Os Trinta anos de Lusitânia
[19-04-2010] | Luís Carmelo
Faz este ano três décadas que saiu a público um romance com um título singular: Lusitânia de Almeida Faria. O nome tem fortes raízes na literatura portuguesa, desde logo – para não aprofundar a ciclópica travessia do lexema ao longo dos tempos – em Gil Vicente que, no seu Auto da Lusitânia (1532), abordou o dia-a-dia dos judeus de Lisboa e celebrou, já na segunda parte da obra, a origem mitológica de Portugal. Cem anos depois, em 1632, na redacção da terceira e quarta partes da Monarquia Lusitana, Frei António Brandão reatou os vários textos antes produzidos sobre o milagre de Ourique e legitimou como verdadeiro e irrefutável o diálogo entre Jesus Cristo e D. Afonso, na véspera da batalha. Assim se projectaria, pelo menos até ao início do século XIX, a mitificação da origem de Portugal.Lusitânia é, pois, um título carregado. No entanto, quando li o texto de Almeida Faria em 1980, tive a sensação que ainda hoje mantenho: o romance de Almeida Faria foi o primeiro a dar literariamente conta das turbulências que acabavam de varrer Portugal nos idos de setenta. As razões para este pioneirismo são ainda hoje diversas.
Em primeiro lugar, Lusitânia relata o quotidiano português, de modo multiperspectivado, sem nunca assumir o tom de um ciclone catártico (era esse, por exemplo, o registo das primeiras obras de Lobo Antunes). Em segundo lugar, Lusitânia não recorre a derrames exaltados ou circunscritos de forma excessiva às contingências da época. Em terceiro lugar, Lusitânia também não caiu na tentação ideo-apologética dominante na segunda parte dos anos setenta. Eduardo Lourenço escreveu, alguns anos depois da saída a público do romance, que a obra revelava a primeira visão realmente “centrada” sobre o país, naqueles tempos que foram de profunda mutação e de algum caos.
Refira-se que Lusitânia é um romance que se insere num corpus mais vasto e que foi mudando de nome com o tempo: primeiro “Trilogia”, depois “Tetralogia”. Os dois primeiros volumes da Tetralogia Lusitana, A Paixão e Cortes (1964 e 1978) passam-se numa Sexta-feira e num Sábado de Páscoa, projectando em apenas vinte e quatro horas a alegoria de uma vertigem que, em cascata, se anuncia. É após esta espessa e metafórica ‘Anunciação’ que surge Lusitânia. O romance dá vida aos personagens e situações que vinham de trás, liga simbolicamente os domingos da quadra pascal de 1974 e de 1975 e abre horizontes novos aos muitos meandros da revolução portuguesa que, em Cavaleiro Andante (1983) – último romance da Tetralogia – atingirão a sua consumação mítica, intertextual e também onírica.
A Tetralogia de Almeida Faria encena um tempo que não se define. E nessa medida, não apenas pelo teor formal adoptado (o fragmento, a paródia e o ritmo trazem à literatura portuguesa modalidades novas), constitui um modelo ficcional de aberta media res que faz do ‘on the road’ do sentido a sua identidade. Estamos, pois, a bordo de uma ‘literatura pós’ (no sentido da superação da morfologia orgânica do romance) que se torna particularmente visível com e após Lusitânia. É, de facto, a emergência do tempo histórico evocado em Lusitânia que acabará por colocar os personagens à deriva, sem serem capazes de controlar a roda do destino e, portanto, entregues à mais pura transfiguração. Daí as curiosas demandas do paraíso impossível, os súbitos desvarios de identidade, as fendas da memória e os sonhos terríveis onde a prolepse e o ‘agora-aqui’ se confundem.
Transfiguração: eis uma boa metáfora para revisitar Lusitânia de Almeida Faria trinta anos depois. O livro merece-o seguramente. Estou certo, a história o julgará, que se trata de um dos melhores romances do último quartel do século XX.
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