Gore Vidal e a literatura televisiva
[03-05-2010] | Luís Carmelo
Corria o passado dia 20 de Abril, uma segunda-feira excepcionalmente solar, e quis o acaso que, ao revolver uma estante mais alta do meu escritório, acabasse por cair na minha mão direita o pequeno volume da revista New World Writing, publicada em Novembro de 1956 pela New American Library (New York). O número da edição é o 56 e uma marca já antiga fez-me saltar os dedos para a página 86. Comecei a ler o texto e a adrenalina colou-se de imediato ao espaço mágico da retina: o texto era de Gore Vidal e tinha como título…”Notes On Television”.O autor citava Flaubert logo no início, como sintoma de toda a abordagem que se seguiria: “O teatro não é uma arte mas sim um segredo…”. E a natureza desse segredo – escrevia Vidal – é “…elementar: o diálogo não é, de facto, o mesmo que prosa”. O que significa que “um talento para o teatro não implica, de modo nenhum, um talento para o romance”.
Contudo, para Gore Vidal, o romance é considerado a “forma de arte mais privada e mais realizadora (satisfying)”. O romance seria, em si mesmo, “…um mundo recortado por um único olhar e a sua realidade não depende da collective excellence de terceiros…”. De facto, “…no palco tudo tem que ser mostrado” ou dado a ver, enquanto que, no romance, a elipse é “muitas vezes uma virtude…”. Aquilo que se esconde, na ficção, apenas “deverá aparecer nos grandes momentos da narrativa” (e, se possível, de modo “oblíquo”). A própria duração dos diálogos difere da cena teatral para a cena romanesca, sendo o traço nesta última inevitavelmente mais “concentrado” ou fragmentado. O ponto de partida é, convenhamos, convincente e sólido.
Só que a televisão veio criar algum ruído nestes contrastes tão límpidos quanto lógicos. Com efeito, se no início do artigo Vidal confessava que as suas relações com o teatro sempre se haviam saldado pelo “sofrimento”, já em Fevereiro de 1954 – lembra o autor de Juliano –, após a sua primeira experiência de escrita para a TV, sentiu-se como que assaltado por um apelo irresistível: “I was hopelessly in love with writing for the camera”. Dois anos e meio depois, em Novembro de 1956, na altura da redacção do artigo para a New World Writing, Vidal tinha já escrito trinta peças para a televisão e o entusiasmo parecia transbordar a própria revelação. Um mundo novo para a escrita literária surgia assim no horizonte.
São três os pontos que Gore Vidal enfatiza no que considera ser um novíssimo caminho dentro da sua carreira. Em primeiro lugar, a possibilidade de tirar partido do novo media jogando na tensão entre o que “não é permitido dizer” e aquilo que “pode ser dito”. Efeitos “magníficos e soluções geniais” acabam por tornar-se permeáveis a este jogo. Em segundo lugar, o cariz polémico. Como Vidal escreve, a “arte dramática é particularmente adequada aos escritores que convivem bem uma tendência polemista”. É esse sentido, ininterruptamente vivido a partir dos contrastes, que se atinge uma “intensidade” nova – sublinha o autor. Em terceiro lugar, o trabalho de equipa é caracterizado como uma mais-valia por Gore Vidal, sobretudo pelo facto de existir um grupo que se constitui, que vive a peça com intensidade e que, depois, se desfaz totalmente sem quase deixar rasto.
Esta reflexão apaixonada de Vidal mereceria alguns paralelos com os nossos dias. Desde logo pelo que significa trabalhar com as ferramentas do mundo literário (muitas anteriores ao mundo do livro, outras nele fundadas) e vê-las projectadas, com o peso da tradição que trazem em si, em suportes que são efémeros, síncronos, inorgânicos ou descontextualizados. Como tudo, ou quase tudo, na rede. A experiência teve resultados interessantíssimos na primeira metade desta última década, no mundo dos blogues, e está a ter, nos últimos anos, impactos não menos curiosos, por exemplo, no universo dos tweets (as adaptações de obras clássicas da literatura têm sido notícia desde Julho passado).
Vidal ‘estava no princípio’ como hoje todos estamos. Em vez da revista em papel onde o escritor confessou este seu olhar pioneiro, temos, nos nosso dias, estas superfícies errantes e instantâneas prontas a serem redescobertas por alguém, no seu escritório, daqui a meio século. Quem sabe?
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António Manuel Pacheco
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