“Já não somos Günther Grass, somos Harry Potters”
[21-03-2010]
Conforme o próprio autor anunciou no seu blogue “Rui Zink versus livro”, o Rui Zink veio à RDA, à mítica Feira do Livro de Leipzig, para ler, conversar e falar a sério sobre o seu modo de escrita.O autor considerado na Alemanha como o Harald Schmidt português, um satírico comediante alemão, dramaturgo e apresentador de programas de televisão, cuja base são piadas simples, cruéis ou cínicas sobre o seu país. Assemelham-se à “Noite da Má Língua”, que reuniu os representantes da Literatura e Cultura Pop em Portugal - Rui Zink e Miguel Esteves Cardoso – e impregnou os anos 80 portugueses dos bons “infant terribles”, onde Rui Zink preparou o seu público para os seus futuros romances.
Esta leitura organizada pelo próprio tradutor de Rui Zink, Michael Kegler e pelo seu autor oficial, Martin Ammanshauser, com o apoio do Instituto Camões, da DGLB e da Edition ERATA, sita em Leipzig não se dedicou ainda ao livro “Destino Turístico”, por não haver ainda tradução editada deste e que sucederá em breve, mas apresentou em traços gerais a obra de Zink e leu-se partes de “Anibaleitor”, uma dupla alusão, por um lado ao homem-animal de Deleuze e, por outro, ao famoso “Animal Lector”. Zink introduziu ao seu público, em parte não falante de Português, a passagem que se passaria a ler. “Animal Leitor” é “mais uma aula do que uma ficção” sobre poder baseada em Kirkegaard e comenta que é melhor do que ele “Esta é para as pessoas me lerem depois de eu morrer.”
Continuou-se a percorrer a sua obra como uma boa conversa e chegou-se ao livro “Destino Turístico”, publicado em 2008. Quanto a este livro, cuja data de edição na Alemanha ainda é desconhecida, Zink conta que o leitor se sente 80 % do livro em Bagdad, num cenário de guerra e que todo o livro é um convite a reflectir sobre a guerra como um destino turístico, onde se investiga porque razão o protagonista decide querer assistir ao horror dos bombardeamentos e explosões ao vivo. Considera o seu livro uma distopia ou anti-utopia com ponte para representações pessoais do que é a União Europeia: os pontos de vista sobre a matéria são diferentes consoante o lugar onde nos encontramos, segundo Zink. “A história provou que o futuro nunca é pior do que o imaginamos. Este livro tem, por isso, um carácter optimista, porque os escritores fazem magia com as palavras. Já não somos Günther Grass, somos Harry Potters.” Imagina e observa a pior realidade e constrói com isso uma história optimista, um paraíso na terra, cheio de paz, harmonia e felicidade, desenvolvido em ambiente cómico-irónico – esta é a sua técnica de escrita.
No fim, o leitor apercebe-se que está em Lisboa e representa Portugal como uma Disneylândia de guerra, aludindo com isso ao que os países menos influentes temem perante o gigante chamado União Europeia – a sua transformação a países nitidamente periféricos. Ilustra o seu pensamento com dois casos. Primeiramente alude ao que políticos alemães de direita (1), tenham sugerido que a Grécia vendesse algumas ilhas para recuperar o défice. E depois refere-se ao que Portugal teme, por isso, tornar-se: um país para velhos ricos do norte da Europa, onde temos apenas a função de abrir a boca para segurarmos as bolas de golfe. É bastante crítico quanto às estratégias europeias sobre as várias sociedades e alude ainda a um Eurocrata que dizia no seguimento do Não Irlandês ao Tratado de Lisboa “Por causa do não da Irlanda, três mil pessoas não vão parar a marcha da Europa.”
Mas com sorte há escritores, e Rui Zink, o optimista, diz que com os seus desejos quer mudar a realidade. É por isso ainda que se refere ao seu estilo de escrita preferido, ao tipo de escritores que cometem erros, por forma a aperfeiçoarem o espírito. A escrita é quase Kabbalah e acredita que o “mecanismo do espírito” une-o à Madonna, porque “acredita na metafísica de quem lê, não descurando as forças físicas que são mesmo reais.”
Rui Zink é o “missing link” no panorama literário português da viragem entre o século XX e o século XXI. Também ele próprio explicou à audiência de onde lhe vem esta alcunha séria: de um tradutor croata que uma vez encontrou em Zagreb e que se perguntava constantemente sobre como é que se passou da geração do José Saramago à geração do Gonçalo Tavares e do José Luís Peixoto. Eis que Zink é o “missing link” entre duas gerações de escritores: revela-nos que compreende passivamente a estética e a memória da ditadura, porque tinha 13 anos em 74, mas a sua produção estética está mais próxima da geração dos mais novos.
Para terminar a sua conferência, fez-se uma meta- referência ao plágio de Hegemann, tema que dominou com bastante ironia toda a feira do livro de Leipzig, presente em quase todas as leituras e conferências. Rui Zink terminou então com um poema que alegadamente havia escrito no dia anterior por se sentir muito grato a ter vindo à Alemanha. Michael Kegler termina com a piada “não foi escrito, foi copiado ontem da Internet”.
(1) Correio da Manhã online, 04. 03. 2010 - http://www.cmjornal.xl.pt/noticia.aspx?channelid=00000021-0000-0000-0000-000000000021&contentid=FCFE64F7-D483-4F02-A247-DAD281057F0D
Fontes que referenciaram a sua conferência-leitura:
IPLB - http://www.iplb.pt/sites/DGLB/Português/noticiasEventos/Paginas/RUIZINKNAFEIRADOLIVRO
DELEIPZIG.aspx
Revista Nova Cultura - http://novacultura.de/wb/pages/posts/portugal-auf-der-leipziger-buchmesse148.php
Blogue Rui Zink versus livro - Rui Zink http://ruizink.com/2010/03/16/vou-a-rda/#comments
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Carlito Lima
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