A lemniscata
[16-06-2009] | eustáquio gomes
Sentado à mesa da cozinha (uma mesa oval, de madeira crua), sem obrigações pela frente, sem vontade de ler, escrever, ouvir música ou ver televisão, me ponho a rabiscar repetidamente numa folha de caderno o mesmo desenho, um laço de fita, na verdade o número 8 deitado.Não ponho consciência nem propósito no que faço, mas vagamente me lembro de que aquele traço tem um nome (lemniscata) e uma definição que se pode ler no dicionário: “Lugar geométrico dos pontos de um plano cujas distâncias a dois pontos fixos desse plano são constantes”.
Recordo: Guimarães Rosa fechou o Grande sertão: veredas com o coleio gráfico de uma lemniscata. E Vladimir Nabokov menciona-a de passagem num dos verbetes de Fogo pálido. Por que tal obsessão por um simples grafismo? Por causa do fascínio de sua órbita interminável. Não tendo fim, figura o infinito.
Não penso nisso neste momento, apenas reconheço no movimento de minha mão um daqueles momentos em que, sem causa aparente, cai o vazio sobre nós. É a nausée de Sartre, a noia de Moravia, o spleen de Baudelaire. Antes que isto se transforme em tédio e depois em melancolia, e depois sabe-se lá em quê, salto para o pátio e dali para a rua. Erro pelo bairro bem uma hora, talvez mais, parando aqui e ali para apaziguar uns estranhos pensamentos que me tomam. Poucos desconfiam, mas sou homem de natureza hiperbólica. O sol pálido de maio colabora para esse estado de espírito, apesar de não haver, nessa tarde, uma única nuvem no céu. Há, sim, glicínias sobre alguns muros.
Dou por mim numa rua estreita de casario baixo, com telhados de outros tempos, em parte banhados pelo sol, em parte mergulhados na sombra. Creio que é a Rua Ferreira Penteado, em Campinas. Paro diante de um portão enegrecido por décadas de fuligem, atraído pelo desenho de seu treliçado de ferro. Isto me assombra: as barras oxidadas formam, no centro, uma lemniscata.
Intrigado, puxo a trava e o portão se abre sem um ruído. Subo uma escadinha de cimento cru, empurro uma porta e entro. Vejo um salão, um aposento grande, maior do que a casa permitia imaginar, vista da rua. Há lá dentro uma gente austera, alguns rostos se voltam para mim, embora minha presença não surpreenda ninguém. Velam um morto. O caixão brilha à luz difusa de um lustre central. As labaredas de duas velas tiram revérberos das cantoneiras de metal. Me aproximo para ver o cadáver e estremeço ao notar a semelhança que o morto tem comigo. Das linhas dos zigomas ao cabelo comprido com uma franja na testa, passando pela assimetria das almofadas nasais (um desvio de septo que o morto tampouco teve o cuidado de corrigir), uma cicatriz acima da sobrancelha esquerda (resultado de uma queda durante um misterioso desmaio) e a idade de uns vinte anos redondos não parecem deixar muitas dúvidas: ou se trata de um êmulo meu, vindo da tal dimensão onde dizem viver os duplos de cada um, ou sou eu mesmo que está ali, esticado, lavado e pronto para a maior das viagens.
Cuido de ordenar minhas idéias indagando pela identidade do morto. Meu nome é pronunciado com espantosa clareza. Dita num tom apressado e natural, quase com indiferença, a resposta parte de uma anciã de idade indefinida. Fixo nela um olhar que deve traduzir toda a minha dor de cadáver recente.
— Quem, a senhora disse?
— Eustáquio Gomes, ela diz.
Morto, então, eu? Ora, eu não me sinto nem um pouco apartado do mundo material. Me vejo, antes, no interior de um conto sinistro, de uma história de Poe. Em pouco meu espanto se transmuta em picante curiosidade.
— Se este aí sou eu, então a morte não existe.
A mulher reclina o rosto sobre o próprio ombro, como quando se fala a uma criança pequena, e responde com voz de falsete:
— Claro que a morte não existe.
Penso no professor Aécio Pereira Chagas, químico respeitadíssimo, que certa vez me assegurou que a morte não existe, e penso também num médico que em outra ocasião me garantiu a mesma coisa. Então eles tinham razão. Sou tomado de uma alegria doida e desço a escada aos saltos, misturando-me ao trânsito da avenida. Berro aos transeuntes:
— A morte não existe! A morte não existe!
Noto o olhar espantado dos que se imobilizam para me observar, a expressão amedrontada das crianças. Compreendo que sou tomado por louco. Isso não tem a menor importância, pois a verdade dos fatos está cima de qualquer coisa. Retorno ao portão da casa onde se dá o meu velório. As janelas continuam abertas e da rua posso ver os esplendores do lustre. A razão segue comigo, penso. Mas quando observo de novo o treliçado do portão, noto que a lemniscata desapareceu.
Eustáquio Gomes, jornalista, é autor dos romances A febre amorosa e Jonas Blau, entre vários outros. Em 2007 publicou Viagem ao Centro do Dia – um Diário
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