O novo Saramago
[21-06-2010] | Luís Carmelo
Saramago iniciou a sua verdadeira carreira de escritor, em 1982, com o romance Memorial do Convento. O que antes havia escrito – sem prejuízo para livros de grande qualidade como Manual de Pintura e Caligrafia (1977) ou Viagem a Portugal (1981) – não se inclui no patamar do que viria a ser o seu programa literário (Levantado do Chão terá indícios dessa futura geometria, mais pela poética do que pela poeira ideológica, aliás datada).A partir de 1982, Saramago transforma os seus livros em alegorias cirurgicamente dirigidas, articuladas com um fôlego narrativo e um recorte operático (com arquitectura íntima à do Padre António Vieira) que, no seu conjunto, se revelam como um verdadeiro programa literário. Não há, por isso mesmo, uma obra que sobressaia, em Saramago, como metáfora de tudo o que nos legou, sendo a assunção entre vários limiares – o histórico-mitológico do Memorial, a radiografia identitária de Ricardo Reis, o repto nacional e europeu de A Jangada… ou a disputa religiosa do Evangelho – que acaba por nos conceder a medida aproximada do seu vasto programa literário. Aliás, o Nobel foi-lhe sobretudo conferido pela presunção programática e pela dimensão alegórica (dimensão que os imaginários digitais contemporâneos tendem a esvair).
Antes de a consistência de Saramago se ter feito programaticamente literatura, já muitos caminhos de inovação poético-discursiva e de reinvenção dos pactos fábula-enredo haviam sido trilhados. Na literatura escrita em Português, se atravessarmos as oficinas de Guimarães Rosa, Ruben A, Clarisse Lispector ou Almeida Faria, constatamo-lo imediatamente. Creio que é efectivamente a noção de programa, genuinamente local e ao mesmo tempo de propagação global (uma matriz com muitas leituras e devorações), que posiciona o fazer-literário de Saramago, quase sempre acompanhado por uma pragmática de fractura.
Esse acompanhamento foi essencial para a significação da literatura de Saramago. Não da literatura lida em silêncio e reflectida como uma poética do intemporal, mas da literatura como eco público e injunção ‘provocatória’ (no sentido em que essa injunção sempre suscitou posições claras). A questão religiosa que liga o Evangelho ao seu último romance, Caim, passando por algumas incursões teatrais, é um bom exemplo dessa perlocução polémica. Sousa Lara deu a Saramago, porventura, o maior presente que esta pragmática requereria, ao proporcionar ao escritor uma cisão com Portugal e um ‘exílio’ no tempo em que os exílios, pelo menos entre nós, já haviam perdido sentido.
Houve em Saramago um pouco de Sena, de Eça e de Garrett: a afirmação de um ‘longe’ face à Pátria, augurando nela rever o que jamais ela mesma poderia consentir. Ditames com tradição, a que a vida amorosa de Saramago, uma espécie de inversão mítica de Snu/Sá Carneiro, deu sentido renovado e reforçado. A literatura de Saramago não é, pois, apenas, um livro orgânico dividido programaticamente em várias frentes; ela é, também, um aceno que releva uma rede de impactos, de antinomias, de posições e de severas paixões. Por outras palavras: o enunciado de Saramago, ou urgia incondicional empatia e atracção, ou urgia uma distância que permitia qualificá-lo de mero “saramaguês”.
Os tempos que aí vêm irão serenar este iceberg pragmático que, ainda hoje, imerge na leitura de Saramago. O texto sobreviverá e criará novos públicos. O texto na sua insinuação mais perene e menos instigada pela espuma da circunstância. O texto na sua capacidade de auto-efabular percursos e horizontes próprios, afastando-se naturalmente dos valores de época e dos ideogramas de passagem. O texto na sua abertura e autonomia radicais, afastando-se das coerências obsessivas e dos ‘topoi’ que fazem do agir humano um rasgo de mera contingência. Este texto imensamente livre e já a sobrevoar os aquários fechados da interpretação é, ao fim e ao cabo, o novo Saramago. Um Saramago para além de todo os programas.
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António Manuel Pacheco
Carlito Lima
Diana Menasché















