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«A Vida Verdadeira» de Vasco Luís Curado -Dom Quixote, 198 páginas

[08-07-2010]  |  Pedro Teixeira Neves


Créditos: http://diariodigital.sapo.pt/
Um homem numa casa, uma casa numa quinta. É nos arredores de uma cidade, uma cidade sem nome, indeterminada, apenas cidade. Está só, esse homem sozinho nessa casa, nessa quinta. Chegam duas visitas. Uma agente imobiliária e o respectivo fotógrafo. Vêm pela casa, pela quinta. Ambas estão à venda. Caminham pelos espaços vazios e em quase ruína, abrem espaço pelos silêncios, enquanto tecem comentários avulsos. Fotografam as divisões, saem ao exterior, a fazer contas aos metros quadrados. Há que fazer contas, garantem. Vendida e demolida, a casa, o espaço que ocupa pode dar lugar a várias construções – isso é importante para o hipotético comprador. Tudo parece bem encaminhado, garante ainda a agente Gabriela ao calado «Senhor Vergílio», como ela, profissionalmente, se dirige ao proprietário da casa e da quinta. É a partir deste contexto que o «Senhor Vergílio», narrador deste romance, aproveitará para abrir o baú das suas memórias, contando e repisando alguns episódios da sua vida e outros relacionados com familiares.

Neste «A Vida Verdadeira», primeiro romance de fôlego editado por Vasco Luís Curado, a primeira coisa que se me oferece dizer é que o seu começo não é prometedor. Tão-só porque em nada se revela original. Na verdade, o tomar uma casa como ponto de partida para equacionar o deve e o a ver de gerações familiares que cruzaram esse espaço deve estar entre o top ten dos artifícios estruturais mais repisados da literatura. Mas o problema nem é tanto esse, o problema residirá mais em que a casa, suposto pilar narrativo em torno do qual o mais a contar se desvelará, quase que por completo se vê apagada do correr das estórias que o livro narra. Ou seja, presumindo-se, à partida, um romance que intende estabelecer uma estreita relação entre a vida e as memórias do protagonista-narrador e a casa que habitou, habita e que pretende agora vender, nada, contudo, de marcante ou excepcional, nos é dado a percepcionar dessa experiência do eu com o lugar, isto porque a maior parte dos episódios narrados acabam por surgir em espaços exteriores à casa, desde a escola, às visitas aos avós, passando pelos relatos das aventuras do tio Horácio – que, sim, é verdade, vai para lá viver a espaços mas que, no que à casa respeita, pouco ou nada acrescenta. Na verdade o pouco que nos é dado percepcionar dessa experiência com o lugar quase se limita ao relato de uma brincadeira de amigos havida no quintal. Assim , apenas intuída, a importância do lugar para o narrador nunca chega a ser verdadeiramente explicada ou explicitada.

Aspectos como este geram no todo uma sensação de estarmos ante um romance indefinido, sem que o autor soubesse exactamente o que quisesse construir, em termos de estrutura, apenas mais interessado em contar uma série de estórias de carácter memorialista ligadas à sua infância e algumas personagens suas familiares. A existir uma estrutura romanesca, dir-se-ia que aquilo que agrega os seus andares e que supostamente lhe garantiria solidez, as diversas histórias avulsas que são relatadas, não o consegue, tão-só porque se fica com a sensação de que as diversas estórias não interagem entre si, cada uma delas funcionando apenas per si, isoladamente – tal como se de uma casa com má construção se tratasse. É o caso, clamoroso, da descrição da viagem a Veneza em que ficamos sem perceber a que serve isso ao todo do romance! Nada. Fica-se apenas com mais uma descrição clássico-enamorada da cidade – clássico mais clássico não há –, citando-se meia-dúzia de ruas, becos ou ruelas, canal para aqui, ponte para acolá, e… e… perguntamo-nos para quê? – para acrescentar páginas ao romance? Para lhe dar um carácter de pretensa mundivisão? Para simplesmente reter a memória de uma viagem do autor? Mas esse é apenas um exemplo. Ao longo do romance por diversas vezes lemos parágrafos sobre parágrafos que pouco ou nada acrescentam à acção sequer à caracterização das personagens. Em suma, perguntamo-nos: qual o interesse destas peripécias para o leitor para além da sua família e amigos? - do autor, entenda-se.

Por tudo isto, sem nada de novo a acrescentar, o romance rapidamente se torna fastidioso, de resto a exemplo do narrador-protagonista, de quem, no final, não retemos senão uma aura de figura apagada e cinzenta. Pensando-a, chega a ser triste ver que para uma pessoa que parece revelar-se tão ligada a um lugar, a casa que é sua e que habita desde sempre, no final nada faça para a reter, para não a vender, para lutar contra o tempo, para dizer não, para a revitalizar. Vergílio nada disto faz, limita-se a olhar para trás, sequer com raiva, mostrando-se um completo vencido da vida, sem ponta de carácter ou fibra qualquer. Não é, por conseguinte, uma personagem com a qual nos sintamos irmanados, e nem sequer a superprotecção maternal de que longo da vida foi alvo explica esse seu carácter de fraco e mera testemunha da história, uma história que é sua e que parece inclusive apostado em deixar morrer. Pelo meio há outros aspectos falhos: algumas ideias gastas (como o narrador dizendo que se observa a si próprio visto de fora, «a agir e a pensar segundo um guião já escrito», ou escrevendo, «Demasiado tempo agi na vida como se me visse de fora, espectador de um filme»); algumas expressões de uso duvidoso (do género «morder o pó»); algumas ideias no mínimo discutíveis (como dizer que «a Europa paralisou a história», logo ela que foi sempre o seu maior catalisador…)

A espaços, é verdade, parece que o romance poderia arrancar e estabelecer alguma ruptura, sobretudo quando parece aflorar-se uma hipotética e velada relação incestuosa entre Vergílio e a irmã, Irene. Contudo, o autor parece não ter coragem, ou fôlego, para tomar essas rédeas, ficando sem se perceber afinal o que quis reter dessa problemática relação entre irmãos que os leva, até à idade adulta, a permanecerem virgens e sem qualquer compromisso relacional com outrem. Pudor? Talvez, o que, de resto, é bem patente no modo como do ponto de vista da linguagem se aflora o acto sexual quando o tio Horácio revela ao sobrinho querer fornicar com uma sua namorada, para mais quando até aí o tio Horácio se revela um folgazão de primeira sem qualquer prurido no linguajar. É assim este um romance que nada arrisca, ficando-se por um elaborado semântico bem composto, bonitinho e bem comportado (volto a realçar chegar a ser caricato o pudor nas palavras com que se refere o acto sexual nas palavras de Vergílio e do Tio, quando este lhe diz: «Quero levantar-me desta cama para convencer a minha amiga a praticarmos o acto sexual»; ora, não seria muito mais verosímil que um personagem daqueles, todo varonil e machão, «fanfarrão» no dizer do autor, dissesse simplesmente, desconcertando o cândido Vergílio: «Quero fodê-la, sobrinho», ou então, se não se quisesse ser tão “rude” (leia-se realista), podendo dizer: «Quero levá-la prá cama»! Agora, «praticar o acto sexual»?... Isso só no tempo do Camões!). No mais, registem-se aqui e ali excertos de pendor mais lacrimoso, mas nunca passando disso, e, escusado seria, por vezes de forma patética e bacoca, bem a um estilo sparkiano, sobretudo a desgraçada história do desgraçado professor Emanuel.

Noutra vertente, é sabido que a ficção é um espaço de liberdade por essência, mas a falta de verosimilhança de alguns episódios deixam-nos de pé atrás. E a inverosimilhança é outra das marcas deste romance. A começar pelas personagens, sobretudo Vergílio, um tipo que não se sabe ao certo do que vive nem como passa os seus dias, porque há hiatos muito grandes no relato do seu estar, mas passando sobretudo pela narração de cenas que roçam o patético e delirante: lembro, em particular, a da mãe do político que sentado num banco de uma esplanada a vê ao longe e não lhe diz adeus… Literatura? Reproduzo: «Há tantos filhos e netos que desdenham as suas mães e avós que parece que só à cacetada. E os piores de todos são os políticos. No outro dia eu vi na rua uma senhora, mais nova do que eu, mas já com cabelos brancos, parada no meio da rua, e ela soltou um grande suspiro, assim: Ai! Eu aproximei-me e perguntei-lhe: Está a sentir-se mal, precisa de ajuda? Ela olhou para mim  calmamente e disse: Não, não preciso, minha senhora, mas veja que uma mãe já não pode acenar ao filho e o filho já não pode acenar à mãe. E porquê, perguntei eu. E ela respondeu: Está a ver aquele senhor ali sentado, naquela esplanada, a ler o jornal? É o meu filho. Mas eu quis fazer-lhe adeus e ele virou a cabeça para dentro do jornal e não me vai fazer adeus nem quer ver-me a passar. E sabe porquê? Porque é um político. Então a senhora explicou-me que o filho trabalha na Câmara Municipal, tem lá um cargo importante». Outra dúvida que paira durante todo o romance respeita ao tio Horácio, que vem para Portugal, reformando como inválido de guerra, passando a receber mísera pensão. Ora, para além disso, da parca reforma que daí lhe advém, nunca também percebemos como ao longo da vida arranjou dinheiro e orçamento para viver à grande e à francesa, esbanjando dinheiro em mulheres e copos, para mais quando tinha por descendência um ramalhete de filhas, estas, no mais, também sobre as quais nada nos é dito, quando seria de esperar que tivessem tido algum peso no evoluir psicológico do pai e na relação com o seu primo, o narrador! Mas sobre isso, nada!

Mas há muito mais coisas mal amanhadas e por entender. Por exemplo, o porquê da extrema defesa da casa por parte do pai? Medo do avanço da cidade? E porquê? O que geraria nele esse medo, se disso se tratava? Mais: perguntamo-nos amiúde de que vivem estas personagens? Vergílio, por exemplo, vive de quê, do ar? – ele mesmo refere, às tantas, «Apesar de vivermos numa quinta, nunca fizemos criação de nada.» E a irmã, igualmente de que vive até à altura em que decide ir trabalhar para Bruxelas? Que relação têm elas com os seus pais? Que estreita relação afectuosa estabelecem com a casa? Foram brincar para o seu sótão? Caçaram à noite fantasmas nos seus jardins? Havia sequer uma grande biblioteca que durante anos ansiaram explorar, na qual um pai se perdesse horas a fio? Havia cheiros e cores nessa casa, cheiros e cores que se infiltraram nas memórias? A mobília marcou-os? Como a casa se transformou com eles? Nada disso é explorado. Na verdade, ao ler estas páginas a sensação que se fica é que cada personagem surge isolada, não só na sua relação espacial, para com as coisas à sua volta, mas como para com as demais personagens; apesar de familiares, é como se cada uma tivesse a um tempo próprio saído da imaginação do autor e este as tivesse trabalhado cada uma sem relação directa com as demais, ou seja, pensando-as isoladamente e não como um todo relacional. Se é certo que Vergílio visita a avó ou aqui e ali interage com o tio (sobretudo no episódio naïf em que o valoroso Horácio vai à escola defender o sobrinho – imagine-se, se é possível, que há uma professora que chega a acreditar que o tio Horácio seria capaz de matar um aluno…), a verdade é que são episódios muito circunstanciais.

Exemplificando ainda, no plano das incongruências: é-nos também dito a páginas tantas que a mãe, avó e bisavó de Vergílio eram a respeito dele extremamente vigilantes ao ponto, imagine-se, de irem à escola do menino dar-lhe, durante os intervalos escolares, colheres de iogurte pelas grades do pátio! Ora, tudo bem, é pouco crível mas aceita-se. Porém, e aceitando esse «extremismo» já mais difícil fica depois perceber, algumas páginas adiante, que uma vez em casa a mesma tríade feminina protectora deixe passar em claro o episódio em que os meninos, em alegre brincadeira, vão buscar as catanas do tio Horácio (ex-combatente em África) e com elas vão para o jardim brincar às guerras, tendo inclusive tempo para pensar numa degolação e em cravar os seus nomes nas árvores… Episódios como este tornam estas personagens muito solúveis e inconsistentes. E no que a Vergílio respeita, tornam-no uma personagem pobre, porque através dos seus relatos percebemos nele um mero espectador das transformações do mundo à sua volta, nunca nelas se revelando participante activo. É, na realidade, difícil perceber onde começa o mundo deste homem, onde começa a sua vida verdadeira, e mais, ficamos com a percepção de que a sua relação com ele é irreconciliável.

Revendo mentalmente o romance de Vasco Luís Curado, poucas emoções dele se retiram. Creio que, a ver pela experiência profissional do autor (que, ao que creio, trabalhou durante anos com ex-combatentes de guerra), ele poderia ter centrado o seu trabalho numa narrativa que apenas e a fundo tratasse um tal assunto, e talvez assim se tivesse saído melhor. Sem força ou qualquer impacto, o mais que vislumbramos neste romance é o avanço de uma teoria, inúmeras vezes remoída ao longo do livro, de que somos aquilo que os outros foram, como se cada um de nós fosse apenas um uno feito de diversas vidas, isto é, a ideia de que somos, em termos abstractos e supratemporais, todos um só e um mesmo, ou seja, somos o que os nossos antepassados foram, ou o resultado do que eles foram ou fizeram, como se matrioskas geracionais encaixadas umas nas outras. Tudo muito bem , mas não era preciso estar constantemente, quase a cada capítulo, a repisar uma teoria de cariz filosófico que, de resto, também não é inédita.

 






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