Jogo das Damas
[22-02-2010]
Jogo das DamasHá livros não escritos.
Jarras não. Partidas.
Folhas esguias. Sós mas soltas.
Oriente por desorientar.
Arrumação por desarrumar.
Rima por soltar e
versos por acertar.
Há uma folha quase gémea
dividida ao meio dentro de nós
unida por uma linha apenas:
o fio do encantamento
se no ocaso o encontrarmos.
Há um cantinho musical
à espera de uma outra leitura.
Poemas que o não são.
Leitoras que o vão ser.
… nasce a vontade de alongar o rosto e as máscaras, e distende-se o canto. Pré-revelação: das duas, uma.
Entreolham-se as duas. Damas. Damíssima. Meneiam-se. Meras actrizes. Meretrizes. De um lado, uma dama inclina o olhar para a esquerda; do outro, a mesma dama mergulha o olhar para a direita. Duplos olhares. A jarra, serena, é sempre a mesma. O mesmo arabesco azul-marinho. A mesma porcelana.
Ambas enroladas em felinos, escondidas por eles e escondidas neles, numa música abraça-me bem/cobre o meu corpo enfim/nesse agasalho. Enoveladas em caracol, as duas em uma vagueiam quase enlevadas e quase seguras. Um carroussel de espelhos-duplos é o que somos. Ou não. Tão distantes e tão cerceadas. Ambas. As duas que somos.
O tão raro encontro entre as damas amuadas nasce quando… deixam de olhar para fora, para a berma da estrada e passam a espreitar para dentro de soi-mêmes, atentas, agora, a uma outra leitura do ás de espadas. Jogos. Mergulham uma na outra e, unas, fundem-se e renascem nas cartas do espelho de uma só face. O felino, num olhar desprendido e de volúpia, diz o que pensa, e a dona UNA, pensa o que diz, em segredo.
Valsa das Damas
Folhatinando. Take 0,
Venho, por este meio, solicitar a V/ EXª que se digne responder ao que a seguir passo a expor. A pedra que atingiu a travessa de coroação, e ali permaneceu no final do lance, é promovida a dama ou assinala-se a coroação da pedra sobrepondo-se-lhe uma outra pedra da mesma cor? Afinal, a dama pode ou não mover-se para a frente e para trás, da casa onde está colocada para qualquer outra, à escolha, na diagonal que ocupa até onde esta estiver livre?
Quando recebi este e-mail, não era para aqui chamada. Estava em banho turco. Interrompeste-me sem mais nem ontem. Francamente, não gostei. Sequei-me e acendi a luz azul do farol.
Ceguei parte da noite a tricotar as tuas desculpas. Acertaste-me no coração de través e eu que não sou dada a pieguices. Qual coroação… qual quê?! Jogos pouco me dizem. E eu nada lhes digo. Deito-me descorçoada. Antes de adormecer oiço os passos de Adamada. Criada para o todo o serviço, minha senhora. Raios! Deixem-me dormir agarrada ao meu Lino, a fé que me aquece os pés. Não ronrones agora.
No céu do sonho trepo a escada e encontro o inglês Mr. Teatoes. Enroscado num roupão mofo a cheirar a púrpura. “És a melhor amiga de Ângela, correcto?”. Claro que sou. Sonhos perguntados. Enganos redobrados. “Queres que toque violino?! Não respondo. Acordo com um ruído de catavento. Julie London nas 25 faixas num long play em cd para toda a manhã. “Estás cá?”.
Não estou. E não estava. Vem um cheiro a gabardines de marinheiros e óleos de motores perversos.
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António Manuel Pacheco
Carlito Lima
Diana Menasché















