Da Caverna
[06-07-2010]
Seguia eu pela avenida central de Penafiel e abeirava-me da passadeira mesmo em frente ao café mais catita da cidade, quando nisto de fazer um compasso de espera para dar passagem a um carro, senti um braço introduzindo-se no meu, um par de botas estacando ao meu lado, umas calças emporcalhadas, uma fralda de camisa miserável, uma barba de semana e meia, duas estalactites pendendo do escuro de uma caverna que se abria para mim:- Se você se matar eu mato-me consigo.
Uma estalagmite erguendo-se irregular a partir do chão, dois olhinhos húmidos:
- Ouviu menino, se você se mata agora mesmo, mato-me consigo.
E outro carro abrandando, imobilizando-se, caras interrogando-nos por trás do pára-brisas, a mão do condutor erguendo-se da maneta das velocidades gesticulando na nossa direcção, uma apitadela terrível, uma arrancadela enfurecida, de imediato uma cabeleira surgindo do interior dum quiosque por entre línguas de revistas, duas raparigas em idade de escola atravessando emparelhadas a passadeira de lá para cá, cochichando segredinhos indecifráveis, e eu sentindo o braço apertar-se mais no meu:
- Você ouviu, menino?
O hálito desprendendo-se dum fundo de caverna idêntico àquele a que acedi estas últimas férias depois de pagar o que me dava para a bilha do gás de um mês, a fim de visitar desperdícios de carbonato de cálcio e dar por mim tão abafado, porque lá em baixo todo o mundo podia cair-me em cima, que escapei-me correndo, quer dizer, adiantando o passo sem ninguém dar por mim, e o guia, farto de gente como eu, fez de conta, e a catarreira ao meu lado, expectorando guinchos borbulhando como bolinhas de sabão:
- Ouviu?
E eu adiantando o pé de modo a dar o primeiro passo, vigiando mais um carro que abrandava, medindo-lhe a velocidade e calculando distâncias de travagem, mas a ponta do sapato recolhendo-se, autónoma: «Não, que este ainda me arranja aqui um trabalho», e os dois olhinhos mirando-me dum fundo de caverna inescrutável, incapazes de piscar, as estalactites reluzindo de calcário:
- A gente morrendo aos pares sempre faz melhor a viagem.
E do lado de lá encostado ao café, intermitente, o engraxador, da altura das rodas dos carros, procurando perceber-me por trás de duas lentes à Luiz Pacheco:
- Ó Peixoto!
Com a pomada suspensa numa mão, apontando-nos o pêlo da escova na outra:
- Larga o rapaz ó Peixoto!
E eu adiantando em definitivo o pé, assentando a sola no paralelo examinando um lado e outro, as duas rapariguitas prosseguindo ao fundo de mochila às costas, nós dois alcançando o separador central, a boca do engraxador escancarando-se noutras duas estalactites, noutro recôndito obscuro, o braço enganchando-se cada vez mais no meu:
- A gente acompanhados vai melhor, você fie-se no que lhe digo.
E eu mais o desgraçado atrelado a mim já a meio da segunda faixa, a dois passos da segurança do passeio, a porta do café entreabrindo-se por um tabuleiro manobrado à altura do peito de uma empregadita enfiada numa farda impecável, o gancho apertando-se ainda mais, o hálito semeando-se dentro de mim:
- Você não fala, menino?
E o passeio finalmente, um carro num instante distorcendo uma barulheira de música por trás de nós, a sombra do engraxador crescendo pela vitrina, as lentes surgindo à altura dos nossos olhos, o braço elevando-se acima das nossas cabeças:
- Ó Peixoto larga lá o rapaz.
E eu diminuindo perante a autoridade da sua escova interpondo-se entre mim e o outro como um sinal de trânsito, a empregadita debruçada na mesa ao lado servindo sumos a senhoras inertes por trás de óculos de sol, e os olhinhos de coco dela seguindo-me por entre palhinhas pendendo do rebordo dos copos, iguais a cabeças de potros espreitando nervosos das cavalariças, e o engraxador:
- Este sou eu que pago, ó Peixoto.
O braço aliviando-se enfim, desenganchando-se mole do meu cotovelo, o hálito desfazendo-se em desculpas de vinho, surpreendendo-se num falso de pernas lançando a anca muito para a frente em busca de equilíbrio, toda a gente deitando a mão, as duas rugas do engraxador fazendo-me sinal para desaparecer, para pôr-me a andar, a pomada agitando-se apontando-me a esquina, e a empregadita, loira como um querubim, com o tabuleiro vazio pelos joelhos, sorrindo-me e afastando-se para eu passar.
António Manuel Pacheco
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