Manual de instruções para Portugal
[30-06-2010]
Foi em cafés e restaurantes e encontros com portugueses de vária espécie que o livro se viu nascer. Um livro escrito para agradar às massas, à hipérbole de turistas alemães que desertam o país ao longo do ano inteiro – e não só no nosso querido mês de agosto - e um livro que certamente levou alguns a Portugal ou alguns é que o levaram consigo para se entenderem por lá. Cheio de ironia lúdica e exageros q.b. no que respeita aos traços de comparação culturais – sempre perigosos – entre portugueses e alemães, mas alicerces necessários a quem se quer entender no país e desenvolver uma qualquer característica humana entre apatia cultural, para além do ah, é muito bonito e ah, é património cultural da humanidade, e o aceitar incondicionalmente a cultura que se visita, para, pelo menos, durante o pequeno período de férias, estar no outro. Então, é aí que ajuda bastante o livro de Nickel, preparando o terreno para que todas as interações luso-germânicas não se revistam de “mas porquês?”.Ao fazer arrumações de verão, deparei-me com ele. Recebi-o pelo meu aniversário em 2007. Achei muita piada à prendinha, a qual se baseou no eu ser portuguesa e nas minhas conversas tantas vezes se imbuírem do inevitável “ah, nós também temos isto, mas faz-se de outra maneira”, deixando sobressair como fazemos bem o que quer que seja o tópico da conversa, ou ainda, justificando muitas vezes aquilo que digo a partir de um modo exógeno, encontrando paralelismos e pontes para os temas que deixa qualquer alemão de conversa tradicionalmente endógena, no mínimo espantado e deve ser também devido a isso – não só à famosa imigração - que a cultura tagarela portuguesa encontra na Alemanha ecos de apreciação nas mais variadas frentes culturais. Muito me aprouve ler então este guia turístico semi-literário ou o ensaio literário semi-turístico que me ofereceram: “Gebrauchsanweisung für Portugal” (tradução simples: Manual de instruções para Portugal) de Eckhart Nickel, publicado pela editora PIPER em 2001 e que em 2007 já ia na quarta edição. Muito bem sucedido! Contudo, um halo de preocupação também se desvaneceu sobre mim. As imagens que passam de boca em boca são ainda e em quase tudo, fado, Fátima, futebol, Fernando, o Pessoa, colocado de modo simples no texto para o turista, telenovelas brasileiras e desastres de pontualidade e organização, sol, cafés e belos vinhos e refeições.
Resolvi relê-lo. Algumas informações ou modos de conduta apresentados já estão em desuso, ou são clichée, mas sempre divertidos de ler. O autor usa muitas vezes de ironia e imagens para transmitir ao leitor alemão as barreiras culturais com que se vai deparar. Algumas são relativamente mal-sucedidas: demonstrar que a paciência e a crença no destino são necessárias em Portugal, exemplificados por um camião de laranjas que derrapa na A1, fazendo com que o autocarro que transporta o viajante de Lisboa para o Porto pare por longas horas, sem saber quando, nem como se vai resolver o novo andamento do trânsito não provoca sentimentos tão diferentes dos sentimentos de alguém que ao volante e com pressa de chegar tem de parar na A2 alemã, por exemplo em Lehrte-Ost, perto de Hannover, não se tratando de qualquer camião que entornou laranjas, mas de um habitual engarrafamento. Talvez a minha maneira de pensar portuguesa o encare como destino..., mas em ambos os casos se demonstram pessoas com paciência.
No fluir do texto, contudo, perdoa-se a Nickel estas interpretações, talvez porque a generosidade e auto-reflexão lusa nos permita flexibilizar-nos ao ponto de nos identificarmos com alguma parte do discurso delas.
O livro tem onze capítulos e mais um, o prefácio, em que se explica porque é que é necessário um manual de instruções para um país, simultâneamente encantador e incompreensível como Portugal.“Warum also eine Gebrauchsanweisung für Portugal? Weil es kein Land gibt, das zugleich so wundervoll und unverständlich ist wie Portugal.” Cada capítulo tem uma frase de Fernando Pessoa como referência ao conteúdo porvir. Está repleto de informações factuais, da arte à socialização, onde às vezes me pergunto, se o autor um dia se cruzou comigo e eu lhe contei o que pensava do ser português. O discurso do autor foi certamente construído à mesa de bons cafés e o facto de isso transparecer no texto liberta-o para gostarmos dele, porque portugueses gostam de conversas, de falar sobre si e sobre o que temos de bom, de estar com outros e contar histórias. Digo isto porque faz falta encontrar no livro, por exemplo, a bibliografia. Gostava de saber onde é que ele leu Pessoa, se retirou todas as frases introdutórias aos capítulos de “O Livro do Desassossego”, que página da tradução alemã para eu poder comparar com a portuguesa, ou terá Nickel lido em Português e feito uma tradução simples de Pessoa? O autor conseguiu, todavia, entrar no imanente da memória colectiva do povo e transportá-lo de modo cómico para uma narrativa, onde experiências pessoais dão espaço para reflectir sobre factos da história portuguesa.
No prefácio, Nickel parte do verbo ver para explicar o olhar dos portugueses - melancólico, como sobre o mar – e nessa explicação roda os 180º de visão possível sobre os bastiões da cultura portuguesa. Do mar parte para os Descobrimentos, mencionando o Vasco da Gama e daí, para a grandeza dos traços coloniais deixados pelo mundo, enquanto os olhos portugueses se mantêm sobre o mar à espera do D. Sebastião. O sebastianismo explica, na opinião de Nickel, as infelicidades do destino, quer na seleção nacional, quer na fraca qualidade do prato do dia de hoje no restaurante habitual. Daí parte para a saudade e, daí, para Fernando Pessoa e para o livro português mais apreciado pelos alemães “O livro do desassossego” - vai-se lá saber porquê.
Continua para um apontamento da história do último século, a ditadura militar de Salazar e a queda do regime pela revolução dos cravos, acentuando o seu caráter pacífico. Depois, passa para os anos oitenta, explicando a evolução de Portugal em direção à Europa, a partir da sua entrada em 1986. Nos anos noventa há a salientar a Expo98.
Depois observa quem no estrangeiro também elogiava Portugal: Charles Baudelaire, no séc. XIX e Lord Byron, o Romântico. Acho que aqui lhe faltou o dinamarquês, Hans Christian Anderson, mas mais mais tarde no livro é mencionado.
Do ponto de vista social, o sumário engloba o prémio Nobel da Literatura, José Saramago, assim como o gosto nacional pela qualidade de vida, em vez de mais trabalho e mais dinheiro e menos tempo com a família e amigos. A geografia social continua a recair sobre o provérbio “Braga reza, o Porto trabalha, Coimbra canta e Lisboa diverte-se”, aquilo que as estatísticas vão mostrando como inverdades, apesar da quantidade de igrejas em Braga, cada vez menos visitadas, um Porto que trabalha cada vez menos por haver cada vez mais êxodo da própria cidade e menos oportunidades de trabalho e uma Lisboa que se diverte também menos devido a todas as oportunidades de trabalho do país se concentrarem lá. Mas somos elegantes e calmos e religiosos, crentes em Fátima.
“Ver significa já ter visto”. Nickel faz o sumário de como somos conhecidos pelos alemães – e já agora pelos holandeses, uma vez que este livro viu tradução e edição na Holanda – e depois de nos terem visto desta maneira, Nickel foi observar mais destacadamente as principais formas de sobrevivência no país, que ele dividiu em “Ir”, “Chegar”, “Alojamento”, “Conversar”, “Ouvir”, “Comer”, “Beber”, “Rezar”, “Futebol”, “Os Media” e “Divertir-se”.
Eckhart Nickel escreveu com este livro e, na sua opinião, (p.11), um seminário de cultura e é um dos autores alemães que pertence à geração da literatura Pop, em Portugal correspondente aos protagonistas da mesma corrente, Rui Zink e a Miguel Esteves Cardoso. Escreveu também em conjunto com Christian Kracht “Gebrauchsanweisung für Kathmandu und Nepal”, outro livro de viagens, sobre o Nepal.
PS: Este texto foi escrito pelas regras do acordo ortográfico, que já consigo dominar...
Susana Leite
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