A literatura é um rio que se reconhece, hoje em dia, através de uma identidade multifacetada: um vastíssimo esteio de afluentes que disputa os limites de uma fronteira sempre impossível de traçar. É neste limbo dinâmico, ponteado por marés imprevistas, que o site PNETliteratura se situa. Sem dizer que não à turbulência ou à contingência. Interrogando, enquanto publica; dando a ver, enquanto relativa.
Luís Carmelo, Coordenador
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CrónicaCrónica
Correspondentes

Intervenção de Robin Cook (Publicações Europa-América)

[05-02-2010]


Créditos: https://mail.google.com/
“O sono inquieto de Jack Stapleton transformou-se instantaneamente num pleno despertar. Ele estava num carro em fuga e descia uma rua íngreme da cidade, aproximando-se rapidamente de um grupo de miúdos de um infantário que atravessavam a rua aos pares de mãos dadas, alheios à desgraça iminente. Jack pisava a fundo o pedal do travão do veículo mas sem êxito. Na verdade, o carro acelerava. Ele gritou para que as crianças saíssem do caminho mas calou-se quando se apercebeu de que estava a olhar para o tecto salpicado de luz que entrava pela janela do quarto de sua casa em West 106th Street, em Nova Iorque. Não havia um carro, uma descida íngreme nem crianças. Era mais um pesadelo.

Sem saber ao certo se gritara ou não, Jack voltou-se para a sua mulher Laurie. À meia-luz da janela sem cortinas, reparou que ela estava ferrada no sono, o que levava a crer que ele reprimira o seu grito de horror. Quando olhou novamente para o tecto, Jack estremeceu ao pensar no seu sonho, um pesadelo recorrente que sempre o assustara. Começara no início dos anos 90, depois de a sua primeira mulher e as duas filhas, com dez e onze anos, terem morrido num acidente de avião, num voo de ligação regional, após uma visita a Jack em Chicago, onde ele frequentava um curso de reciclagem em patologia forense. Anteriormente um oftalmologista, Jack decidira mudar de especialidade para evitar o que ele via como a interferência progressiva dos quatro cavaleiros do apocalipse médico: as companhias de seguros de saúde, a gestão da prestação de cuidados médicos, um governo pouco esclarecido e uma opinião pública aparentemente indiferente. Paradoxalmente, evitando a medicina clínica, ele tivera esperança de recuperar o sentido de altruísmo e o empenho que o tinham atraído inicialmente para o mundo da medicina. Apesar de, em última análise, ele ter sido bem-sucedido nesse aspecto, sentiu que fora inadvertidamente o responsável pela morte da sua querida família e afundara-se numa espiral de culpa, depressão e cepticismo. O pesadelo do carro em fuga fora um dos sintomas. Apesar de os sonhos terem desaparecido por completo há vários anos, tinham voltado novamente e com particular insistência nos últimos meses.

Jack observou o jogo de luzes no tecto, reflexos dos candeeiros na rua diante da sua casa, e estremeceu novamente. Quando entravam no quarto, os feixes de luz atravessavam os ramos sem folhas da solitária árvore plantada entre a casa e o candeeiro. E, quando a brisa da noite agitava os ramos, a luz tremeluzia e projectava um conjunto ondulante de padrões hipnóticos de Rorschach. O que fazia com que John se sentisse sozinho num mundo frio e impiedoso.

Jack tocou na testa. Não estava a suar, mas depois mediu as suas pulsações. Tinha os batimentos muito acelerados e rondavam as cento e cinquenta pulsações por minuto, um sinal de que o seu sistema nervoso se deparara com uma situação de «fuga ou conflito», algo comum após o sonho do carro sem travões.

O que era peculiar neste sonho em particular era a presença das crianças. Normalmente, o terrível centro do seu sonho era puramente pessoal, por exemplo, um parapeito frágil ao longo de um precipício, um muro de tijolos ou uma misteriosa massa de água infestada de tubarões.

Jack olhou para o relógio. Já passava das quatro da manhã. Com o coração em sobressalto, ele soube instintivamente que era impossível voltar a adormecer. Em vez disso, afastou suavemente os lençóis para não acordar Laurie e saiu da cama. O chão de carvalho estava frio como mármore.

Ele levantou-se e esticou os músculos tensos. Apesar de estar nos cinquenta, Jack ainda jogava basquetebol sempre que o tempo e os horários lhe permitiam. Na noite anterior, para tentar controlar a sua ansiedade, jogou até não poder mais. Sabia que iria pagar por isso de manhã, e tinha razão. Tentou aliviar a dor e o desconforto dobrando-se e tocando com a palma das mãos no chão. Depois dirigiu-se à casa de banho enquanto pensava nas crianças do seu pesadelo. Não ficou surpreendido com o novo tormento. A causa da sua presente angústia, da renovada culpa e da ameaça de depressão era uma criança: o seu próprio filho, na verdade, John Junior, ou JJ, como ele e Laurie o tratavam. O bebé tinha nascido em Agosto, algumas semanas antes da data prevista. Mas eles estavam absolutamente preparados, especialmente Laurie. Ela lidou com a experiência com bastante calma. Pelo contrário, quando o parto terminou dez horas depois, Jack estava tão exausto como se tivesse sido ele a dar à luz. Apesar de ter assistido ao parto das suas duas filhas, Jack esquecera-se como era difícil do ponto de vista emocional. Ficara aliviado pelo facto de quer a mãe quer o filho estarem bem e a descansarem confortavelmente.

O primeiro mês correra bastante bem. Laurie estava de licença de parto e apreciava a maternidade, apesar da preocupante agitação nocturna de JJ. O receio de Jack de que o bebé tivesse uma doença genéticas ou congénita dissipou-se. Ele nunca confessara a Laurie que, depois do parto e de ter a certeza de que ela estava bem, fora falar com o pediatra.

Em pânico, Jack tinha verificado as expressões faciais da criança e contado os dedos dos pés e das mãos. Não sabia ao certo se conseguiria lidar com um filho deficiente, por sentir tanta culpa em relação ao destino das suas duas filhas. Tinha ponderado bastante a ideia de ter outro filho e perguntara-se se conseguiria suportar a vulnerabilidade e a responsabilidade da paternidade, principalmente se a criança fosse deficiente. Ele sempre se opusera a casar novamente. Se não fosse pela paciência leal e apoio incansável de Laurie, ele nunca teria arriscado. No fundo, Jack sentia inevitavelmente que estava destinado a ver todos aqueles que amava condenados a uma tragédia.

Tirou o roupão do cabide atrás da porta da casa de banho e foi até ao quarto de JJ. Mesmo na escuridão, Jack via a decoração exagerada do quarto da criança, uma cortesia da sua sogra Dorothy Montgomery que fazia tudo pelo neto que achou que nunca viria a ter.”


 

Ficha Técnica:


Título: Intervenção
Autor: Robin Cook


Editora: Publicações Europa-América
Colecção: Obras de Robin Cook
Preço: 22.90€
Formato: 15,5 cm  X 23 cm
IBSN: 978-972-1-06057-9
Data de Edição: Fevereiro de 2010






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