Um grande autor
[17-03-2010] | Eduardo Pitta
Por razões intrínsecas ao processo de reconhecimento em literatura, não muito diferente daquele que se verifica na música, nas artes plásticas, no cinema e outras artes, João Paulo Borges Coelho, historiador e romancista, não goza em Portugal da recepção crítica que seria de esperar.Natural do Porto, cidade onde nasceu, filho de pais portugueses, em 1955, João Paulo Borges Coelho foi ainda criança para Moçambique. Em Moçambique cresceu e se fez homem, em Moçambique vive, investiga e escreve. Cidadão e escritor moçambicano por opção própria, doutorou-se em história pela Universidade de Bradford (Reino Unido). Actualmente ensina história contemporânea na Universidade Eduardo Mondlane, de Maputo, sendo ao mesmo tempo professor convidado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa no mestrado em História de África.
Nenhuma das actividades académicas o afastou da criação literária. Tudo começou com os álbuns de banda desenhada, que são menos conhecidos e mais difíceis de encontrar: Akapwitchi Akaporo. Armas e Escravos (1981), e No Tempo do Farelahi (1984). Mas os romances e colectâneas de contos, que chegaram com o século XXI, têm edição portuguesa.
A obra mais aclamada é As Visitas do Dr. Valdez (2004), romance que ganhou o Prémio José Craveirinha, o mais importante galardão literário de Moçambique. Sem espírito de contradição, prefiro As Duas Sombras do Rio (2003) e Campo de Trânsito (2007). Infelizmente, nunca consegui encontrar Crónica da Rua 513.2 (2006). Quanto a Hinyambaan (2008), aguarda melhor oportunidade. Os contos da série Índicos Indícios — Setentrião e Meridião, ambos de 2005 — confirmam as suas excepcionais qualidades de ficcionista.
Agora, por um daqueles acasos da sorte, João Paulo Borges Coelho venceu o Prémio LeYa com o original de O Olho de Hertzog. Finalmente impresso, o livro acaba de chegar às livrarias. O pano de fundo da história é o rescaldo da Grande Guerra de 1914-18, quando tropas alemãs se envolveram contra tropas portuguesas e inglesas na fronteira do antigo Tanganica (actual Tanzânia) com Moçambique. A emigração dos indígenas de Moçambique para a África do Sul, a reacção dos mineiros brancos, as primeiras greves dos trabalhadores negros, a emergência do nacionalismo moçambicano, etc., transformam os anos 1920 da ocupação portuguesa num thriller.
O protagonista de O Olho de Hertzog é Hans Mahrenholz, oficial alemão que se faz passar por empresário inglês. Entre Lourenço Marques, Nambindinga e Durban os episódios sucedem-se, sob o olhar tutelar de João Albasini (1876-1922), o próprio. É muito curiosa esta homenagem póstuma ao fundador de O Brado Afriano, jornal da comunidade mestiça de Lourenço Marques, embrião da futura frente emancipalista.
Assim o estardalhaço do Prémio LeYa ajude a descobrir












António Manuel Pacheco
Carlito Lima
Diana Menasché















