O debate peninsular
[04-11-2009] | Eduardo Pitta
Nos anos 1980 foi grande o intercâmbio entre poetas dos dois lados da fronteira. A cada seis meses havia poetas portugueses em Madrid e poetas espanhóis em Lisboa. As afinidades geracionais facilitavam o diálogo e o ar do tempo (a movida de Madrid transformou a capital espanhola numa espécie de Nova Iorque dos pobres) fazia o resto. Um ano em cheio foi o de 1986, quando participei nas Terceiras Jornadas Poéticas de Cuenca, juntamente com Al Berto e E. M. de Melo e Castro. No mesmo ano, poemas meus foram traduzidos por Amador Palacios para as revistas Hora de Poesía, de Barcelona, e Menu, de Cuenca. Na cidade das casas colgadas conheci o catalão Alex Susanna, o galego Ramiro Fonte, e os castelhanos Javier Lentini, Luis García Montero, Carlos Morales, Luis Martínez de Merlo, Angel C. Moreu e outros.Agora, graças a um convite do Gabinete de Iniciativas Transfronteiriças da Extremadura, participei em Cáceres na 10.ª edição do Ágora, programa que tem como prioridade o diálogo entre espanhóis e portugueses. Este ano, El debate peninsular (19-24 de Outubro) desdobrou-se em três cursos: «Desde Vila Giralda», de natureza política, com Charles Powell, Raúl Morodo, José Manuel Espírito Santo, Leonardo Mathias, Alfonso Osorio, Jaime Nogueira Pinto, Pilar Cernuda, José Medeiros Ferreira e Pedro González Trevijano; «A voz em espiral», de âmbito literário, com Alfonso Alegre Heitzmann, António Carlos Cortez, Antonio Sáez Delgado, Carlos da Veiga Ferreira, Emilio Torné, Fernando Pinto do Amaral, Helga Moreira, João de Melo, José Luis Puerto, Luis Sáez Delgado, Manuel Borrás, Manuel da Silva-Terra, Miguel Ángel Lama, Miguel Casado, Perfecto E. Cuadrado e eu próprio; por último, «Chegar e ficar», a agenda feminista, com, entre outros, Joana Amaral Dias, Montserrat Boix, Manuela Tavares, Amelia Valcárcel, Pedro Pinto Matoso, Adriana Bebiano, São José Almeida e Alicia Miyares. Quatro dias muito intensos, com o grande salão do Palacio da Diputación de Cáceres sempre a abarrotar. Do lado de cá da fronteira nada de parecido ocorre.
À margem do Ágora, a Associação de Escritores promoveu duas leituras da minha poesia, nos dias 22 e 23 (a primeira no Palacio de la Isla, aberta ao público; a segunda no Instituto Norba Caesarina, reservada a estudantes), inserindo-as na Aula José María Valverde, prestigiado forum de escritores e poetas que me recebeu com inexcedível empatia.
Como sempre, nestas circunstâncias, o melhor é o convívio inter pares. Amigos que não víamos há muito e reaparecem na nossa vida, a troca de experiências, os intermináveis jantares, gossip corporativo (nunca fez mal a ninguém), o senta-levanta dos fumadores, copos, projectos, conversa distendida. Perfecto E. Cuadrado, estudioso do surrealismo português, que à mesma hora, por causa de Caim, era esperado em Penafiel, mas estava ali connosco, lembrou os murais pagãos da capela de Carlos de La Rica, padre, pintor e poeta que conheci em Cuenca e nos levou a todos (a mim, ao Al Berto, ao Alex, a Carlos e a Ramiro) a visitar a capela proibida. Mas isso foi no tempo em que ser polícia de costumes era uma vergonha. Já não é mau que a sua lembrança sirva para animar o debate peninsular.






































