Acorrentados - 1
[24-02-2010] | Pedro Teixeira Neves
A más horas, embora não tão más como prometem as más horas das noites seguintes, deixo estas notas primeiras do primeiro dia das Correntes. Com o mar poveiro a rugir ("cachão/ rugidor e monótono") a cinquenta metros da janela do quarto de hotel, regressemos antes a Lisboa. Santa Apolónia. Duas da tarde. A carruagem número 1 do alfa pendular arranca sob um céu cinzento. Lá dentro escritores, um ou dois jornalistas. O sorriso de simpatia de Mário Zambujal, a boina impecavelmente branca de Manuel Rui sempre acompanhado pela sua dedicada Alice. Maria Teresa Horta com as suas leituras nas mãos, a estreante Tânia Ganho, o estreante Tiago Gomes, o estreante Manuel da Silva Ramos, o estreante Eduardo Pitta... Nesta edição das Correntes há muitas caras novas. Nas Correntes, entenda-se. A conversa corre ao ritmo balouçante do pendular e ao contrário deste parece não conhecer apeadeiros. Enfim Gaia, enfim o Porto, Campanhã. Lá fora, os primeiros abraços ao staff das Correntes que ali nos aguarda. De um momento para o outro, um autocarro enche-se de palavras. E malas - que biblioteca se faria com os livros dentro dessas malas?, não resisto a pensar. A Póvoa é já ali, ao virar do invicto trânsito de final de tarde. Em menos de nada estamos lá, isso se encarrega de nos confirmar um grande outdoor numa das primeiras rotundas da cidade: "Correntes d'Escritas 2010". No check-in do hotel há cumprimentos e abraços, rápidos, furtivos, fugindo ao vento e à chuva que ameaça. É subir, que o jantar está marcado para as oito. A noite avança, crescem para o Vermar mais escritores, que vão chegando aos poucos. O Milton Fornaro? - pergunta alguém. Parece que perdeu dois aviões, ninguém sabe dele. Ivo Machado entra em acção, telefona para casa a pedir o seu contacto. Nada de grave, daí a nada o escritor uruguaio autor do singular «Cadáver Precisa-se» aparece em pouco tempo; tinham-no confundido com o Hector Abad. Ambos imprescindíveis, diga-se. E aparece também a Manuela, que todos cumprimentam carinhosamente. Já os comes e bebes se ajeitam aos estômagos, as conversas digerindo memórias: as dos primeiros anos das Correntes (e aqui lembrados, pela negativa, duas passagens por ali, as de Diogo Mainardi e do actor João Lagarto, o primeiro por dizer malde tudo e de todos, o segundo pela jactância descontextualizada de uma sua leitura de poemas); a memória de alguns participantes que não mais voltarão, em concreto, Eduardo Guerra Carneiro (e uma sua declamação histórica do poema «A Noiva das Astúrias»), Eduardo Prado Coelho e até Rosa Lobato Faria; ou ainda a história de Santiago Gamboa na Madrid nocturna quando conheceu um xadrezista que depois veio a descobrir ser uma espécie de perigoso terrorista procurado pela Polícia, dando com ele já morto. Depois do jantar, a ordem de trabalhos avança: os primeiros lançamentos das Correntes. Um, «Antes de Ser Feliz», novela de Patrícia Reis ambientada na Figueira da Foz. Sim, Sena e os seus «Sinais de Fogo» é claro que vieram à baila. Sobre o amor, dizem-nos. A felicidade costuma acompanhar o dito. Resta saber se a arte é efémera ou eterna. Dois, o lançamento da «Obra Poética» de Tiago Gomes, o poeta que é também o editor da revista «Bíblia». Coincidência, dois autores para dois editores de revistas. Tiago, que se diz desatento, só então nota isso mesmo e avança que, afinal, as diferenças entre eles não serão assim tantas, apenas que a revista de Patrícia é "patrocinada" pelo Casino... Enfim, a dele também é patrocinada pelo jogo, só que, neste caso, pela «batota». Risada geral. As palmas chegam-se à frente, preparando caminho para os autógrafos. Há mais pela noite dentro: leitura de poemas.Aqui fica um de Tiago Gomes:
«Passa Tudo
Passa tempo passa
por cima das feridas
da lâmina da foice das gadanhas
dos garfos escuros
das forquilhas
das vestes negras das bruxas
dos pesadelos.
Passa tempo água
e eu boiarei
como um corpo morto
à tona.»
à vossa, e até já.
P.S. Entretanto, o júri do Prémio Literário Correntes d'Escritas está reunido, noite dentro! Amanhã de manhã saber-se-á quem foi o escolhido.
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António Manuel Pacheco
Carlito Lima
Diana Menasché















