Dos Portenta aos policiais
[26-07-2010] | Luís Carmelo
Num dos mais recentes editoriais, reflecti sobre a gestão dos “saberes” nos policiais. Foi a propósito do último romance de Patrícia Melo, Ladrão de Cadáveres. A questão é antiga e clássica: o leitor só pode – ou, pelo menos, só deve – saber o que há a saber no final de uma dada narrativa. Mas nem sempre assim foi. Nas narrativas pré-modernas, as ferramentas literárias que todos interiorizámos há muito (complicação, clímax, desenlace, etc.) não passavam de coisas de extra-terrestre. A maior parte das narrativas do mundo antigo e medieval eram crípticas por natureza, ambíguas, construídas de propósito para que algo de insondável se pudesse vir a revelar. Como se um segredo governasse o mundo e fosse missão do homem interpretá-lo.O romance moderno – pós-seculo XVIII – passou a democratizar o segredo: passaram-se a dar ingredientes ao leitor para que, ao longo do enredo, ele pudesse conjecturar e imaginar esse segredo que, no final, e após situações mais ou menos extremadas, lhe era dado. Geralmente, não do modo como o esperava, mas tal como o desejaria. Antes, tudo era realmente muito diferente. Nesse sentido, os textos religiosos – as “Escrituras” – em nada se separavam das escritas mais correntes.
Tomemos o exemplo dos Portenta, também considerados presságios. No fundo, eram imagens muitas vezes acopladas a mensagens literárias enigmáticas que, até ao limiar de setecentos, estavam associadas aos defeitos invulgares de parto, dissociando-se da maioria das monstruosidades que correspondiam sobretudo a criaturas que, segundo variadas as lendas, povoavam a periferia distante e desconhecida do globo.
Estamos a falar de um mundo tal como Hereford o desenhou no século XIII, de acordo com o tradicional modelo T-O. Ao centro desse tipo de mapas, por cima do traço horizontal da letra T, surgia a Ásia e, por baixo desse mesmo traço, à esquerda, surgia o Nilo e, à direita, o Dom. Por sua vez, à esquerda e à direita do traço vertical da letra T (o Mediterrâneo), surgia a Europa e a África, respectivamente. À volta do T, duas grandes circunferências desenhavam, não o que poderíamos pensar ser a atmosfera, mas sim o “Oceano”. É para além desse desconhecido “Oceano” periférico que, segundo variadas tradições, o mundo andava povoado… por criaturas monstruosas.
Para Santo Agostinho, a natureza estava, de facto, platonicamente dividida em duas partes: a da ordem, a visível, que permitia ler os sinais da divindade; e, por outro lado, a do inesperado e do incompreensível (ou do maravilhoso) que apenas tinha um fim: mostrar aos humanos que há graus do “saber” que só a Deus dizem respeito. Não é por acaso que, ainda no século XVI, a palavra curiositas[1] remetia, em grande medida, para um certo tom nada cordato de heresia.
Nesta longa história literária relativa à gestão dos saberes que pululam num dado relato, o segredo foi quase sempre um presente adiado. Foi-o nas versões medievais da carta do Preste João das Índias, nas imagens de Ravenna (1557), de Boaistuau (1560) e em muitas como as que aparecem na Chronica mundi de Schedel (1493). O segredo só seria, de facto, devolvido ao comum dos mortais – digamos, democratizado –, quando, na alvorada do policial e do gótico (lembro Os Crimes Da Rue Morgue de Poe), os crimes em ambiente lúgubre, as tramas em atmosfera soturna e nocturna e as novas teias urbanas passaram a conviver com um novo tipo de enredo que passou a ter um único objectivo: revelar, apenas no desenlace, um segredo. Mas revelá-lo. Mesmo se fosse terrível.
[1] Edward Peters, Libertas Inquirendi and the Vitium Curiositas in Medieval Thought in La notion de liberté au Moyen Age - Islam, Byzance, Occident, Société d´Édition Les Belles Lettres, Paris, 1985, pp. 89-98 (91).
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Carlito Lima
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