É Poesia
[25-05-2010] | Jorge Reis-Sá
Num filme mau baseado num livro bom (quantos filmes maus há que são baseados em livros bons, meu Deus!), a personagem principal, a certa altura, quando presencia aquilo que acha o cenário mais belo possível, exclama: “it’s poetry”. A personagem chama-se Ellie Arroway, o filme e o livro chamam-se “Contacto”.Li-o adolescente em duas noites, numa edição de bolso que trouxe da biblioteca para casa. Estava, há anos, esgotado. E o Porto ficava ainda muito longe de Famalicão nessa altura. (Famalicão continua a ficar longe do Porto, mas isso são outras conversas.)
Fiquei fascinado com a história que Carl Sagan me apresentou, do programa SETI (Search for Extra-Terrestrial Intelligence), e mais ainda da relação tão sofrida que ela tinha com a morte do pai.
Claro está que o filme veio e a Jodie Foster estragou tudo. O Robert Zemeckis também não ajudou, mas há partes naquele filme, cenas (como aquela do tribunal, no final) que são tão más que só a Jodie Foster para impor aquilo; tão más como a única que é má (e é muito má) em toda a saga da Guerra das Estrelas (quando no Episódio III, informado da morte da mãe de Luke e Leia, Darth Vader, depois de, digamos, “ciberneticizado” levanta os punhos e diz “No!”)
Mas já me estou a deixar levar pela ficção científica e eu quero é falar do “é poesia”. Volto: no filme, como no livro, Ellie vai numa viagem em buracos de verme até Vega, depois até ao centro de uma galáxia e depois à praia de Pensacola onde reencontra o pai (que os extraterrestres usam para demonstrar a sua bondade – e eu não conheço sonho mais bonito).
É numa dessas paragens antes de Pensacola (uma praia na Flórida) que ela vê o que no filme aparece como sendo o centro de uma galáxia. O cenário é maravilhoso, é um facto; só a cara da Jodie Foster estraga tudo no momento em que diz “não há palavras – é poesia”.
E finalmente, aqui estou: não há palavras, é poesia. Ou, de outro modo, a beleza é tão avassaladora que só pode ser poesia. Retiro de cena, desde já, dois aspectos: o facto de a poesia ser feita de palavras e a fealdade. A poesia pode ser boa, pode ser bela, pode ser maravilhosa, falando do feio, sendo feia, não transmitindo ideiais de beleza. Mas sobre o que me parece interessante reflectir é o facto de alguém dizer que a beleza mais absoluta é poesia. Resumo: Deus é Poesia (assim, em maiuscúlas, que é para lhes dar importância).
A poesia é a suprema festa da língua, alguém um dia escreveu. A poesia é a língua levada ao seu limite, alguém já deve ter escrito. A poesia é uma das mais belas expressões do génio e da razão humanas. A poesia pode ser Deus: belo, universal, provocando no seu leitor o que de mais belo e emocional pode existir, porque da alma.
Mas também é importante frisar que este “é poesia” acontece porque a usamos. Diariamente, para oferecer versos a quem amamos. E não há nada mais belo do que o amor, do que conseguir trazer para perto de nós o toque e a pele e a alma de quem nos provoca as borboletas no estômago.
Por isso acho que aquele “é poesia” faz todo o sentido. Que dizer que o que de mais belo existe só se pode comparar com a poesia é o maior elogio que lhe podemos oferecer. Porque não há nada de mais belo do que a razão natural do Homem que permite comparar as belezas.
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António Manuel Pacheco
Carlito Lima
Diana Menasché















