Peregrinação de Enmanuel Jhesus de
[14-05-2010]
“Matarufa”“Às 9 horas da manhã de sábado, 4 de Setembro de 1999, no Hotel Ma’hkota, em Díli, Ian Martin, chefe da missão internacional, anunciou os resultados da consulta popular em Timor‑Leste: 21,5 por cento tinham votado a favor da autonomia, 78,5 por cento votaram contra. O anúncio foi feito em simultâneo com a sede das Nações Unidas em Nova Iorque. O resultado era inequívoco, pois «a Comissão pôde concluir que a consulta popular foi isenta, do ponto de vista processual e conforme com os Acordos de Nova Iorque, constituindo, consequentemente, um reflexo exacto da vontade do povo de Timor‑Leste, sem distorções ou constrangimentos de outra ordem.
No meio de um regozijo indescritível, reparei num homem que acenava à porta do salão do Ma’hkota. Fazia‑me sinal para ir ter com ele. Cumprimentou‑me com delicadeza. Foi formal em demasia para a ocasião e não aludiu à notícia que naquele momento circum‑navegava o mundo. Informou apenas Trago uma encomenda, pôs‑me nas mãos uma caixa de cartão, endereçada à «Presidência da República Timor‑ Dilly» Talvez queira abrir, e, olhando por cima do ombro, entreabriu o cartão pelas asas. Da caixa escapou um hálito a ferida podre. Continuo a sentir esse cheiro, ficou colado a mim, a nós, não devia ser mas é o cheiro de um país nascente, Lorosa’e, o cheiro de Ian Martin garantindo ali ao lado, a nós e ao mundo, «Não existem dúvidas de que a esmagadora maioria do povo desta terra agitada deseja separar‑ se da República da Indonésia.»
O homem da caixa informou, sem emoção, Não fomos nós, acendeu um kretek, Foi do vosso lado, nas vossas áreas. Aceitamos a tradição, como aceitamos o resultado: mais um loroçá dos aswain Timor oan. Mas é uma pena que lhe tenham feito isto, logo agora. O homem vestia uma camisa tradicional javanesa de pura seda, elegante na extravagância: em fundo malva e creme, repetia‑se um estampado com pequenos veleiros. Notei que as velas tinham cruzes templárias. Eram iguais aos paramentos de Nuno Álvares Pereira nos meus livros de Soibada. Pareciam bastante as naus quinhentistas que chegaram ao Índico com portugueses a bordo. Nos ombros direitos do homem, a armada lusitana navegava em ordem num mar brilhante de seda. Estranho efeito para estranha ocasião. Pensei: o requinte cínico e silencioso dos javaneses.
Do cartão saiu uma larva. O capitão da armada de seda pareceu enojar‑se no meu nojo. Puxou uma passa mais sôfrega do kretek e atirou o cigarro ao chão, sem o apagar. Foi a olhar para o pequeno ponto extinguindo‑se em cinza a nossos pés que o homem repetiu, Logo agora, que ele tinha ressuscitado de propósito, com o que fez uma vénia e saiu do Ma’hkota com os seus galeões
de seda, deixando‑me nas mãos a independência, tal como ela nos foi entregue pela Indonésia. Uma pirisca com odor a cravo e a morte. Na caixa, jazia a cabeça de um homem.”
Ficha Técnica:
Autor: Pedro Rosa Mendes
Título: Peregrinação de Enmanuel Jhesus
Colecção: Autores de Língua Portuguesa
Número de Páginas: 352
Preço: 16,90
ISBN: 978-972-20-4067-9
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