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Uma visão de Mário de Sá-Carneiro

[26-04-2010]  |  Luís Carmelo


Créditos: http://www.nndb.com/
No momento em que o poema Manucure de Mário de Sá-Carneiro acaba de ser publicado na Rússia, com tradução de Maria Mazniak (e quando se espera pela saída já próxima da Antologia Poética da D. Quixote), fui como que reecaminhado, passe a linguagem ‘techno’, para o livro de contos do autor, Céu em Fogo (1915). Nesta leitura de domingo de uma obra considerada fútil e menor por alguns críticos, recorri à ‘velha’ edição da Ática, sublinhada e vincada aqui e ali, embora um dos contos se mantivesse imaculado, isto é, sem qualquer traço ou comentário. A narrativa tem um título aliciante, convenhamos: O Homem dos sonhos.

 

Há uma temática que cruza todo o relato: o desejo de perfectibilidade. A trama é colocada em cena de um modo simples: um encontro fortuito entre o narrador, que nunca abandona a sua primeira pessoa, e um russo: “… um expírito original e interessantíssimo”. O encontro dá-se em “Paris, num Chartier gorduroso de Boul-Mich” – diz-nos o protagonista – nos seus “tempos de estudante falido de medicina”.

 

O excurso ficcional tem quase sempre a iniciativa do russo que considera a vida como uma travessia “horrível”, monótona e feita apenas de “limitações”, facto que exemplifica com aquilo que sentimos, comemos ou de que dispomos para nos divertirmos (“…arranje-me um divertimento que não seja a religião, a arte, o teatro ou o esporte!”). Até aquilo que vemos seria sempre limitadíssimo: “Por toda a banda o mesmo cenário, os mesmos acessórios: montanhas ou planícies, mares ou pradarias e florestas – as mesmas cores: azul, verde e sépia…” (…) “Eu tive um amigo que se suicidou por lhe ser impossível conhecer outras cores”. “Mais” – acrescentaria a certa altura o interlocutor do Chartier – “Conhece alguma coisa mais desoladora do que isto de só haver dois sexos?”.

 

Mas o russo não era nenhum Kierkegaard. Num assombro repentino, foi avisando o protagonista que era uma pessoa "feliz" e que nunca explicara a ninguém o seu verdadeiro “segredo”. É nesta passagem que se inicia a revelação que torna o conto num estimulante espelho da época.

 

O segredo do russo residia essencialmente no facto de ser um ímpar domador de sonhos: “É sonhando que eu vivo tudo. Compreende? Eu dominei os sonhos. Sonho o que quero. Vivo o que quero”.

 

O salto do efémero para o perfectível é depois exemplificado, ao detalhe, pelo misterioso personagem: podia ver cidades para além daquelas que a experiência permite ver (como a cidade das trevas, esse “triunfo” maior: “os trens, os grande omnibus os automóveis – rodavam isòcronicamente num clangor sorturno. E todo aquele silêncio se reunia em música...”) e podia ter acesso ao “mundo perfeito onde os sexos" não são apenas dois...: "pude ver labirtintos de corpos entrelaçados a possuírem-se numa cadeia de espasmos contínuos, sucessivos e actuais que se prolongavam uns pelos outros em fuga distendida. Infinito…Infinito!”.

 

O fascínio do narrador por esta súbita viagem revela-se esmagador. Quase no final do conto, o estudante de medicina como que desce à terra, após um breve balanço de tudo o que ouvira: “Houve um grande silêncio. Pelo meu cérebro ia um tufão silvando, e as imagens fantásticas que o desconhecido me evocara – rodopiantes, pareciam querer no entanto definir-se em traços mais reais. Mas logo que estavam prestes a fixar-se, desfaziam-se como bolas de sabão…/ O homem disse ainda:/ – A vida é um lugar comum. Eu soube evitar esse lugar comum. Eis tudo. E mandou vir conhaque.”

 

A narrativa encena, desde o início, uma espécie de Metropolis fáustica que esteticiza a superação e a anulação do tempo empírico (de facto, de Lang, via Goethe, até à deificação modernista da velocidade vai um pequeno passo – “…o que existe de melhor na vida é o movimento, porque, caminhando com uma velocidade igual à do tempo, no-lo faz esquecer. Um comboio em marcha é uma máquina de devorar instantes – por isso a coisa mais bela que os homens inventaram...”). Para além desta marca do tempo, que se cruza com um Álvaro de Campos ou com um Dziga Vertov, é curiosíssima a linguagem que se centra no corpo e que leva o sonhador russo a explicar como se pode “possuir uma mulher” apenas com a vista, no que constitui mais um desafio para além da experiência limitada que é dada aos homens viver:

 

“Ah! Como é delicioso possuir com a vista… A nossa carne não toca, nem de leve, a carne da amante nua. Os nossos olhos, só os nossos olhos, é que lhe sugam a boca e lhe trincam os seios… Um rio escaldante se nos precipita pelas veias, os nossos nervos tremem todos como as cordas duma lira, os cabelos sentem, dilatam-se-nos os músculos… e os olhos de longe, vendo, vão exaurindo toda a beleza, até que por fim a vista se nos amplia, o nosso corpo inteiro vê, um estremeção nos sacode e um espasmo ilimitado, um espasmo de sombra, nos divide a carne em ânsia ultrapassada…Atingimos o gozo máximo! Possuímos o corpo de mulher só com a vista”.

 

Este relato que dá corpo a uma “voluptuosidade” moderna – porque total e, mais uma vez, superadora da experiência – é, ao mesmo tempo, uma narração platónica, afectada e cheia de subterfúgios. Evasiva, numa só palavra. Ou melhor ainda: uma verdadeira “máquina de devorar instantes” em que afinal o “gozo”, o orgasmo e a devoração do corpo se anulam dentro da linguagem que os enuncia. Talvez este seja um dos traços mais interessantes do relato. Para além de que o fascínio do narrador é sempre um fascínio passivo e sem contrapeso. Um ‘voyuerismo’ pobre que parece confirmar a solidão sem fim que é sugerida na derradeira frase do conto: “Depois, nunca mais o vi”.

 

Uma visão, mas uma visão fortuita. Como na ‘História’ de todos os paraísos encenados pelas narrativas que sempre atravessaram mitos, relatos revelatórios ou ideários mais ou menos racionais: meras ilusões ao sabor da "devoração do instante". Como se essa tentação, mais ou menos voluptuosa, nos tornasse eternos.






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Traduzindo...
Coordenação: Maria do Carmo Figueira

Traduzindo

Não é apenas a tradução de um poema; é ser tocado por um texto, partir à sua descoberta, à forma como foi construído, inspirado... pintado. É uma simbiose perfeita não só entre um original e a sua tradução mas, mais fundo ainda, entre o tradutor e a alma do poeta, cujo poema é já em si a “tradução” ...  Ler Tudo >>
[29-06-2010]  |  Maria do Carmo Figueira
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Partindo do quadro de Chirico com o mesmo título, depois da denúncia do papel da mulher-esposa, Sylvia Plath sufoca-nos com o seu retrato da mulher-filha, sobre a qual recai o peso insuportável de tudo o que a mãe (e a sociedade) dela espera e a que jamais ela poder&aacut...  Ler Tudo >>
[29-06-2010]  |  Ana Maria Chaves
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Literanário
Contribuições Literárias
(reservado o direito de selecção)
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A Alavanca

Quando, no lusco-fusco do meio da noite, em pijama e chinelas de quarto, vamos à cozinha e activamos...   Ler Tudo >>
[04-09-2010]  |  António Manuel Pacheco
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  De Maceió-Alagoas – Brasil              Carlito Lima

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“A 1ª Festa Literária de Marechal Deodoro – 1ª FLIMAR é um projeto ousado e revolucionário, tendo a ...   Ler Tudo >>
[04-09-2010]  |  Carlito Lima
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Menos do Muito

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História de duas irmãs e de uma sereia que morreu afogada

À CatarinaO rio existe e talvez por isso a cidade tenha sido sempre tão doce. Não como riso contínuo...  Ler tudo >>
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Jogo das DamasHá livros não escritos.           Jarras não. Partidas.Folhas esguias. Sós mas soltas....  Ler tudo >>
[22-02-2010]  |  Maria João Brinquete
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Correspondências

Aniversário

Quando o Carmelo convidou-me a participar do PNETLiteratura, especificamente no Folhetim, não sabia que me oferecia um presente de aniversário, festejado em 6 de setembro. Ao completar 61 anos de idade, completo 2 de participação contínua e prazerosa no espaço oferecido. Ter meus textos em terras de...  Ler Tudo >>
[06-09-2010]  |  Carlos Pessoa Rosa
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Notas sobre "Livro Usado", Jacinto Lucas Pires

Não tem princípio, nem fim. Como a vida. É um caderno de notas de viagem numa viagem ao Japão, cujas principais cidades visitadas são Tóquio, Matsuxima, Matsué, Hiroxima, Cagoxima, Nagasáqui, Tocoxima, Himeji, Osaka, Quioto, Nico.               Um livro anónimo, de um narrador viajante anónimo, que ...  Ler Tudo >>
[04-09-2010]  |  Susana Leita
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O autor andarilho publicou em Junho passado sonhos em forma de caminhos percorridos. As rotas escolhidas trilham a continuidade do universo deste autor: exotismo, luxo, hedonismo. A cada vez que fecho o livro para o admirar - a sua capa é uma absoluta marca de bom gosto - esta escrita  d...  Ler Tudo >>
[26-08-2010]  |  Susana Leite
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Férias para sempre

No verão quem não deseja viajar? E se essa sensação de liberdade e de encontro com o novo nunca desaparecesse? É disso que trata este livrinho pequenino em que o conceito de férias se vê imortalizado para sempre em forma de aventura a dois - dois bons amigos que viajam pelo mundo. Um mundo escolhido...  Ler Tudo >>
[20-08-2010]  |  Susana Leite
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Epílogo - A Flip dos Ensaístas

Um arlequim passa de bar em bar recitando poemas de memória e pondo-se à prova ao oferecer declamar versos de poetas escolhidos pela sua plateia. Entremeia a poesia de observações quase políticas sobre a situação dos artistas de rua no Brasil. Na primeira edição da Flip a homenagear um escritor de n...  Ler Tudo >>
[10-08-2010]  |  Mauro Finatti
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Capitulo 3 - Flip - quase acabando...

Com pouco mais de uma dúzia de ruas, seis ao longo da ponta que dá para o oceano e outras tantas cruzando as primeiras, o centro histórico de Paraty é uma pequena Manhattan, que no início de uma visita independente da duração parece tão control...  Ler Tudo >>
[09-08-2010]  |  Mauro Finatti
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Capitulo 2 - Flip - A elegância do robalo

Nesta minha terceira Flip, encontro um evento muito mais institucionalizado do que a versão de 2006, quando ainda era fácil conseguir ingressos para as tendas dos autores durante a própria festa, e comer em restaurantes como o Banana da Terra sem ter que fazer a reserva "de São Paulo". Des...  Ler Tudo >>
[08-08-2010]  |  Mauro Finatti
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Capitulo 1 - A Flip da Casa Grande, a Flip da Senzala

Esta é a oitava edição da festa que virou a principal atração turística de Paraty, e muita coisa mudou nesses anos. Neste encontro em que o principal homenageado é um dos autores considerados entre os maiores intérpretes do Brasil (formando jun...  Ler Tudo >>
[08-08-2010]  |  Mauro Finatti
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Manual de instruções para Portugal

Foi em cafés e restaurantes e encontros com portugueses de vária espécie que o livro se viu nascer. Um livro escrito para agradar às massas, à hipérbole de turistas alemães que desertam o país ao longo do ano inteiro – e não s&oacu...  Ler Tudo >>
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Porquê Portugal? Exemplos de uma existência inspiradora

Já não é uma novidade no panorama musical mundial, mas um nome destes desperta sempre curiosidade a um português, especialmente se os membros desta banda são provenientes do longínquo Alaska. Tenho andado a ouvir os Portugal.The Man desde o ano passado &ndash...  Ler Tudo >>
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Cuentame un cuento

Havia muito de Umberto Ecco na aula aberta ao público de Antonio Muñoz Molina ontem à noite no King Juan Carlos I of Spain Center, parte do campus da New York University, o edifício de número 53 ao sul do grandioso Washington Square.  Na sala reservada ao evento, não se ouve o inglês enquanto uma se...  Ler Tudo >>
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Adeus migrante

A princípio, são as meias vermelhas que nos distraem e fazem reparar na combinação com a camisa também vermelha mas em outro tom, o terno é marron escuro, o blazer descasado.  Um homem visivelmente mais jovem do que a idade, um sotaque aplicado à pronúncia rastejante, um pessimista, medroso, por nat...  Ler Tudo >>
[09-02-2010]  |  Kátia Gerlach
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LITERATURA JURÍDICA
Parceria

Espaço-parceria para Literatura Jurídica

Espaço disponível... 
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[11-06-2010]  |  Vítor Coelho da Silva
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Espaço editorial

Espaço reservado a eventual Parceria.... 
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[28-10-2008]  |  Vítor Coelho da Silva
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Literatura Popular
Literatura Infanto Juvenil

Quando as coisas mudaram de lugar...

Quadras ao gosto popular escritas por Pedro Melo, técnico de cinema, «pai de quatro filhos e poeta de improviso», a propósito da inauguração da barragem do Alqueva, cuja construção implicou o desapare... 
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Escrita de viagem e/ou Os vigieiros do Corpo

Continuação do Circo da i margin’ar-te  por Maria LavaA Escrita de Viagem (ou os Vigieiros do Corpo) insere-se no já enunciado e anunciado Projecto do Circo da i margin... 
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Duas histórias de amor e desamor em verso

Quando, no falar comum e quotidiano, nos referimos a “literatura de cordel”, usamos a expressão num sentido depreciativo, desvalorizando uma determinada obra como sendo de inferior ... 
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[18-05-2010]  | 
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Livros divertidos

Terceiro volume das Crónicas do Vampiro Valentim. O primeiro livro desta colecção tem por título Vampiros ou Nem por Isso, mas, se o leitor começar pelo livro 3, ficará a compreender tudo na mesma. O ... 
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[08-09-2010]  |  Letra Pequena                                                  Ver Mais >>
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Se Eu Fosse...Nacionalidades

Estreia do premiado autor, Francisco José Viegas, no género infantil. Se Eu Fosse... Nacionalidades faz-nos descobrir a vida que o Lio teria se fosse japonês, brasileiro, norueguês ou italiano. Ilustrado a quatro cores, oferece às crianças, a partir dos 5 anos, a oportunidade de conhecer a realidade gastronómica, linguística e patrimonial de diferentes países. Humorada, lúdica e didáctica, é uma obra para ser lida com os pais e descobrir, em cada país, aquele pormenor, contribuindo para a construção da memória referencial das crianças relativamente às diferentes nacionalidades do mundo

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