Gelado... Não podiam ficar com ele por muito tempo. Foi você que me levou à funerária, sempre foi mais forte que eu, neg...
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[19-02-2011] |
O caldo verde está na mesa, vai esfriar... Sorriso inconfundível, lábios suculentos, daria uma boa mãe... Quantos perdidos caíram de sua barriga? O primeiro, ainda adolescente. Quase morreu de tanto sangrar. A vergonha de encarar os médicos que ao invés de cuidar de sua saúde censuravam o feito e cobravam o nome e endereço do aborteiro. Não sinto vergonha nem nojo de viver com Carol, nenhuma mulher outra igual a ela, não cobra nada de mim, faço da vida o que bem entendo, e deixo-a fazer o que gosta. Mas parece que Deus não aprecia muito ver as pessoas se completarem... Lembra-se, Carol? Você passou a tossir pelos corredores. Você não para de tossir e suar. Vou marcar uma consulta... E você não me deixa terminar, tapa minha boca com os dedos, depois me beija nos lábios, leva o beijo para todo meu corpo, excita-me, entrega-se a mim e dorme. O emagrecimento n&a...
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[13-02-2011] |
Literatura é nada, disse um dia o velho. Onde o gole de algum excesso ou loucura? Sempre correto, devia dar exemplo aos pares, então, camuflava... Você quer algo melhor que a palavra camuflar? Um dia alguém desvendaria algum segredo, alguma farsa, alguma mentira. O dia em que tudo escorreu para o ralo havia chegado. Quem diria? O grande qualquer coisa mostrando o rosto como se mostrasse o cu. Uma carta escrita com letra de professora e imagens adolescentes. O velho havia se enroscado com uma menina de dezesseis anos. Engravidara. Apareceu em casa no verão, eu atendi ao chamado da sineta, perguntou por Clara, corri a chamá-la, vi quando a mãe retornou, tremia e transpirava muito, o rosto pálido. Trancou-se no quarto, não saiu de lá nem para preparar o jantar do marido. Algo de muito grave havia ocorrido... Precisaria dizer? O pai estranhou, foi até ela, saiu do quarto estuante, atravessou o corredor apressadamen...
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[12-02-2011] |
Mas qual o motivo de tanta fuga e racionalização? Pensava no encontro com Carol... Ela diante de mim, pornográfica, me fez descobrir a poesia no que virgem e selvagem, nas umidades e nos ruídos provocados pelo atrito, separar sensualidade da pornografia é obra de quem mergulhado em excesso de culpa, nesse coletivo cuja subjetividade é substituir árvores por prédios, cobrir a terra com asfalto, isto sim é pornográfico, matar a natureza... Seria negar a paixão pela mãe? A natureza é feminina, mesmo nas tempestades. Mas Carol não precisa matar ninguém. É livre e sem culpas. Olá, você sabe onde fica... Sábado, eu sozinho, Ipiranga com São João. Se permitir, posso levá-la, é meu caminho. Aceitou o convite. Deixei-a na porta do local procurado, um prédio de três andares. Agradecida, cedeu um sorriso que eu fiquei a contemplar, a mão de longos dedos e esmalte vermelho nas unhas segurando a minha, até arrancá-la e entrar no prédio, eu torcendo, um último olhar, mas ela desapareceu no corredor,...
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[06-02-2011] |
E o chamado. Antes de atender ao telefonema, olhou na direção do mostrador do relógio. Fora de hora, suspirou no ar. Boa notícia não seria. A criança como que por intuição interrompeu o que fazia. O que fazíamos... Entreolharam-se. A criança e o outro dela. Quase um monólogo. Sim... Não! Não é possível... Duas vozes em único corpo. A mãe vacila diante do telefone, mas atende. Sei, sim. Pausa. Mais fragmentos, palavras fraturadas. Hoje sei o significado dos filhos bastardos da gramática. São como fendas rochosas, nos apropriamos delas ou elas se apropriam de nós. Aí a diferença entre a normalidade e o desvario. Em alguma dose elas se apropriaram de nós. A expressão da mãe era de alguém larvado, diante de alguma catástrofe, paralisada em alguma fenda, a mão lentamente caindo com o fone até o aparelho. E assim permaneceu, uma eternidade, talvez negando ou digerindo o que ouvira, talvez acredite que o telefone tocará novamente, alguém pedirá desculpas, dirá que foi um engano, mas o telefon...
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[05-02-2011] |
O DNA da criança não batia com o do pai, soube muito tempo depois, nos documentos que ela guardava em uma pasta. Havia também um diário, falava de nós, mas não quis ler, está no porão, um dia alguém acha e resolve tornar público ou queimar, tudo ali poderá ou não ter ocorrido, tudo depende do vértice de quem observa, de aceitar ou não participar da trama, eu fico com a ideia que tenho de mim, ela levou para o túmulo suas impressões, levarei as minhas comigo, sem diários... Lá está a lebreia. Debruço na janela, cotovelos dobrados, mãos sustentado o queixo, não há limites estáticos, o branco vem fatiando o espaço e o tempo, lavando tudo, depois o céu limpo, recomeço, caos organizador, os pássaros com seus três cantos... Que será de Carol, Clara, o pai, tio Anastácio, de n&oac...
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[30-01-2011] |
O cadáver é o sujeito que sendo não é mais, devir inanimado e sem corpo, foi-se o desejo e a aparência, corpo que nunca definiu um nome, há partes maiores que o todo, como os lábios de Greta Garbo, as panturrilhas da mãe, a umidade de Dora, os pelos negros da empregada... A calcinha da mãe no varal! Não responderei a suas provocações, e saia daí, vamos acordar a moça. Você quer dizer salvar o texto... Não, cara! Que Totem?! Ato falho... Que texto?! Vamos recolher os fragmentos que permanecem vivos dentro de nós, como os fantasmas que habitam a casa e que se repetem em outros lábios, outras panturrilhas... E não estamos no escritório, mas no quarto vagabundo de um hotel de terceira, próximo da repartição, hoje é feriado, o marido dela está internado, vai amputar uma perna, o cacete já perdido pela doença, ela nem aí, é o que parece, mas deve estar cansada de sofrer, o sujeito quando impotente agride a mulher, chama-a de puta, vadia, ela acaba aceitando o papel, como se dissesse Agora po...
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[29-01-2011] |
Da Graça começou a me olhar como um homem, até o dia em que me convidou a dormir com ela, papai e mamãe saíram para compromissos sociais, você me empurrou para lá, não se omita, vivia me dizendo que gostaria de conhecer a floresta da empregada, o quarto apertado, ela abriu as pernas e enfiou a minha cabeça entre suas coxas, não parava de se movimentar, segurou o clitóris entre os dedos e pediu que eu o lambesse, nunca vi mulher gozar mais alto, a figura de São Jorge na parede acima da cabeça da empregada tremulava, tudo se repetiu durante meses, até... Obra do santo você disse rindo. O velho chegou antes da hora, não ouvimos a sineta, Da Graça nua, eu perdido em seus pentelhos, o velho puxou-me pelo braço, saí correndo e me prendi no quarto, ele não apareceu, não saí nem para jantar, vi quando a empregada fechou o portão e olhou na direção de meu quarto, soube depois que a dispensara, deixou que pegasse apenas as coisas mais pessoais, nunca mais a vimos, a mãe nunca soube, acho que não...
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[23-01-2011] |
O velho tinha razão, sobreviver de literatura só com sacanagem, e pare com esse rizinho escroto, vão pensar que agia assim com Carol, que imaginem, não é proibido, enquanto a grana acrescentar à aposentadoria... Caso a Vilma venha a ler poderá pensar que é o objeto de desejo e delírio descrito, terá razão, mas seus pentelhos não são alourados, ela também não rapa a vulva, só o jeito de pegar no cacete igual, mas qualquer profissional agirá assim, faz parte da performance, do desempenho, transar virou arte, de Carol não coloco nada, bem que você gostaria de relembrar os momentos mais quentes... Havia um terceiro olhar, sempre. Melhor não recordar. O olho do velho até hoje presente, nos persegue com seu silêncio sepulcral, nenhum diálogo em casa, para não complicar calávamos, não você, você maltratava meus ouvidos, reclamava, chiava, gritava, eu quieto, o pai muito longe da família, a mãe consentia, só Da Graça matreira e falante, trombeta, tudo para ela era motivo para esticar as ideias...
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[22-01-2011] |
A bandida não está satisfeita, quer mais, e dorme, e geme, goza dormindo, sinta o enrijecimento na ponta da língua, vamos devagar, acariciar com a glande, veja só, dormindo ela se agita, deve sonhar com Tom Cruise, ela sempre fala no ator, impressionou-a De olhos bem fechados, do Kubrick, deseja participar de uma orgia, não sabe estarmos os dois aqui, o marido é um sujeito bonachão, vai buscá-la na repartição quase todos os dias, ela diz que tem bom coração, mas foi castrado pela doença, é diabético, foi o que nos disse, você viu o jeito dela pegar na pica, com três dedos, delicadamente, como se tivesse diante de algo muito sensível, uma imagem sacra, acariciando-o, olhar fixo, os lábios em movimento contínuo de quem quer lamber e morder o fruto, depois mordiscar o bico do seio, é uma cobra, a língua úmida, bruxuleante, o cacete como chupeta, e ela pedia calma, você viu, eu levando meu olhar para a janela, deixando entrar o barulho das ruas para não gozar em sua boca, apelei até para a...
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[16-01-2011] |
O vento balança a cortina, deixa escapar fragmentos de fora, a mãe prende a roupa no varal, eu ao lado, cesta com pregadores nas mãos, ela percebe que desvio o rosto quando prende a calcinha. Ao retornar da clausura encontro seus olhos rindo de mim, de minha vergonha, de meu rosto vermelho. Não gostava nenhum pouco da reação dela, não sabia que pensamentos levavam-me àquela reclusão vergonhosa, encolhendo meu corpo como tatuzinho-de-quintal. Era o desejo, sentia-se atraído pelas calcinhas, você adora cheirá-las, roçar o rosto com elas. Sempre foi sua tese... E deve ter razão, ressuscitasse a conheceria pelo cheiro. E pela panturrilha, fugia da calcinha encontrava a barriga das pernas... De Greta Garbo. Depreciação chamar aquilo de barriga. E os cabelos? Ondulando na testa, a escorrer rente ao olho. Que olhar de tristeza e gozo era aquele? Que sonhos continham e que não eram alcançados? Mas não era sueca como essa... Talvez fosse. Esta mulher tem algo de nosso passado... Pervertido! Não...
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[15-01-2011] |
O pelo rapado. Apenas uma faixa cuidadosamente aparada. Uma delicada borboleta tatuada à direita de quem olha. O sexo identificando a tribo. Mas os temperos que atraem estão além do visual. Atingem o nariz. Cheiro que atrai a língua para seu sexo, alquimia de glândulas que deve atrair o parceiro ideal. Em algum lugar próximo, cães uivam a perda da fêmea. Haverá um casal emparelhado no meio da rua para graça das crianças e chacota dos adultos. Mas foi o cheiro que os fez acasalar. Aqui já não há rivalidade, sou o escolhido neste quarto de janela aberta e sem cortina, ouvindo os sons retorcidos das vísceras da mulher, encaracolando com o dedo indicador os poucos pelos restantes em sua vulva, observando a borboleta aprisionada na pele. Impedida de revoar. Assim foi com a mulher, tatuada nos afazeres domésticos, calada de gozo, metaforizando orgasmo em guloseimas coloridas e saborosas. Onde está você? Que é dele, do duplo? Devia saber... Esse lado voyeur. Sempre devo procurar o imponderáve...
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[09-01-2011] |
O pai um sujeito magro e alto, queixo e orelhas grandes, logo os levam para dentro da casa, dizem que passam o dia jogando xadrez, que nas férias vão à praia, não conhecíamos o mar até o dia em que papai alugou a casa na praia, mas não ficou conosco, era para se livrar da família um tempo, diz que tem muito trabalho, Clara não reclama, foi quando descobri felicidade no rosto dela, permanecia horas sentada diante do mar enquanto brincávamos na praia, era outra mulher a que via caminhando na areia, fitando o crepúsculo, mas foram poucas as vezes que a vi feliz assim, nunca saímos daqui, a cidade cresceu e nós fomos ficando pequeninos, o apito da fábrica, meio-dia, hora do almoço, os funcionários saem da fábrica e enfileiram-se sentados no muro que ocupa todo um quarteirão, roubou nossa rua, aliás nossa rua não existe mais, melhor entrarmos, é bom estarmos juntos, reconstruir o cenário, os movimentos, os personagens... Não suporto conviver com tantas pessoas me olhando, o limpa-pés sujo d...
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[08-01-2011] |
Ao mesmo tempo em que traciona o pescoço do animal com o arreio, as mãos de Clara escolhendo naquele colorido o fruto mais suculento, a leguminosa mais desenvolvida, as verduras mais verdes e limpas, o burro cabisbaixo, relinchando às vezes, babando muito, acho que é cansaço, não gostamos do jeito de seu Manoel tratá-la, todo solícito, mas ela não percebe o homem olhando suas panturrilhas quando vai pegar algum fruto mais no fundo da carroça, temos vontade de pegá-lo pelos bigodes, lambuzar seu rosto com a bosta que o cavalo despeja no chão, obrigá-lo a beber aquele jato grosso de urina e que o chão absorve, as moscas já voejando a merda do animal, a mãe pedindo a sacola, eu e você, agora únicos, na correria, para não dar tempo ao português de fazer-lhe algum mal, voltamos ofegantes, a sacola vazia, logo cheia, e a mãe entrando em casa, o port...
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[02-01-2011] |
Capítulo XI: Blocos vazios de infânciaOs dias escorrem. Insônia. Dias sem dormir. Escrever para quem? Não haverá leitor para um texto que não tem vínculos cartográficos, biográficos e históricos. Nem serve de autoajuda... Talvez para desencadear de vez um suicídio. Não ria de mim... Sente-se aqui ao meu lado, escrevamos a quatro mãos. Isto, assim... Vamos filho, coma a sopa, tem o rosto cansado, não sei quanto tempo conseguirá manter essa vida dupla, sem dormir direito, escrevendo mundos em folhas em branco, que nem sabe se algum dia terá leitor, é Clara sentada na mesa, nunca a chamei de mãe, talvez quisesse ter dito, mas nunca, agora posso colocá-la diante de mim dizendo, sempre com a mão direita dentro do bolso do avental, como faz as vendedoras portuguesas nas feiras-livres, mexendo com dinheiro, mas naquele bolso não há nada, talve...
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[02-01-2011] |
Capítulo
MCMLX Perdido ainda não numerado Somente a curiosidade seria capaz
de trazê-lo a mim. Essa necessidade pelas coisas
raras e originais. Adianto que tudo já foi escrito
e dito, de um
modo ou
de outro. Eu
sou fruto do vazio,
sou mais exílio,
longe de mim
os excessos e as armadilhas,
vivo de meus
pedaços, as coisas
partidas são
meu alimento,
procuro o que ainda
permanece em minha
memória, preciosidades literárias que a doença e os remédios ainda não levaram. (continua)...
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[26-12-2010] |
De mim, a memória morta. Todas essas idéias apenas para ter coragem de ir até a máquina de escrever... Retiro a folha. Poucas palavras: “sem intimidade e sem interior, o oculto é o que se perdeu, a impossibilidade de dizer Eu, literatura nômade...” Me interromperam neste ponto. Será o reinício. Abro o pacote. Pego uma folha em branco. Ajeito-a na máquina. Troco a fita, fico com os dedos sujos de tinta. Ajeito a bunda na cadeira. Acerto as mãos como o pianista antes de iniciar a peça. Estou trêmulo, suando frio, o ruído da trava, alguém abriu a porta, tempo conhecido, de fechá-la novamente, pegar as cartas espalhadas pelo chão, deixar a chave no prego, dependurar o casaco, ruído da sineta, não ouço passos, o toque no soalho é muito leve, peso de uma pena caída na calçada, aí está você, aguardava-o, deixe a pasta sobre a mesa, sente-se na poltrona de couro de carneiro... De quem é esse livro? Nosso... Como? Esqueça, lá estão os olhos do bichano, está conosco novamente, você deve estar ca...
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[19-12-2010] |
Anoiteceu... Chamo um táxi. O sujeito veio da Paraíba ainda jovem, casou e teve três filhos. Diz feliz por tê-los formado, dar-lhes uma esperança de vida melhor, que continua a trabalhar por não suportar as lamúrias da mulher, que precisa de um caso ou outro de vez em quando, que a praça lhe permite fugidas sem que a mulher desconfie... Depois de um tempo, não ouvi mais nada, quando percebi estávamos na frente de casa, paguei a corrida, apressei os passos na direção da porta, peguei a chave do bolso, enfiei na fechadura, duas voltas, o ruído do destrancar, a porta aberta, o corredor, a sineta, fecho a porta, vou em direção do escritório, deixo o pacote com as fitas e papel sobre a escrivaninha, sigo até o banheiro, tomo um banho demorado, saio de corpo e alma lavados, olhos as frestas, nada ainda, paciência, não demora, não há cura para minha doença, vou até a cozinha, faço um lanche frio, sinto-me cansado, caio na cama... Bate um medo desnecessário, já sou portador. Fico um tempo obse...
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[18-12-2010] |
A víscera começa a chiar, passo diante de uma quitanda, fico um tempo olhando as verduras, os legumes e as frutas, começam a ter cor, verde e amarelo opacos, percebo o dono preocupado comigo, parado diante de seu comércio, vivem todos com medo, sigo na rua, há um restaurante italiano na esquina, entro, sou um dos primeiros a chegar para o almoço, vou até o banheiro, esvazio a bexiga, lavo as mãos, retorno ao salão, sento-me em uma mesa de fundo, o garçom me traz o cardápio, peço uma lasanha, faz tempo que não como uma massa, vontade de pedir uma cerveja, mas melhor nem pensar, não custa aguardar mais uns dias, substituo por água, fico sozinho folheando o livro, paro em uma página ao acaso: “Sem consolos a simular garantias à existência. Fechada a porta, rompia-se com os delírios da linearidade, com a noção de tempo e espaço, mergulhava-se no fortuito e casual, investia-se, por instinto, no sacro e no profano, no longo corredor da individuação, que terminava em um amplo salão abarrotado...
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[12-12-2010] |
Tudo que escreve está nas ruas, diante de nosso nariz, mas não nos permitimos enxergar, tem lá uma passagem que o senhor fala da diferença entre olhar e enxergar, li várias vezes, é uma grande verdade, passamos a vida olhando, nunca enxergamos, o senhor me fez perceber, mas é preciso o fim próximo, e o senhor parece ser companheiro da morte, conheci seu avô, era um pouco assim, seu pai já não, mais objetivo, devaneio não era com ele, não gostava do que o senhor escrevia, uma vez tentei argumentar, tinha acabado de ler o livro, não me deixou, nem podia Samael, seu pai não sonhava, carregava a culpa do mundo nas costas, metido até o pescoço com a maçonaria, precisava de algo para lhe dar motivo de viver e estar vivo, de criar um personagem respeitado e respeitável, quantas fitas dessas não vendemos a seu avô... Agora não resta mais nada s...
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[11-12-2010] |
Fecho a porta. Ao entrar dou de encontro com a empregada. Fita-me de um jeito sacana. O senhor está bem? Por que me pergunta? Parece diferente, conheço homem depois do coito. Que é isso, Amélia? Não sei não! Também, não tenho nada com sua vida, e se trepou é sinal que está melhorando, o senhor soube do André? Como não saberia? Quase não consigo entrar em casa. O enterro é hoje, os filhos vieram de fora, vou sair mais cedo, não sei se quer ir... Não Amélia, fico aqui mesmo, não estou tão recuperado assim. Melhor mesmo Samael. Mais uma coisa Amélia, vou lhe dar férias, Dulce sugerirá alta, deixarei o dinheiro sobre a mesa do escritório, estou programando uma viagem, ligo para você assim que voltar. Para onde vai? Não decidi ainda, para uma praia talvez. Posso vir pelo menos para manter a casa. Não, Amélia, não é preciso, se necessário ligo quando voltar, isso se voltar, estou pensando seriamente em me mudar. Que coisa é essa, agora? Não há mais razão de permanecer aqui, veja o André, últ...
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[05-12-2010] |
Outra vez? Podem tocar... Toquem à vontade que hoje estou feliz. Na fresta da janela, quatro pernas, um par de saias, uma com chita, Amélia, sem dúvida, a outra vestida com tecido mais nobre, sapato colegial de grife, veio mais cedo, usa meia, daquelas transparentes, pernas bem torneadas, coxas bojudas, vê-se parte de uma pasta em uma das mãos: Amélia e Dulce, a assistente social. As mulheres emancipadas estão sempre preparadas para algum homem; ou alguma mulher. Não devem vestir calcinha como Da Graça, sinto pelo cheiro, o nariz da criança batendo na vulva da mãe, conheço o odor de uma fêmea na ovulação, não perdi o extinto animal. Já vou, digo firme. Visto uma roupa melhorzinha, uma calça azul-marinho, camisa branca de manga comprida e sapatos brilhando, tudo preparado para não passar qualquer sinal de insânia. No espelho, ajeito o cabelo, ainda bem tê-los aparado, a barba feita, uma pitada de Dolce & Gabana... Pronto! Termino escovando os dentes. Para o singular a normalidade é perc...
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[04-12-2010] |
Estranho ouvir histórias sobre você e não encaixar-se no lido. Como se fosse outra pessoa com nome Samael, que viveu nesta casa, eu sendo um impostor, um não-eu, clone sem passado, apenas o corpo o mesmo, daí acharem tratar-se do antigo morador, mas eu no não-lugar, no não-tempo, mesmo com a jabuticabeira no quintal, a sensação de déjà vu, estranho a mim mesmo, e não há mais nada escrito no diário, a morte é uma folha de papel em branco, não me oferece muito sobre Clara, de minha pessoa apenas rastros, impressões de mãe, mulher, de alguém que não me lembro, são os medicamentos, não há dúvida, mas suportarei até amanhã, quem chegou aqui não perde em esperar, há a vantagem de Amélia estar presente, ela está muito feliz com meu tratamento, foi o que deixou escapar dia desses, o André também não se preocupou mais comigo, a assistente social terá também boa impressão, os profissionais são rasos como os tempos, nada sensíveis, não dariam um passo na vida sem aplicar o tal check-list, prática...
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[28-11-2010] |
O mesmo nas ruas, cada vez mais. A única bala perdida dentro de um hospício não são as metálicas, mas as colocadas na boca dos internos pelos enfermeiros, aviadas pelos médicos, pelos doutores da vida e da morte. Amélia trocou os lençóis, o quarto está perfumado, vou pedir que na minha morte perfumem o caixão desse modo, durmo sem travesseiro, acho que sempre foi assim, que livro seria esse que foi aceito para publicação? André criticou o que escrevo... Ninguém suporta. Os psiquiatras ficaram horrorizados com um texto escrito com a unha na parede de minha cela, aquilo não era um quarto, custou-me um choque a mais, o aprisionamento do outro de mim, não conseguiria escrever nem mesmo um diário, não tenho qualquer interesse em atuar no tempo comum, se o faço é pelo resultado do tratamento, repetir o mesmo, sempre e do mesmo jeito, reforçar o modelo, mas só com os remédios meu mundo assim, em branco e preto, eu sem gozo, sem prazer, sem desejo... Mentira! Desejo existe, só estou usando a t...
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[27-11-2010] |
Janeiro, agora uma nova moradora, essa mulher aqui em casa. Sabia algo errado. A demora maior para chegar a casa, as saídas aos sábados e domingos. Menos tempo para escrever, alongou a insônia. Dorme duas horas por dia. Às vezes, acordo com o som do teclado, vai direto à repartição. Havia uma mulher, sem dúvida. Por que não pensei? Não gostava da ideia... Não é fácil. Você em casa e o filho traz uma mulher dizendo que ela vai habitar o mesmo teto. Não tive reação... No dia seguinte, esperei tomarem café, mas só ele saiu, ao me levantar encontrei-a no escritório lendo o que Samael escrevera durante a madrugada. Evitei contato manhã toda. Antes do almoço ouvi o som da sineta. Além de Samael, ninguém tinha a chave para entrar. Ela havia saído. Senti-me aliviada. O filho retornou antes. Estava preparando um caldo verde quando chegou. Ouvi a sineta, entrou primeiro no escritório, sempre age assim, como o pai, temos um gato, o animal aguarda-o em uma das prateleiras da biblioteca, quando che...
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[20-11-2010] |
O almoço, ninguém vive sem se alimentar, acho que o senhor deve saber disso. O tempo passou muito rápido. Já estava preocupada, aquele escritório está repleto de espíritos ruins, sinto quando entro para limpar, o senhor deveria se livrar daqueles livros todos, da máquina de escrever... Besteira, Amélia! Besteira? Foi ali que pegaram o senhor fora de si, havia algum espírito ruim usando seu corpo, nem sabe o trabalho que deu aos policiais... Não precisa falar Amélia, como diz, careço de saber, agora já passou, não tem mais espírito algum na casa, disso tenho certeza, sou eu e mais eu... Se for assim, pode sentar se quiser, a comida está pronta. Trata-me como um doente ou um filho... Um alívio saber que não preparara nenhum caldo verde. Gosto de pratos simples, arroz, feijão, fritas e um bife. Ótimo! Depois volto ao diário, é um modo de definir um corpo e um território para alguém perdido de memória. Já sei que fui filho único de um casal normal, singular se quiser, mas não um filho ao g...
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[14-11-2010] |
Agora não sei o que será de nós... Samael falou qualquer coisa de preparar-se para concurso público, acho que não suportaria, mas ele nunca foi muito convicto das coisas que diz ou faz, parece sempre haver uma sombra ou fantasma ao lado dele, com quem conversa quando não há ninguém por perto, é assim desde criança, não precisava de parceiros de rua para se divertir, criava-os, tantas vezes trouxe o André para brincar com ele, mas Samael não suporta o vizinho, não sei se é ciúme, filho único, parece-me que não, nasceu para ser estrela, observar a lebreia vindo na direção da casa, ali tem o olhar do pai, mas introspectivo, Samael é mais pensamento, seu abraço é de mistura, tem o olhar dos símios enjaulados, a timidez própria dos animais maltratados, não quero dizer isso, mas sinto pena dele, como sentia de me...
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[13-11-2010] |
Quem sou eu? Pergunta feita por Tolstói aos 26 anos. A metade da idade que tenho agora, quase a de Samael. Acho que meu filho será a única pessoa a pegar o que escrevo, aprendi com ele o gosto pela leitura, lia escondido do pai que não permitia que entrasse na biblioteca, dizia que os livros eram para serem lidos pelos adultos, não pelas crianças; muito menos pelas mulheres. A biblioteca, quando não estava em casa, permanecia trancada, mas Samael, sempre encantador com as empregadas, conseguia lá permanecer um tempo, lendo algum livro. Eu não devia aceitar o rumo de meu casamento... Consegui terminar o curso normal, poderia dar aula, mas logo me casei. Nunca fui corajosa. Logo veio a gravidez. De uma relação entre dois desconhecidos, nasceu Samael. Quieto já no nascimento, jeito calmo de sugar o leite, mais a cara do pai, isto me incomodava, não vou deixar de registrar, não queria dois homens iguais em casa, suportar um já era difícil, nem um ano de casada para perceber onde me metera....
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[07-11-2010] |
Entro e fecho a porta, giro a chave duas vezes em sentido horário até o ruído da trava, coloco-a no prego, estranha sensação que me toma, déjà vu, única palavra que me recordo em francês, o longo corredor, o piso gasto, a parede tem várias camadas de tinta, sei disso, mas não de quando ou de onde, piso de leve, a não provocar ruído, sigo até o quarto, coloco a mesma roupa de ontem, hoje há luz, Amélia acertará os últimos detalhes, passará a roupa, não há muita, o necessário para um solteirão à porta da morte, arrasto os pés até o banheiro, escovo os dentes com a água deixada no copo pela Amélia, olhando as linhas de meu rosto, preciso cortar o cabelo, rapar a barba e aparar as unhas, fazer todas essas coisas que qualquer sujeito faria para manter a aparência de normalidade, não sei...
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[06-11-2010] |
É cada vez mais noite. Vela consumida. O vento que entra pela janela brinca com a chama. Ouço o roedor na prateleira. Adora escuridão. Seria apenas um? Age às caladas, em surdina, taciturno e traiçoeiro. Não carregariam a alma dos homens mortos? Engolem fragmentos de páginas, talvez ansiedade em alcançar o conhecimento, mas as enzimas gástricas transformam tudo em aminoácidos, assim meu cérebro, roedor incondicional de tempos perdidos ou do porvir, preciso religar os elos, retomar a alquimia do cadinho, realocar palavras no texto como faz a natureza com os fragmentos cromossômicos, único mistério a morte, última estranheza, na entranha do roedor a polifonia fragmentada da literatura universal, talvez a base de novas partilhas e revoluções culturais, necessário escavar até encontrar fósseis da cidade in(di)visível de antes dos tempos, dos remédios, das vísceras... E a barriga a roncar, a fome tem seu tempo, há a sopa verde, melhor esquentá-la, caminhar na escuridão, pegar a vela do banh...
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[31-10-2010] |
Amélia deu um jeito no dia seguinte à internação, depois não abrimos mais a casa, me disse ter encontrado fezes de rato, se quiser arranjo um gato ou coloco veneno. Melhor a segunda opção. Mais alguns dias e estará tudo em ordem. Olho para aquele sujeito, que não me lembro parte de meu passado, cheio de dúvidas, Estará tudo bem para quem? Dentro de alguns dias quero minha insanidade de volta... Penso, não posso dizer. Agarro o fio onde a ruptura provocada pelo pensamento, Assim espero André! Preciso terminar o trabalho. Você não acha que essas coisas que escreve acabam com você? Como sabe o que escrevo? Desculpe-me, mas não pude evitar, havia um calhamaço sobre a mesa, ao lado da máquina, peguei para ajeitar na gaveta, mas a curiosidade foi maior, não sei como alguém pode fazer essa confusão toda com as ideias e as palavras, você ...
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[30-10-2010] |
Fico confuso quanto ao rumo a tomar, foi assim a vida toda... Não quero para mim o que escrito na pausa urbana, a cegueira de Saramago não me interessa, só me aparece nesses momentos em que uso os medicamentos, eles me aproximam da multidão acéfala, de corpos com as vísceras ao avesso, ruídos vindos das tripas das avenidas, tudo em branco e preto, não consigo ser um deles, tratado ou não, com os medicamentos necessito das mãos para tocar o volume das coisas, e o tempo, o que é dele, já quase duas horas na torre da igreja, eu já na dobra que me afastou do vizinho, felizmente ninguém na rua, a porta de casa aberta, a mangueira ainda bloqueando a entrada, a limpeza tem cheiro próprio, não há barro no limpa-pés, coloco a mão no bolso do casaco por hábito, a chave que me lembra a lagartixa, não sei de onde, devolvo-a ao mesmo lugar, a luz morti&c...
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[24-10-2010] |
O fato é que se faz necessário saciar a fome para evitar hipoglicemia, o que me deixa sonolento e com dor de cabeça. Sou o sujeito mais covarde da terra diante de uma cefaléia. Único sintoma a me afastar da obsessão pelas palavras. Os prescritos pelos médicos, as bulas com letras invisíveis ao olho comum, jogarei no ralo tão logo a vizinhança encontre outro foco para compartilhar a culpa. Não posso fazê-lo enquanto estiverem no meu pé, fiscalizando meus passos... Depois, retomar à escrita caótica e desejante... Precisam de algum tempo ou alguma desgraça provocada pela natureza para me esquecerem. Enquanto isso, suportar meus dedos trêmulos, a salivação incontrolável diante da velha Remington Rand, a abstinência provocada pela falta da escritura, não sei quantas madrugadas mais aguentarei, o que de mim escritura é atraída pe...
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[23-10-2010] |
Capítulo VII: Sem Diarreia IntectualistaA barriga ronca... Dentro de mim há vazios e vazantes, movimentos, sons e ideias que ignoro, dizem um arquivo, simulacro do compartilhado desde a origem, traços delirantes, hélices helicoidais das manifestações e sonhos, cada um tem a chave de um mistério que o faria diverso e disperso do coletivo, mas o homem como figuras russas, filhotes de cavalo-marinho, agarrados em único eixo, único espaço, como se o mundo fosse apenas o esqueleto do que visível, e o homem coloca lentes no espaço para melhorar sua miopia, mas é a hipermetropia o problema, é a visão próxima que está comprometida, mais a perda do faro, do tato e da magia, dentro de mim há um corpo onde vísceras acomodam-se em território próprio, origem de tudo que ninguém suporta: ventosidades, fezes e urina.O homem apenas será perfeito quando a merda sair reciclada e os rios ficarem livres de seus dejetos, então muita merda escorrerá a céu aberto, vísceras expostas alimentarão urubus durante...
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[17-10-2010] |
Melhor seguir, antes que percebam que carrego algum valor. Os escritórios do departamento de água e luz ficam próximos. Viveria sem luz, mas não sem água. Insuportável a ideia de morrer sedento; ou afogado. O excesso e a falta de água sempre me assustaram, nunca desejei ser uma escultura ressequida, muito menos uma forma amorfa. E o que fui ou sou? Não muito para uma vida. Sempre apoiado num túmulo... Estes escritórios são tumulares. A jovem me atende segundo um protocolo de perguntas, preencho um vasto questionário, pago a conta e a taxa para religarem a luz, agenda a visita do técnico para o outro dia, não consigo convencê-la a enviar alguém ainda hoje, não foi muito com a minha cara, não pintou a química do cheiro, saio e atravesso a rua na faixa de pedestres, motivo de descrição barroca para um autor como Saramago, prefiro o tiro certeiro de Lobo Antunes, de Al Berto, desta vez o protocolo usado pelo funcionário é mais simples, também o questionário. Arrisco perguntar se ligariam a...
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[16-10-2010] |
Observo tudo ao modo de um recuperado, no hospício o gerente seria o médico, indicaria o choque elétrico e para evitá-lo o sujeito não discutiria, não reclamaria, sabe que nada restaria de absurdo em seu pensamento, tudo ficaria em branco e preto, é assim que enxergo, linhas sem fundo, o entorno preto e o miolo branco, raras são as exceções, (des)razão sem emoção, há um incomodo muito distante em meu peito, como um brotamento de pânico, mas ficou no aguardo, a solução chega com a polícia, obrigam o homem a vestir a roupa, ameaçam prendê-lo, o povo começa a vaiar os fardados, todo uniformizado detém algum poder, no último escalão estão os de terno e gravata italianos, cheios de bravatas, território de estelionatários, já é tempo em que muitos psicóticos não são mais percebidos como tal, ser ou não louco dependerá de outros referenciais, no momento o louco não é o gerente, nem o segurança, nem a polícia, mas o homem que diz que não vai sair dali enquanto não tiver seu problema resolvido....
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[10-10-2010] |
Muda alguma coisa tantos ósticos? Não! André é mais um sujeito normal como tantos outros e que cultiva a amizade dos vizinhos, faz favores, olha de modo pedinte, já tem convênio com a funerária e terreno no cemitério, sujeito morrente, ao mesmo tempo arcaico, já não deixam que invada tanto assim as casas, conversa só na rua ou no bar, do outro lado do muro, das câmeras de segurança, dos fios eletrificados, dos cães amestrados para matar, o que frustra André, começa a transparecer nas linhas do rosto, traços por mim conhecidos, mas ele resiste à depressão, não conhece território que não o oferecido pela máquina de fazer humanóides, da escola, da família, agora acordar com casais em orgia no muro da empresa que refina o milho, saber que a polícia não virá para repreendê-los, o sexo a céu aberto e o cheiro desagradável de milho, e os lábios diante de mim, digo que vou pedir para ligarem a luz e a água, antes passar no banco para pegar o dinheiro, depois falo com você, a mão saindo do ombr...
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[09-10-2010] |
O quadrado azul. Não há lebreias... O que disse? Parece que vai chover... Respondo qualquer coisa, não entenderia. Não foi o que achei ouvir, o senhor está bem? Claro, Amélia, não se preocupe, foi isso mesmo que disse. Chover com o dia tão lindo!? Quantos, tão belos quanto, não se transformaram em grandes tempestades no final de tarde? Chiiii... Acho que deram alta cedo demais para o senhor. Nada disso Amélia, nunca estive tão singular, tão igual, tão normal... Não se preocupe. Isso é verdade, se o senhor fizer a barba e pentear o cabelo, ninguém vai desconfiar de onde veio, o senhor sabe, lá do hospital. Hospital não, Amélia, hospício. Não fale assim que agora o senhor está normal, ouvi bem o que disse do seu André, e tem razão. Fico imaginando o que diz de mim por aí... Nada não, eles é que dizem do senhor, acham esquisito o modo de vida que leva, mas aqui entre nós, cada um tem lá sua loucura, veja o seu André, vive lavando as mãos, sem motivo algum, Dona Heloisa carcome a unha como...
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[03-10-2010] |
Nenhum fantasma, nenhuma voz... Para seguir em frente não preciso de luz, nunca precisei, já sabem. Retiro a chave do prego, ajeito-a na fechadura, duas voltas destravam a porta, um toque na maçaneta basta para abri-la. A claridade arde na retina, o vulto de mulher, os dentes brancos, perolados, os lábios brancos de contornos negros dizendo bom dia, como vai, demorou mais que das outras vezes... Talvez a doença estivesse piorando e não me apercebesse. Olho para Amélia sem saber o que dizer, não dá tempo de sugerir que volte amanhã, que não há luz nem água, ao me dar conta, a chita venta no corredor, a sineta ressoando no ouvido, o pai não retirou o sino, deixei-o onde está, é um bom mote para minhas histórias. Entro, preciso lhe dizer da água e da luz, mas é Amélia que sai na frente, André, o senhor sabe como ele é, controla tudo, vou abrir as janelas e puxar uma mangueira da casa dele para cá. Abrir as janelas? Sem possibilidade, estão emperradas... Mas Amélia é dessas empregadas irmã...
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[02-10-2010] |
Capítulo VI: (Des)construçãoO que é isso? Merda! De onde vem esse ruído? Não pode ser... A velha e enferrujada campainha. Nem me lembrava mais... Imaginava-a inutilizada. Ruído estridente... Irritante! O som não como canto, mas ruído a alertar o visitante que o território tem dono e que ali só entram os escolhidos. Pelo estado, não estimularia nenhum visitante a usá-la... Outra vez!? Argh! Nem enfurnar a cabeça no travesseiro evita a dor nos ouvidos. Nada diferente das geniais opções sonoras dos telefones celulares. Tive um, por pouco tempo, não tenho a mínima necessidade de me sentir ubíquo. Palavra horrível... Serventia apenas aos deuses. Teimosia! Preciso desligá-la... Não vai parar se não atender. Já vou! Sopro a frase nos vãos da janela que dá para a rua, este é meu quarto, fica ao lado da porta. Agora o apito... É da caldeira da fábrica que fica a algumas quadras daqui. 7h00. Pontual, hora de mudança de turno. Não preciso de relógio no quarto para acordar. E a voz vinda de fora: ...
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[26-09-2010] |
Melhor sair, dar uma volta. Mostrar à plateia que estou bem. A chave na fechadura. O ruído seco. A porta destravada e aberta. O céu carregado. Atravesso a rua na faixa. O bar aberto. O caixa pergunta como estou. Não posso lhe dizer que o vejo em branco e preto. Respondo, então, estar bem, só me falta o cigarro, digo, pegando o dinheiro enquanto ele um maço de cigarros e uma caixa de fósforos. Ainda bisbilhoto o fundo. Frustração. Não está lá. No lugar, uma mulher com seus cinquenta anos. Ela sorri. Não é hora para isso, digo a mim mesmo, mas três meses não é pouco, mesmo anestesiado pelos remédios, volto-me para a rua, acendo um cigarro, trago profundamente, o sujeito comentará com os fregueses meu retorno, procuro afastar a ideia de que alguém me segue, atravesso a rua na faixa, com a luz verde acesa para pedestre, paro diante da porta de casa, observo o animal no frontão, retiro a chave do bolso, encaixo-a na fechadura, dou uma volta, ouço o ruído do destravar, sinto um bafo quente n...
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[25-09-2010] |
Onde o não juízo, a fratura? Onde a eternidade entre os instantes? Eu no sofá do velho, sem o outro para me distrair, dar cor à natureza, trazer alegria nestes lábios ressequidos pelo efeito dos remédios, as cartas sobre a mesa e a mesma vontade de não abri-las, o gato desaparecido em alguma fenda, os fantasmas que me fazem falta, a sineta calada, penso naquele que chamou a polícia... Às bestas sérias, o veru! Lá longe, a cobrança: Quando você terá juízo? Quantas vezes a frase estuprando o ouvido, desejosa de me privar de ser o diferente? Qual o motivo desta vez? Talvez minha resistência em marcar território nômade... Ou o incômodo de a clausura pontuar a possibilidade da morte. Tiraram-me daqui à força... Os móveis fora do lugar, papéis esparramados pelo chão, a última folha ainda na máquina, não me lembro da última frase escrita, provavelmente impediram-me de retirá-la, no hospício não me deixavam escrever, usei a unha como fez São João da Cruz, escrevi nas paredes, mas por pouco tem...
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[19-09-2010] |
Vai precisar dos remédios... E voltou-se ao prontuário onde registrou que eu retornaria ao convívio entre os mortais, como ele, normais. Não faz ideia do que ocorre nas celas e no pátio a não ser através dos relatórios dos empregados que conhecem cada interno, cada safadeza e manha, e fazem de tudo um bom negócio. Ignoram o entorno em troca de algum que satisfaça seus delírios consumistas. Para os braçais, não existe o que é justo ou não, mas o que determinam como justiça, eles têm as algemas, o choque e a celas; as drogas. Os médicos, psicólogos e assistentes sociais são instrumentos na mão deles. O poder... Oh, Santo Poder! Aqui, em meu canto, quieto, não corro o risco de ser enviado ao ambulatório médico. Nem pensar em adiar a alta... A sala de choque fica ao lado do posto de enfermagem. Boca tapada com chumaço de pano, o corpo amarrado, tendo os neurônios estuprados até a exaustão pela corrente elétrica. Depois o caos, moída a memória, corroído o corpo, o outro de nós não mais pres...
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[18-09-2010] |
Mas eu aqui, mergulhado neste visual lúgubre, úmido e escuro, sem a teimosia de Jó, sem as luzes dos magazines e das salas de jogos, Dolce & Gabana por aqui é odor de suor, fezes e urina. Depois de um tempo, acostuma-se, desaparecem a náusea e o vômito, permanecem apenas os sons dos porões da inquisição, da dor provocada por vozes e monstros conspiradores. Só os mais dementes não saem de suas celas, permanecem em prisão própria, o corpo acorrentado em fios invisíveis, misturados à merda e ao mijo de rato, gementes, aterrorizados, recolhidos no canto ou agitados, batendo a cabeça e dando murros nas paredes. Muitos são levados à enfermaria, rostos ensanguentados, lutando contra monstros que só eles presenciam, e retornam carregados nas macas, cabeças enfaixadas, corpos acalmados, acordando tempo depois, para eles não tempo, desconfiados, apalpando cada fenda, cada poro e cada atalho da realidade. Já fui um deles, mas não me lembro. Em algum momento... Agora, salvo da insanidade pelos dem...
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[12-09-2010] |
O que mais fazer aqui entre estas paredes enormes que não dar ouvidos à insânia, aceitar essa flatulência de ideias selvagens, esse temporal híbrido de palavras, esse avesso retorcido e fora de lugar? Que os homens de branco não ouçam além da linha melódica do comum, dos normais, caso contrário, ficarei mais tempo entre estes muros de pedra... Fizeram muros altos, cinzentos – esconderam a terra. Mas o quadrado azul está presente: Sempre. Não sei a autoria, a doença leva de roldão a memória, permanecem rastros, vestígios, por enraizados em terreno árido da insânia. Mas o quadrado azul sempre presente e mutável, como a tela grande do cinema, movimentos de aves e nuvens. Estamos na época de os pássaros migrarem com seus cantos roucos. Atravessam em bandos. Aqui ninguém migra além do possibilitado pelo delírio, alucinações e ilusões. O pátio está abarrotado, há disputa pelo ensolarado. As táticas curativas como as reuniões de grupos e terapia através da arte ocorrem à tarde. Como falar em ...
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[11-09-2010] |
Capítulo V: Moída a memóriaSol no rosto. O astro maior, a lua e as nuvens são as únicas coisas do mundo de fora que nos visitam sem impedimentos de qualquer ordem. Sem visão do horizonte, não há lebreias e as águas, quando chove, caem como se apenas nesse quadrado, ora serenas, ora agitadas, empoçam no pátio, onde raramente granizos, mas o ruído da água caindo do telhado enclausura mais o doente dentro de si, como faz com as crianças adensadas no quarto de dormir, muitos diante das janelas como viajantes nos trens, mas sem devir, não devemos falar em esperança se não há medo, estão no não-lugar pelo fato de a chuva chamar pela estranheza ou por abrir novas portas ao delírio. Não recebo visitas, não tenho parente vivo. Nem sei como cheguei aqui. Com certeza algum acesso. Mas eu sozinho... Não fossem os medicamentos e os choques, teria companhia de Carol, Clara, Da Graça, o outro de mim... Estariam aqui ao pé de jabuticaba que a vontade plantou. Não nasce fruto no deserto. Tem razão. Aqu...
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[05-09-2010] |
Sozinho na cozinha... As mulheres e o gato ausentes. Pensamento no longo corredor do que foi. Criança na teimosia do ovo e a mãe em estalada possibilidade de perda por inanição: Ovo outra vez?! Nem imaginar que a ilhota amarela no oceano nácar excitava o verme erótico ainda sem endereçamentos na geografia corpórea. Mais esse lado literário que sempre negou. Ainda pureza, pernicioso é o futuro, construído na necessidade de expurgar uma culpa que nunca lhe pertenceu, o garfo acarinha fronteiras até ruptura liberalizante de magma sorvida em gozo pelo miolo de pão, boca em orgasmo salivar, sêmen-semente do vindouro, curtido na perversidade de fêmea cativa em fantasmas de finalidades. No entreato digestório, fome saciada, os dentes expunham-se à rua, aos movimentos barrocos do vento, cada vez mais distante os ruídos de louça; e a perversidade. Agora, mais ovos aninhados na geladeira. Mexidos dão menos trabalho. Não se faz mais necessária a poesia do magma. É para saciar a fome. Modo animal ...
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[04-09-2010] |
Não e sim... Vagar na ausência é quando a ilusão da presença torna-se mais intensa. Repetir sem compartilhar. Cada qual em uma circunvolução encefálica, esconderijo sem pontuações dos segundos. A tosse depois de cada trago, o lenço emporcalhado com a podridão que vem de dentro. Jogo o dinheiro sobre o balcão e observo minha mão ao abrir o maço de cigarros. As pontas dos dedos ferruginosas. Nem morto perde-se o maldito vício. Ninguém é livre de alguma tendência. Não é da voz popular, de modo jocoso, que o cirurgião é o cidadão que encontrou um modo socialmente aceito de cometer seu crime? E foi assim que a notícia chegou. A cirurgia foi perfeita, mas... Percebi algo de prazer nos olhos de quem nos dava a notícia. Ou não? Talvez a necessidade de adotarmos um culpado. Encontramo-nos logo ao sair do hospital. Órfãos... Ele estava sentado em um banco de jardim, fumando prazerosamente. Sempre agiu como se nada lhe pertencesse. Não me deixou chorar. Ouvi suas frases prontas, um dia aconteceri...
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[29-08-2010] |
Os últimos anos têm sido assim. Preciso trocar a lâmpada do corredor. De onde o som? O mesmo som lastimoso de sempre. Abro a porta de onde imagino vir o gemido. A esperança de reencontrar algo perdido. A luz vazante na janela do quarto da criança que ainda não acordou avança no piso. Ali foi o início. Nem fala, nem frases, apenas sons, cores e odores. Sabores... Saberia a que viera? Traria alguma inscrição secreta ou seria apenas mais um dentre tantos imbecilóides sorumbáticos que não conseguem preencher o vazio nem usufruir da alegria ao redor? Perdi a conta das vezes que me fiz tal pergunta. E a resposta encontrava nos velhos livros empoeirados no porão: O pequeno Oluf é um menino muito estranho: em sua pele branca e vermelha parecem conviver dois meninos de caráter oposto: num dia é bom como um anjo, no outro, mau como um demônio, morde o seio da mãe e arranha com as unhas o rosto da ama...Teria feito novamente a pergunta não fossem a veladura e o luto que me envolvem. É preciso man...
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[28-08-2010] |
Devaneios oportunos... Alimento literário. Bachelard! Ah, companheiro das fantasias impossíveis! Inúteis, por que não? Do sonho quando o jovem ao entrar no mar encontra o crânio sem encéfalo. Onde foram parar os pensamentos tão bem guardados dentro da caixa óssea? Mas há registros, tatuagens sobre a ossatura, que permitem saber a origem do ser que habitava um quase cofre, não fossem as artimanhas da memória e os abalos sísmicos dos sentimentos. Viajou alguns quilômetros antes de ser encontrado. Pelos traços, podia-se definir a distância da origem. Talvez alguma vítima de hábitos canibais. Em que tempo? Pouco importa. No devaneio, todos os tempos coexistem. Na mudez e tortuosidade da massa encefálica encontraremos tantas cavernas quanto moradas, tantas histórias quanto personagens, tudo é transitório, passatempo. E resta o mar com sua voz quase inaudível, os arrecifes a quebrantar a impetuosidade das ondas, o céu invertido sobre as águas, o verde criado pelas algas, os pensamentos e o i...
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[22-08-2010] |
Azulejos brancos revestem as paredes. Há vazios expondo o cimento. O animal encontra-se sobre a pia, bebericando a água que goteja da torneira. Pratos com restos ressequidos estão sobre a mesa e a pia. No armário central não há nada além de um saco de ração de onde retira pequenos grãos pequenos e malcheirosos que coloca na vasilha, devolvendo-a ao chão. Parece não sentir o fedor do lugar, o cheiro de comida deteriorada misturado ao de urina e fezes do gato. Saciada a sede, o animal vai ao alimento. Fica o ruído do gotejamento. O pequeno animal jamais saberá daquele mundo que assunta questões desconhecidas, olhos parados, regozijo só no pensamento, expressão a mirar estranhezas, lugares onde ausente a matéria, indiferente à sujeira ao redor, às formigas que avançam pelos cantos levando tudo que encontram pelo caminho, às baratas que já não têm preocupação com o local da desova, às lagartixas que encontram ali alimentação farta.Adiante, sentada junto à mesa, um vulto, figura feminina, a...
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[21-08-2010] |
Às bestas sérias, o veru! Disse a um professor de ciência. Arrojo adolescente. Custou-lhe dois dias de suspensão e o sermão passado pelo pai. Mas não se arrependera. Bastaram para que a frase se transformasse em bandeira e lema. Dizia um não às simplificações e aos artifícios que tentavam tornar a vida suportável. Daí deixar-se levar pelo piso esgarçado, como se adormecido, pronto a receber as representações do inconsciente. Sonhar acordado... Sem consolos a simular garantias à existência. Fechada a porta, rompia-se com os delírios da linearidade, com a noção de tempo e espaço, mergulhava-se no fortuito e casual, investia-se, por instinto, no sacro e no profano, no longo corredor da individuação, que terminava em um amplo salão abarrotado de livros.Dependurada em uma das prateleiras, a frase: Às bestas sérias, o veru! Sorriu... A ordem dos livros é a do acaso da leitura. Literatura é o forte da coleção. Muitos relidos, outros começados e nunca terminados. Alguns nunca abertos. Muitos f...
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[15-08-2010] |
Retirou novamente a chave do bolso do casaco, ajeitou-a na fechadura, bastam duas voltas para o travamento, depois dependurar a chave em um prego colocado ao lado do cabide. O alívio ao romper com a hostilidade de fora, com o maneirismo hipócrita das relações que antes resolvia com uma dose de ironia, mas hoje nem isso alivia; entranhar-se no avesso. Descansou o chapéu e o casaco na estaqueira que fora do pai. Esvaziado de qualquer tentativa de consolo, aproveitou-se da teimosia da luz que espiava a escuridão por debaixo da porta para pegar as correspondências esparramadas no chão. Repassou-as uma a uma diante da arandela com mortiça luz e, sem acrescentar novas linhas ao rosto ou ater-se a alguma em particular, voltou-se para o interior da residência. Ninguém que observasse a frente da casa, parede mal conservada, com o rosto de um leão fuliginoso como adorno no frontão, construiria na mente aquele labirinto interno, tantas eram as portas e dobras ao alcance da vista. Viria do escritó...
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[14-08-2010] |
Capítulo IV: Às bestas sérias, o veru!17h30. Enfiou a mão no bolso do capote. Remexeu com os dedos até pegar o que procurava. Retirou-a. Trazia uma chave antiga. Somente a pega lisa e brilhante. Os dois detalhes, lado a lado, esféricos, pareciam os olhos de lagartixa. Sorriu com a lembrança de infância. O restante era de uma aspereza rústica e apresentava pontos de ferrugem. Afastou a chave da visão e encaixou-a na fechadura. Demorou um tempo, como se estivesse diante da possibilidade de desvendar um grande mistério. Rodou-a duas vezes. Ouviu-se o estalo de abertura da trava. Retirou a chave da fechadura e apertou-a fortemente contra a palma da mão. Devolveu-a ao bolso. Abraçou a maçaneta com a mão livre e movimentou-a o suficiente para sentir a porta sem resistência. Abriu-a com cuidado, às caladas. Não queria incomodar. Talvez evitar a sineta... Perseverou durante alguns segundos nos ruídos ao redor. Quando ficaria livre deles? Atritou a sola do sapato no capacho colocado na soleira ...
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[08-08-2010] |
Entre nós, só os contornos são semelhantes, um contagiando o outro, mas aos olhos de Carol não há distinção, ela admira a resultante da loucura, um sujeito dentro de uma armadura, protegendo-se dos contatos e dos afetos, criar podia ser uma saída, desconstruir, dar forma e consistência a novas representações, identidade na loucura, único modo de o não-sentido apressar a viagem final, mas ainda restam os delírios alimentados na esfera do absurdo, equilibrar-se na tênue linha que nos separa do desvario, como em Paul Klee, em O Saltimbanco, somos mais linhas que planos ou patamares, fina casca onde rupturas ocorrem a um simples sopro, e nós, eu e o outro de mim, sentados diante da tela, em crise criativa, resta muito pouco a representar, todos se foram, e não, de um modo ou de outro. Aqui o não-lugar, nem dentro nem fora, as janelas sempre fechadas. Não vivi Balzac... Terminar a obra é morrer e enterrar-se. O livro será obra nunca terminada, nunca definitivamente, ponto final será a últim...
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[07-08-2010] |
O duplo, nariz aduncado, entra no bar, olha na direção onde me encontro, ignoro-o, compra um maço de cigarros, não espera o troco, acende um, insiste em me olhar, eu sou o vazio, deixo-o sair e sigo atrás, vontade nenhuma em continuar, mas ele insiste, quer terminar uma grande obra, não com minha ajuda, não mais, a ficção foi nossa vida, o mundo é essa ressaca ao redor, lugar onde os pés criam raízes e a cabeça tem os neurônios vaporizados pela luta para sobreviver, no canto uma mulher caída no chão, mas a situação não chama a atenção de ninguém, se morta, é um fato irreversível, viva, levantará e seguirá o interrompido. Dois guardas conversam próximo, um cão passa perto da mulher queda, fareja o corpo, levanta a pata traseira e urina, dá uma última olhada e vai embora. Também não liga, o sósia transformou-se em gelo, tem os passos pesados, são sessenta nas têmporas, o corpo discretamente envergado, pescador de solidão, não há mais ninguém, fala sozinho pelos cantos, a porta com o anim...
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[01-08-2010] |
Tira de uma cena possível. Há ruídos estranhos vindos de pontos desconhecidos do universo, assim também é a mente, apenas um modelo em miniatura dos mistérios da origem. E tudo virará pó, como virou cinzas, e foi uma sujeira quando o vento em redemoinho carregou para longe o resultado do fogo. Os meninos... Olhos de vidro. Carol toma a sopa como se não houvesse mundos além do momento, sem sósias, sombras ou fantasmas. E ele sai da cadeira. O outro de mim. Segue no corredor, na direção do escritório. Ouve-se a Remington Rand. A mesma história escrita a quatro mãos, memória dupla, jogo de espelho, o desejo não realizado e o real não sonhado, da luta restou uma película, um privado exposto ao público. Mas não somos todos assim, uma mentira, resultante matemática do preço de se viver em uma sociedade que põe o individual à mercê do social? Mas por favor! Herrmann com as dobras barrocas, por aqui, não! Mas já está na tela... É do desejo. Plano em que o medo do real não interfere, é uníssona...
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[31-07-2010] |
Deixo que esfrie um pouco. Do outro lado da mesa, a criança pega o ovo que estala no caldo quente, a mãe observa a reação do pai, mas este perdido no noticiário do jornal, há dias que ele chega assim ignorando a família, a morte de tio Anastácio contrariou-o, expôs a família toda, cobrou de minha mãe. Um pouco mais, apenas um pouco mais... Havia o lado bom quando ficava assim. Clara, pegue um ovo! Para quê? E não me chamo Clara, já disse que não gosto dessas confusões de nomes, Clara era o nome de sua mãe. Desculpe-me Carol, me dê o ovo, vou estalá-lo no caldo, como fazia quando menino. Tanto capricho e agora você com essa ideia de colocar ovo na sopa! Nessa hora Carol está sendo Clara. No ar, o cheiro de alho e cebola; de sangue e da mãe. Carol preocupada com o desinteresse do marido, com o meu, mas Carol não mais, o romper lento com a vida, não sabe como me ajudar, as depressões cada vez mais duradoras e frequentes, a gema do ovo flutuando no caldo verde, a clara esbranquiçada, o cal...
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[25-07-2010] |
Não me venha pedir ovo outra vez! Já aprontou demais para um só dia. O que disse? Era a voz do marido entrando na cozinha, não gosta de cochichos, diz que é o modo de falar dos covardes e das mulheres da vida. Nada, só pedi para ele sentar-se à mesa que hoje fiz uma sopa especial. Fez que acreditou na mulher, senta-se, coloca o guardanapo para proteger a camisa, atento no comportamento do filho que engole o caldo pensando no ovo, no outro que não para de chacotear sentado no canto da cozinha, brincando com bolinhas de vidro, gozando daquela passividade toda, mas era o outro, não ele; ou eu. E a sineta... É tio Anastácio a despontar na porta da cozinha, dá um beijo na testa da irmã, passa a mão na minha cabeça e dá boa noite ao velho que tem a colher entre o prato e a boca, imagem fotográfica, a mesma expressão dirigida aos mendigos e pobres, tio Anastácio não liga, puxa uma cadeira para próximo da mesa, pega um prato e serve-se, elogia o caldo, sabe o que pensam dele, principalmente o ...
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[24-07-2010] |
Para mim os dois são motivo de choro, não de riso. Dou conta de Carol a ranger os dentes como Maysa. É assim que faz quando excluída. Depois lhe explico, é loucura minha, vamos jantar! Carol segue na frente, atropelando fantasmas sem se aperceber de suas presenças, reclama das paredes úmidas, do piso craquelê, só para quando é abraçada por trás, beijo seu longo pescoço surrealista e digo uma sacanagem em seu ouvido. É quando se volta e me beija na boca, úmida e suculenta, esfregando o púbis no meu membro, eu apertando-a contra a parede, levantando sua saia, Carol, em casa, não usa calcinha, pensar nisso me deixa mais excitado ainda, eu descendo a língua, abrindo sua blusa, lambendo seu umbigo, separando os pelos para os lados, deixando meus dedos em seus lábios gementes, ela abrindo mais ainda as pernas, com as mãos segurando minha cabeça, abaixando o corpo, jogando o meu sobre o assoalho gasto, retirando meu pênis e sentando sobre ele, a luz da arandela pouca, junto os fantasmas e as ...
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[18-07-2010] |
Há uma mulher, Carol, ainda nem projeto, lembra um pouco a mãe, mas só no visual, nos cabelos ondulados e acastanhados, no nariz e lábios delicados, mas de fala e comportamento decididos, impulsiva, nem imaginar esse outro meu lado assumir as rédeas, Carol não prega um botão e não faz nada que não seja de sua vontade. Foi dela a voz... Não de Clara. Mas nenhuma das duas aqui... O que foi menino? Mania de ficar atrás da porta! A fala vem com um bafo quente, como o mormaço que o vento carrega junto à poeira no verão. Não há mais sombras, não há devir, as pernas amolecem e o coração acelerado, entonação que por si expulsa a criança do lugar, mas o sintoma permanece, saio em disparada pelo corredor, atravesso a cozinha, a ouvir minha mãe perguntar O que foi, viu Satanás? e ver Da Graça, a empregada, traçar com o dedo uma cruz no rosto dizendo Cruz-credo, dona Clara, não diga isso!. Distante, sentado debaixo da jabuticabeira, ainda apalpo o silêncio na esperança de novas geografias, não ou...
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[17-07-2010] |
Capítulo III: As orgias da memória(de quando a lebreia?)Você não vem jantar? De quem a voz? O susto do menino pela voz próxima, mas a prima com a boca presa no pinto, resistindo à mão que empurrava a cabeça dela para longe, preso como um cão emparelhado na cadela, você olhando de longe, rindo da situação, avisando que a mãe estava próxima, e a prima que não largava o picolé, era como chamava meu pinto ao brincar, mas a voz não de tempos tão distantes, o coração acelerado e o suor frio, Já vou, respondo, mas a voz sai tremulante, cheia de contaminações de um tempo anterior, não se atualiza o ontem, ele se repete, fora chuva fina e contínua, talvez devesse trazê-la para o texto, Lá vem a lebreia, dizia o velho, era seu modo de tratar a garoa que neblina tudo, que avança criando a ilusão de um nada absoluto diante dos olhos, abrindo possibilidades de novas ordens imagéticas, algumas fruto do medo, outras, da curiosidade. Quantos guardados na memória são rastros de camuflagens provocados d...
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[11-07-2010] |
É como diria... A mãe não apareceu para opinar. Queria ver a cara dela, seria a desforra, sem dúvida. Carol e Clara na mesma cova. O sacro e o profano acumpliciados tendo como prisioneiro um simulacro, uma mentira, uma farsa. As noites seguintes foram embebidas em uísque, lágrimas e quase nada de palavras. Não acendemos uma luz durante dias, as cartas acumuladas na porta, a maioria cobrança ou correspondências de pessoas que não nos interessavam. Telefone desligado. A sineta silente quase um mês, você tirou licença na repartição, passamos a maior parte do tempo sentados no corredor, um observando o outro, a barba, cabelo e unhas crescendo. O bicho comendo por dentro, fui chamado tão logo foi enterrada, colheram sangue para exame, vieram em casa para saber as condições de moradia, deram os medicamentos, estão no lixo, sem Carol nada mais nos resta, não somos companhia um para o outro, nunca fomos, nos suportamos até aqui, mas fica difícil continuarmos viagem, você na repartição, eu na v...
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[10-07-2010] |
Vou marcar uma consulta... E você não me deixa terminar, tapa minha boca com os dedos, depois me beija nos lábios, leva o beijo para todo meu corpo, excita-me, entrega-se a mim e dorme. O emagrecimento não se esconde de ninguém. Até o dia... Você não respondia. Respiração com períodos de apneia cada vez mais longos. Corri com seu corpo nos braços, você boneca de pano, brigo para que seja atendida no hospital, não tínhamos seguro, queriam a grana antes de atendê-la, contrariados, com muito custo consegui fosse transferida para um hospital público. O diagnóstico não poderia ter sido pior, tuberculose cerebral. As chances são poucas, se sair viva pode apresentar alguma sequela. E você partiu, depois de semanas em coma, precisaram de muito jornal e flores para preencher o espaço vazio no caixão. Eu fiquei com a conta do hospital, até levarem a gravura do Di Cavalcanti do pai como pagamento, escolha de um sujeito asqueroso que veio até em casa como cão farejador para levar algum objeto como...
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[04-07-2010] |
O pai estranhou, foi até ela, saiu do quarto estuante, atravessou o corredor apressadamente, abriu a porta e desapareceu. A sineta gritou até a exaustão. Todos os dias à noite os soluços. O pai retornou depois de duas semanas sem que a mãe impusesse qualquer condição. Eu e você até que aceitamos bem o abandono, você mais que eu, o escritório sem dono, brincamos na velha Remington Rand, mas a felicidade durou pouco, ele reassumiu o chiqueiro... A mãe nunca mais a mesma com ele e com nós. Adotou os cantos que sempre foram nossos, a escuridão onde conversávamos com os fantasmas. Deixou de cobrar a sua mania pelo ovo e você para atraí-la lambuzava-se todo, mas nenhuma reação partia dela; nem dele. Eu me aproximava mais e mais da máquina de escrever, ela deixou de me recriminar por brincar no escritório, assim fui tomando gosto pelas palavras. Códigos e mistérios que nos acompanham até os dias atuais, mesmo sozinhos, cada qual enclausurado no próprio passado. Foi sua a ideia de prestar conc...
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[03-07-2010] |
Não cedeu à ideia de entre os mortos. Tive a impressão de ter visto jovens saindo do cemitério com peças roubadas dos túmulos. Willer, muito tempo antes; talvez. Não foi delírio. Disse-me que depois ouviram música. Registros inúteis... Os encontros repetindo-se. Nunca mais nos separamos. Vamos morar juntos! Lembro que Carol olhou-me incrédula. Puta é mulher da rua, melhor não arriscar. Você sentado próximo me desafiando. Pois arrisco, vamos pegar suas coisas, de agora em diante morará em casa. Esqueceu-se de Clara? Não, não me esqueci. O que disse? Nada Carol, falo sozinho às vezes. Clara nada falou, sempre foi assim, reprovação era o silêncio, na frente de Carol calou de vez durante semanas até me pegar sozinho. Carol trabalhava. Como pode? Uma mulher da vida! Sem eufemismo mãe, gostei da puta, só isso, é a escolhida. Estivesse vivo seu pai! A opção seria a mesma! Nunca mais cobrou a presença de Carol, evitava ficar conosco, a casa era grande, não faltavam refúgios. Mas Carol não era ...
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[27-06-2010] |
É uma prostituta, como pode? Não é mais desde que estamos juntos. Não posso permitir... Seu pai não concordaria! Não depende de você, muito menos dele que já morreu, e que assim permaneça, o que deixou de bom? Ouvir seu choro noites afora? Você ouvia? Até o dia que resolveu ensinar Carol a fazer caldo verde. Jabuticabas e caldo verde me lembram Clara e Carol. Sensualidade que as perdas não castram, pornografia correndo no sangue. Fruto transformado em pedra. Gozo transformado em luto. Estamos todos mortos... O teclado da velha Remington Rand é ritornelo. Contar histórias é o destino das letras e das palavras. Mas não quero só contá-las, quero a vida, a forma e as intuições das palavras. Opção profissional. Carol apoiou. Até ajudou um tempo, manteve alguns clientes. Nunca me incomodou o fato de Carol ser uma profissional. Havia a vantagem de vivermos sem culpas. Mas quem poderia esperar... O vírus abriu a porta para a morte. Eu também HIV positivo. Mas valeu... E como! Do que riem as du...
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[26-06-2010] |
Aceitou o convite. Deixei-a na porta do local procurado, um prédio de três andares. Agradecida, cedeu um sorriso que eu fiquei a contemplar, a mão de longos dedos e esmalte vermelho nas unhas segurando a minha, até arrancá-la e entrar no prédio, eu torcendo, um último olhar, mas ela desapareceu no corredor, eu ali estonteado, Carol, deixou o nome no ar, agora diante de mim... Já vou, é só terminar o parágrafo. Mentira. Parágrafo nenhum, ideia nenhuma, nem Carol mais aqui. O menino aguarda um gesto meu, eu fantasma dele, no presente do futuro, muito antes de estar, o pai gesticulando, irritado, pela expressão o menino sabia o pai irado, eu incomodado, fujo amedrontado pela emoção presente e refugio-me na voz de Carol. E se o pai voltasse a ser o mesmo de antes? Era a preocupação. Nunca mais, disse o médico, mas ele sempre presente, aí está toda poética da retomada, esse brincar com o tempo. As cartas sem leitura... O corredor com os fantasmas, a sineta, a louça por lavar, acumulando, Ca...
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[20-06-2010] |
Então ele em casa, nós diante de um corpo desprovido, mutilado, que carece de movimento, sem possibilidade de sermos alcançados e repreendidos. Não tem como reagir, o que nos agrada. Mas você abusa. Estivesse ao alcance dele... Sempre fui eu o castigado. Você é esse meu lado invisível, que age no encanto, no feitiço. Agora ele não passa de um nome fraturado, lasca do que era; inútil. Rosto torto e uma metade paralisada. Permanece o dia todo em casa... Dependente em tudo, a mãe cuidando. Lá vem ela, trazendo a sopa ainda quente. Ajeita a cabeça dele em seu peito. A colher na pausa e no sopro dos lábios para esfriar. Metade do conteúdo vaza pelo lado paralisado. Irritado, ele agita o braço e derruba a sopa, faz maior a sujeira, a mãe repousa o prato no móvel, limpa calmamente o pescoço e o peito do marido. Você olhando, curioso, eu evito a cena, a mãe nos descobrindo próximos, devia saber desse outro de mim, mais levado e capeta. Vai, vai fazer alguma coisa! Não diria nunca vão fazer alg...
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[19-06-2010] |
Abre a porta com cautela, poupando ruídos, preocupa-se com o menino próximo da janela, jovem ainda com aquele entorpecimento todo, o irmão dela suicidou-se, atirou-se de uma ponte, vai até o filho arrastando aflições e medos, acaricia seus cabelos, ajeita e encosta a cabeça dele em seu ventre, olhamos a chuva fora, o outro no empoçado, descalço, correndo atrás da cachorra, é vontade, há esboço de sorriso refletido no vidro, a lágrima no rosto da mãe, o filho muito parecido com o irmão que apressou a viagem de retorno, mas a criança nada sabe, família escondeu dos descendentes, então o perdão, o abraço forte, a saída em disparada pelo corredor, a mãe sorrindo, o gato sobre a pia bebericando água na torneira, a tarde lavada, o céu com vazios oceânicos, pássaros em voo rasante, a mãe e o filho, a poética de Aleksandr Sokúrov, mais fácil falar da mãe, nem ruídos de louça na cozinha onde tudo é silêncio, tudo é nada, tudo é fantástico, tudo é real, tudo é não sendo, tudo é sobrevivência... ...
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[13-06-2010] |
Capítulo II: Pornografia poéticaTarde. Bagas comestíveis. O fruto suculento e negro. Indeiscente necessita do toque delicado dos dentes para expelir o caldo fresco e doce. Mordiscar os seios de Carol... Não tão distante, o medo de a prima tratar do mesmo modo a glande. Na boca de criança sensualidade é princípio sem contaminações, sabor puro, sem ruídos externos. Fruto vazio de gravidez é casca no chão; tapete negro escorregadio. Prenhe, atapeta o tronco. Clarabóias negras. Ao adulto, sensual será o parágrafo com sabor de enquadramento Aleksandr Sokúrov. Atmosfera de raízes aquáticas. Escorregadias. Mas palavras diurnas são cascas ressequidas, sem caldo. Necessárias as noturnas. Paridas em pouca luz e no desvario. Desnudas. Sem as roupagens do hábito. Sem hálito. Eu sentado na mureta. E ao mesmo tempo aqui, no escritório. O dedo no pó que se acumula. Distração necessária à (des)memória. Estranhezas resenhadas sobre o móvel. Vento, redemoinho, movimento. Muito distante... A névoa arrast...
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[12-06-2010] |
O que você acha? Acho que dói... Os outros doentes no corpo dela, sofridos e sem mulheres, nas panturrilhas de Claudia Cardinalli, no rosto de Deneuve, nos olhos e cabelos de Greta, sem ao menos saber quem seriam essas mulheres. O que estão olhando? E todos desviam o olhar para o lado, por pouco tempo, não quisesse ser desejada ficasse em casa, ou colocasse uma roupa menos colada ao corpo, não expusesse os bicos dos seios daquele jeito, até os enfermeiros entraram mais vezes na enfermaria, o médico que há muito não aparecia deus as caras, foi todo solícito com ela, explicou o problema de seu marido, o cara no leito explodindo, sem a perna, sem o pinto, sem a mulher que andava dando por aí, sabia que ela vinha de algum hotelzinho de segunda, gostava de ir com ele nas pocilgas existentes nos becos escuros, era a tara dela, agora ele desse jeito, até a língua não a atraía mais... Cansaço. 24h. A garrafa de uísque vazia, mais uma, que necrose o fígado de vez, o pulmão já foi para as bimbas...
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[06-06-2010] |
A calcinha da mãe no varal! Não responderei a suas provocações, e saia daí, vamos acordar a moça. Você quer dizer salvar o texto... Não, cara! Que Totem?! Ato falho... Que texto?! Vamos recolher os fragmentos que permanecem vivos dentro de nós, como os fantasmas que habitam a casa e que se repetem em outros lábios, outras panturrilhas... E não estamos no escritório, mas no quarto vagabundo de um hotel de terceira, próximo da repartição, hoje é feriado, o marido dela está internado, vai amputar uma perna, o cacete já perdido pela doença, ela nem aí, é o que parece, mas deve estar cansada de sofrer, o sujeito quando impotente agride a mulher, chama-a de puta, vadia, ela acaba aceitando o papel, como se dissesse Agora pode ofender que é verdade, sou puta sim, dou para quem bem entendo, poderia escolher qualquer um, e nós somos esse qualquer um escolhido, ela sabe de nossa falta de apego às pessoas, cansados de perder, ainda bem sem filhos, melhor acordá-la, não tenho coragem, o cara pode ...
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[05-06-2010] |
Carol não voltou mais para casa, alugamos espaço na funerária, hoje vela-se em qualquer lugar, nunca na moradia, a tia nunca mais recuperou a saúde, o tio atirou-se na bebida, perdemos a promissora professora, ela nos iniciou nas questões do sexo, debaixo das cobertas do quarto de onde surgem os gemidos como ebulições da memória e que me levam a abrir a porta e ver muito tempo antes, a luz zebrando o assoalho, a mãe descobrindo a felação, nunca mais a prima em casa, no quarto, em meu pau, só quando morta, todos choravam, mesmo Clara, a morte dilui as desditas familiares, Da Graça começou a me olhar como um homem, até o dia em que me convidou a dormir com ela, papai e mamãe saíram para compromissos sociais, você me empurrou para lá, não se omita, vivia me dizendo que gostaria de conhecer a floresta da empregada, o quarto apertado, ela abriu as pernas e enfiou a minha cabeça entre suas coxas, não parava de se movimentar, segurou o clitóris entre os dedos e pediu que eu o lambesse, nunca ...
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[30-05-2010] |
As lésbicas não agem assim... Não se expõem, são discretas, se há carência, disfarçam bem, agem ao natural, como se aceitassem melhor a inversão de papéis. Maldito suor! Estou transpirando novamente. O vírus deve estar fazendo a festa no sangue. O que acha? Não precisa nem dizer, pela sua expressão... Mas sem isso estaríamos pior ainda. Pagam alguma coisa por esse lixo. O velho tinha razão, sobreviver de literatura só com sacanagem, e pare com esse rizinho escroto, vão pensar que agia assim com Carol, que imaginem, não é proibido, enquanto a grana acrescentar à aposentadoria... Caso a Vilma venha a ler poderá pensar que é o objeto de desejo e delírio descrito, terá razão, mas seus pentelhos não são alourados, ela também não rapa a vulva, só o jeito de pegar no cacete igual, mas qualquer profissional agirá assim, faz parte da performance, do desempenho, transar virou arte, de Carol não coloco nada, bem que você gostaria de relembrar os momentos mais quentes... Havia um terceiro olhar, s...
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[29-05-2010] |
Adorávamos brincar com o figo e a manga-rosa. Viemos da mãe dos homens, modo de dizer de Da Graça, expulsos pelo furor uterino. A empregada sabia da malícia carregada pela metáfora. Flagrada nua por diversas vezes. Pelos negros em abundância, os seios em rigidez militar, o bico emergente como um pêssego. Quando nos via, escondia tudo com os braços. Adorava aquele Seus safados! que nos dirigia, desejosa. Você assustado com a floresta. E você tirando sarro de minha reação. Ela sabia sendo espiada. Conhecia esse duplo voyeur. Fugíamos para o quintal, atrás da mangueira, um dia descobrimos não precisar dos frutos, era só massagear, lentamente, depois bem rápido, para cuspir o líquido esbranquiçado e sentir aquela coisa prazerosa e inexplicável no corpo. Veja! O clitóris está durinho, baba secreção pela vagina. E o cheiro de cio....
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[23-05-2010] |
O vento balança a cortina, deixa escapar fragmentos de fora, a mãe prende a roupa no varal, eu ao lado, cesta com pregadores nas mãos, ela percebe que desvio o rosto quando prende a calcinha. Ao retornar da clausura encontro seus olhos rindo de mim, de minha vergonha, de meu rosto vermelho. Não gostava nenhum pouco da reação dela, não sabia que pensamentos levavam-me àquela reclusão vergonhosa, encolhendo meu corpo como tatuzinho-de-quintal. Era o desejo, sentia-se atraído pelas calcinhas, você adora cheirá-las, roçar o rosto com elas. Sempre foi sua tese... E deve ter razão, ressuscitasse a conheceria pelo cheiro. E pela panturrilha, fugia da calcinha encontrava a barriga das pernas... De Greta Garbo. Depreciação chamar aquilo de barriga. E os cabelos? Ondulando na testa, a escorrer rente ao olho. Que olhar de tristeza e gozo era aquele? Que sonhos continham e que não eram alcançados? Mas não era sueca como essa... Talvez fosse. Esta mulher tem algo de nosso passado... Pervertido! Não...
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[22-05-2010] |
Capítulo I: Mofo UterinoO pelo rapado. Apenas uma faixa cuidadosamente aparada. Uma delicada borboleta tatuada à direita de quem olha. O sexo identificando a tribo. Mas os temperos que atraem estão além do visual. Atingem o nariz. Cheiro que atrai a língua para seu sexo, alquimia de glândulas que deve atrair o parceiro ideal. Em algum lugar próximo, cães uivam a perda da fêmea. Haverá um casal emparelhado no meio da rua para graça das crianças e chacota dos adultos. Mas foi o cheiro que os fez acasalar. Aqui já não há rivalidade, sou o escolhido neste quarto de janela aberta e sem cortina, ouvindo os sons retorcidos das vísceras da mulher, encaracolando com o dedo indicador os poucos pelos restantes em sua vulva, observando a borboleta aprisionada na pele. Impedida de revoar. Assim foi com a mulher, tatuada nos afazeres domésticos, calada de gozo, metaforizando orgasmo em guloseimas coloridas e saborosas. Onde está você? Que é dele, do duplo? Devia saber... Esse lado voyeur. Sempre dev...
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[16-05-2010] |
Os de preto comem com os poderosos e vomitam na cabeça dos pobres. É bom saber. Nem é bom colocar a justiça... Temos advogados para nos defender. Muitas formas de roubo deixam de ser latrocínio ou ladroeira da grande com concordância dos juristas. Roubar com pouco poder faz os piratas, com muito, os heróis da história. Nós somos os miseráveis a quem a pobreza e a vileza da fortuna condenou a este modo de vida. Nunca se esqueçam disso. Para nós não há céu ou justiça, apenas a possibilidade de sobreviver. Bom seria, houvesse um céu e um inferno e pudéssemos levar conosco muitos reis, mas justiça só existe aqui na terra, e vocês nunca saberão quem é o rei. Mas descobrirão rapidamente caso pisem em seu calo, o que é a morte...Dimas fez uma pausa antes de terminar. Fitou cada um dos garotos. Agora é pegar ou largar. Se alguém der nos dentes, logo saberemos e acertaremos as contas. Quem ficar não tem retorno, começa logo cedo... Sorriu ao ver que ninguém se levantou para sair. Deu um Até ama...
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[15-05-2010] |
O dinheiro está com os grandes, são poucos os Zaqueus e muitos os Dimas. Com resistência ou não, Cristo tanto salvou Dimas como Zaqueu, apenas agiu com um pouquinho mais de cu doce para salvar o último. Ou seja, para quem acredita em justiça, até Cristo pisou na bola. Cadeia é feita mesmo para os Dimas, não para os Zaqueus. Acreditem no contrário e estarão ferrados. Vejam que Cristo desejou conhecer Zaqueu pela fama, e nada sabia de Dimas. Zaqueu era um sujeito mirrado, mas rico, Cristo até comeu em sua mesa farta. Pediu a Zaqueu que desse a metade de seus bens aos pobres, mas a metade de seus bens era uma quantia tão absurda que em nada mudaria sua vida montada pelo produto do roubo. Roube e distribua metade do motivo do roubo e será salvo. Assim é com os poderosos. Dimas, não passava de um pobre miserável. (continua)...
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[09-05-2010] |
Se há aqui algum evangélico ou católico que pense o contrário, é contra nossos princípios. Não seria decente entrar no Paraíso um bom rei acompanhado de ladrões, nem veria com bons olhos o Diabo ao ver entrar ladrões acompanhados de um bom rei. Está lá na bíblia... O que posso lhes dizer é que tal bom rei só existe nas escrituras, por aqui rei é um bandido melhor posicionado, daí, se houver céu e inferno, ladrões poderão levar consigo ao inferno também os reis, mas nunca ocorrerá o contrário. É bom acostumar. Aqui o batismo exige banho de sangue, não de água. Não há o bom ladrão que devolve o produto roubado. A não ser que venha ordem de cima. Ladrão deve evitar atritos com os de igual índole, o mais que puder. Por isso, longe dos da política. No alto é que se organiza a rede. Para os que insistem na religião é só lembrar que meu nome é o mesmo do ladrão bíblico. Fosse Dimas um sujeito rico, ao ser condenado não chegaria à forca. Já Zaqueu tinha imunidade de roubar sem castigo e sem cu...
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[08-05-2010] |
Ninguém perguntou, nem precisava, Dimas foi logo dizendo O sujeito tem jeito de Judas, eu conheço o território e as pessoas. Aqui não tem lugar pra ele não! Vocês começam como olheiros. Depois, se forem competentes vão subindo na carreira. Vai ter curso de armamento também. Aqui tiro não pode sair pela culatra, terá sempre destino certo. O grupo te protege. Se for preso e estiver na linha tem direito a procurador. A família terá proteção enquanto estiver na cadeia. Agora, escorregou, vai ser condenado, crucificado e morto, sem direito a procurador ou embargos. Pra quem gosta de religião é só lembrar dos dois bandidos que estiveram ao lado de Jesus. Não vai sobrar um da família para se queixar ao bispo. É bom saber que por aqui Jesus é só um nome, se há um destino para os nossos é o inferno, e tirem da cabeça que levarão com vocês os reis. Eles despacham até do planalto, podem crer, mas nunca saberemos quem são. Nós somos a merda, não a nata. E se aqui não nos deixam frequentar o mundo ...
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[02-05-2010] |
Ele tinha aulas na igreja local Quando os pais foram assassinados, Dimas resolveu mudar de rumo. Entrou no crime. Fez carreira. É o responsável pelo tráfico no morro. Arregimentar jovens é sua especialidade. Conhece no jeito, na expressão, aquele que dará um bom parceiro. Nunca, em sua área, houve conflito interno. Todos respeitam sua chefia. Ajuda a todos ali, façam parte ou não do bando. Dimas sabe fazer o papel de conselheiro, padre, e até parto já fez. É respeitado no lugar. Tem um jeito paterno ao agir. É o que carregou das aulas de estudo bíblico, além de ter nascido com sangue de liderança. Daí estarem todos atentos enquanto fala.De vez em quando vem um serviço da rede protetora diretamente para o varejista. Você faz o serviço sem perguntas. Não tem de saber de onde nem de quem é a ordem. Nem quem é o encomendado. Pode ser acerto de contas com viciado, algum político e até com juiz. Tem vantagem... O extra é sempre melhor que a porcentagem da venda da droga. Para nós tanto faz, ...
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[01-05-2010] |
Mas o que vemos praticar em todos os reinos do mundo é tanto pelo contrário que, em vez de os reis levarem consigo os ladrões ao Paraíso, os ladrões são os que levam consigo os reis ao inferno.Padre Vieira Sermão do bom ladrão – 1655)Não sou de dar sermão, irmãos. Mas agora estamos no mesmo barco... Ajeitem-se com modos que a concorrência está brava. A coisa aqui funciona assim: você faz o varejo e não deve saber quem é o atacadista; por sua vez, o atacadista tem suas proteções, mas não sabe nada sobre os responsáveis por elas. Se pisar na bola, o atacadista sabe, a rede de proteção toma consciência, e você está na merda, da carceragem ao judiciário. Terá o corpo encontrado em algum lamaçal ou no fundo de alguma fossa.Dimas dirige-se a um grupo de jovens adolescentes. Está acostumado com o trabalho. Fala calmamente, mas aumentando a entonação das palavras nas horas certas. A maioria está ali voluntariamente, se assim podemos dizer de quem procura sobreviver ao caos urbano. Dimas vem de...
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[25-04-2010] |
Não tão repetitivo, é verdade. Em queda livre. Bem na intersecção do cruzamento. É o local onde serei julgado. Vejo todas as noites as linhas externas de meu corpo desenhadas no asfalto, minha síntese e minha medida. Mas não nessa noite... Não! Mais uma vez, adio minha morte. Tenho vários frascos com calmante no banheiro. Na cama, uma mulher nua me aguarda, e não há tremulação mais intensa e verdadeira que a provocada pelo orgasmo... Vida e morte. Labaredas e gritos carbonizados na garganta. Depois, acendo um cigarro, aprecio o corpo da fêmea dormitando em cruz, vou mais uma vez até a janela sem provocar ruído, e cultuo este meu lugar sagrado... E que me apavora. Tão sacro quanto profano. Aqui morro e renasço todos os dias. Construo meus roteiros. Diante de uma grande encruzilhada. Fruto de meu imaginário; e só. Lamentavelmente, ou não, estou só., não fossem as vírgulas...(Fim)...
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[24-04-2010] |
Não é o silêncio de gestos ou o número de vítimas que me incomodam. Tudo isso apenas faz parte de mais um episódio que eu registro. Poderia ser um atropelamento, uma briga entre motoristas, um assalto a banco, uma queda de avião, um tiroteio entre policiais e bandidos... Qualquer ocorrência me serviria. Em qualquer cruzamento. O que me apavora não é o presenciado. O que me deixa em desespero e amarra minhas pernas, aperta meu peito, é essa falta de tremulações externas, e que me devolve à costumeira solidão de um quarto, cruel isolamento que para o tempo, arrasta a madrugada, leva-me até a janela dezenas de vezes... E os fragmentos torturantes das palavras, as frases lunares... Que ninguém gosta. Sempre olho na direção do horizonte, acovardado, invejoso daquele que consegue enfrentá-la de frente, desafiá-la, rir da morte. Já criança, olhava as chamas da fogueira de alguma janela do imaginário, de cócoras, até as cinzas; queria ser pó., não fosse minha covardia, e as bocas que consomem ...
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[18-04-2010] |
Muitas famílias terão sua rotina alterada. Alguém se ausentará para sempre de suas casas. Falta que marcará a presença da morte. Há dois heróis mortos, que a família preferiria vivos, sem medalhas. Ela pede que eu aguarde. E lá eu tenho algo para fazer? Sei que viver é aguardar... Desde o nascimento. As pessoas no prédio apenas findam seus destinos. Em poucos dias, os mortos serão esquecidos, as indenizações apodrecerão nos porões da justiça e as investigações não chegarão aos responsáveis., depois suportar a depressão de mais um dia, ou menos um dia, que seja, viver ou morrer são da natureza, o gozo mostra-me vivo; e morroNão tiro os olhos da mulher. A camisa aberta até o terceiro botão. Não usa sutiã. Percebo-a excitada por meu interesse em seu corpo. Ela quer a minha carne. Viver o nascimento e a morte na cama. A janela do quarto, aberta... Retorna o medo. Muito medo... Hesito em voltar àquele espaço. Buraco negro perdido na infância. Não há para onde fugir. Estranhamente, sinto pel...
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[17-04-2010] |
Em pouco tempo, ninguém mais ouvirá falar deles. Desapareceram. Tenho mais uma entrada... Foi o que ela me disse enquanto entregava o microfone a um auxiliar. Não precisou completar. Entrará no ar novamente à meia-noite. Depois, estará livre. Os jornalistas formam uma rodinha particular. Conversam banalidades. Alguns não param de fumar. Sinto-me um idiota entre eles. O silêncio das chamas e a falta de fumaça dispersou a multidão. Assistirão um trilhão de vezes na televisão. A tragédia é mola propulsora da vida das pessoas. Os poucos que aguardam informações sobre sobreviventes têm a expressão de desânimo e cansaço. Lentamente, o trânsito é retomado. Bombeiros têm fuligem na testa e no lenço. Água goteja das grossas mangueiras, pausadamente, impotentes. Não há nuvem no céu, nem o que se possa fazer. Quantos teriam morrido? Falam em pelo menos uma centena. (continua)...
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[11-04-2010] |
A noite cada vez mais negra. Mulheres também me distraem da depressão. Mas não consigo mantê-las muito tempo dividindo o mesmo espaço. Nenhuma mulher suporta um sujeito que se afirma mortal e desinteressado em acumular. Não há mais o que queimar... Cheiro de carne frita no ar. De repente, a cidade acesa. Grandes holofotes, cones de luz. A jornalista ajeita a blusa de um modo sensual. Está excitada com tudo que vê. Percebe-se pelos gestos e pelo olhar. Trepar é atritar, produzir fogo. Fujo das luzes abaixando a cabeça. Vejo calor entre suas coxas. Poderia me distrair... Ela tem outra expressão diante da câmera. Responde às perguntas da apresentadora do jornal. Fala de vítimas e do trabalho dos bombeiros. Não há nada de oficial quanto ao número de mortos. Tudo passa muito rapidamente. Ao término, ela abaixa as anotações e vem em minha direção. As pessoas que insistem em ficar no local têm parentes que trabalham no prédio. Procuram informações sobre eles., morto-vivo, arrepiam-me os atos ...
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[10-04-2010] |
Nem tudo se transformará em pó. Restarão pedaços de carvão com alguma forma humana., ao morrer, desaparecerá tudo, recordações pertencem à cultura da depressão, o homem perdeu Deus, ganhou sacerdotes da tecnologia, os mortos não sobrevivem, eu já esquecido, mesmo antes da morte, sem registros, notícias se perdemAmanhã esses corpos carbonizados não estarão mais na vitrine da vida. São instantâneos virtuais que os jornalistas decoram para a próxima entrada jornalística. Fugazes e superficiais experiências que os da informação trocam entre si. Nas nuanças da morte está o furo de reportagem. Uma merda de salário para levar notícias curtas e novas dentro dos lares. Uma jornalista para diante de mim, olhar fixo em meu rosto, fala sozinha, como se eu tivesse tomando sua lição. Ao terminar, lança-me um sorriso e sai. Devolvo um sorriso raso. Está esfriando. Escurecendo. Esfrego as mãos. (continua)...
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[04-04-2010] |
Desânimo nos rostos Não há chance... É a morte gritando seu direito à vida. Com a força de um maremoto. E o tempo... Não haverá sobreviventes na cobertura. Nossos olhos se cruzam, o meu com o do comandante. Velejo na impotência desde o nascimento. Sei muito bem em que pensa aquele homem que há pouco atuava com frieza a tragédia. Se não chora, é pela autoridade da farda. Desvia o olhar para algum lugar entre a tragédia e o vazio. Quase nada funcionou como nos treinamentos. Pior, dois companheiros estavam desaparecidos. Doía ver mais vítimas atirando-se do prédio. Fugiam da queimadura provocada pelo fogo. Alcançavam aquele limite onde a dor é tanta que a morte se faz presente como terapêutica. O comandante conhecia a força das chamas, do desespero provocado pelas queimaduras. Quase não há gestos... Aos poucos, a chama começa a diminuir e a escuridão toma forma. Pessoas vão, pouco a pouco, transformando-se em vultos, nuanças do cinza. (continua)...
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[03-04-2010] |
Um helicóptero tenta mais uma vez superar as dificuldades para retirar alguém da cobertura. Não consegue. As escadas são curtas e não alcançam todos os andares. Percebe-se exaustão nos bombeiros. Entram e saem do prédio. Carregam sobreviventes. O jato de água não é nada diante das chamas. Falam de dois bombeiros desaparecidos. As pessoas começam a se atirar do prédio. Quando mais a noite avança, mais desditosa. Não para mim, sou obrigado a confessar. Não que não sinta pelas pessoas... Mas não estaria me distraindo com as palavras não fosse a desgraça presente. Experimento uma sinfonia anárquica em tudo isso, e que me acalma, leva para muito longe minhas ideias delirantes, minha fragmentação e meus pânicos., e a morte a me espreitar desde cedo, falante na expressão, limite absoluto, os mortos não sobrevivem m...
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[28-03-2010] |
, e os medicamentos não ajudam, fixam mais meu corpo no tempo, quando em crise, fico ao redor de tudo que é negativo, permaneço no aguardo, ela me prende em uma espera pesada e lenta, de pedraO alarido provocado pela aflição e as sirenes das ambulâncias. Num ir e vir ininterruptos. Formou-se um corredor de feridos. Enfermeiros de improviso cuidam até que sejam levados dali. Alguns voluntários gesticulam e falam em excesso. Procuram as câmeras, dão entrevistas. Filmaram o encéfalo esfacelado do corpo que caiu em voo livre. Enquanto revia a cena, a jornalista escrevia. Encontrava-se muito distante da tragédia. Mais parecia uma aluna decorando matéria para a prova escolar. No alto, o fogo continua a retorcer ferros e a comer vidas. Fogo e fumaça regidos pelo vento, para cima e para a esquerda. (continua)...
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[27-03-2010] |
Diante da dor, deve ter vislumbrado um oásis. Alucinou. Delírios surgidos do desespero. Ouviu-se um uhhhhh! Depois, silêncio absoluto. O povo corre na direção da vítima. Melhor não ver... É o que o sujeito com rosácea no nariz me diz antes de se afastar do local, desaparecendo na dobra da rua. O que há pouco sorria ressurgiu. Cabisbaixo para que não o reconhecesse. Forçou uma abertura, um vão, entre as pessoas. Tem os movimentos aflitos, mas não agoniados. É o mais desassossego para chegar ao local. Desaparece na multidão... A fumaça e a fuligem começam a me incomodar. Os olhos ardem. O pulmão chia um pouco e começo a tossir. As pessoas saem do prédio cada vez mais chamuscadas e feridas. Falam de vítimas presas nos elevadores e muitos feridos nas escadas. Voluntários levam leite aos sufocados pela fumaça. Há um amontoado de feridos na rua. Entre eles, há um sujeito que caminha calmamente, com a expressão de criança diante de alguma guloseima, e que sorri. (continua)...
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[21-03-2010] |
A única luz é a provocada pelas chamas a lamber a noite com suas labaredas espaventosas. Nem a lunar se percebe mais. O homem é resgatado. O povo aplaude a perícia dos salvadores. As chamas trazem o passado. Fogueira nas festas juninas. As pessoas no quentão e na pipoca. Eu sentado de cócoras diante do fogo. Atenção nos estalidos da madeira e no bailado das chamas. Centelhas como olhos da noite. Horas enfeitiçado pelo fogo. Enquanto tudo não virasse cinzas, não saía. Estranha atração infantil pelo fogo e pelas cinzas. Não sei de quando a vida ficou insuportável., madrugadas frias e nevoentas, o calor do fogo no corpo rouba a razão, a depressão acompanha as imobilidades O fogo toma conta dos três andares superiores, atinge a cobertura. Uma das vítimas agarra-se a um fio na parede lateral do prédio e tenta sair daquele inferno. Mas o fio termina alguns metros abaixo. Depois, queda livre. Ouve-se o som do impacto; algo opaco. (continua)...
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[20-03-2010] |
Mas ela se transformara em uma armadilha. É para lá que o vento leva as chamas e a fumaça. Venta cada vez mais forte. O fogo desmembra-se em várias línguas. Uma delas lambe a mulher em roupa íntima. Helicópteros foram chamados, mas não se sustentam diante das chamas. Um navio segue a barlavento, não um helicóptero. O comandante pede para erguerem a escada. Homens já ligaram as mangueiras nos hidrantes. Para desespero dos bombeiros alguns não funcionam. A escada começa a subir para resgatar a vítima sentada no parapeito da janela. Bombeiros esperançam mais vida, sobem como anjos com mangueiras de água. Cada vez estouram mais vidros. Uma fumaça negra avoluma-se e escurece ainda mais a noite. Desligaram a força no quarteirão. (continua)...
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[14-03-2010] |
Dá ordens a seus comandados que as acatam sem questionar. Que fechem as ruas aqui e acolá, afastem o povo para que não atrapalhem. Determina a melhor posição para colocar os veículos. Gesticula e grita como um soldado, não como um cidadão em desespero. Diante do trágico, aprendeu a manter encarceradas as emoções. Se houvesse ocorrências todos os dias, adeus depressão. Sinto-me leve. Atenção no comandante. Ele tem a pauta e a batuta. Seus comandados atuam um bailado, os passos que permitem uma melhor eficiência diante do trágico. E o homem no alto cada vez mais próximo de uma queda. Já não gesticula, está sentado no parapeito, o que é preocupante, conheço as artimanhas da angústia... O sujeito é prioridade na cabeça do comandante., a natureza rouba vidas com a mesma frieza com que o estrategista define t...
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[13-03-2010] |
Atmosfera Gilberto Mendes. Na porta do prédio, pessoas em fuga, desesperadas. O destino ao acaso. Os de fora nas informações, nos detalhes. Desmaios... Rapidamente, improvisa-se um pequeno local para atendimento dos que passam mal. É imediata a ação de algumas pessoas em abrir caminho para os bombeiros e ambulâncias. O que parece ser o comandante sai do primeiro veículo, paramentado para combater incêndios, analisa a situação. Tem a mão direita espalmada no rosto. Apalpa com sutileza a tragédia. Observa do térreo ao último andar. Mapeia ao redor, trezentos e sessenta graus. O povo aglomerando-se nas calçadas. Curiosos acompanham o compasso invisível que aquele homem põe a serviço de sua experiência. Imediatamente, define a estratégia. (continua)...
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[07-03-2010] |
, de espíritos zombeteiros, o calor provoca visões, e o fogo não é pouco, banquete de inesperados, improvisações e reações caóticas, tanto melhor para esquecer da própria sombra, diante do trágicoPessoas perdem o compasso, a reza, a ladainha. Olhos esbugalhados e presos à tragédia; aguçados no próximo lance. Jogo e suspense. Sobremesa de escravos. A mulher mirrada de corpo, mas de seios fartos, tapa os ouvidos com as mãos. Faz expressão de pavor. Um velho espalma a mão direita sobre a testa e não para de repetir: Meu Deus! Muitos continuam os passos de retorno para casa. Nem um olhar para cima... Ignorar os imprevistos afasta a ideia da morte. Muitos rezam, alguns choram... Um sujeito sorri. Estranhamente... Empurra-me com o corpo e me agride com o cotovelo tão logo percebe meu interesse pelo sorriso. Vamos, deixe-me passar, seu idiota! Acerto o prumo, realinho o corpo. Por que sorria? Qual seria o prazer sentido ao ver labaredas carbonizando gente? Adorador de desgraças... De velórios...
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[06-03-2010] |
O que menos se vê na imagem é o objeto da propaganda. Até o momento, sou o único a perceber. Um estouro seguido do ruído de vidro estraçalhado na calçada desencadeia uma onda de pânico e correria. As pessoas refugiam-se no interior dos prédios e bares. Um amontoado humano começa a se formar diante de mim. Além da fumaça, há chama. O fogo lambe as bordas da janela sem vidro. Observo o sentido e a força do vento. Vai piorar... Nada a ver com meu costumeiro pessimismo. Um homem refugia-se no parapeito de uma das janelas. Está sem camisa e gesticula desesperado. O incêndio deve ser maior que o percebido. Um grupo escreve uma mensagem no asfalto: paciência, Deus é pai. Somente os órfãos procuram os pais. Onde foram arrumar a cal? Penso ter ouvido um palavrão... Deve ter vindo de lá, do parapeito, o impropério. Trazido pelo vento. O homem deve sentir na pele um calor dos infernos. Nessas horas, vasculha-se a memória à procura de algum pacto com o Diabo. Com banqueiros fez alguns, ainda não l...
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[28-02-2010] |
A mesma ladainha, sempre, nas manhãs, às tardes e às noites. Não se cansam de rezar o terço; um ângelus. Palavras que já não dizem... Apenas sonoridades desnudas de espírito. Celebração coletiva do que morto. Ao alcançar o comum através de palavras mortas, deixo de me sentir um estrangeiro. Por que a necessidade de escrever? Quando me fazem essa pergunta, e sempre fazem essa pergunta idiota ao escritor, digo que é para afastar o que a existência plantou em minha mente e acreditar que sou um sujeito igual a todos os que me cercam, que cantinelas me convencem que não sou um doente. Funciona como uma terapêutica temporária, melhor que os eletrochoques que me aplicaram, ou as drogas que amarram e anestesiam os dentes. Não ser espreitado, martirizado e atormentado pela depressão evita as cercanias da morte., mas enquanto não me decido, um fato, entre tantos acontecimentos, aguça em mim a ideia de que haverá um banquete anárquico ao redor, será uma noite orgíaca e mareante, recheada de fanta...
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[27-02-2010] |
, zoa na cabeça o rumor da rua... ruídos ao redor de uma monótona depressão que me desfaz em cozimento lento, até me decidir pelas cinzasBuzinas, freadas, xingamentos, gesticulações obscenas... Cruzamentos me atraem. A disposição em cruz sempre me fascinou. Ao tornar-se insuportável o mal-trato provocado pela doença, refugio-me em alguma intersecção existente na cidade. Nessas horas necessito de confusão e tumulto. Atenua o luto. Pesar sem morte. Ninguém morreu. Nasci com um véu negro agarrado à alma. Os de branco dizem de problemas químicos... Mas não resolveram meu problema com seus delírios sobre sinapses. A aflição me fragmenta. De tal modo me despedaça que não consigo escrever. Então, pego os cacos, e saio. Você poderia não acreditar... Balbúrdia e confusão abafam meus enterramentos. A rua me devolve uma certa linearidade. Essa falsa linearidade que rouba os ciclos da psique. É o suficiente para me suportar e escrever. E as pessoas gostam de orar no mesmo breviário. (continua)...
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[21-02-2010] |
Abri as pernas e descansei meu sexo sobre o dele, ajoelhada na cama. Tinha os ombros largos, o tórax escondido em pelo negro e retorcido, fechado até o pescoço. Mantinha a barba sempre bem–aparada. Grossas e negras sobrancelhas acentuavam os serenos grãos dos olhos. Pouco a pouco, fui movimentando meu corpo, oscilando-o como um pêndulo, para frente e para trás. Desejava engolir seu pênis, ajeitei-o com as mãos tentando enfiá-lo na vagina, mas estava mole. Mesmo assim, sentia seu órgão e as bolas. Meu corpo continuou sua dança, um ritual noturno e desconhecido, até o calor que subiu em minha cabeça e roubou o controle da voz e dos movimentos. Caí pesada sobre o cadáver. Úmida, como nunca experimentara. Fui até o banheiro. Urinei aliviada, observei-me no espelho um bom tempo. Que sorriso estranho era aquele que experimentava? Fiquei uma hora no banho e saí.O Sol começa a sorrir entre as nuvens, acho que não vai chover. Não me arrependo de nada, podem acreditar. Sem impotência, sem culpa,...
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[20-02-2010] |
Brigávamos diariamente. Eu abandonava a criança em qualquer canto escuro, divertia-me ver o homem suando o corpo sobre o meu, incontido e perverso. Não gozava, negava-me a fazê-lo, o que o incomodava muito. Dizia nunca saber com quem conversava, que cada dia eu agia de um modo e não me entregava na relação. Verdade, eu bem o sabia, mas não queria mudar absolutamente nada. Hoje a briga foi pior, ameaçou abandonar-me caso não procurasse alguma ajuda. Tentei-lhe dizer que não havia solução, que não o deixaria usar meu corpo como bem entendesse. Pela primeira vez, levantou-me a voz e os braços. Corri para junto da parede. A boca e as mãos ameaçavam-me, tentavam arrancar-me do lugar. Não sei como fui capaz, o vaso estava próximo. Quando percebi, seu corpo estava caído no chão, o sangue escorria em seu rosto, havia estilhaços de vaso espalhados no tapete. Apalpei seu pescoço e coloquei a mão em seus lábios.Dirigi-me ao banheiro, molhei a toalha com água morna e limpei o sangue que escorria d...
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[14-02-2010] |
Um dia, haveria de acontecer. Mesmo uma tarde como a de hoje tem suas surpresas. Assim é a vida, e comigo não poderia ser diferente. Tenho de aproveitar o pouco tempo livre, logo estarei trancafiada em alguma cela fria e escura. É só chegarem em casa e constatarem o ocorrido. Com certeza, acostumada que fui com os cantos frios e escuros, não sofrerei. Lá atrás ficou o homem que de algum modo descobriu a morada da criança perdida no passado, entrou em sua escuridão, apalpou sua mão e seu corpo, atraiu-a com a compreensão e as palavras que nunca ouvira dos pais. Quando conseguiu torná-la adulta, decidiu tomá-la para si. Alma sem corpo. Aí errou. Havia em mim uma menina, portanto, não cederia meu corpo a ela. Não queria aquele passado na matéria presente. (continua)...
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[13-02-2010] |
Não me lembro o dia em que a mãe começou a sorrir somente nos lábios. Tudo foi ocorrendo muito devagar. Um estranho olhar desligava-a das coisas da vida. Hoje, praticamente não brigam, perderam as forças, remoeram tanto que sobraram apenas fragmentos. Sabe-se lá o motivo de terem permanecido juntos. O pai deve ter alguma mulher por aí, está sempre ocupado com reuniões. Ela não cobra mais nada, mesmo sabendo que ele mente. Não há ciúmes ou ódio. Destruíram a vida deles e a minha foi de roldão. Morreram, estão mortos e não sabem, não perceberam, não lhes disseram. Procurei morar bem longe deles, imaginei que os momentos desagradáveis ficariam fechados em algum baú do sótão. Mas eles insistem em me trazer as lembranças, não se recordam do mal que me fizeram. Ela tentou de todo modo anular a mulher que nascia, procurava defeitos em meu corpo e apoiava o velho. Ele bem que tentou aprisionar-me em casa, chamava-me de vagabunda, mas nada conseguiu. (continua)...
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[07-02-2010] |
Mas meus pais gozavam. Verdade, apesar de tudo, eles gozavam. Depois das discussões, levavam-me para a cama, acariciavam meus cabelos em silêncio e beijam-me. Tão logo deixavam o quarto, limpava o rosto com a manga do pijama. Enojava-me ouvir seus gemidos. Eu morrendo, sendo massacrada, e eles renascendo em ciclo sadomasoquista. No início, amarfanhava-me junto às cobertas imaginando ser a continuação da briga, não queria perdê-los. Ao levantar, prestava muita atenção nos ruídos, somente me acalmava ao ouvir a voz de um deles. Não demorou à inocência dar lugar à realidade. Brigavam, trepavam e gozavam. Assim era. De manhã, quando os via deitados em sono profundo, o desejo era o de estarem mortos de verdade. (continua)...
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[06-02-2010] |
Eu permanecia horas assim, ocupando as paredes e as sombras, não o centro ou a luz; fugindo de todos, até escurecer ou alguém dar por minha falta. Acreditava que aquele seria sempre o último dia. Ilusão, sonho de criança, eles se repetiam em surto epiléptico. Assim o mundo passava, sempre do mesmo modo, do outro lado da infância, visto através de um periscópio invisível ou do interior de um trem em alta velocidade. Os adultos sempre me assustaram. É muito estranho sentir-me um deles; não sou um deles. Mulher formada, o corpo saiu da clausura, encheu-se de brotamentos, seios e pelos avançaram. Com os acessórios, não foi difícil camuflar a menina incriada. Tratava com chiste todos os que me desejavam, mantinha-os o mais próximo possível de meus cheiros para depois enxotá-los para bem longe. Usava a tática do derrotado. Pura vingança. A vontade era matar lentamente cada um que levava para a cama, gritar em seus ouvidos, enquanto agonizavam, o que fizeram comigo. O ódio não me deixava sent...
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[31-01-2010] |
Voltar à infância é perceber que o olhar da criança morreu. Que ninguém procure culpados ou liberem lágrimas. É de tal ordem a sutileza do processo que somente aqueles que têm um olhar crepuscular conseguem perceber. Adulto não vê tudo alto e grande, emergiu no mundo dito real, enterrou todas as metáforas do olhar infantil. Tentei soterrá-las... Mas, pelo menos para mim, o enterrado sempre voltou; nunca aprendi. Quando você menos espera alguém dedilha sons que devolvem a música e a imagem conhecidas. Então, uma transformação aterrorizadora deixa-o cara–a–cara com emoções disformes e violentas. Morre-se devagar, todo dia um pouco. E o grito nos leva até os cantos escuros, quebrantamos a estética das linhas retas das paredes. Acreditem, atrás de todas as portas há uma criança de cócoras fechada sobre si mesma. (continua)...
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[30-01-2010] |
Rondar em ruas ermas, debaixo de acúmulos de nuvens, de tarde parada de vento e cega de luz. Crepúsculo enevoado. Nos dias de briga, bocas e membros gesticulavam, mantinham corpo em aterrorizada mudez, encolhido em algum canto da casa ou atrás de alguma porta. O gato era o primeiro a desaparecer. Depois, sumiam os pássaros. As pernas moles não me tiravam do lugar. Tremulavam os dentes e os dedos. Dia desses, algo que vi devolveu-me a antiga sensação de nó na garganta. A mulher estava de cócoras, mãos tapando os ouvidos e pálpebras apertadas, uma contra a outra, em alguma dobra da cidade. O desespero estacionara ao lado dela. E como eu o conhecia! Com certeza, fugia de algum passado, de corpos que estavam muito acima do olhar de uma criança. Quem retornou à escola da infância, com certeza, teve sua curiosidade surpreendida por esse falso registro de perspectiva. Tudo sempre foi muito menor. Invadiu-me uma sensação terrível de dor e dó. Nenhuma química apagaria os pesadelos da estranha, ...
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[24-01-2010] |
Não consegui chegar na hora. Por que me olham desse jeito? Duas horas de atraso não poderia ser o motivo. Os telefones já funcionam. Alguns sondaram minha sanidade mental com perguntas inoportunas. Enchessem meu saco e tiraria todos do ar. Mais um dia de blecaute telefônico. Deixá-los sem comunicação, desesperados ante a possibilidade de terem que pensar. Enquanto não se acalmam, acomodo o guarda–chuva preto em um canto, coloco o avental branco que a pouco comprara em uma cadeira... Passarei o dia dedilhando o teclado do computador como se estivesse tocando a nona sinfonia de Beethoven. A realidade? Que se dane! Fim...
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[23-01-2010] |
Outros conversavam baixo, como se tivessem arquitetando um grande segredo. Dali sairiam novas ideias, novas revoluções, novas peças teatrais e novas paixões. Cinco horas... Uma claridade começava a escancarar o cenário da rua. O mundo ainda adormecido. Aos poucos, o bar esvaziava. Os garçons empurravam os últimos fregueses para fora. O homem da máquina registradora abandonara seu sonho. A poeta, seus óculos. Os músicos, seus instrumentos. Fui junto... No hotel, entrei em uma ducha fria. Lembrei-me da capa e da galocha que usava quando garoto. Uma borracha preta que não nos protegia da enxurrada. Por que pensava e sonhava essas coisas sem sentido? (continua)...
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[17-01-2010] |
Aceitou com a condição de que o próximo passo não fosse um convite para trepar. Aceitei o desafio. Falamos de seus poemas, coisas vagas e perdidas. Foi rápido, não demorou muito para ser requisitada pelo grupo. Subiu em uma mesa e declamou algumas de suas poesias.O tempo no seu valor real, curtido minuto a minuto, passou rapidamente. Os garçons trabalhavam com prazer. Fumavam seus cigarros sem culpas. Cantarolavam. O espaço embaçado. Alguns mais exagerados na bebida roncavam nos cantos. (continua)...
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[16-01-2010] |
Fora, muito raramente, um carro rasgava o silêncio, abria um cone de luz na escuridão. Ator, oito horas por dia... O chope chegou rápido, desceu goela abaixo sem obstáculos. Não demorou e as pessoas começarem a aparecer. Primeiro, um jovem atrelado a um violão. Parou uns segundos o olhar em mim. Em pouco tempo o silêncio havia sido substituído por uma confusão de sons. Barroco mesclado com roque e música sertaneja. A sensibilidade do artista para a falta de referências... O dedilhar de incertezas, do medo, da ansiedade... O sonho do coletivo... Um livro largado na mesa, sem que tivesse tempo de ver o rosto de quem o depositava: Po (e) tear. Devolveu-me o cenário. Chamei-a. Um rosto afilado. Lábios pequenos e olhos escondidos atrás de óculos escuros. Como se houvesse um olhar de poeta para a noite. Convidei-a para tomar um chope comigo. (continua)...
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[10-01-2010] |
Lá estava... Vazio. Atrás de uma velha máquina registradora o homem, olhar distante, não notou minha presença. Dois garçons conversavam no lado oposto. Um deles aproximou-se e guiou-me até uma mesa no fundo do bar. Bem ao meu gosto. Pegou um bloco retorcido e uma caneta do bolso de um jaleco amarelado e puído. Aguardou meu pedido. Sorri ao ver sua gravata fora de centro. Lembrou-me da cena ridícula do sonho. Percebendo, ajeitou-a. O ridículo sempre no olhar do outro, como um espelho. Perguntei-lhe se estava sempre assim, vazio. Disse-me que a casa logo estaria cheia, ali se encontravam músicos, poetas e o pessoal do teatro. Disse-lhe que também era um ator. Devolveu-me um sorriso irônico. E o que seria, perguntei-lhe. Com toda certeza um utivo insone, respondeu-me. Cada um com a sua marca. Onde teria percebido? Na roupa, na expressão, na forma de me pentear, no modo como entrei no bar, no m...
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[09-01-2010] |
Os corredores dos andares inferiores apresentavam-se vazios. A luz iluminava os números dos andares correspondentes. Falhou no segundo. Havia várias lâmpadas queimadas, corrimãos gastos, carpetes envelhecidos e empoeirados, no prédio. Não tinha nada a ver com a sala onde passara o dia trabalhando. Parou de frente a um grande saguão com seus sofás floridos e arredondados. Nenhuma alma acordada. Acostumado aos ruídos do ambiente, o recepcionista dormia profundamente. Deixei a chave do quarto sobre o balcão e saí. Encontraria algum bar aberto.Tudo deserto... Muito diferente de São Paulo que na mesma hora apresenta seu lixo, seu luxo e seus heróis. Havia um cheiro de fantasmas transitando pelas ruas, como nas velhas casas assombradas da infância. À minha frente o prédio onde passara o dia mexendo com memórias e programações. Todo o sistema telefônico em minhas mãos. A cidade emudecida. Durante uma hora. O desespero tomou conta da urbe. Senti-me um moleque travesso. (continua)...
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[03-01-2010] |
O mundo esfumaçado. Os objetos sem a precisão dos limites... Os óculos de grossas lentes devolveram-me a possível realidade. Nuvens flocadas. Um rebanho ao redor da Lua cheia. Eu na janela. Casarões antigos resistindo à verticalização da cidade. Mantinham um pouco de sua história. O que haveria para se fazer? Poderia ligar para a recepção e pedir uma acompanhante como se pede uma dose de uísque. Talvez, com a recessão e o medo das pragas do século, o preço já fosse o mesmo.Peguei a primeira roupa que a mala apresentou. Estava toda amarrotada. Como meu rosto, pelo cansaço. Quem estaria acordado a essa hora da madrugada para reparar nessas coisas? Saí com cuidado para não acordar os outros hóspedes. De nada adiantou. O velho elevador gritou suas engrenagens em todos os poros do prédio. Ecoou... A porta sanfonada chacoalhou sua presença. (continua)...
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[02-01-2010] |
O olhar cara a cara com o relógio. Uma hora da madrugada... A televisão chiando, o livro no chão, restos de cigarro caindo do cinzeiro... Essa sensação de ridículo com que acordara... Maldita insônia! O homem de avental branco e guarda–chuva preto entrando em uma opereta acordou-me. Era a terceira vez que interrompia o sono. Sempre o mesmo cenário e roupa. Qual seria o sentido? Antes eram os pássaros verdes sugados pelos bueiros. Depois um caderno aberto onde se viam signos desconhecidos. Agora...Não conseguiria dormir. Era sempre assim quando saía a trabalho, ausentava-me da família. Oitavo andar de um hotel de terceira, era o que a firma oferecia nessa época de crise. Era pegar ou largar. Ninguém largava nada. Segurava-se com unhas e dentes. (continua)...
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[27-12-2009] |
Quando o professor desapareceu de cena, sofreu muito. Morrera ou desistira. Quem poderia saber... Um cliente falou da internação. Visita-o sempre que pode. Hoje, também veio.Enquanto conversamos, o velho professor cisma nas dissonâncias: preto e professor; puta e preto; puta e literatura; latim e grego; irmã e sexo... Não levanta a cabeça. Deve acabar seu trabalho. Debaixo de figuras inumanas desenhadas em um céu azul. Cercado por um muro de mais de cinco metros de altura. Absorto de tudo. Lava compulsivamente um dicionário. De tempos em tempos, olhar perdido no delírio, balbucia desconexas frases: as palavras, eu preciso lavar as palavras antes de morrer, as palavras, preciso lavar todas elas... FIM...
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[26-12-2009] |
Fomos em turma. A casa ficava do outro lado da cidade. Vê-lo com uma garota foi estranho. Ignorou-me. Fez que não me conhecia. Os dias se seguiram normalmente. Nunca tocou no assunto. A mulher que lhe faz uma visita é a que vi sentada em seu colo. Rosaura. Também órfã. Expulsa do convento por práticas libidinosas. Foi a única que aceitou transar com o professor negro. Cobrava uma taxa extra. Hoje, se arrepende. Acabou gostando dele. Educado e carinhoso. Trepar mesmo era uma vez por semana. Nos outros dias declamava poesia e conversava muito. Aprendeu com ele o pouco que conhecia sobre literatura. Recebia livros de presente. Confessou-se apaixonada pelo professor de queixo geométrico. Nunca lhe disse. Sabia o seu lugar. Certos papéis na vida não se encaixam com casamento, afirmava. Gostaria de cuidar só dele, ter uma casa... Não forçou nada. Envelheceu. Hoje, inicia adolescentes nas práticas do corpo. Quem mais desejaria uma mulher enrugada pelo uso? (continua)...
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[20-12-2009] |
No início, ninguém percebeu. Não saía dos consultórios médicos. Acreditava morrer canceroso. Dizia a todos que paravam para conversar com ele que a saúde não ia bem. Dois anos nesse rosário doentio. Aos poucos, foram-se os hábitos pessoais. Relaxou no modo de se vestir e abandonou a estética do nó da gravata. A gola da camisa dobrou, a sujeira acumulava-se no terno e o desinteresse em se alimentar aumentava. Tremia ao pegar nas mãos das crianças. Esquecia-se dos resultados matemáticos e dos versos das poesias. Como declamava Gonçalves Dias! Deixou de lado os cadernos e as lições de casa. Paris era a capital da Argentina. Afastaram-no da escola. Piorou. Parou de comer. Emagreceu. Um dia, alguém deu por sua falta. Encontraram-no, fechado no quarto, olhar no teto e boca em desvario. O doutor confirmou a insânia e sugeriu internação. Como já disse, o homem não tinha parente. Nunca mais saiu. Eu o visitava todos os meses. Às vezes, encontrava a prostituta. Encontrá-la naquele local foi uma ...
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[19-12-2009] |
O professor de retórica fina, exigente com o significado de cada palavra, que vivia a nos corrigir, atualmente pouco fala. Parece-me que seu silêncio diz muito mais. Não arrisca e não joga com as palavras, desconfia delas e dos dicionários. Parou os movimentos dos braços quando me viu. Mas foi por pouco tempo. Apenas o necessário para um esboço de sorriso. A testa ficara mais larga com a queda do cabelo. Suava sobre a pele lisa e brilhante. As grossas e negras sobrancelhas, com torcidas de fios brancos, rodeavam os olhos encravados no rosto. O nariz bojudo e os lábios suculentos formavam a segunda imagem em seu rosto. O queixo quadrado e partido caía sobre o peito. Nunca conheceu a família. Foi abandonado na rotatória das irmãs de caridade. Aprendeu o latim e o grego. Bem que tentou a carreira religiosa, afastava o medo de enfrentar o mundo. Convenceram-no do contrário. Obstáculos da cor; sabia. Mas devia muito aos que dele cuidaram. Saiu com profissão e acerto de emprego. (continua)...
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[13-12-2009] |
Professor e preto; preto e míope. Foi indicação do governo; engoliram. Haveria opções? Estrangeiro não escolhia. Bem que tentaram, mas não conseguiram seu afastamento. A tolerância veio com o tempo. Pelo resultado alcançado com as crianças. Exigente, ele era. Os cadernos deviam estar encapados e limpos. Um para cada atividade. A cor da capa indicava a matéria: a vermelha, matemática; a azul, geografia; a amarela, português; a verde, história; a incolor, caligrafia. Caligrafia... Já havia me esquecido. Eu era muito bom. Não saía da prisão das linhas, respeitava a bitola dos trilhos, o que agradava ao mestre. Hoje, descarrilei, escrevo de acordo com meu humor, aprendi que a letra tem a ver com a personalidade. Algo atmosférico e pensante.(continua)...
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[12-12-2009] |
Os braços vão e vêm provocando um som opaco e úmido. O uniforme de um azul desbotado. Nome da instituição bordado no bolso. Da cintura para baixo, todo molhado. As mãos que esfregavam compulsivamente, de dedos longos e escuros, pegaram delicadamente nas minhas para ensinar as primeiras letras, matemática, história e geografia. Tudo muito certinho, pespontado. Alinhavado, nunca. Não se notavam as costuras em seu dia–a–dia. Homem de hábitos estranhos para os habitantes da pequena vila de trabalhadores da estrada de ferro, a maioria formada por operários portugueses e italianos.Não se casou. Mesmo querendo, ali não haveria pretendentes. Solteiro, enfrentou dúvidas quanto à sua identidade sexual. Orgulhoso, ganhou status no imaginário popular. (continua)...
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[06-12-2009] |
Não escrever corretamente uma palavra justificava registrá-la na lousa vinte vezes; não saber seu significado implicava como castigo dizer em voz alta todos os seus sinônimos dez vezes. Mas sabia retribuir com carinho os acertos. Muito didático. Comparava o uso errado e inadequado da palavra com uma superfície suja. Uma poeira roubava o brilho da folha de papel em branco. Irritava-se com nossos dicionários. Precisariam de uma boa lavagem, gracejava. Agora, envelhecido e arqueado, com uma crosta enegrecida rodeando o calcanhar, unhas encravadas em dores e sujeira, o antigo professor não desviava um só momento a atenção da tarefa. (continua)...
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[05-12-2009] |
Fossem normais os rostos, e as pessoas não se amontoassem no pátio do antigo prédio construído com tijolos à vista, não haveria dificuldade em deparar com meu velho professor primário.Depois de um ritual de entrada, quando homens, no uso de um poder delirante, inquiriam, perquiriam documentos e revistavam, encontrá-lo demandava abrir um corredor de olhares desconfiados, de palavras obscenas e voantes. Corpos encurvados entreolhavam-se e me tocavam esporadicamente com os dedos. Depois, atravessar o corredor de pé–direito alto, teto gótico antigo e assoalho vitrificado. Suportar o cheiro de éter vindo do ambulatório médico até o outro pátio, mais rústico e sem jardins ou calçamento. O chão de terra, curtido nos arrastos de pés descalços a rastejar em delírios. Cheio de tufos de grama maltratados. Para trás ficavam os fachos de luz...
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[29-11-2009] |
Ainda demorará algumas horas. O vácuo e o polímero. Disseram-me que seria a última espécie de autor existente. O que será da literatura, então? Fluxos aleatórios... De pensamentos... Não-pensamentos. Caóticos. Imponderáveis. Por isso mais verdadeiros e tolerantes? Apreender em nossos vértices... Interpretações interiores... O que sei sobre mim além do que estes parasitas escreveram? Pior, o que os vizinhos sabem de mim além do estereótipo criado? Somos o mistério... Sou uma câmera, diz o narrador em ‘Adeus a Berlim’. Mas não do externo, direi. Disseco para me desvendar. A vísceras e os pensamentos não pertencem a ninguém. Falo de meus sonhos também diurnos. Sonhamos sempre. O mundo é cenário onírico. A matéria é fruto de fantasia e simulacro... Estou cansado deles – de mim... Narrativa igual queijo suíço. Esburacada. Perdida em seus próprios vãos. Buracos negros. Caóticos e angustiantes. Neles deverá o leitor mergulhar. Que nada lembre a vida. Tudo pronto. O corpo dissecado exposto na ...
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[28-11-2009] |
Não deixaria o sexo dela exposto. Não! Apenas o útero grávido. Houvesse a possibilidade. Não poder parir frustra o macho. Virgínia plastificada... Aproximou-me mais de minha identidade. Fosse homem, estaria mais próxima de um Joyce ou de um Kafka. Vergílio Ferreira: E estou assim, entregue à minha melancolia – que barulho no corredor. Alguém a arrastar os pés, um resmonear confuso de palavras inteligíveis. Olho a porta, sou eu que entro, ah, como tu vens. Sento-me ao meu lado, Matraca veio à varanda ladrar pelo instinto de propriedade – como tu estás. Melhor continuar o trabalho. Ninguém perguntará quem é o sujeito. Se memória do presente, do passado ou do futuro. Mortos, tornamo-nos desinteressantes. Perdemos as particularidades... (continua)...
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[22-11-2009] |
Como gostaria... Arrancar-lhe estes testículos. Agora, nada sente. Vou expor o sexo dele. Tornar público seu grão direito. Pudesse castraria todos os que se acham escritores. Alcançaria a liberdade tão esperada. Dizer e atuar. Sem voz estranha a nós. Como em um sonho... Escapar. Ver os próprios cabelos brancos. Quase cinquenta... Um dia, plastificarei uma Virginia Woolf. Fantástica! A delicadeza com que tratava nossa mente... Fosse na primeira ou na terceira pessoa. Dominava a multiplicidade. Tinha seu cantinho próprio. Como seriam as circunvoluções de seu cérebro? Especial... Talvez por ser mulher, nascer castrada. Agir contra as normas... Viver a diferença na pele. Havia de ser mais personagem que autora... (continua)...
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[21-11-2009] |
Parte do serviço terminado. Sinistro, o coração. Quem decide? O cérebro ou o coração? Ouvir o outro... Ser tolerante é caminhar na diferença. Tão irreal... A autoridade age como um baço. Comanda o sistema de defesa. Enjaulado no gradil ósseo. Outrem uta o braçal. Na tensão. Sentir a diferença e agir. Rapidamente. Sondar e reconhecer. Guardar na memória cada lance que diga do outro. Registrar e passar adiante. Aperfeiçoar o ataque. No reconhecimento e nos lances. Antecipar ideias e ações. Frustrar-se às vezes. É verdade. Perceber-se impotente. Testemunhar... Muito mais microcosmo. Pensam que assim nos deixam mais livres. Particularidade técnica. Nada mais que. Nem sempre as respostas eram as que eu desejava. O petulante estava lá. Jogava diferente... A corda necessária. Mas seus dedos comandavam. (continua)...
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[15-11-2009] |
A ideia de um Contraponto viria de um outro coração. Nada de invasões inoportunas. Coração mole. Não criticava. Viam por ele. Tudo indireto: Tinha ele a tez quase tisnada de sol, com lábios cheios, mal conformados, embora rubros e lisos, acima dos quais se via um bigode preto bem frisado, com pontas recurvadas, embora a sua idade não pudesse ser de mais de vinte e três ou vinte e quatro anos. Todavia, apesar dos traços de barbárie dos seus contornos, havia uma força singular no rosto do cavalheiro e nos seus olhos móveis e atrevidos. Terceira pessoa. Um dos personagens vendo por Tess. Hardy observando Alex. Frases de efeito. Firulas literárias. O que teria visto Tess de verdade? Um olhar de mulher... Não o de um homem! Com a cena não era melhor: A aragem e a brisa da plena noite, chorando entre a cortiça e os ramos bem abrigados das ramadas hibernais, eram fórmulas de amarga censura. Acontecia ou aconteceu? Liberdade de dizer o que víamos ou sentíamos. Nunca! Éramos vítimas das artiman...
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[14-11-2009] |
Lábios suculentos. Boca grande. Língua musculosa. As cordas vocais com calosidade. Falava muito. Boca de boi. Voz longa e espessa. Parágrafos longos e tortuosos. Técnica primorosa. Eterno jogo do discurso. Movimentos elípticos. Nariz adunco. As jugulares expostas, salientes. A abertura passará no meio do rosto. Terminará no pescoço. Músculos, ossos e dentes abertos ao visitante. Sem chávena. Todo letrado gosta de um chá. De um bom vinho também. Ah, Bachelard! Testemunha de um intemporal. Devaneio da água, do fogo... Do próprio devaneio. Na época, tão distante... Perfeito! Agora o tórax. O que mais gosto de dissecar. A ossatura antes de chegar ao centro da máquina. A parte mecânica. Afetiva também. Durante milênios. Para que mudar? Serrar o osso externo. O envoltório fino sobre o coração e os pulmões. Trilhões de batidas... (continua)...
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[08-11-2009] |
Do cérebro, os vasos nítidos. Nas circunvoluções, os cenários perdidos. Arquivo morto. Resta apenas a anatomia. Não ter como saciar as emoções... Crueldade sem ação, guerra sem soldado... Que cada visitante use a imaginação... Crie... Decida pelas imagens. Ilusão pessoal... Não é assim com tudo? Multiplicidade de informações... De pensamentos, sentimentos e percepções. A trama criada a partir de simulacros. Talvez descubram que foram educados assim... Um criador muito maior que nós. Crítico e intrometido... Sempre. Perfeito! Não poderia ficar melhor... O olho. Lanterna sobre o mundo. Iluminamos sempre o exterior. Do interior, esses senhores diziam por nós... Não dirão mais; nunca mais! Aí está minha dose de maldade... Dormir fora do túmulo... Desonrado....
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[07-11-2009] |
Houve e ainda há desses intrusos. O cérebro que no momento preparo é um deles. Psicopatas que pensam e agem pelos outros. Os grandes delírios humanos infernizaram a vida dos comuns. Discursar o simulacro das palavras, burilar ideias e enxertá-las na cabeça das pessoas: Observo, entre parêntesis, que para nós, devido à falta de hábito e à nostalgia, a liberdade parecia muito mais “livre” do que na realidade é. Qual para nós seria esse? O homem não tira a bunda da cadeira. Horas contemplando o etéreo. Caçando palavras e adequando-as às imagens. Camuflado em um ‘eu’ ou em um ‘nós’. Santa hipocrisia! Dessa fratura, a ideia de Direitos Humanos. Um burguês escrevendo sobre presídios e presidiários. Melado de culpas. Mas... Estou cometendo o mesmo erro. Sem revanchismos... Não devo. Respeito sacro. O homem está morto. Dizer dele me transformaria em um igual. Meu trabalho é outro. Detesto a ficção. Aprecio mais a ossatura fria de um cadáver. Odeio corpos consumidos por vermes ou pelo calor. Me...
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[01-11-2009] |
Imagens delirantes... Assim é com a maioria dos escritores. Puro acaso coincidir com a vida. O Petrov descrito nada tinha a ver com o vivente. Um de seus companheiros de presídio registrou o diálogo ocorrido naquele dia. Alimentar esperanças? Nunca foi do feitio de Petrov, os registros são claros. Não! Descreviam-no com calculista e frio. Conseguisse a liberdade, voltaria a roubar. Petrov adorava transgredir. Nada a ver com o encarcerado no cérebro do autor. A ideia de que o meio faz o sujeito. Sombras... Criações de alguém que acredita ler inconscientes. Com a petulância de se meter também em medicina: A tuberculose é uma doença que se conhece à primeira vista. Preso pela doença e pelas pernas... Doença que o autor plantou no personagem. Acorrentados. Como fugir, então? Mas fugiam. Apesar dos grilhões nas pernas, da tuberculose, da sífilis e da lepra. Claro que não iam muito longe... Havia a neve, o frio... E a vontade de retornar. Todo foragido deseja um regresso. (continua)...
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[31-10-2009] |
Primeiro: desidratar e desengordurar. Cada grão de existência armazenado nas circunvoluções do encéfalo. Em partículas tão minúsculas quanto um neutrino. No observado do mundo e do comportamento humano. Tanto faz se Grin ou Dostoievski. Exagero? Os fatos demonstram que não: Petrov me procurou duas vezes. Bebera pouco o dia todo, estava a bem dizer, normal. Mas até à última hora seu feitio era o de quem aguarda e confia em alguma coisa que não pode deixar de vir e de acontecer; alguma coisa, diferente, nova radiante, triunfal! Pobre Petrov... Assim o homem o descreveu em ‘Recordações da Casa dos Mortos’. Como se houvesse convivido com ele na prisão. Deixasse claro tratar-se de ficção e não da vida... Daí sim, não me intrometeria. Que estavam todos tristes naquele dia, é verdadeiro. Mas apenas alguns choravam. Para Petrov não havia mediania: caso bebesse, sempre era muito. Está no registro do presídio para quem quiser ler. (continua)...
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[25-10-2009] |
Começarei pelo cérebro. Serrar o osso. Dentro, o reservatório de toda a criação. Memória sem voz... Que tipo de energia clarearia suas partículas após a morte? Transformar resíduos em imagens. Ondas... De que tipo? A última camada leva a alegoria do céu e do inferno. O corpo parou de correr atrás do tempo. Pensamento sem pensador... Bion. Uma janela da fronte até o meio do crânio. O polímero? Base de poliéster ou silicone? Transparentes e flexíveis ficam melhores. Quase reais. Cadáveres... Como se esculpidos e congelados. Os vizinhos desconfiaram... Não, não imaginam. Trabalho no porão da residência. Montei um pequeno laboratório. Estranharam a movimentação. Sempre fui muito discreto. Mas os caminhões, as mesas metálicas e os galões incitaram alguma curiosidade. Por pouco tempo. Logo, tudo voltou à rotina. Para eles não passo de um escultor medíocre e esquisito. Não dispensariam uma atenção maior a um sujeito inexpressivo como eu. Fossem mais curiosos... Um laboratório de plastinação. ...
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[24-10-2009] |
Fácil? Coisa nenhuma. Sentir-se usado, abusado até. Não sem uma dose de culpa pessoal. Confesso. O sujeito pode ir da intrusão à omissão. A autoria é dele. O personagem, uma marionete. Portanto, tem todo o direito. Agora, deixar de reagir é que não vou. Nem com o pai... Imagine se com um estranho! Sem culpá-lo. Foi até onde eu permiti. Hoje é mais fácil o rompimento. Nem sempre foi assim. Melhor nem pensar em deslocamentos. Já é difícil julgar no vivido... Imagine se acrescentássemos preocupações com as palavras. Falar das corrupções e dos desvios arqueológicos. Delas são a ciência e (a)ética. A estética. Jogo de signos. A máscara e o esterco da autoria. Ser transformado em estátua. Dissecar o cadáver que ora se apresenta. Coincidência ser o dele. Igual ao encontro do senhor Stilton e Ivy em ‘A Lâmpada Verde’, de Grin: As suas intenções em relação a Ivy eram uma rematada estupidez. Grin dizia de Stilton. Um Deus todo poderoso. Um entre tantos oniscientes intrusos. (continua)...
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[18-10-2009] |
Domingo. (Nuestro amor se pone amarillo). Acordo bem cedo. Estranhamente, sinto-me disposto. Tomo um banho e aparo a barba. Olhos incrustados em abismo. La noche quieta siempre. El día va y viene. Abro a janela. A luz dá vida aos objetos. Um casaco longo e um blusão marrom envelhecido sobre a cadeira, uma camisa vermelha, e o sapato gasto ao lado da cama. Nada além dos objetos pessoais. Fora, uma imensidão vazia. Somente silêncio ao lado de silêncio, compacto. És un silencio ondulado, un silencio, donde resbalan valles y ecos y que inclina las frentes hacia el cielo. Domingo. No quise. No quise decirte nada.Sábado. Puerta de jardín...(Fim)...
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[17-10-2009] |
Gostaria que fosse cantado em castelhano. O homem de casaco marrom ri com tudo que digo. Malditos enigmas. Lorca, o que seus fantasmas fazem comigo? Que provação será essa? Meu corpo encostado no batente da porta. A alma, léguas daqui. Sou eu o homem de casaco comprido e camisa vermelha. Olheiras marcantes. A cadeira na varanda vazia. O longo caminho até o jardim. A volta com parada no lupanar. A loira de roupa laranja, transparente. A vergonha de expor o corpo a um macho distante. Incomodo até as profissionais do sexo. A mulher de olhos verdes dá lugar a uma de olhos castanhos. Carrega uma nuvem de pena na fala. Está esquecendo o bilhete. Escrito nos dois lados. Faces de uma mesma moeda. Sábado. Semente estremecida. (continua)...
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[11-10-2009] |
Sábado. Semilla estremecida. Sozinho. Depois do infarto viver só foi uma opção. Mas a casa encheu-se de fantasmas e assombrações. São eles, hoje, os atores que me dão vida. Portanto, não acreditem em nada do que virem ou ouvirem. Fiz um canto escuro como morada. El canto quiere ser luz. En lo oscuro el canto tiene hilos de fósforo y luna. La luz no sabe qué quiere. En sus límites de ópalo, se encuentra ella misma, y vuelve. Da janela, vejo quando a moça vestida em um tecido fino e transparente sobe uma rampa invisível e desaparece na imensidão do oceano. O mar não tem laranja. Ah, amor. Nem Sevilha tem amor! Voz da mulher de olhos verdes que uma leve brisa me traz. (continua)...
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[10-10-2009] |
Domingo. Mar con orillas. Metas. Está escrito atrás do bilhete. Coloco uma roupa de banho. Corro pela praia à procura de um joelho ferido. Sinto-me um imbecil. Nunca fui de correr atrás de rabo de saia. É como se o corpo permanecesse colado no meu. Toco pessoas por engano. Giro o corpo de um lado a outro. Observo os banhistas no mar. Nem sei mais quem procuro. Um homem dirige-me um aceno. Respondo. Tem ao lado uma mulher que mantém a cabeça baixa. A pele branca amorenada. Conheço aquele pescoço. A brisa carrega um cheiro conhecido. Uma jovem passa correndo. Tem ao lado um garoto da idade dela. Traz um curativo no ferimento. É ela... Las niñas de la brisa van com sus largas colas. Aprisiono seu traseiro na retina. Ayer. Suportarei? Já tive um infarto... Desaparece na orla. Corro enroscado no ‘Eternity’ que a garoa rouba de mim. Volto desesperado. Os dias estão cada vez mais curtos. A paixão cada vez mais perdida. Ayer. (Estrellas de fuego.) Mañana. (Estrellas moradas.) Hoy. A mulher de...
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[04-10-2009] |
Olho para ver se há alguém por perto. É hoje? Pergunta rindo de meu embaraço. O homem de boné escondendo o olho observa-me obliquamente. Está de pé do outro lado da portada. Fuma um cigarro atrás do outro. Carrega a blusa de couro ferrugento na mão. Foi na outra semana. Não, não foi, diz a jovem balançando o bilhete no vazio. Tento arrancar o papel da mão dela. Caímos. Eu sobre seu peito. Naranja y limón. ¡Ay de la niña del mal amor! Limón y naranja. ¡Ay de la niña, de la niña blanca! Limón. (Cómo brillaba el sol.) Naranja. (En las chinas del agua). Do chão, vejo um sapato espezinhar calmamente um toco de cigarro. Bizarro modo de agir. Olho para o alto. O sujeito vai ao encontro de uma mulher de olhos verdes, não mais que um e setenta, cabelos curtos, pescoço longo, surrealista, já conhecida, o bilhete na mão da Lolita, o corpo quente no meu... E os movimentos nos lábios na mulher que se afasta: Sábado. Arcos azuis. Brisa.(continua)...
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[03-10-2009] |
Sábado. Arcos azules. Brisa. Faz uma semana que o céu não se abre. Agora, o azul em arcos, até onde se avista. E a brisa calorosa, não fria. A algazarra dos jovens nas calçadas. Falam alto, gesticulam. Ejaculam seus hormônios pela boca e pelos braços. Melhor sair, aproveitar o dia. O jardim lotado de mulheres com seus filhos pequenos: Mamá. Yo quiero ser de plata. Hijo, tendrás mucho frio. Mamá. Yo quiero ser de agua. Hijo, tendrás mucho frio. Mamá. Bórdame en tua almohada. !Eso sí! ¡Ahora mismo! Sento no banco de cimento. Deito o pescoço no encosto. O azul não tem fundo. Nele podemos mergulhar que não encontraremos fundo ou fim. Alguém chora... Vestido amarelo plissado. O joelho ensanguentado. No portão de ferro... Limpo aquela carne com cheiro juvenil. Ela pega o pequeno bilhete que caiu de meu bolso ao retirar o lenço. Sábado. Puerta de jardín. Lê alto. Em castelhano. (continua)...
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[27-09-2009] |
Permaneço sonâmbulo algumas horas ainda. Toda manhã é a mesma coisa. Colocar a primavera em seu devido lugar, clarear o dia e o mar. Verde que te quiero verde. Verde viento. Verdes ramas... Saímos. Gaivotas nos acompanham. As ondas roubam nossos rastros, nosso passado, não deixam pistas para o futuro. Pergunto sobre o bilhete. Demora a dizer, vasculha o interior, fala do amor compulsivo de um homem de casaco de couro ferrugento, do arrependimento no último momento, que apesar de estar com ele, não o conhece, é como se não passasse de um frequentador de um mesmo bar, o sujeito vive parte na realidade e parte no sonho, você finaliza como se eu não existisse. Rumor. Aunque no quede más que el rumor. Aroma. Aunque no quede más que el aroma, aquerônticas vozes que o vento traz, eu na janela, minhas mãos debruçadas no vazio, há uma mulher descalça e solitária adentrando o mar, cristais de imagens, um véu de chuva no horizonte, e a voz: Domingo. Dia cinza. Cinza. (continua)...
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[26-09-2009] |
Domingo. Dia gris. Gris. Da janela avisto o oceano. Nas ondas agitadas e obscuras habita minha tristeza. Leio uma vez mais o bilhete. Deveria ter aguardado mais tempo. Há os amantes da madrugada, botos e lobisomens que moram na cidade. Vampirista de olhos verdes, não mais que um e setenta, cabelos curtos para deixar um pescoço longo, surrealista, atento ao vento... E aos lábios. Usa saia justa. Joelhos discretamente expostos. Caindo entre os seios, traz uma gota, pérola dependurada em delicada, quase invisível, corrente de ouro. Lágrima congelada. Fotogramas. Verde que te quero verde. Verde vento. Verdes ramos... Assim canta a descuidada. Em minha cama? (continua)...
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[20-09-2009] |
Vi em tus ojos dos arbolitos locos. De brisa, de risa y de oro. Decididamente, tratava-se de um apaixonado à espera de alguém... Que não chegou. O último cigarro foi jogado ao chão e pisado com raiva. Ainda mapeou todos os quadrantes antes de se retirar, sem se despedir. Seria dirigido a ele o bilhete? Talvez, descuidado, deixou que o vento o levasse. Poderia ter perguntado... Sem o companheiro de infortúnio, hesito em permanecer. Mas uma força estranha cria raízes em meus pés. Os minutos adensam ainda mais o silêncio, o ruído de água descendo resgata a madrugada em que o poeta foi assassinado, tenho a pele em arrepios, melhor ir, carregar a frustração, o céu sem astros, junto com Lorca: La luna está muerta; pero resucita em la primavera (continua)...
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[19-09-2009] |
Namorados encontram-se ainda dia, quando a praça está cheia de gente jovem, para um sorvete. Escrito assim, de um modo velado, o bilhete sugere um encontro entre amantes, ao cair da tarde, quando a algazarra dá lugar aos beijos fortuitos e toques de pele, e os casais perdem-se atrás dos troncos de árvores. Sábado carregado de aroma, rastro e penumbra, estou em pé na entrada do jardim. A brisa traz esses fragmentos do poeta espanhol. Não estou sozinho. Ao meu lado, há um sujeito que fuma um cigarro atrás do outro. Quando não traga, puxa a manga da camisa para ver as horas. Usa um boné com a pala baixa de modo a encobrir os olhos. O casaco marrom está todo riscado pelo tempo. Os sapatos, da mesma cor do agasalho, brilham apenas onde o couro mantém a tinta. Percebo alguma agitação quando o isqueiro não responde ao movimento de seu dedo. Tem fogo? (continua)...
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[13-09-2009] |
Sábado. Porta do jardim. Um bilhete que o vento traz. Enigmático. Lembra-me um poema de Lorca: Sábado. Puerta de jardín... O espanhol enriquece a sonoridade, transforma o recado em canto andaluz. Aproximo-o do nariz, há nele um cheiro de mulher. A autora gosta de poesia, mas não é afeiçoada às línguas. Em contrário, não seria tão descuidada com um poema. Não consigo definir o perfume. Jovens usam ‘Eternity’. A quem seria dirigido? Na cidade, há apenas um jardim com portada. Todo em ferro, ornamentado com deusas gregas. Poucos percebem e param para observar os entalhes. Detalhes quase perdidos pela corrosão do tempo. Mas poderia referir-se ao jardim de alguma casa abandonada. Também não diz a data e a hora. Com certeza, não é o primeiro encontro. (continua)...
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[12-09-2009] |
Aberta, apenas a janela que dá para o fundo da casa, é de onde converso com as andorinhas que pousam no varal e contemplo as montanhas que se assomam na distância. Os medicamentos prescritos devolvem-me apenas a ordem das palavras, nada mais... Tudo ao redor se passa em branco-e-preto.Lá está... Um homem! Corre em minha direção. Sorri e me abraça forte. Permanecemos algum tempo abraçados. Afasto seu rosto de meu ombro e seguro-o com as duas mãos. Já tem pelos no rosto. Feliz? Felicidade é amor, me responde. Não seguro a lágrima que ele limpa com um lenço. Saímos de mãos dadas, como dois namorados, ele cheio de novidades, e eu, você sabe, contemplativa e sem sombra, um mundo que nada tem a ver com meus cheiros, minhas texturas e meus mistérios, além de meu filho e um último pensamento: Depois que as flores murcharam, quero distância do mundo, peço a Deus um quarto com banheiro e chuveiro. É isso que chamam de cura... (fim)...
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[06-09-2009] |
III. A cura e o retorno: Felicidade é amorEu não queria. Todos se foram. Estou sozinha sentada nesse banco em frente do manicômio. Precisavam me liberar. Agora você pode viver lá fora, disse-me o doutor. De que lá fora estaria falando? Pensa me devolver a saúde, a liberdade, quando o que fez foi me enclausurar junto às vozes que, espectrais, convivem comigo, escrevem meu destino. Acostumei-me com o olhar que as pessoas me dirigem. Não vejo felicidade no rosto deles... Percebem logo que somos diferentes. Protegem-se. Hoje sei, da própria loucura.Meu filho vem me buscar. Sempre ele. O marido desistiu. Os vizinhos têm medo de mim. Dos surtos. É o que dizem, que são surtos, cada vez mais longos. Não ligo para nada do que dizem. Quando no mundo, atuo a maior parte do dia a Ana do poema que você já conhece: Retida em casa, D. Ana, / Qual num cárcere, vivia; / E aí, cerrada a ventana, / Da rua ninguém a via. (continua)...
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[05-09-2009] |
De passarinhos. Vinham no varal. Centenas de andorinhas. E eu chamando elas. Da janela. Uma tonta! Uma tonta! Isso sim! É verdade! Como podiam conversar comigo? Mas feliz. Felicidade é amor. Agora vão! Se não... Amanhã tem mais. Vão! Vão! Vão! Aqui não tem passarinho. Nem sombra. Perdi a minha quando me jogaram aqui. Agora? É! Tem um prontuário. Não sei que tanto tem escrito lá. Eu não escrevi nada. Não disse. Também não! Acho que foi o marido. Foi fugindo, fugindo... De mim. Esperava um mês pra amor. Eu queria todo dia. Que vergonha! Dizer isso pra vocês. Não! Não falem! É segredo nosso. Segredo. Ouviram? Olham muito sério praquilo tudo que está escrito. Olham pra pasta, olham pra mim, misturam uns comprimidos em um copinho e me dão. Esperam engolir. São vivos! É! Se acham. Se pudesse tirar vocês daqui! Vão! Vão! Um cantinho só pra mim. Não sabem nada. Não! Falar de vocês! Nunca! Agora vão! Preciso dormir. Quando durmo sou feliz. É! Verdade! E felicidade é amor. Eu amo. Muito! Muito!...
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[30-08-2009] |
Atrás do branco só tem sujeira. Verdade! Não queria dizer, mas disse. Não! Não gosto... Do jeito que me olha. Eu pelada na frente deles. Divertem-se ligando aqueles fios em mim. Eu sei de meus fios soltos. Mas tenho vergonha do corpo. Engordei muito. A merda dos remédios que me dão. Desaforo... Me urino toda. É pra ele não usar o pinto em mim. Já vi molhado. Não gosto! Não gosto! Do jeito que ele passa a mão na gente. Leva a luz com vocês. Por favor! Tem bicho nela. Muitos bichos. Rezo! Rezo! Rezo! Assim não chegam aqui. Deus me ajuda. Sempre sempre sempre. Fiz umas artes. Um dia passei no meio daqueles rapazes... Não! Não! Não falo. Não quero! E pronto! Agora vão! Vão daqui! Deixem eu quietinha. Deixem! Deixem! Ele já me perdoou. Meu filho! Meu filho também. É um homem. É feliz. Felicidade é amor. Melhor saírem. O tal de branco não pode saber. Doidinho por um choque. Medo! Medo! Sinto muito, muito mesmo. Medo! Brinca com os fios. É! Aquele olho encurvado e torto brilha quando mexe com...
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[29-08-2009] |
II. O surto e a internação: Voltar pra dentro da mãeNão, não saia daí. Deixem eu quietinha aqui. Deixem! Deixem! Vão! Vão! Vão daqui! Vocês são muito chatos. É! Sim! Sim! Vocês adoram celas, não é? Eu também. Mas seria melhor se não estivessem aqui. Principalmente você que fala muito. Não me conhece não! Vai! Vai! Vocês ouviram o que ele disse: Depois que as flores murcharam, quero distância do mundo, peço a Deus um quarto com banheiro e chuveiro... Gosta de tudo certinho. É verdade! É verdade! O quê? Tudo que disse. Falou como eu penso. Não certinho assim. E dizem. Todos dizem alguma coisa. Acho que pensam ter o direito. Deixe! Deixe! Deixe que falem. Eu? Não suporto mais. Quero ficar aqui bem quietinha. Leva essa luz pra lá, esse barulho no corredor. Sou feliz assim. Felicidade é amor. Meu filho sempre dizia amor pra mim. Feliz feliz feliz... Acho que sim. Levaram ele cedo de mim. Aqui ninguém fica junto. Me achava gorda. Queria pagar uma lipo. Falei Nem vendendo o carro. Coitadinho!...
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[23-08-2009] |
Efêmeros os dias, as horas, o tempo. Mergulhar na memória é como fazê-lo em um rio, as águas nunca são as mesmas, nada se sabe das nascentes ou cabeceiras. Tudo é fluxo, fluência, enchentes, seca... Substância. Submersa nessa atmosférica escuridade, os olhos repassam os passos, descobrem o quão obscuro e marmóreo tem sido o trajeto, a luz mais ocultou que ilustrou. Não há marcas como as dos pés descalços no pó assentado no piso. A memória é feita de areia e ventanias; imagens nômades. Ao não ofender como o Sol do deserto que abrasa, a luz é sutiliza que engana; como tudo que simula. Pensa-se ver tudo com ela, mas ela cega, penetra os olhos como o falo o sexo, provoca aberturas e gozos, orgasmos em série, a luz rouba os fantasmas e os deuses da meninice e que nos visitam, sonâmbulos, quando as pálpebras se encontram ou a fantasia se achega. São da escuridão as texturas e os mistérios que nos rondam; da vida, a luz que deixa desfilar minúsculas sutilezas aéreas; do dia, o calor abrasante...
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[22-08-2009] |
I. O fato: A memória é feita de areia e ventaniasA expressão do olhar é de alguém que contempla a memória de um modo sereno, introspecção a esquadrinhar texturas e mistérios interiores. Nenhuma luz ou cor desviaria tal absorção de pensamento, extravagante olhar encravado no abismo, extasiado pelo desvario da alma. Quem poderia imaginar... Foi um quase surto o que se passou, a luz mal decifrava o assoalho de madeira corrida, abria uma lacuna na escuridão do quarto. Palavra nenhuma. A cortina enfeita e resguarda, uma fenda quase virtual não fosse o vazamento fino e iluminador. O de fora estupra como se percebesse os cheiros de uma sensualidade muda, inocente e passiva. Uma brisa tímida, esbatida, venta sutilmente as intenções da manhã, traz também suas vozes secas e frias, ruídos dispersos: Retida em casa, D. Ana, / Qual num cárcere, vivia; / E aí, cerrada a ventana, / Da rua ninguém a via. Ainda se lembra... Pouco sabia da vida ao ler o poema de Raimundo Correia, das algemas e das pocil...
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[16-08-2009] |
Álvaro acordou com a luz que vinha da janela. Pequenas partículas vagavam em suspensão. A mulher dormia ao seu lado. Nunca sentira o prazer que ela lhe proporcionara. Percebeu que alguém abrira o envelope que deixara sobre a escrivaninha. Só podia ser ela. À medida que a luz iluminava o ambiente, o ódio que sentia aumentava. Não compreendia o motivo de ter aceitado o jogo. Não precisava disso, era jovem ainda, poderia escolher uma adolescente como fazem seus amigos. Aproximar-se da vida, não da morte. A vontade era arrancar o sutiã dela, humilhá-la. Ela saberia que ele gozou sabendo de seu cancro, de seu câncer.Dora acordou sorrindo, sem dar sinais de saber de algo. Levantou-se e foi até a janela. Pássaros faziam algazarra na lateral da casa. O sol era forte e dava cores vivas e fortes à natureza. No horizonte, uma tênue cortina de névoa encobria as montanhas. Dora espreguiçou os braços e o corpo. Permaneceu alguns minutos com a paisagem impetigando a retina. O momento devolveu-lhe o s...
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[15-08-2009] |
"Essa mulher é uma coitada, Álvaro, se eu fosse você puxava conversa com ela.", foi o que lhe disse o amigo, assim que a mulher se afastou. “Por que faria isso, Paulo?", olhando-a, agora, fixamente. "Eu sou seu médico. Como ela me iria encarar na cama, sabendo que eu sei de seu problema?", respondeu-lhe, olhando o amigo com um ar de pena. "Como assim?". "Ela foi operada do seio, você sabe, teve que extrair um deles, seria um favor que você faria a ela. Pense bem, Álvaro". Depois desse curto diálogo, por mais que as ideias dos dois vagassem e enroscassem aqui e ali, Álvaro não conseguia desviar o olhar daquela mulher. Nunca sentira algo semelhante, uma vontade compulsiva de resolver o problema dela. Tudo era tão absurdo; inexplicável também. Tentou várias vezes pegar o chapéu e sair, mas alguma força o impedia. Vez ou outra, os olhares cruzavam-se. Ela sorria e acenava. Era convidá-la a ir ao seu chalé e pronto. Então, por que não o fazia? Al...
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[09-08-2009] |
Tudo não passaria de um encontro de velhos amigos, não fosse sua atenção desviada para aquela mulher. "Não olhe agora, Álvaro, mas há uma mulher à sua direita, sentada com outras duas amigas, na mesa de fundo, que não tira os olhos de você", cochichou-lhe Paulo, a certa altura da noite. Álvaro não lhe deu atenção, disse não estar interessado, que queria ficar sozinho, colocar a leitura em dia e descansar. Paulo mudou de assunto. Parecia ter esquecido o ocorrido. Quando voltou do banheiro, Álvaro percebeu que se enganara. Ao lado do amigo, uma mulher, de cabelos lisos e escorridos, que caíam sobre os ombros, conversava animadamente. Sorriu-lhe ao perceber que se aproximava. Paulo não permitiu que ele pegasse o chapéu, segurou-o pelo braço e apresentou-lhe a amiga. Álvaro tomou seu aperitivo em silêncio. Os dois pareciam velhos conhecidos. Um pouco de conversa e Álvaro ficou sabendo que era desquitada e tinha um filho que estudava na capital. Já se sentia arrependido de ter saí...
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[08-08-2009] |
Com o rápido reconhecimento do amigo, Álvaro retirou o chapéu, passou a mão levemente pela sua aba úmida e fria, ajeitou os cabelos, e dirigiu-se até onde ele se encontrava. Os olhos, metidos em grandes e grossas sobrancelhas negras, esquadrinhavam todo o ambiente. Ninguém deixava de observar o homem de rosto afilado e que se vestia de forma incomum, mas com uma elegância indiscutível. Deixou o chapéu sobre o balcão e abraçou o amigo carinhosamente. Manteve-se algum tempo com as mãos sobre os ombros dele. Um pouco mais velho, como também ele deveria estar. O rosto aluado de sempre, cheio de cicatrizes, sequelas da juventude e dos medicamentos da tuberculose. "E, então, como estão as coisas?", perguntou-lhe, enquanto retirava as mãos de seus ombros e pedia um aperitivo. "Nada de novo. O que poderia acontecer em uma cidade do interior? Estupro? Crimes? Assaltos? A estreia de alguma peça teatral? Até o festival de inverno anda sem criatividade. Os velhos amigos, dos tempos ...
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[02-08-2009] |
Parou na frente do bar. O embaçado dava um certo ar de fantasia na luz que refletia nos vidros foscos e amarelos da porta. Sentiu-se frágil ao se lembrar da caneca de vidro da Bohêmia estilhaçar-se no chão. Era como se sentisse aquele segundo de arrependimento por ter entrado no escritório do pai sem ordem e ainda ter derrubado o objeto que ele mais gostava. O pai não o castigou, mas o silêncio no rosto dele ficara gravado na sua memória. Era como se naquele momento o mundo se resumisse no seu pai catando os estilhaços no chão, tentando ainda juntá-los como um quebra-cabeça, com uma sombra negra ao redor dele.Um casal abriu a porta e desapareceu na noite. Abriram uma avenida de luzes e vozes no ontem de Álvaro. Um passo foi o suficiente para saber que não estava no sonho. A porta fechou automaticamente às suas costas. O olhar vasculhava cada rosto à procura de um conhecido. Já havia desistido de encontrar alguém, quando viu um homem acenando-lhe, segurava um copo de chope na mão. Recon...
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[01-08-2009] |
Achava-as mais para poetas do que para um cidadão comum. O sorriso discreto em seus lábios era pelo que ouvira quando criança. Da própria Cecília Meireles. Era amiga de seu pai. Ela havia ido ao encontro de Fernando Pessoa e ele, em função de análise minuciosa do horóscopo dos dois, deixou de comparecer. No local combinado, deixou um livro autografado e um bilhete pedindo desculpas. Álvaro considerava-os uns malucos. Recebia-os na editora por respeito ao pai. Às vezes, sentia vontade de publicar um autor ou outro mas as aventuras literárias do pai logo o alertavam para o risco do fracasso. Temia cometer o mesmo erro comercial do velho. Realismo forçado pela situação falimentar em que ele deixou a editora. Toda a família sofreu com o seu idealismo. Com sua morte, Álvaro reestruturou a empresa. Especializou-se na publicação de livros técnicos. Todo o patrimônio conseguira nesse empreendimento. No segmento de mercado em que atuava não havia concorrentes.As pernas seguiam à mercê das lembr...
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[26-07-2009] |
O corpo chamou-o à realidade. A mão começava a adormecer, formigava; o estômago reclamava de sua distração. Nem água tomara nas últimas dez horas. Sair roubaria a tranquilidade em que estivera mergulhado a tarde toda, mas poderia afastar os fantasmas. Acendeu a luz do abajur que estava sobre uma antiga escrivaninha. Havia sido de seu pai. Passou as mãos no pequeno reservatório de tinta. Desde sua morte não teve coragem de explorar aquelas pequenas gavetas. Sentou-se e colocou a pena na caneta de madeira. Ficou algum tempo observando-a contra a luz. Apesar das mãos pesadas, o pai as deslizava levemente sobre o papel. Admirava aquelas letras angulosas, nítidas e cheias de curvas. Via nelas a energia e firmeza do pai; também a teimosia e a severidade. Nenhum deslize. Não admitia rasuras em seus textos, fosse carta ou recibo, jogava-os na lareira. Álvaro lembrava-se da chama retorcendo, no início rápida e depois lentamente, o papel amassado.O frio começava, com sua lâmina fina e fria, a co...
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[25-07-2009] |
Seo frio de julho não era impedimento para Álvaro sair, como imaginar queos fantasmas que rondavam sua cabeça o seriam? Álvaro aproveitava aviagem da família para passar o final de semana nas montanhas. Passou odia entretido na leitura de alguns clássicos que mantinha em sua casade campo, em Campos do Jordão. A campainha do telefone despertou-o.Eraseu filho ao telefone. Haviam chegado sem problemas. Procurou serrápido. Disse estar bem e que não lhe faltava nada. Quando desligou,foi atraído pelas cores na janela. À esquerda, um céu quase cinza faziauma falsa linha de horizonte; à frente, um céu amarelo, com nuvens emcirros, em um espectro de cores: do cinza ao amarelo. Aglomeradas,tornavam-se vermelhas.Achouestranho esse seu interesse repentino pelas cores. Traziam-lherecordações da infância, quando brincava de colocar pipas nas nuvens.Era como se colocasse palavras: l&a...
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[19-07-2009] |
Quando se voltou, não havia mais crosta ou sombra. Somente a cena do crime. A mulher, não mais de quarenta anos, cabeça caída na janela, mantinha os olhos abertos, fixos no chão. Exangue. A pele mais clara que os cabelos. A cor e a textura de uma folha de papel em branco. Faltavam palavras ali. Levou um tiro no peito e outro na genitália. O sangue escorreu pela blusa, formou uma poça coagulada na saia, sobre o colo. Alguém colocou a fotografia da família no colo da húngara. Ao lado, faltava miolo na cabeça do homem. As pálpebras fortemente cerradas indicavam um último esforço para não ouvir o estampido. De nada adiantou. Foi carimbado também com um tiro nas partes baixas. Os corpos dos amantes ficaram em exposição quase todo o dia. O sangue misturou-se ao das manchetes dos jornais. Romantismo e guerra. Os pais evitavam que as crianças se aproximassem dos ...
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[18-07-2009] |
Há quanto tempo não trepavam? Um dia ela se queixou de dor, parou de reclamar do hábito que ele tinha de enfiar o dedo no nariz, meteu o seu na televisão e clique, desligou o botão do prazer. As bundas ficaram frias. Sentia falta do rosto bravo que ela lhe dirigia; do verde dos olhos que ficavam mais verdes ainda quando sentia raiva ou gozava. Estranho perceber essas coisas somente agora... Achava-a atraente, mesmo metida naquela roupa simples e desbotada. Cuidou dos filhos como ninguém. Não deitava enquanto não tivesse certeza de que estavam bem-acomodados e dormindo. Sobrava tempo para o marido. Adorava ser lambida, ouvir o barulhar da secreção vaginal e gemer baixinho. Não conversaram sobre o assunto. A velhice trouxe esses respeitos inúteis. Pensamentos... Mais passamento... O distanciamento imposto pelo tempo não o incomodava mais. Com a morte das palavras, apareceu um enorme abismo, cheio d...
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[12-07-2009] |
Ser testemunha do caso passou a ser o assunto predileto. Fazia frio e garoava... Começava a narrativa dando um tom nebuloso e sombrio. Não fosse sua intuição e teria fugido da chuva. Mas algo lhe dizia para ficar um pouco mais no portão. Assim conseguiu os detalhes. Apresentou-se ao policial que primeiro chegou ao local. Foi logo dizendo que viu um homem cruzar a rua e jogar o revólver no córrego. Para ele, parecia tranquilo demais para alguém que acabava de matar. Frisou que o suposto assassino chegou a ajeitar a gola do paletó calmamente sobre o rosto para se proteger da chuva. Depois, desapareceu na esquina. Não, não estava perto quando ele atirou — o fato constou dos autos — mas ouviu o estampido poucos minutos antes de o sujeito aparecer e jogar o revólver nas águas sujas do córrego.A sombra e o ruído. Quase tudo na vida é consequência deles. A mulher r...
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[11-07-2009] |
Trabalhador exemplar, treinava brasileiros em uma multinacional. A guerra não lhe deu outra opção, era pegar ou largar. Perdeu dois filhos na viagem, foram lançados ao mar. Submergiam em sonhos. Ninguém soube como o caso da mulher chegou até o ouvido do homem. Um dia ele resolveu parar para conversar, falou de coisas fúteis. O tremor nas pálpebras parecia um aviso. O italiano não se cansava de dizer que na terra dele homem era homem, mulher era mulher — um pouco fora de época, hão de concordar -, e naquela situação alguém tinha de morrer. Mas a passividade do homem intrigava, o que levou os amantes a abusarem da sorte. Um dia tinha de acontecer. Aposentou os mandamentos. Sentiu ódio de Noé por ser um incluído, de Deus por ter abandonado Cristo à sua sorte, e matou os dois. Isso mesmo, o tiro entrou pela têmpora do amante. A mulher apanhou antes de mo...
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[05-07-2009] |
Água, algumas horas por dia. O córrego em frente mais parecia um esgoto ao ar livre. Sem aviso, cortavam a energia elétrica. Daí manter uma vela em lugares estratégicos na casa. A luz no rosto, esboços de objetos e o negrumoso imitavam um quadro à Oitocentos. Nessas horas, a palavra morte entrava em seu circuito. Arrepiava-se todo ao pensar na possibilidade de ser enterrado vivo. Avisou a mulher para colocar uma vela e uma caixa de fósforos no caixão quando partisse. Ela brincou com a seriedade dele, perguntou-lhe se queria alguns livros e revistas. Para quê?, pensou. As palavras ajuntavam-se em sua cabeça sem o mínimo esforço. Sua história de vida mudou tanto que não sabia mais o que era real e o que era imaginação. O velho álbum de fotografia trazia-lhe à lembrança uma infinidade de passados. Apesar disso, nunca o agradou escrever. Letras possu&ia...
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[04-07-2009] |
O homem era um nordestino calado pelo intemperismo da vida, sempre bem-trajado, gel no cabelo, com costeletas bem-aparadas e rosto arredondado. Não dispensava o sapato marrom e branco e o chapéu caído sobre a testa. Trazia uma cicatriz no lado direito do pescoço. Ficava carrancudo quando lhe perguntavam o motivo. Ele a valorizava. Poucos sabiam que foi provocada por um acidente ainda na infância. Foi estourar uma bombinha dentro de uma garrafa e um caco quase lhe cortou a jugular. Imaginavam fruto de valentia de nordestino, de algum acerto de contas, coisas da deusa Fama em seu castelo cheio de orifícios que assopravam novidades ao mundo. A mulher caiu nas graças dele. Essas coisas de paixão desenfreada, sem muita explicação, que acontecem em romances, mas também na vida. De repente, ela trocou de marido, de roupa e de sorriso.Ele gostava de matutar coisas inúteis. Elas vinham e iam como os insetos que v...
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[28-06-2009] |
Dedo indicador no nariz, o homem fuçou o buraco calmamente. Parou a ponta do dedo na frente dos olhos. Notou a estreiteza do campo visual, daí aproximar e afastar o dedo procurando o ponto de melhor foco. Estava envelhecendo. O cigarro deixou uma marca escura na unha e na pele ao redor dela. O corpo estranho foi analisado com a minúcia de um relojoeiro, como se fosse o primeiro. No fundo, a sombra de um homem não lhe despertou maior interesse.Hábito antigo, gostava de passar o dia sentado no portão. Vez ou outra, ia bebericar na cozinha. Pinga de alambique, das boas, nunca desprezou. Aprendeu com o pai. Um gole só. Retornava esfregando as mãos e fazendo careta. Os olhos vermelhos e brilhantes fixavam o olhar no final da rua. Oferecia-lhe outro colorido. Há anos, aguardava da vida algo mais do que ser tetracampeão ou herói por ter sobrevivido às endemias, epidemias, desnutrição, doenç...
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[27-06-2009] |
Ao sair do bar, embrulho debaixo do braço, reencontrou o sujeito de preto. Ele estava de pé, na porta da lanchonete, olhando para a janela do quarto dela. Misteriosamente, ela se viu, na tênue luz daquele quarto, penteando-se. O vulto do marido refletido no espelho, os objetos espalhados pela cadeira e pelo chão, a música...Esses acontecimentos tornaram-se frequentes nos últimos meses. O álcool roubava-lhe toda a noção de dentro ou fora; de real e espelho. Imaginava tê-lo visto uma vez mais. Mas o relógio estava quebrado e o tempo parado. O mundo e as mentalidades atrasados. A única certeza era a de detestar homens sem rosto e céu abricó. Por isso fechou a janela no exato momento em que o cão livrava-se da cachorra. Ainda viu quando ele, em disparada, foi disputar outra cadela. Janela como anteparo, enclausurada para sempre, ela tinha uma única certeza: a imortalidade era uma cadela no cio. (fim)...
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[21-06-2009] |
Durante todo o dia, manteve-se do lado do marido. Cansada dos “meus sentimentos”, sentiu-se aliviada quando a pá silenciou e as máscaras foram embora. Colocaram a melhor roupa e mandaram lavar os carros. Faziam de tudo uma festa. A expressão e a fala disfarçavam seus vícios. O ouro ornamentava e o perfume disfarçava qualquer deslize da alma. Era o único objetivo do supérfluo: esconder-se de si próprio. Não era o luxo que envenenava a nação, mas o homem. Rejeitou os convites de parentes e amigos para que dormisse com eles e retornou a casa. Sabia que convidavam por gentileza. Também não tentou explicar. Não entenderiam se dissesse que queria ficar um pouco ao lado dele. Foi o que fez nesses quarenta anos, ficou ao seu lado. Literalmente, foram cúmplices do maior roubo de suas histórias, o de suas individualidades.Sorte ter encontrado uma lanchonete aberta. Parou para comprar umas garrafas de vodca. Contribuiria com os impostos. (continua)...
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[20-06-2009] |
Como todas as amigas, quis compreender o sentido do que ouvira na infância. Não tivesse ouvido falar do amor, talvez não se encontrasse naquela situação. Por que a mentira passava de geração a geração? Talvez o companheirismo desinteressado que conheceram com as eternas brigas e desgastes fosse o verdadeiro amor. Virou-se para o outro lado. Pela primeira vez dormiria sem ouvir o ronco dele. Balançou o relógio no ar para ver se funcionava. Nunca funcionou. O tempo parado sempre na mesma hora. Como saber o horário de sua morte? De manhã, veria o que fazer. Avisaria parentes e amigos. Apagou a fraca luz do quarto. Uma brisa fria agitou a cortina e trouxe o céu estrelado. O bom-humor puxava uma bela noite, uma madrugada calma, um renascimento. Um fim... Nunca!A noite puxou o dia. A mulher acordou bebendo. Pegou a agenda e telefonou para o médico. A funerária ficava ao lado, esperaria abrir. Avisou amigos e familiares. Tentou vestir o marido, era pesado demais. Além do mais, havia no corpo ...
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[14-06-2009] |
O último badalo do sino da igreja acordou-a da viagem. Deu mais um gole e foi até o banheiro. O jovem cubano não sabia o que fazer com os seios à mostra das alemãs que pediam cerveja. Parecia gostar. Algumas dezenas de anos de lutas rendidas por um par de belos seios. A imagem congelada na memória abriu desejos que minarão lentamente o poder. Mijou forte e rindo. Duas mulheres nuas são suficientes para derrubar um governo. O cio é muito mais forte que as ideias.Saiu do banheiro cambaleando. No caminho até a cama, esqueceu da viagem. Procurou espaço no lençol. Aproximou-se do companheiro. Achou simpáticos os lábios roxos e frios do marido. Sempre o imaginou um morto agradável. Ajeitou o corpo dele. Era esperado, há meses não manifestava o menor apetite. Até a cerveja abandonou. Por que a olhava daquela forma? (continua)...
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[13-06-2009] |
O ruído áspero sobre o disco levou-a do espelho. A agulha procurava a música nos microssulcos. Colocou Miles Davis sem perceber que o marido não roncava. Não encontrou mais vodca. Abriu um Ron Caribbean Club, 5 anos, que havia comprado em Cuba. Turismo exótico. Uma fumaça preta saía pela chaminé do hotel e riscava o céu limpo de Havana. Prenúncio de defumação do cidadão. A lenha se rendia e fornecia calor aos estrangeiros. À noite, o desfile de moda e prostitutas. Gigolô anos cinquentas. Com sapato branco e preto, terno branco e chapéu Panamá. O dono da casa guardava o luxo antigo como a um totem. Ele era o sacerdote. E as portas abriam-se aos curiosos pelo templo. Qual homem seria tão maluco a ponto de preferir a pobre Ítaca de Ulisses ao luxo e comodidade que a modernidade nos oferece? Será possível o luxo com justiça?Havana ficou nos anos cinquentas. Uma arte triste e pesada que somente os goles que desciam pela garganta poderiam afastar. Não entendeu o quadro a óleo, uma transparên...
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[07-06-2009] |
O da rua se parecia com o dos sonhos: alto e moreno, cabelos cheios e negros. Cozinhou e vestiu-se com luxúria e sensualidade para o sujeito da fantasia. Por isso trepava de olhos fechados. Pena não ter visto a cor dos olhos dele. Sonhava sempre em branco e preto. Nunca procurou o motivo. Adorava homens morenos de olhos verdes. Nunca o encontrou. Ficou na memória e nas fitas cinematográficas. Ambos deteriorados pelo tempo. Imagens fragmentadas e desprovidas de seu egoísmo.Agora, era tarde. Deixou-o desaparecer no horizonte sensível e voltou ao espelho e ao foxtrote. Irritou-se com a garrafa e o copo vazios de vodca. Era a única forma de continuar viva. A vida segura por um único apetite. Olhou para o outro lado do espelho. O fundo do quarto escuro mostrava o esboço do marido, do lençol continuando o amarfanhado do corpo dele, objetos pessoais jogados pela cadeira e pelo chão. Odiava natureza morta. No centro, o rosto da mulher de sessenta, surrada por ter sido falsa consigo mesma, deso...
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[06-06-2009] |
A mulher na janela, do outro lado da rua, não havia ido à missa. Penteava os escorridos cabelos. Ele sabia que aquela cena não seria a última. Não acreditava em finais, nem em fios tecidos sem rompimentos. Era artesão do tempo e plantador de gemas e nós. Daí ter dado pouco importância ao fato.A mulher somente percebeu o homem quando ele passou por sua janela. Não viu o rosto. Sentiu um arrepio estranho. Fazia muito tempo que o corpo não respondia a nada. Somente aos apetites da carne e mesmos estes a torturavam. Num rápido movimento, comparou-o ao seu companheiro que dormitava na cama de casal. O porco roncava, barriga inchada pela cerveja e falta de exercício. Caía sobre ela como um saco de batatas. Todo e qualquer sentido se esgotara. Fungava e desistia. Quanto mais impotente, mais ciumento. E o tempo foi roubando o apetite e a imaginação. Também o ciúme. (continua)...
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[05-06-2009] |
Água, algumas horas por dia. O córrego em frente mais parecia um esgoto ao ar livre. Sem aviso, cortavam a energia elétrica. Daí manter uma vela em lugares estratégicos na casa. A luz no rosto, esboços de objetos e o negrumoso imitavam um quadro à Oitocentos. Nessas horas, a palavra morte entrava em seu circuito. Arrepiava-se todo ao pensar na possibilidade de ser enterrado vivo. Avisou a mulher para colocar uma vela e uma caixa de fósforos no caixão quando partisse. Ela brincou com a seriedade dele, perguntou-lhe se queria alguns livros e revistas. Para quê?, pensou. As palavras ajuntavam-se em sua cabeça sem o mínimo esforço. Sua história de vida mudou tanto que não sabia mais o que era real e o que era imaginação. O velho álbum de fotografia trazia-lhe à lembrança uma infinidade de passados. Apesar disso, nunca o agradou escrever. Letras possu&ia...
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[31-05-2009] |
Um homem misturou-se às imagens. Sem provocar o menor ruído, ajeitou os castiçais sobre as banquetas, acomodou o cálice e o missal, e saiu. Com certeza, não eram mais dele os pensamentos. Jejuaria e oraria até ser agraciado com a imortalidade. Passos abafados na espessura das paredes, superar obstáculos, ascender. Acompanhou-os degrau a degrau. Do campanário, uma bimbalhada clareou o silêncio. Dos céus, pombos arrulharam por toda a praça. Em disparada, cães saíam das sombras. Tinham esperança de abocanhar algum. Macho e fêmea copulavam. Ao som do bronze no campanário, fiéis invadiam como formigas a praça. Emparelhados, afetos e igreja. Enchiam a nave e ocupavam os bancos com suas ninhadas barulhentas. Um órgão emitia algumas notas musicais. Pedaleiras tecendo fios sacros. Oratórios e tocatas de Haendel e Bach. Envoltório gasoso de poesi...
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[30-05-2009] |
No interior da igreja, os bancos, em madeira rústica e maciça, estavam despovoados. Somente a luz indireta, dissimulada e oblíqua cortava aquele silêncio de fundo de mar. Chamou um denso suspiro e um poema não anotado. Muitas poesias são perdidas por falta de papel e caneta. Iluminam o lado invisível e desconhecido da matéria. Habitam terras de ninguém. Talvez um raio as ilumine na textura de fundo, transforme-as em desenhos e relevos. Assim eram as paredes da igreja, adornadas por imagens santas incrustadas, dependuradas e pintadas. Apesar do ouro, eram bens espirituais, estavam ali para serem admirados enquanto imagem. Aceitáveis, portanto. Sentou-se sem desviar os olhos daquelas metáforas e alegorias. Fora, o temporal e o terreno; dentro, o espiritual e o místico. Seduzia-o aquele clima de ausência, do amor a Deus de forma pura, vazia de outros valores. Procurou um entrepano, um muro divisório, não os encontrou. Sabia que estavam em algum lugar entre a rua e o púlpito. Invisíveis, o...
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[24-05-2009] |
O relógio da igreja estava adiantado. Queria acreditar nisso para justificar o atraso. Mas o sujeito vestido de preto que suava em bicas conhecia a habilidade dos homens que fizeram aquelas engrenagens. Demorou anos para desvendar os segredos das rodas dentadas que se escondiam atrás do mostrador do relógio da igreja da Matriz. A precisão era a sina de seus ponteiros. Portanto, o atraso era real. A frustração era puxada dente a dente pelo tempo.A cadela no cio a arrastar o tapete com bocas salivantes e machos cegos distraiu-o. Sedentos de desejo. A imortalidade é uma cadela no cio. Nela está a genitália do universo. Depois do gozo, a morte. O lenço no pescoço, encobrindo parte do rosto, desseca. Fazia muito calor naquela tarde de outono. Tarde frouxa, mortiça, vazia de almas e de movimentos. Nenhuma brisa, nenhum pássaro, nenhuma borboleta, nada além dos latidos dos cães que dobraram a esquina com seus latidos e dos corpos morrediços, amortecidos pelo álcool, dos mendigos que acompanha...
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[23-05-2009] |
Mandei flores, as mulheres têm um vínculo místico com perfumes e cores. Os poetas descobriram primeiro; os amantes, depois. A mãe gostava delas, para vê-la sorrir bastava um botão de rosa. Telefonou, agradeceu, conversamos longamente sobre coisas à toa. As pétalas renderam segredos, casada há dois anos, o marido não a satisfazia. Trepava como um animal, rosnando, gozava, virava de lado e dormia. Com certeza, nunca experimentaria um orgasmo completo, igual ao que vi quando criança, entre coelhos. A horas, eles param, entram em transe, o olhar fixo em algum devaneio. Sonhariam? Eu a atraía, não havia dúvida, percebia ao tocar os lábios em seus ombros ou no roçar dos corpos quando dançávamos. Ela vem duas vezes por semana. Hoje é dia, está um pouco atrasada. Talvez tenha desistido. Da última vez, ao confirmar a vinda, percebi-a ansiosa e embaraçada. São muitos os pontos de convergência: curtimos a mesma música, nossos signos se completam, adoramos dançar e, mais importante, percebemos a a...
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[17-05-2009] |
A moça reapareceu alguns meses depois, algo envergonhada pela saída repentina e sem agradecimentos. Trazia uma caixa de bombom nas mãos. Adentrou levantando o vestido, mostrando os joelhos. Cicatrizaram, disse sorrindo. Ah, ia me esquecendo, são para você, que boba que fui, você foi tão gentil e eu fugi. Não me deixava falar, os olhos desassossegados mirando os móveis da casa. Não parava de me oferecer fragmentos: o pescoço longo, a veia ingurgitando com a fala, os braços descobertos e os lábios enormes, escondidos em batom lilás. Os cheiros sempre me atraíram, cerrava as pálpebras para que a luz não interferisse. A pele tem raízes que exalam perfumes, são glândulas alquímicas, à mercê do ritmo circadiano e do humor. Quanto mais próximo do sexo, mais viçoso o aroma. Peguei um bombom da caixa e ofereci outro a ela. Gosto da mobília, do pé direito alto, já passei muitas vezes por aqui, queria conhecer por dentro, nunca pensei que fosse desse jeito... Aproveitei sua distração para agarrá-...
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[16-05-2009] |
Os joelhos sangravam, sulcados e cheios de areia. As pernas semi-abertas deixavam à mostra os pelos acastanhados, as coxas feitas ao torno e o cheiro volátil do sexo. Estava sem calcinha. Os pequenos olhos pediam para que eu poupasse a dor. Meus dedos percorreram suas sobrancelhas espessas, perambularam pelo rosto e pararam nos lábios. Fique calma, não vai doer nada, disse-lhe com carinho. Rosto no rosto, não estava diante de uma harpia, sua cabeça era única. Só faltava dizer que estava diante de uma deusa. Afastei um pouco o vestido para cima. Passei lentamente a gaze embebida em água boricada no ferimento. Ela não esboçou qualquer movimento ou gemido. Passei outra, desta vez seca, sem desviar o olhar de suas pernas. Aproximei os lábios para beijá-la. Ao mesmo tempo em que sussurrou um não, contraiu as coxas. Desculpe, foi a única palavra que consegui articular. Ajeitei os medicamentos e a gaze no estojo. Voltei ao banheiro. Quando retornei, ela havia desaparecido. Somente nesse momen...
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[10-05-2009] |
No dia em que a garota atravessou a rua, também ouvia Billie´s Best, Speak Low, ficou marcado. Vinha da outra calçada. O cabelo fouveiro e cortado rente. O vestido caía leve sobre o corpo, discretamente transparente e elegante. Os seios tocavam o tecido sutilmente, os pés procuravam fugir das rachaduras do asfalto. Não conseguiu, os olhos saltaram em grito, a voz pouca, quase não se ouviu. O joelho acurvilhou-se. Saltei a janela imediatamente, ofereci meu braço, levei-a até a calçada. A dor incomodava, ofereci-lhe a casa, deixei-a sentada na poltrona e corri até o banheiro. A caixa de emergência, onde estava a caixa de emergência? Meu reflexo no espelho, a mãe estendida na banheira, o sangue incontinente. Foi a primeira vez que vi a cara da morte. “Em vós os olhos têm o mouro frio, / Em quem vê seu exício afigurado”, Camões. Deixou uma longa carta. Nada de culpas, apenas relatava os bens que possuía e o modo como gostaria de me ver utilizando-os. Meu amor não foi suficiente para manter...
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[09-05-2009] |
Ouvia Billie´s Best, What a Little Moonlight Can Do, debruçado sobre o parapeito da janela da velha casa rosada, uma das poucas que resistiu aos buldôzeres. Algumas sequelas ficaram desenhadas nas paredes, semelham as linhas do rosto da velhice. Tinha dignidade, ali, metida entre dois arranha-céus, o telhado ferido de tralhas que vinham de cima. Foram meses de acordo sem solução. Depois, veio o pior, ameaças veladas, desaforos e telefonemas anônimos. A mãe trazia um ego agreste, fruto de uma viuvez precoce. Havia outra forma de a mulher sobreviver sem o macho? Nas horas de desesperança ela pegava o velho álbum de fotografias e ficava a passar os dedos no rosto dele. O ventilador arvorava o vestido, refrescando as pernas abertas. Aprendi muito cedo a conhecer a cor e o cheiro do desejo no rosto da mulher. Cresci com eles. A saudade puxava a linha do tempo, trazia na ponta o prazer, um sorriso taciturno que logo escapava. O que você está olhando?, dizia de seu canto. Mal imaginava a vont...
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[03-05-2009] |
A cidade passou pelos seus olhos como algo muito distante e impossível de ser vivido. As pessoas nada sabiam dos corredores escuros do poder. Passou pela sua cabeça perguntar o motivo da liberdade. Queria dizer que havia outros na mesma situação; que estavam morrendo; queria... Somente muito mais tarde ela soube o motivo de sua liberdade. No processo militar, o nome do filho de um general desfilava ao lado do dela. Alguém roubou a folha onde constava o nome dele. Quando era para ser enviada de volta ao presídio, nada encontraram que a incriminasse.Preferia ter morrido a ter a sorte que minha mãe tanto me buzina nos ouvidos. Lá fora começa a chover. Agrada-me abraçar o travesseiro contra o peito. A flor do hibisco esconde o vermelho, o peso da água fechou-a. A tarde deixa lágrimas sobre suas pétalas. Vem um gosto salgado na boca. Perdi o pólen, a essência, a fantasia. O quadro... N&at...
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[02-05-2009] |
Um novo início. A vida é sempre um reinício. Contínua ilusão de estarmos conscientes de nós mesmos, termos o domínio do destino. Mas na maioria das vezes ele muda de rumo sem nos consultar. Foi o que aconteceu com ela naquele dia. Agredir o tal de bigode e os outros deu algum resultado. Partiram para cima dela. Quando abriu os olhos estava cercada de branco. Sentiu cheiro de hospital. Foi com muita dificuldade, e muita dor, que se levantou. Havia uma fileira de camas à direita e outra à esquerda. Alguém sorria, sentado em uma delas. Há muito não via um sorriso. Ao lado da cama, uma cadeira. Sobre ela um pequeno espelho. Pegou-o. O rosto um hematoma só. Agrediram com o que tinham nas mãos. Como leões famintos. Soube depois, mandaram-na para a enfermaria, quase morta. Ficou desacordada cinco dias. A data registrada no calendário de parede assustou-a.Três anos escondida do mundo, num silêncio terrorista. Era um dia como o de hoje, vinha uma claridade de fora. Olhava a sombra da grade dese...
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[26-04-2009] |
Quando a luz acendeu, havia na frente dela um outro homem, bem mais velho que o tenente Zé, sem bigode, cabelos grisalhos, o olhar frio e distante. Sentiu muito medo. Ela ouvia coisas horríveis dos outros torturadores. Sentia-se segura com o tenente. Respeitava-a. Este se aproximou e acariciou o rosto dela. Mas não parou, desceu até os seios e mais embaixo. Ela apertou uma perna na outra com força. A voz dando a ordem para darem o choque foi a última coisa que ouviu. Quando voltou a si, as pernas estavam abertas. O homem ria na sua frente. Foram dez homens depois dele. Fez com que cada um desfilasse na frente dela. Aos berros, ela maldisse as possíveis filhas, esposas, mães, de todos eles.Ruídos... O ouvido no alvoroço que faz um bando de pássaros. Brincam. O calor está mais insuportável ainda. As nuvens acumulam-se no céu. O espelho... A terceira pessoa... O olhar e o ouvir. Eu sempre olh...
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[25-04-2009] |
O pai, a essas horas, deve estar jogando xadrez com os amigos. Ficou calado durante todo o trajeto que a devolvia ao lar. Filho de emigrantes espanhóis, nunca endossou o comportamento da filha, principalmente os que antecederam a prisão. Dizia-se apolítico e concordava, à distância, com a propaganda anticomunista. Dizia nas conversas de bar, quando a bebida liberava sua timidez, que admirava o fascismo. Detestava a juventude. Em todo o tempo em que ela esteve presa negou-se a citar seu nome, ignorou-a. Foi a mãe quem foi à luta, compreendia, era mulher também.Era mais amigo de meus irmãos. Sempre quieto, inatingível. Nunca me dirigiu um carinho sequer. Eu ansiava por receber o mesmo olhar que ele dirigia para minha mãe. Aceitei o jogo. Perdi. Perdemos. No final, ele se afastou das duas. Eu me senti como uma boneca perdida nos cantos da casa. Imaginava-me a outra... Devia haver outra. Passei a odiar minha m&atil...
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[19-04-2009] |
"Quem pensa que é? Quer reformar o mundo? Vamos, diga, quem são seus companheiros?" Ela desistira de dizer que era um sonho planejado em seu quarto. Tudo solitário, sem companheiros. No silêncio do dia-a-dia. Desejava que o mundo coubesse na tranquilidade do quadro que estava dependurado lá na parede, que as pessoas fossem felizes como a criança que pesca sem pensar em peixes. Ou igual ao casal que vai eternamente ao encontro do barco, sem nunca conseguir alcançá-lo. Era somente isso que ela queria e não sabia como explicar. Não podia compreender o sangue escorrendo pelo seu rosto, a cor da violência em seus lábios, por sonhar.Ruídos... Dia e noite. Tiros dirigidos a quem? As pessoas desapareciam; outros rostos ocupavam seus lugares. No início assustados; depois resignados. É minha mãe lavando a louça. Sempre submissa. Ia na vida como as bainhas das costuras qu...
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[18-04-2009] |
Tenente Zé ordenava que a levassem dali assim que recobrasse a consciência. Ajeitava o cabelo e, sem tirar os olhos da mulher, colocava o quepe sobre a cabeça e ia embora. Era um homem muito paciente, que cumpria as determinações superiores sem questionar, era o que havia apreendido com os anos de caserna: o respeito à hierarquia. E sua função naquele momento era arrancar o que fosse possível, custasse o que custasse. O fato de ser uma mulher deixava-o mais tranquilo, sempre foi mais fácil arrancar delas a verdade. As sessões repetiam-se uma, duas... dezenas de vezes. Quando voltava a si, estava na cela, um cubículo úmido e cheirando a mofo. Molhada e humilhada. Na cabeça, a voz do homem: "E então, vai falar ou não?" O cheiro de suor, sangue; os gritos... Os corpos dos companheiros que não suportavam a tortura, com uma estranha paz no rosto, eram carregados pe...
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[12-04-2009] |
Um grito forte e curto. Deixou-a paralisada, olhar perdido na distância. Trouxe-lhe a figura do tenente Zé, escondido atrás das lentes escuras dos óculos e do bigode sempre muito bem-aparado. Fazia seu serviço com perfeição. Primeiro, o silêncio e a pouca luz como intimidação. Ele ficava sentado, o quepe sobre uma velha mesa, encarando-a. Nenhum gesto; nada. Apenas a respiração lenta e rítmica. De repente, uma luz vinda de trás da mesa rasgava aquela pocilga. No chão, esparramados pelos cantos, metais e roupas sujas. Um ventilador só para ele. Não havia janelas, o que deixava o ambiente muito quente. Depois de um longo silêncio, levantava-se deixando a sombra de seu corpo cobrir a acusada. Então caminhava de um lado para o outro. Conversava, dizia que ela deveria tornar o serviço mais fácil, que seus amigos já haviam confessado tudo. Que...
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[11-04-2009] |
Talvez eu devesse iniciar falando de meus traços, mas peço desculpas. Pouco conheço das linhas e dos limites de minha substância vital. Tudo ficou perdido nos reflexos das águas e dos espelhos. Eu me olhei milhões de vezes, escovando os dentes, penteando-me, maquiando-me, e nunca me enxerguei. Se nada sei de meu corpo, como descrevê-lo? Os outros, a família, sempre souberam mais sobre ele do que eu mesma. Amarrada e calada pelo mundo dos adultos, restou-me o olhar e o ouvir. Sou essa massa amorfa sentada de frente para a janela de meu quarto.São duas horas. O céu nublado e o mormaço prenunciam uma chuva de novembro. A pouca luz que entra no quarto é suficiente para desnudar a velha máquina de costura, o quadro na parede e a mulher sentada na cama. Fora, próximo ao muro que dá para a janela, uma flor alaranjada, tremula. De seu centro avermelhado escapa uma haste branca. É uma f...
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[05-04-2009] |
Não preciso nem perguntar se você se lembra. Apavorou-se com tudo. Ficou semanas olhando-se no espelho. Queria até que eu apalpasse seus seios. Procurou aproximar-se dela. Lembra-se? Talvez não. Você está distraída com a beleza da renda. O tempo sempre apaga um pouco o pavor. O tempo... Uma caixa de comestíveis minutos. Foram meses assim, um silêncio sepulcral. Ela estava mais arredia que antes. A peruca mal disfarçava o sofrimento. A volta de diálogos, muitas vezes monólogos, do outro lado, indicava que algo não estava tão perdido assim.Nada mudou desde então. Em alguns momentos, chegava a acreditar que tudo voltaria a ser como antes. Mas não. Ouvia-se somente o silêncio. A menina nunca mais apareceu na janela com seus olhos de gato, nunca mais apanhou. Ela perdeu a curiosidade. Ainda ontem a vi na rua. Atravessar a rua pode ser apenas um gesto a mais. Parecia adulta demais para seus treze anos. Pouco se ouvia dos meninos, das antigas brigas que tanto exigiram dela. Andam chutando rai...
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[04-04-2009] |
Eu não preciso lhe perguntar. Você se lembra. Foi a vizinha da outra rua que confirmou. Aquela mudança repentina não trazia boas notícias. É câncer, cochichou a vizinha. Confirmei com o marido dela no dia em que ele lavava o carro. Contou-me tudo como um grande segredo. Percebi que precisava falar. Meu silêncio serviu-lhe como uma luva. Câncer... Meus olhos nos fios de alta-tensão. Por ali passa o ópio do povo, milhares de quilowatts, sons e imagens. Sob os pés de um pássaro inocente. Como? Câncer...Foi espontâneo suas mãos passearem pelos próprios seios quando lhe dei a notícia. Você quis saber como ele estava. Como podia estar? Assustado, os cabelos mais brancos. Continuava frequentando a casa às noites e nos finais-de-semana. Isso quando ela não ia fazer quimioterapia. No restante, era o mesmo homem que imaginávamos quando ouvíamos...
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[29-03-2009] |
A coleira esquecida no prego, as palmeiras, a velha arandela sem luz, as azaleias, a água da piscina, serena. Quantas vezes não parei nesse mesmo lugar e fiquei à espreita aguardando o silêncio depois dos gritos? Como toras a impedir novos caminhos. Matam... Para que os muros? Eles não barram vozes... Muito menos silêncios. Somente os olhares... Nós a conhecemos tão bem! É o que você diria, não estivéssemos preocupados com o melhor lugar para colocar a planta. Mas não precisava, não havia muros entre nós, somente o olhar. E eles se separavam, desviavam-se para o outro lado sempre que o ódio daquela voz clareava os cantos escuros dos canteiros. Não passava meio-dia para os gritos rasgarem a manhã, afugentarem as pequenas aves. Elas saíam em revoada, assustadas como as crianças. Voltavam mansamente, ciscando pequenos alimentos. Não demorava para a antiga ordem voltar. Na casa, também. Acho até que, com o tempo, eles se acostumaram. Pareciam menos convictos da necessidade da fuga.Estranha...
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[28-03-2009] |
"Fica quietinho, fica... Olha!" Os corredores das duas casas eram separados por um muro. Ela não sabia que eu estava do outro lado. Tomava um café, recostado no batente da porta. Sua voz, quase infantil, misturou-se ao chilrear dos pássaros, ao verde da renda portuguesa, às flores brancas e vermelhas caídas dos hibiscos. Era uma manhã lavada. Tudo parecia novo, como se a natureza acabasse de ser formada. Chovera muito à noite. Daquelas chuvas inesperadas... Inesperada como a morte. De repente, a notícia. O silêncio... Uma longa pausa... Desapareceram os gritos. Não havia mais razão; os filhos pareciam ter dado uma trégua a ela.Borboletas arriscam um voejar pirata. Duas orquídeas nos espiam. Pássaros empurram o silêncio. Ondulam asas-deltas no céu... Surfar em nuvens. Alguém bate estacas ao longe. Há um ruído de máquina; alguém cortando grama. Mutilam... Teimosas, elas crescem novamente. Onde deixar a renda? Debaixo dos hibiscos, na sombra, você disse. Percebi que também ouvi...
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[22-03-2009] |
Disse os teus beijos e aqui se levanta um parêntese, que até então, antes de escrever “os teus beijos”, eu não havia notado. Eu te beijei muito nesses dias, e, embora te mostrasses passiva, apenas dando o colo, o pescoço para os meus beijos, bem sei e também sabes que isto, dar-se e sentir-se beijada, já era um agir. No entanto, nunca me beijaste, digo, nunca houve de ti uma procura para pôr os lábios em mim. Sei, compreendo, que até nisto representavas, até nisto eras A Pretendida. Mas nessas representações, nessa entrega como se fosses a perseguida, teatro era apenas um instrumento. O representar era a vitória, parcial, da proibição. Quando entregavas o rosto para se beijada, quando os meus lábios passavam rentes a teus lábios, a tangenciar o seu calor e tato, sem neles pousar a minha força, nisso não ia só uma inexperiência. Ora, o instinto natural já é uma experiência. Não se precisa ir ao cinema ou se aprender lições de beijo para se pousar os lábios nos lábios de quem amamos. Qua...
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[21-03-2009] |
Então tu me falavas o que sentias diante do olhar de Gilvan, lembras? Então já começávamos a dominar a nova linguagem, pelo gosto da representação, pelo irmão prazer de obediência às regras criadas pelo calor e no calor do sentimento. Dizias como se me abrisses um segredo, um porta-jóias raro tu me abrias, e abrir, esse verbo, não escrevo por acaso, porque me dizias: - Quando ele me olha assim, eu fico toda molhada. As minhas calcinhas ficam úmidas.Dizias, como se tu fosses paciente, um reflexo daquele olhar, quando na verdade eras a imperiosa agente, pois eras a razão e o estímulo do olhar. – Eu fico toda úmida, dizias, com voz chorosa, e baixinho, como se baixinho nos convidasses a um passeio na mata, de árvores muito altas, e lá em segredo me dissesses com hálito quente, ao ouvido, com língua e carícia na língua: - Eu fico toda úmida. E eu, gaguejante, anjo poderoso a me atrapalhar nas próprias asas, nas próprias poderosas asas a ruflar por entre as pernas, perguntava: - Molhas? E c...
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[15-03-2009] |
A segunda mentira, e agora mesmo eu sinto o teu perfume, me feres com o teu cheiro agora, quando te recordo nisto: a segunda mentira que eu te fazia era quando eu te levava os nomes de amigos e conhecidos que eu deixava a impressão de que te desejavam. Aí, para mais acabada mentira, grande era a minha perfídia. Que eles viessem a te desejar, se soubessem que te eram prometidos, era natural. Qualquer homem era um potencial desejoso do teu corpo. Ou da tua pessoa, como eu te dizia, para melhor perfídia. Mas eles não te desejariam nos termos em que eu te falava. Os termos eram meus, Carmem, e de terceiros eu me servia para te falar. Como nestes termos: - Você já viu Gilvan? - Não, eu ainda não notei ...- Procure notá-lo. Veja como ele te olha.- Sim, mas como?- Ele te come com os olhos...- Que é isso?- É te olhar desejando com os olhos, te pondo nua. Parece que ele adivinha você nua. E assim dizia olhando-te com intenso fervor. Assim como os crentes conseguem o milagre pela Oração, e põem...
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[14-03-2009] |
(Quando veio o amor)As referências aos nomes das tuas amigas que eu falava, as pequenas histórias de fatos e interesses em mim, que eu te contava, todas eram franca e aberta mentira. Quando eu dizia, quando me perguntavas, que minha maior atração era por Selma, e a partir disto eu passava a exaltar, exageradamente, algumas das suas virtudes, pernas, olhos, por exemplo, o meu grande prazer era sentir tu a desceres do ponto em que eu a erguia. Dizia-te: - Um dia ela cruzou as pernas e eu pude ver boa parte das suas coxas. Que coisa bonita!, dizia-te. E tu, ato contínuo, jogavas-me de volta esta reação: - Besteira. Coxas por coxas, ó, eu também tenho... e dizendo isto me exibias o que eu sempre desejara. Não sei se meus olhos se enchiam de luz, se deles lançavam-se flamas, mas ao vê-los naquelas horas, ao vê-los na minha perturbação, tu mais erguias a tua saia, e era simplesmente bestial, brutal, o modo como eu continha em mim o impulso de não te assaltar. Era simplesmente doloroso o esfo...
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[08-03-2009] |
(O poder da palavra, ou Porque eras minha irmã)Sossegues, nada vou dizer que cheire a uma sociologia fúnebre. Mas se queremos falar com propriedade, e saibas, esta é a hora e a vez ou será nunca, então devemos falar com alguns traços da paisagem. Ela é sombria, ainda que se tenha passado em dias e geografia de sol. Dias de religiosidade, e tamanha era a sua opressão que deles poderíamos falar a partir dos Dez Mandamentos. De como os Dez Mandamentos se traduziram em nossos dias. I – Não terás outros deuses diante de mim. (Êxodo 20:3) Se Deus for um Ser a quem devemos adorar, então Deus era a tua vulva. Não digo logo o nome em maiúscula, Vulva, porque eras um substantivo comum, ainda que naquelas circunstâncias fosses uma não só determinada, mas e mais além, porque eras a única. Então digamos-te melhor assim, Vulva. Porque era t...
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[07-03-2009] |
Estavam úmidos, lágrimas lento desciam, e não choravas de dor, ali mesmo e naquela hora pude ver. Assim percebi porque, enquanto o espelho refletia os teus olhos apequenados e em lágrimas, tuas ancas em minha virilha aproximavas, e tua altura descias, sem te curvares, porque tuas pernas abrias um pouco. A ser dor era a própria dor que pedias. Não sei, não lembro agora, se tive consciência de que ali podias ser minha. Naquele instante, na irracionalidade sem recato e pública da excitação, ali mesmo, que eras minha. Que digo, só agora percebo, ali eu é que era teu, ainda que não te houvesse penetrado. Eu estava sob o teu domínio, porque te mostravas dominada. Mas eu não podia, por mais que nesse impedimento muito penasse, ali mesmo me ferir de cheio enquanto te penetrava. Estávamos no quintal, era um lugar público, esta a aparente razão. Mas eu poderia enlaçar-te, ainda que para isso eu me vestisse outro personagem, o de um vaqueiro que laça a sua rês, não importa, eu poderia enlaçar-te...
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[01-03-2009] |
(Diante do espelho quando eu vinha)Mas então eu em vez de te pegar pelos ombros, de te acariciar nos ombros, fiz dos meus dedos garras, como se compridas unhas tivessem, e com elas eu te cerquei, como uma ave de rapina, e enquanto os teus olhos cresciam para compreender e assimilar aquele novo perigo, e enquanto assim te distraías, de costas para mim, a ver as minhas garras no reflexo do espelho, então eu pousei os meus dentes no teu pescoço, como se nele eu os cravasse fundo. Beijei o teu pescoço e o mordi de leve, como um prolongamento do beijo, porque macio e latejante de viço eu o sentia. Estremeceste, pude ver, diria que pulsações eu vi, porque eu também estremeci ao contato e reflexo do teu estremecimento. Tive impulso de lamber a pequena mordida que te fiz, mas recuei, não bem horrorizado ao que eu desejava, mas recuei por desconhecer esse caminho do afeto, por não saber, naquela tenra idade, que todo i...
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[28-02-2009] |
(A transformação da gargalhada)Então o impasse do rapazinho a gargalhar parado diante da mocinha, que sôfrega se dava e nada recebia, então o impasse que fazia retirar-se o gênio de Aladim com o pênis enlouquecido, porque o seu papel ali morrera, então o impasse gerou uma outra invenção. Foi real, não foi sonho, Carmem, bem te lembras. ("Você partiu, sozinho me deixou, eu chorei", lembro o samba agora.) Parece um sonho porque resolvemos com a imaginação o obstáculo, resolvemos com extraordinária liberdade sem os impedimentos da lógica mecânica. Então sabes, sabes e lembras, então a gargalhada se transformou no vampiro. Como um nascente Drácula então o adolescente se envolveu num lençol, lençol que era ao mesmo tempo capa de vampiro e cobertura da ereção, e o menino, sem perder o estrondoso riso, pois q...
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[22-02-2009] |
(Brincar)Foi então que passamos a brincar. Não saltamos de imediato daquela visão generosa do teu sexo para as brincadeiras. Não foi na mesma tarde do mesmo dia. Naquele dia eu vivi sob o impacto, sob o choque de quem eras, eu vivi febril naquele dia, com o pescoço e a genitália em brasa, com uma febre que me acompanhou bem ou mal a partir de então todos os dias. Até hoje, de certo modo, um fio dessa febre me acompanha, confesso. Mas não se compara àquele dia, àquele momento. Antes daquela visão, o sexo, o ardor sexual vinha antes da vista da coisa, do músculo, da boceta em pêlos florida. Era uma fome longe da mesa, sem saber o que era mesa, sem jamais ter visto mesa. Era uma fome a vagar à procura da sua razão de ser. Uma alma penada sem objeto, sem fim nem finalidade, a correr e a se consumir num vale de sombras. A partir daquela vista a minha fome ganhou um alvo, a fome viu...
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[21-02-2009] |
Então a tua vulva me ofereceste, com generosidade, prodigalidade, delicadeza, tentação, irresistível e invencível, invencível, invencível, Carmem. Mais uma vez choro a esta lembrança. Este choro, sei, é não só um gozo perdido, é não só um gozo tardio, de compensação. Ele é a lembrança que me dá esse conhecimento da inocência. Tivesse eu a ciência de hoje então, então eu enviaria a ti um beijo, a ti propriamente não, Carmem, mas à tua vulva. Um beijo como um pássaro, como uma lança, como uma flecha, como um falo que te penetrasse, exatamente por entre os pêlos que me abrias. Mas não, sou apenas um homem, com todas as limitações de que um homem é feito. E por isto me vem um irreprimível soluço. Agora. Para aquela manhã, tivesse eu o poder do desejo, ...
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[15-02-2009] |
(Feições de Carmem)Eu não posso reduzir o teu retrato à tua vulva. Não quero, não posso, a razão que acompanha o desejo me diz. Eu não quero reduzir o teu ser a tuas costas, a teu pescoço, não posso nem devo, a razão me diz. Mas somente por método, separemos o adolescente desejo da razão. Na memória, de memória, que tão viva não é memória, é o real agora neste momento, falo e falo-te com a dureza rija a ponto de, com aquela ponta nervosa antes do doce desfalecer. Tinhas o bom mau hábito de usar calcinhas de seda. Era bom, Carmem, porque elas, róseas, colavam-se em ti como uma segunda pele, pondo em teu sexo um luxo artificial, como se fosse uma jóia no escrínio, e pela distância dos meus afagos, como se fosse um escrínio escrínio, um porta-escrínio. Lembro que foi com a forma do teu sexo ...
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[14-02-2009] |
Há coisas que não se escrevem somente com letras marcadas à mão no papel ou na tela do computador. Escrever que retorno àqueles dias não é tudo. Dizer que ali se iniciou um jogo amoroso, mais rico que o aprendido em As Relações Perigosas, porque na pele vivido, porque mais primário, fundador, ainda não é dizer tudo. Sequer será dizer e expressar a nuance de cor daqueles dias ou daqueles fundamentais meses, distendidos ao longo dos anos na lembrança. Posso dizer, por exemplo, que ali houve uma oportunidade para o sexo na consciência. E no entanto saber que isto é muito alto e largo como uma generalidade. Porque não atinge o músculo do mistério. Posso dizer que nos penetramos em primeiro lugar nos cérebros. E isto é tão verdadeiro quanto o azul que, pintado em uma tela, se pusesse no lugar do azul do céu. É chapado e grosso...
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[08-02-2009] |
Mas recuar diante do futuro do pretérito não é o mesmo que responde à interrogação:Por que não saímos dos limites daquela casa? Por que não fugimos da sufocante vigilância? Se a nossa casa estava com uma cruz marcada (meu Deus, agora sei,agora compreendo por que demos um decisivo passo seguinte! Por que a cruz, por que a revolta contra a cruz, e as formas e conteúdos que tomou o nosso passo seguinte!), dizia, se naqueles limites éramos irmãos, se ali havia o pecado do incesto, um crime tornado monstruoso pela agonia do nosso pai, por que não afastamos a cruz em brasa da nossa pele, afastando-nos dela com o nosso afastamento da casa? Com a maturidade depositada hoje, é mais fácil ver. Para sair, e com isto possuirmos um roteiro prévio para o nosso encontro em algum lugar escondido, precisaríamos antes ser íntimos na carne. Se não isto, pelo menos dev...
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[07-02-2009] |
Penso e repenso nos simulacros de gozo que perdemos. Digo, nos simulacros de gozo real. Digo, do puro gozo, ainda que não nos fundíssemos em um só corpo. Penso agora, quando tudo ou quase tudo é perdido, nas possibilidades do amor sem penetração que perdemos. Faltava-nos astúcia, conhecimento, apesar da nossa hipocrisia. É natural, claro. É revoltantemente natural. Num tempo em que tudo era desejo, em que tudo era prenúncio e anúncio de carne fodida e fornicada, presente em teus pés, Carmem, nas marcas dos teus pés na areia, na fita de cabelo esquecida a um canto na sala, na tua voz, nos falsetes da tua voz, no calor da tua voz que me transmitia um álcool no peito. Presente no teu pentear-se ao espelho, em um retrato preto e branco do teu rosto, que mata, até hoje, com a tua expressão alheia e séria na foto, fingida,na tua passagem próxima a mim, com um halo e &...
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[01-02-2009] |
Por que ela veioNão sei como tudo começou. O ponto exato do começo não sei. Isto para mim é tão insolúvel quanto saber em que ponto nascemos, em que ponto morremos. Sei o acontecimento, ou os acontecimentos, factuais, exteriores, que antecederam o desejo, quase amor. Como um cinetoscópio mecânico que antecedeu a arte do cinema. E aqui, a lembrança de uma representação teatral, da tela , vem a propósito. Tudo começou com uma gargalhada. Havia um filme em cinemascope, uma adaptação de um conto de As Mil e Uma Noites, em que um imenso gênio saía de uma garrafa trazida à areia da praia pelas ondas do mar. Esse gênio possuía uma coisa tão maravilhosa quanto o sair do gargalo como fumaça e lá nas nuvens surgir medonho. Essa coisa era a sua gargalhada, estrondosa. Ela começava pela irrupção de uma voz, de...
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[31-01-2009] |
Aquela noite não foi ontem, na véspera destas linhas, e no entanto me vem com tal insistência, tantas vezes eu a tenho lembrado, que não sei até onde foi um sonho, até onde foi real. Sinto-a em parte como a concretização de um desejo, e em parte como a frustração de um absoluto. - Está dormindo?, ela me perguntou. Lembro, e isto é certo, era noite, ela veio sozinha a meu quarto, disso eu tenho plena consciência. Tão real, Carmem, que posso quase tocar aquele momento. Eu dormia no último quarto da casa. Eu mal acreditei, daí porque a vejo como a concretização do sonho, a realização do sonho, a intervenção do sonho na realidade. Era mesmo Carmem, de short curto, às 11 da noite, que vinha para o meu quarto. – Está dormindo? Eu não lhe respondi. Abracei-a, abracei-a e beijei-a com toda a inexperiê...
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[25-01-2009] |
Andava por não ter amigos, nas ruas ninguém é amigo de ninguém, individualismo extremo, disfarces não funcionam. Com eles a cobrança vem junto, sem limites. Não adiantaria voltar para casa, há anos não dormia à noite. Encontrou ponto de pó, cheirou forte, longe do povo que se aglomerava na porta do bar. Foi sempre de usar droga sozinha, não gostava de se expor, dar bandeira para investigador zureta e mal-intencionado.Ziguezaguear passos amordaçada pelo pó branco. Anjos dançavam Adios Nonino em Buenos Aires ou Santiago. Rostos eram difíceis de ver. É noite clara, um carro pára na calçada, e a mulher sabe que, com ou sem Astor, puta não pode, nem morta, se dar ao luxo de ter um passado. Fim...
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[24-01-2009] |
Sempre viu nas amigas que se suicidaram um olhar de Maísa, de avenida São João com avenida Ipiranga. Todas que não faziam um pé-de-meia tinham o mesmo fim, os corpos eram encontrados em algum hotel vagabundo perto da rodoviária. Arrepiou-se toda com a possibilidade de ser despejada. Puta sem gigolô é como carniça, será comida de urubu.Depois da morte do pai, o locador vivia em casa cobrando aluguel. Um dia, calou. Nunca perguntou à mãe o motivo. Nunca mais o viu pelas redondezas, nem para cobrar o que lhe era direito. Até a morte, a mãe permaneceu na casa onde o pai teve crânio trincado. Distante no tempo, não é difícil entender o que aconteceu. As idas à igreja tinham outros motivos que não o aborto da filha. O homem também era de igreja, amigo muito próximo do padre da paróquia. Nunca desconfiou da demora da mãe e, se so...
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[18-01-2009] |
Matou e não sentia remorso, pagou pelo filho que ele mandou tirar. Não se conformava com a morte do estranho, pelo modo de se expressar, homem de estudo. Falava difícil, mas de algum modo tudo que dizia tinha um sentido para ela. Puta ouve muito e não deve se envolver, nem os fregueses pagam para ouvir conselhos ou opiniões, aprendeu cedo. As amigas que resolveram se intrometer não duraram muito na vida. O segredo de uma boa profissional é ser desorelhada e muda. Homens não gostam que relembremos o que disseram, principalmente se rola droga, pagam pelo silêncio.Com o estrangeiro foi diferente, fitou a orelha e deixou som entrar, assim como faz quando ouve Moderato Místico. Não compreendeu o que ele queria dizer quando viu que ela também gostava de Astor: Cuidado, Piazzolla é a própria morte. Nele, sangue é sangue, lágrima é lágrima, somos suicidas ou criminosos, ...
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[17-01-2009] |
O bulício na frente do prédio da Gazeta arrastou um monte de rostos jovens pela calçada. Ouviu alguns gracejos, soltou alguma grosseria, sempre prosseguindo. Por mais que se esforçasse, música alguma aliviava o abismo que tinha à sua frente. Com duas mortes, por mais que nos afastemos, sempre haverá escuridão, mais se foram provocadas por amor ou ódio.Atravessou o passadiço que liga a Paulista à Brigadeiro. Já foi um luxo, hoje é um prédio decadente. As meninas não estavam na rua. O momento era muito mais de medo que de respeito ao luto. Ligação de puta com gigolô é igual família, respeito amalgamado pelo pavor. Você vai se acostumando com o outro, ajeitando-se nos defeitos dele, comete pequenos delitos e descobre o prazer que eles trazem. Quando pai morre, até se descobrir uma nova ordem, muito sofrimento rola. Você se habitua co...
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[11-01-2009] |
No velório, a música escolhida deverá ser Oblivion, deixou escrito nas últimas recomendações de um morto. Também deixou uma carta aos filhos para que eles compreendessem que o ato nada tinha a ver com suas vidas. Por último, deixou uma declaração proibindo qualquer utilização de órgão seu. Não permitiria que parte sua andasse pela cidade no corpo de outrem, por mais humano que fosse o discurso. Não queria ver órgão seu fora das fronteiras do país. Nem uma córnea doaria. Cegos existem aos montes e córnea alguma melhoraria suas visões. A cegueira verdadeira talvez lhes dê a oportunidade de enxergar os fatos como são e não como os desejamos. Por que mudar destinos? Morria com a certeza de que o homem não tem o direito de adiar o momento mais sagrado da vida.Música e silêncio. Descanso final. Cansava-se com as frases que surgiam em surtos já paralisadas de qualquer ato possível. Nunca imaginou que a espera da morte fosse tão cheia de delírios, como se palavras fizessem a ligação do corpo c...
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[10-01-2009] |
Nem nas artes conseguiu adiar um pouco. Virgínia Woolf, Sylvia Plath, Van Gogh, Charlie Parker e tantos outros deram-se um tempo. Partiram no dia escolhido, quando o novelo de medo se desfez. O que construiria um homem amputado da própria vida, estorvado pelo dinheiro, tornado cego de crepúsculos? Nada, isso mesmo, nem a família foi obra sua, deixou emoções aprisionadas em blocos de gelo e carregou-as de um lado para o outro como utivos fazem com suas pastas vazias de conteúdos. Que outra atividade poderia ter alguém que acreditou em Freud? Não, nada se cura, para a mente nada é doença, tudo é possível, até assassinatos e suicídios.Morrer sem conhecer a Santiago de Il Pleut Sur Santiago, aí está a verdadeira peste. É tarde para arrependimentos, não dá mais tempo para nada, não quer ter tempo, a mulher com cara de boneca, que caiu de algum acaso, foi seu último gozo em vida, um anjo enviado da constelação de Cérbero. Sem mais ilusões, sem aventuras e exercícios de riscos. Dizem que nest...
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[04-01-2009] |
Viver na cidade é ter o crepúsculo roubado da visão. O homem fechou com porta de aço o horizonte. Aprendemos a nascer e a morrer com o crepúsculo todos os dias, e sem este olhar contemplativo nada somos além de máquinas de fazer moedas. Morrer é este movimento simples de se pôr, apagar de luz, de ceder o espaço à escuridão. Argamassa e luzes de néon são a mentira, o céu e o inferno do positivismo científico. Assim era o homem, todas as tardes, arrependia-se de ter abandonado a pacata cidade onde nasceu. A capital ofereceu-lhe estudo, boas mulheres, bons teatros, bons cinemas e até uma família, mas roubou-lhe o que há de mais sagrado na vida: o crepúsculo. Entristecia-o morrer assim, sem o canto barroco e o jogo de cores da tarde. Por isso escolheu o vão do MASP, mergulhado em artes e no local mais alto, moradia de bruxos e feiticeiros. ...
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[03-01-2009] |
Desta vez, não passou na choperia que ficava embaixo do prédio onde trabalhava, tinha pressa, apostava com quem quisesse que ela o esperava. A certeza foi perdendo força à medida que entrava em contato com a dependência provocada pela experiência que tiveram juntos. Não era agora que se submeteria a alguém, não dava mais, por mais forte que fosse a atração. Nada de cegueiras, com o tempo os defeitos apareceriam, abafariam as boas intenções e os bons momentos, sabia o quanto era difícil para alguém conviver com um companheiro igual a ele. Sentiu-se aliviado com o congestionamento, teria mais tempo para decidir. E se ela estivesse lá?, disse-lhe que podia ficar, não poderia mandá-la embora sem mais nem menos. Não conseguiria, o cheiro dela continuava no nariz, um cheiro de sexo que lhe acendia todo o corpo. A luz do apartamento estava acesa, mas ela poderia t...
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[28-12-2008] |
O homem parecia não ter passado, não encontrou nenhum indício de que houvesse algum. Nenhuma fotografia, diário ou cartas. Apenas um livro aberto com uma frase riscada a lápis: o homem que enxerga pela primeira vez, depois de anos de cegueira, não compreende o fato de chamarem de cão um animal, seja ele visto de frente ou de lado. Com letras pequenas havia acrescentado: o cego de Diderot era mais sábio e mais atual que todos os doutores juntos, preferia ter braços longos para tocar a Lua, sabia da inexistência de imagens visuais nos blocos da memória. Ver era tocar as partes, montar o todo. Foi assim que ele desvendou seu corpo, com toques leves e suaves, fossem com os dedos ou com os lábios. Nunca se sentiu tão invadida, apesar da leveza e do carinho com que a tratou. Quando notou não era dona de si, nem dele. Nada mais que um corpo em queda livre. Foi ao banho. A água descia pelo a...
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[27-12-2008] |
Vacilou na linha que separava o mármore, da pedra vagabunda. Tornava-se cada vez mais difícil assumir a rotina do dia-a-dia. A identidade, registro geral quatro milhões, trezentos e trinta mil, duzentos e vinte e dois, o número é a coisa, a coisa, o número, celas iguais, roupas iguais, mesma hora de se recolher e se divertir, todos são batizados, crismados e se masturbam aos doze, moram em conjuntos residenciais, fumam um mesmo baixo-teor, comem um mesmo diet, trepam com a mesma loira do cinema, na prisão e nas ruas, as mesmas crendices e o mesmo Deus, padres, com humor, fogem de suas igrejas ante à cegueira voluntária dos fiéis, escolas ensinam boas maneiras, jovens saem com o mesmo hábito invisível da mediocridade, enfrentam testes de suficiência, serão doutores, ninguém deixa de violar as leis, há um pacto de permissividade entre os casais, infinitamente, um é...
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[21-12-2008] |
Considerou absurdo o romantismo momentâneo. Com certeza, ajeitava as coisas para desaparecer, todas agiam assim. Adorava seu espaço, um mundo muito particular, sem o ruído que faziam as correntes presas nas pernas e no pescoço daqueles que caminhavam cegos de luz, que nada sabiam de metáforas em corpos nus. Quarenta anos vivendo sozinho, fazia parte daquelas paredes, igual à lenda turca onde a gruta serve de molde a uma forma humana que, sob o efeito do sol, adquire vida. Talvez, fosse sua metade perdida... gostaria de acreditar em duendes e fadas mas, por mais que tentasse, voltava ao concreto. Seria difícil habituar-se a dividir o espaço com alguém...De repente, a mulher sentiu frio. Os olhos vasculharam cada dobra do apartamento. Com certeza, tratava-se de um homem com hábitos estranhos, nunca entrara em uma sala daquelas, mais parecia um templo, a melancolia e a energia conviviam simultaneamente. Uma tape&cce...
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[20-12-2008] |
Nunca foi tratada assim por ninguém, mesmo o convite para que ela o acompanhasse ao apartamento foi muito natural. Até aquele momento, além de um toque de dedos, um ou outro olhar mais indiscreto, nada mais havia acontecido. Tudo muito sutil e indireto, igual à poesia que ouvira e gostara muito: seus seios/olham meus lábios/tesos/num rigor militar//meus lábios anseiam seus seios/úmidos/num sutil transgredir/de olhar//:se tocam/apesar da distância/e das metáforas. Agora, aquelas palavras ouvidas, com o mesmo carinho com que a tratou na cama: se você ficar tem comida e bebida na geladeira. Queria ter os lábios dele beijando seu corpo, o grito que não conseguiu segurar, o corpo caindo no vazio e o sono. Um milhão de vezes... convulsionar. Acordou com o barulho de buzinas, ele lhe havia dito algo sobre a reunião. Lembrou-se apenas do horário. Procurou afastar a vontade de ir até a ...
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[14-12-2008] |
A porta fechou um mundo e abriu outro. O ruído de chave girando na fechadura deixou definitivamente uma das montagens de sua vida para trás. Sentia-se cansado desse abrir e fechar de destinos, do jogo de poder que gerava crises nas relações a dois. No corredor, um tapete amarelo-ouro forrava o soalho estreito e cheio de portas. Em cada uma das entradas, do mesmo tamanho e da mesma altura, um olho espiava e deformava rostos. O interior a observar o exterior, a decidir quem tem direito de atravessar os vãos. Parou esperançoso de encontrar algo novo, alguma surpresa, o som ou o cheiro de algum mistério. Ouviu somente os gritos vindos de dentro, criaturas de Baltasar, repetitivas, agiam como se a madeira e os gonzos fossem simples objetos de carpintaria. Um ruído forte e seco no outro corredor afugentou os sons, balançou os delicados lustres dourados que se alternavam com extintores de incêndio e gravuras c...
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[13-12-2008] |
Enquanto mordia e mastigava a fruta, Artur tentava compreender o estranho e pesado cansaço com que acordou. A carne e as juntas do corpo doíam muito, como se andasse a levantar uma parede de pedras. Há muito, não erguia um único tijolo e a idade não era muita para justificar aquele mal-estar todo, muito menos a noite que havia sido muito prazerosa. Se um caminhão passou por cima de meu corpo, foi no sonho, disse às paredes. De uns tempos para cá, vinha a falar com elas. Somente assim conseguia se distrair do coro que vinha de dentro. O falatório perdia as forças com o passar das horas. No almoço, não haveria mais que um frágil sussurro, um som de procissão a se esgotar nas inflexões das ruas. Acostumou-se. Você vai chegar atrasado, fez saber uma voz feminina. A luz, interceptada pelas grades da janela, fatiou o corpo de uma mulher nua. Fitou o corpo zebrado pelas s...
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[07-12-2008] |
Em homenagem a Paula RegoA mãe chora no quarto. Amanhã estarão na praia, com estrelas do mar, tartarugas e peixes. A mãe levará a máscara de quem não tem o animal a satisfazer o gozo e as flores mostrarão a língua. Para dormir, colocará o paletó do marido sob o corpo. Vestirá a roupa de casamento e manterá o olhar no branco acetinado do passado. Terá crises histéricas, morderá o próprio corpo e olhará a vulva como homem. Paula ouvirá os gemidos da mãe que roça o sexo na dobra da cama e perceberá no dia seguinte o medo que ela sente de ser apedrejada. Mas ela continuará a se vestir para o retorno, tirará a roupa todos os dias como se o marido estivesse presente e, na sua ausência, tirará a calça com tristeza. Amigas terão um olhar pesaroso e a mãe ficará nua na areia, entre carangu...
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[06-12-2008] |
Em homenagem a Paula RegoPassariam o final de semana na praia. Veria a mãe ajoelhada a deixar a brisa e o calor da areia entrarem entre as pernas, uivando no vazio da praia e no roçar da água na areia. Coxas de onde vinha um ruído de concha, chamamento de macho que se rendia àquelas pernas suculentas a comprimir seu sexo. Mãe e filha transformavam-se em duas cadelas a focinhar a falta do homem na casa. Suportavam o calor com punhos trancafiados e pés estendidos nos sonhos. O lobo uiva, fitando o horizonte, à procura de seu par. Paula não suportava o silêncio imposto pela mãe, sentada na velha poltrona da casa, um pé sobre o outro, braços escondidos nas costas e pernas contraindo o sexo. Sentia-se abandonada por aquele olhar vencido pela saudade e pela raiva. Bem diferente do dia em que o pai partiu e a mãe o penteava carinhosamente. Era seu o troféu. Ver a mãe daquele jeito, m...
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[30-11-2008] |
Em homenagem a Paula RegoMas Paula era mesmo estranha. Uma menina com cavernas de vazios e represada no ódio. Ora mirava distante, do alto do cabo da Roca, ora as ondas agitavam-se muito próximas, entre pedras, como devia ser a boca do inferno. Uma criança instável e esquisita. Opinião da mãe. O pai achava-a especial. Que era diferente das outras, sabia. Nenhuma prima tinha a mania de ver tudo em branco e preto quando sentia raiva. Menos ainda essa coisa de pedaços de cores fortes formando imagens e a compulsão de recortar figuras de jornais e revistas velhos. Por isso, em certas manhãs, não gostava de ouvir Schoenberg. O pai também ouviria as cores dele? E se enxergasse as dela? Ouviria os animais de profunda garganta negra e único olho, rostos perdidos, cabelos escorridos e as línguas e bocas vagueando pela sua mente nas horas das refeições? Criança-animal aprisionada em li...
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[29-11-2008] |
Em homenagem a Paula RegoMas Paula era mesmo estranha. Uma menina com cavernas de vazios e represada no ódio. Ora mirava distante, do alto do cabo da Roca, ora as ondas agitavam-se muito próximas, entre pedras, como devia ser a boca do inferno. Uma criança instável e esquisita. Opinião da mãe. O pai achava-a especial. Que era diferente das outras, sabia. Nenhuma prima tinha a mania de ver tudo em branco e preto quando sentia raiva. Menos ainda essa coisa de pedaços de cores fortes formando imagens e a compulsão de recortar figuras de jornais e revistas velhos. Por isso, em certas manhãs, não gostava de ouvir Schoenberg. O pai também ouviria as cores dele? E se enxergasse as dela? Ouviria os animais de profunda garganta negra e único olho, rostos perdidos, cabelos escorridos e as línguas e bocas vagueando pela sua mente nas horas das refeições? Criança-animal aprisionada em li...
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[23-11-2008] |
Em homenagem a Paula RegoA música que o pai ouvia incomodava-a. Na verdade, nem sempre foi assim. Dependia muito do modo como acordava.Nesse dia, por exemplo, acordou com a imagem da fada azul. Parecia um quadro. Um garoto com o corpo todo retesado e nu, os braços estendidos para trás e as mãos cerradas caindo sobre as nádegas. Na sua frente, a fada de azul trazia uma vareta mágica, segura pelo polegar e indicador da mão direita, a cair ao lado do corpo do menino de pés grandes e a cabeça pouco inclinada para a frente. Posição de quem anseia inundado de medo, o corpo todo duro, não somente o sexo. Este, por sinal, não se via. Não precisava, o corpo era todo falo. Mas o que incomodou no sonho foi a fada de azul. Corpo relaxado, sentada em uma poltrona, com os pés muito grandes descalços sobre um tapete. No rosto, a geografia do desejo e da morte. Grande veia fluía pela ...
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[22-11-2008] |
Estranho comportamento dos amigos do quarto quando retornou da festa. Percebeu a mudança quando lhes informou de onde vinha. Observou-se no espelho para ver se a cor da pele havia mudado. Nada! Tomou banho para perder possíveis cheiros anormais e se perfumou. Nada! Naquela semana, a polícia abordou-o diversas vezes. Em uma delas, levaram-no para o distrito, quiseram revistar o rabo. Não deixou. Ganhou algumas horas de cana. Aconselharam-no a não se misturar com os negros. Antes de retornar à casa, parou no bar onde o saxofonista trabalhava. Ficava enfurnado em uma viela escura, na floresta de argamassa. No exílio imposto pelo tráfico, havia uma repetição da África antiga. Sentou-se na frente do músico. O cenário de pouca luz e o chapéu do músico sobre uma mesa trouxeram-lhe a fantasia de sua tese estar também ali. “Em seus sonhos ele tinha prevenido contra essa mudan&cc...
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[16-11-2008] |
Não havia implicação com droga, assalto ou briga étnica. O músico tentou explicar-lhe o ocorrido. A surra foi um alerta por ter engraçado com mulher casada. Preocupava-o a chegada em casa. Caso a esposa descobrisse o motivo, teria de agüentar outra sova. Enquanto falava, fuçava o quarto improvisado. Parou nos discos. Ouviu alguns. Perdeu-se no som e no horizonte. Alto e acurvado pescava novas melodias, sempre gesticulando o corpo. Como agradecimento, retirou do bolso
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