A literatura é um rio que se reconhece, hoje em dia, através de uma identidade multifacetada: um vastíssimo esteio de afluentes que disputa os limites de uma fronteira sempre impossível de traçar. É neste limbo dinâmico, ponteado por marés imprevistas, que o site PNETliteratura se situa. Sem dizer que não à turbulência ou à contingência. Interrogando, enquanto publica; dando a ver, enquanto relativa.
Luís Carmelo, Coordenador
clicar nas fotos para abrir
CrónicaCrónica
Correspondentes

André Carneiro*

[12-03-2010]  |  Luís Carmelo


Créditos: http://www.terramagazine.terra.com.br
1- No mundo tecnológico e instantanista em que vivemos, crê que a literatura, tal como a aprendemos a significar pelo menos desde o Iluminismo, ainda tem sentido?

Alguns séculos atrás: dois homens a cavalo conversam sobre algo emocionante. Podem estar usando o francês, o inglês, ou o português. Se a conversa fosse séculos para a frente estariam em um automóvel, mais alguns anos em um avião. A tecnologia que multiplicou e tudo alterou no funcionamento dos veículos, só fez na língua mudanças ortográficas ou palavras novas desprezíveis no conjunto.

Uma simples e óbvia verdade cientifica é aquela que nos mostra que os instrumentos exteriores fabricados pelo ser humano evoluem em progressão geométrica, mas a língua permanece com a dificuldade das poucas dezenas de músculos dançando com as palavras. Livros eletrônicos já existem, imitando o livro de papel. Terão a eficiência de um lap-top, mas com inevitável obrigatoriedade da frase escrita com letra, exatamente igual á primeira Bíblia de Gutenberg. Nosso pensamento é expresso com palavras e elas se transmitem através das letras, que sempre vão existir sejam impressas ou em qualquer meio imaginável.

2- Qual foi o último acontecimento literário, independentemente da sua natureza, que mais lhe tocou? Por quê?

Foi muito recente e pessoal, por isso peço desculpas por citá-lo.

Na semana passada recebi uma longa carta de David Dunbar. Posso afirmar tranquilamente sem errar, intelectuais estrangeiros são generosos, reconhecidos em uma escala verdadeiramente inesquecível. Ele destacava a importância de sua tese de doutorado e atribuía o sucesso muito pela dedicação com a qual eu organizei suas pesquisas pelo Brasil e enfatizava a importância da nossa amizade até hoje.

David Dunbar é americano, professor catedrático na Universidade do Arizona. Há um fato na sua carreira, espantosamente surpreendente para o Brasil. Sua Tese de Doutorado era sobre Ficção Cientifica Brasileira e foi a primeira sobre este tema feita no Brasil. Meu agente literário e tradutor Leo Barrow, prof. de Literatura na mesma universidade, foi quem me recomendou para D. Dunbar. David me procurou em São Paulo na sede do Café Pelé, onde eu era diretor de propaganda.

Confirmando o que muito mais tarde F.H.C afirmou que o Brasil é um país caipira, existia e ainda existe um tipo de preconceito acadêmico, muito adequado ao famigerado jeitinho brasileiro, de eliminar da crítica erudita não os maus livros, mas alguns gêneros considerados inferiores, policial, FC, etc..

Escrevi o primeiro ensaio sobre a Literatura de FC na América: em candente artigo chamei a atenção do grande Otto Maria Carpeaux por isso. Era a década de 1970, e um americano queria estudar a influencia exercida pelos escritores de FC em todo o país. Não vou contar a história. Mas com toda a agitação que a FC vem provocando ultimamente, acho que esse episodio deveria ser melhor divulgado e analisado.

3- Fale-nos resumidamente do seu último livro, como se estivesse a revê-lo em voz alta para um grupo de amigos.

Meu livro "Confissões do Inexplicável" tem 28 contos de assuntos bem diversos e tratamentos idem.

Infelizmente acho que devo assumir a classificação de ser um autor erudito. Várias pessoas dizem: eu li, mas não entendi. Fui discípulo de Sergio Milliet. Seu estilo era claro, elegante e direto. Naquele tempo o estilo "acadêmico" já era uma praga.  Minhas frases são propositalmente diretas, transparentes, andei tentando descobrir por que muitos não entendem meus contos. Inventei uma frase antiga: "Complexo de pular do bonde". Aos dez anos quando comecei a morar em São Paulo e andar de bonde, notei que os jovens sempre pulavam, sem esperar que o "monstrão" parasse completamente. Descobri logo que aquilo tinha virado uma demonstração de força e coragem. Lembro-me bem que minha primeira experiência fracassou, perdi o equilíbrio, quase me estatelei no asfalto. O que tem o bonde a ver com a literatura? Demonstro. Em uma recente antologia da Record, "Futuro Presente", meu conto chama-se "Paralisar objetivos".  Um escritor na internet, afirmou não ser crítico mas, criticou todos negativamente. Mudou o meu titulo de "Paralisar Objetivos" para "Paralisar Objetos". Certamente pulou do meu bonde andando, pois lamentou não ter identificado qual objeto minha personagem paranormal tinha paralisado.

Tenho vários outros exemplos, mas não vou comentar.

Tornou-se uma pergunta comum saber o que achamos da revolução da Internet.

São tantas possibilidades e realidades expostas que, ainda só podemos apontá-las.

O afundamento da crítica em um lodaçal de incompetência, mediocridade, propaganda irresponsável, e outras insuportáveis pretensões, é um lugar-comum cotidiano na rede.

Que saudade quando os grandes jornais brasileiros, imitando os europeus, tinham um respeitável, culto e excelente orientador literário. Mas não tenho ainda elementos para tirar razoáveis conclusões. Alguém publicou um conto meu na Internet e sorteando meu livro como brinde pela melhor critica. Fiquei surpreso com a quantidade e a qualidade das críticas.

Essa historia de fazer discurso na porta do Mercado sobre o meu livro, faço aqui escondido atrás das letras. Lá no Mercado, nem com a cobra na mala e aqueles remédios que curam tudo, até timidez.

4- Pensa que a literatura e a rede poderão vir a ter, de algum modo, um destino comum?

Sim, chegará o dia em que alguém sentado numa sala de espera com os olhos fechados, estará lendo Crime e Castigo de Dostoiveksky na sua lente de contato.

5- Refira dois autores e duas obras que o tenham marcado na sua carreira.

Sempre li respostas lindas a essas perguntas.  Acho mais fácil responder qual o sorvete mais gostoso que chupou, qual...,  não, não vou responder coisas que dependeram de um certo momento, um certo conhecimento, um talvez desprendimento.

Dois livros ??? Eu tenho um CD com 6.5oo livros. Eu vou contar ranhura por ranhura. Depois com minha fina canetinha de raio laser vou apontar o lugar exato e vocês ouvirão um longo gemido que, naturalmente todos os eruditos leitores desta página sabem exatamente de quem é.

 

* André Carneiro é o decano dos escritores brasileiros de ficção científica. Começou a escrever poesia na segunda metade da década de 1940, inserindo-se como um dos poetas mais respeitados da chamada "Geração de 45", e contos de FC a partir do final da década de 1950. Foi um dos destaques da Geração GRD, na ficção científica brasileira durante a década de 1960, ao lado de Rubens Teixeira Scavone, Fausto Cunha, Jerônymo Monteiro e Dinah Silveira de Queiroz, e é o autor do gênero com maior destaque internacional, entre nós, tendo publicado em mais de dez países (em http://www.terramagazine.terra.com.br)

 

Colaboração de Carlos Pessoa Rosa



Nova IorqueParisRio de JaneiroOsnabrueck, RFALuanda
 
Traduzindo...
Coordenação: Maria do Carmo Figueira

Traduzindo

Não é apenas a tradução de um poema; é ser tocado por um texto, partir à sua descoberta, à forma como foi construído, inspirado... pintado. É uma simbiose perfeita não só entre um original e a sua tradução mas, mais fundo ainda, entre o tradutor e a alma do poeta, cujo poema é já em si a “tradução” ...  Ler Tudo >>
[29-06-2010]  |  Maria do Carmo Figueira
comentários off

THE DISQUIETING MUSES, de Sylvia Plath, tradução de Ana Maria Chaves

Partindo do quadro de Chirico com o mesmo título, depois da denúncia do papel da mulher-esposa, Sylvia Plath sufoca-nos com o seu retrato da mulher-filha, sobre a qual recai o peso insuportável de tudo o que a mãe (e a sociedade) dela espera e a que jamais ela poder&aacut...  Ler Tudo >>
[29-06-2010]  |  Ana Maria Chaves
comentários off

Ver Todos >>

Literanário
Contribuições Literárias
(reservado o direito de selecção)
Maceió-Alagoas – Brasil Massachusetts, USA

                                      António Manuel Pacheco

Da Caverna

Seguia eu pela avenida central de Penafiel e abeirava-me da passadeira mesmo em frente ao café mais ...   Ler Tudo >>
[06-07-2010]  |  António Manuel Pacheco
comentários off
  De Maceió-Alagoas – Brasil              Carlito Lima

Ordener Cerqueira

              Ordener foi meu ídolo na infância e juventude. Eu me divertia, dava gargalhada ouvindo...   Ler Tudo >>
[21-07-2010]  |  Carlito Lima
comentários off

Menos do Muito

De repente não é mais para fora.Não é mais sucesso para exportaç&...   Ler Tudo >>
[15-04-2010]  |  Diana Menasché
comentários off

História de duas irmãs e de uma sereia que morreu afogada

À CatarinaO rio existe e talvez por isso a cidade tenha sido sempre tão doce. Não como riso contínuo...  Ler tudo >>
[07-10-2009]  |  Joana Câmara
comentários off

Jogo das Damas

Jogo das DamasHá livros não escritos.           Jarras não. Partidas.Folhas esguias. Sós mas soltas....  Ler tudo >>
[22-02-2010]  |  Maria João Brinquete
comentários off

Carnaval em Angra dos Reis

 Há cinco anos que eu fujo, literalmente, de muvuca, zoeira, badalação e f...  Ler tudo >>
[04-03-2009]  |  Valdeck A. de Jesus
comentários off

O senhor embaixador

I            O embaixador Dário Moreira de Castro Alves (1927-2010) esteve nove anos a braços com um...  Ler tudo >>
[28-06-2010]  |  Adelto Gonçalves
comentários off
Correspondências

Manual de instruções para Portugal

Foi em cafés e restaurantes e encontros com portugueses de vária espécie que o livro se viu nascer. Um livro escrito para agradar às massas, à hipérbole de turistas alemães que desertam o país ao longo do ano inteiro – e não s&oacu...  Ler Tudo >>
[30-06-2010]  |  Susana Leite
comentários off

Porquê Portugal? Exemplos de uma existência inspiradora

Já não é uma novidade no panorama musical mundial, mas um nome destes desperta sempre curiosidade a um português, especialmente se os membros desta banda são provenientes do longínquo Alaska. Tenho andado a ouvir os Portugal.The Man desde o ano passado &ndash...  Ler Tudo >>
[18-02-2010]  |  Susana Leite, em Leipzig
comentários off

Cuentame un cuento

Havia muito de Umberto Ecco na aula aberta ao público de Antonio Muñoz Molina ontem à noite no King Juan Carlos I of Spain Center, parte do campus da New York University, o edifício de número 53 ao sul do grandioso Washington Square.  Na sala reservada ao evento, não se ouve o inglês enquanto uma se...  Ler Tudo >>
[11-02-2010]  |  Kátia Gerlach
comentários off

Adeus migrante

A princípio, são as meias vermelhas que nos distraem e fazem reparar na combinação com a camisa também vermelha mas em outro tom, o terno é marron escuro, o blazer descasado.  Um homem visivelmente mais jovem do que a idade, um sotaque aplicado à pronúncia rastejante, um pessimista, medroso, por nat...  Ler Tudo >>
[09-02-2010]  |  Kátia Gerlach
comentários off

“Ora ouve…”

Entre Osnabrűck e Porto, que paralelo biográfico melhor para se ler Ilse Losa na direcção contrária àquela que ela geograficamente deu à sua vida. Uma vida que na tragédia da História da Alemanha encontrou porto de abrigo no Porto de onde eu provenho e que nessas trocas interculturais perdeu ou...  Ler Tudo >>
[12-01-2010]  |  Susana Leite
comentários off

Brooklynites

Artistas plásticos, músicos, poetas e escritores encontram no Brooklyn refúgio e cenário e dali partem para expedições ultramarinas na Califórnia, na Índia, na França, na América Latina, na África, a book tour perhaps.  Discussões literárias, conversas boêmias, propostas, idéias para livros em ebuli...  Ler Tudo >>
[18-12-2009]  |  Kátia Gerlach
comentários off

Sobreposições

Tal como a memória ou um texto, a cidade tem múltiplas sobreposições. Camada sobre camada que foi sendo sobreposta pelo tempo, os projectos dos homens e o acaso, e que é possível ler num determinado momento. Por exemplo, Leipzig em Novembro de 2009. Vinte anos depois da “revolução pacífica”, os acon...  Ler Tudo >>
[04-12-2009]  |  Ana Delgado
comentários off

O original de Laura, dying is fun

Não há de se esperar em Laura, uma novela e sim fragmentos. Nas lacunas, o legado de Nabokov aos leitores. Cento e trinta e oito  cartões escrevinhados, a obra inacabada de um homem em estado terminal. Vladimir pedira à Vera que os destruísse, assim ...  Ler Tudo >>
[25-11-2009]  |  Kátia Gerlach
comentários off

Cervantes e Pamuk, por Kátia Gerlach

Tempo e palavras culminam na necessidade instantânea de evitar o ócio dos segundos.  Outono e inverno fazem-se incertos.  Eventos literários e musicais dão vida aos centros culturais excessivamente calefados e neste calor artificial, um público trajando variadas vestimentas e opiniões, dos mais velh...  Ler Tudo >>
[20-11-2009]  |  Kátia Gerlach
comentários off

As frases talismáticas de A.S.Byatt

Em seu último livro The Children’s Book, Antonia confessa através da protagonista que todo o escritor deve ter a sua frase talismática.  Há palavras que funcionam como chave do horizonte, têm o poder de ligar a máquina da criação.  No ano passado, Amy Bloom confidenciou ao público que no seu escritó...  Ler Tudo >>
[07-11-2009]  |  Kátia Gerlach
comentários off

O melhor ar da cidade

“I blow through here… and the music goes round and round… and it comes down here” (Louis Armstrong, The Five Pennies)   Não é nos parques, jardins botânicos ou bosques  que se respira o melhor ar de uma cidade, mas sim... numa sala de concertos.  Talvez nem pensemos nisto, quando assistimos a um con...  Ler Tudo >>
[05-11-2009]  |  Ana Maria Delgado
comentários off

Chinua Achebe

Da poltrona com ampla vista para o palco, quis capturá-lo.  Não como o mestre da escrita da África colonizada pelos ingleses, o escritor premiado.  Quis tê-lo, sim, como personagem.  Quantas histórias não renderiam este homem vivido que carrega a Nigéria no coração, abriga as tristezas do fracasso d...  Ler Tudo >>
[23-10-2009]  |  Kátia Gerlach
comentários off

Ver Todos >>

LITERATURA JURÍDICA
Parceria

Espaço-parceria para Literatura Jurídica

Espaço disponível... 
Ler Tudo >>
[11-06-2010]  |  Vítor Coelho da Silva
comentários off
Ver Mais >>

Espaço editorial

Espaço reservado a eventual Parceria.... 
Ler Tudo >>
[28-10-2008]  |  Vítor Coelho da Silva
comentários off
Ver Mais >>
Literatura Popular
Literatura Infanto Juvenil

Escrita de viagem e/ou Os vigieiros do Corpo

Continuação do Circo da i margin’ar-te  por Maria LavaA Escrita de Viagem (ou os Vigieiros do Corpo) insere-se no já enunciado e anunciado Projecto do Circo da i margin... 
Ler Tudo >>
[21-07-2010]  |  Editor
comentários off
Ver Mais >>

Duas histórias de amor e desamor em verso

Quando, no falar comum e quotidiano, nos referimos a “literatura de cordel”, usamos a expressão num sentido depreciativo, desvalorizando uma determinada obra como sendo de inferior ... 
Ler Tudo >>
[18-05-2010]  | 
comentários off
Ver Mais >>

Os LÁ-VAI por Maria Lava

um Projecto do Circo da i margin’ar-te, uma (des)pretensão de trimaginar a arte; do deslado marginal d’ella.I   ida prima estaçãoII  ida decoração da primaIII   ida prima estaçãoIV  ida frolV  idos fr... 
Ler Tudo >>
[29-03-2010]  | 
comentários off
Ver Mais >>

Uma árvore, um filho, um livro...

... ou dois. (Letra pequena aconselha a que seja por esta ordem, mas nada tem contra quem escolher outra.)Um projecto (interessante e oportuno) da Bookstorm, Booktailors e Finepaper (mesmo para quem ... 
Ler Tudo >>
[28-07-2010]  |  Letra Pequena                                                  Ver Mais >>
Vídeo

Se Eu Fosse...Nacionalidades

Estreia do premiado autor, Francisco José Viegas, no género infantil. Se Eu Fosse... Nacionalidades faz-nos descobrir a vida que o Lio teria se fosse japonês, brasileiro, norueguês ou italiano. Ilustrado a quatro cores, oferece às crianças, a partir dos 5 anos, a oportunidade de conhecer a realidade gastronómica, linguística e patrimonial de diferentes países. Humorada, lúdica e didáctica, é uma obra para ser lida com os pais e descobrir, em cada país, aquele pormenor, contribuindo para a construção da memória referencial das crianças relativamente às diferentes nacionalidades do mundo

Ver Mais >>
Divulgação
 
 
Estatística
Membros online: 0
Visitantes: 13
Total de visitantes: 485436 desde 8 Set 2008
Newsletter
Receba a nossa newsletter por Email:

Parceiro Ouro
CNC
Parcerias
Escrita Criativa PNETimagens PNETlivraria PNETcrónicas PNETpoker PNETeconomia Parli
Publicidade

Pesquisa
Sondagem
Quantos livros compra por semana?

Um livro
Até dois
Mais de dois
Ver resultados
Publicidade
PNETpress PNETfashion PNETartesanato PNETartes PNETartes
Links Interessantes
Jornais e Revistas
Livrarias
PNETpoker
PNETliteratura